O voto que decidirá eleições está fora dos extremos — no Brasil e nos EUA
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Sabe aquela sensação de que o mundo virou um hospício dividido entre dois times que se odeiam e que ninguém mais pensa fora de uma dessas bolhas? Pois é, eu tenho uma notícia para você: essa imagem está quase toda errada. Ou, pelo menos, ela é superdimensionada. Dois levantamentos independentes, mas que conversam entre si, pintam um quadro que a polarização do Twitter — sim, é Twitter que chama — faz parecer inexistente.
De um lado, temos o relatório “Beyond MAGA”, divulgado nesta terça-feira pela More in Common, e que abre o capô da base de eleitores de Donald Trump. Do outro, a pesquisa “Mapa das Ideologias Brasileiras”, do Meio com o Instituto Ideia. E o que eles revelam é um mix de visões de mundo que se unem em torno de lideranças extremistas, mas que não se resumem a blocos monolíticos ou estáveis.
É algo que muitos de nós já intuíamos ou deduzíamos, porque, logicamente, grupo radical algum se elege democraticamente sozinho. Os votos depositados nas urnas vêm de gente não radicalizada que topa a aventura em nome de seus interesses.
Mas ver isso tão bem desenhado em pesquisas sérias e qualitativas é muito esclarecedor, inclusive do ponto de vista de oportunidades eleitorais para quem se opõe a esses radicais. E este é um ano de eleições de midterms nos Estados Unidos e presidencial no Brasil. Compreender essas bases é fundamental para todos os candidatos, lá e cá.
As pesquisas têm metodologias e públicos muito diferentes entre si, então, óbvio, não vou fazer uma comparação direta entre elas. Vou apontar apenas como as bases de cada eleitorado se compõem pra gente tentar juntos ver quem está aceitando o radicalismo como alternativa legítima e como reconquistá-los pra alternativa democrática.
O que esses dados revelam é que a vitória não está em “aniquilar o inimigo”, mas em acolher os órfãos de representação.Começando pelos EUA, o relatório Beyond MAGA destrói a ideia de que a base de Trump é uma seita. Na verdade, ela é uma coalizão com quatro perfis bem distintos. O núcleo duro, os chamados MAGA Hardliners, são 29% da base. Não é pouco, especialmente se considerarmos o quão barulhentos eles são.
Outros 30% são os republicanos convictos, que se sentem bem representados pelo trumpismo. Aí, há 21% de conservadores anti-woke, anti-identitarismo, que toparam Donald Trump em contraposição ao que entendem por uma captura da cultura norte-americana por um discurso progressista demais.
E, por fim, vem o grupo mais interessante, a Reluctant Right (Direita Relutante), que soma 20% da coalizão. Eles não amam o Trump; eles até acreditam, majoritariamente, que direita e esquerda querem o bem dos Estados Unidos igualmente. São menos engajados politicamente. Votaram em Trump por achar a alternativa pior. Resistem à ideia de um terceiro mandato para ele e, em sua maioria, não veem a esquerda como uma ameaça existencial. Também são capazes de enxergar, em alguma medida, que Trump governa guiado por seus próprios interesses.
O que todos da coalizão trumpista têm em comum? Apenas 21% desses eleitores sentem que os progressistas os respeitam. Para eles, o voto na direita é defensivo: “Eu voto em quem não me olha de cima”. Para os Democratas vencerem as Midterms de novembro, um dos caminhos não é ser mais ou menos liberal, é ser mais respeitoso com quem não vive nas bolhas cosmopolitas. É calibrar o discurso para esse público e voltar a virá-lo para a alternativa democrática.
Uma das diferenças da pesquisa Meio/Ideia para essa da More in Common é que, seguindo a metodologia e as definições do meu querido amigo Christian Lynch, as nossas perguntas incluíam na medição ideológica a dimensão econômica. Isso porque o Brasil vem debatendo esse tema ideologicamente há décadas, na oposição entre nacional-desenvolvimentismo e liberalismo econômico, algo que não está no centro do debate político dos Estados Unidos.
Aqui no Brasil, portanto, a classificação da pesquisa Meio/Ideia revelou um perfil ideológico particular, o Conservador Societário. Esse grupo representa 20,1% da nossa população. Representa 16% dos eleitores de Lula. E é, de longe, o maior bloco de indecisos para a próxima eleição até o momento.
O Conservador Societário não quer fechar o STF. Ele quer estabilidade para a família, segurança na rua e respeito às tradições. Ele é o brasileiro que acorda cedo, trabalha e sente que o mundo está mudando rápido demais. Tem ligeiramente mais mulheres nesse grupo que homens. Não é tão preso a dogmas econômicos quanto o Conservador Estatista e o Libertário Econômico. Nem ao reacionarismo religioso, mapeado em outro grupo ideológico. E, justamente por isso, está relativamente aberto a pautas da centro-esquerda.
Se Lula quer crescer e vencer nomes como Tarcísio de Freitas ou Flávio Bolsonaro em 2026, ele precisa dialogar pra valer com essa turma. Entender que esse eleitor não é um inimigo da democracia; ele é alguém que busca proteção. Embora até haja conservadores estatistas na base de Lula, que são aqueles que querem que o Estado imponha a ordem a qualquer custo, esse encontra guarida fácil no bolsonarismo. O conservador societário pode se dividir entre Flávio e Lula. Tarcísio fala melhor com esse público, mas ainda assim ele está em disputa e pode ser decisivo para a reeleição.
Hoje, 89% dos brasileiros têm ideologias moderadas. Mas quase 40% deles topariam uma ruptura ocasionalmente, quando perdem a fé em soluções políticas. O radicalismo é barulhento, mas é minoria. O que é majoritário entre nós é o nacionalismo: 60% contra 40% cosmopolitas.
Donald Trump, com seu protecionismo radical e tarifas sob o slogan “America First”, além de seus ímpetos neo-imperialistas, acabou validando mundialmente o discurso da soberania nacional.
Ele tirou o estigma de “coisa de esquerda” da proteção da economia interna e deu essa bandeira de presente ao presidente brasileiro.
Lula fala de soberania há décadas, mas agora ele tem a oportunidade de traduzir e atualizar esse conceito para o público conservador, talvez numa chave do cotidiano. O Conservador Societário tem tendências nacionalistas, mas essa não é sua prioridade. Seus valores são de direita, passam pelo conservadorismo nessa via, da tradição, da religião, da família. Então, soberania pode estar mais ligada a ver os símbolos brasileiros respeitados e valorizados, à pujança do agronegócio, à segurança de seus filhos e a uma economia em crescimento do que no papo anti-imperialista de antigamente.
A grande lição das duas pesquisas é clara: uma parte relevante do eleitorado — a Reluctant Right lá e o Conservador Societário aqui — está cansada da guerra cultural da política. Eles votam na direita radicalizada quando sentem que a esquerda os trata como um problema a ser resolvido ou quando não tem entregas muito concretas no seu dia a dia.
Essas pessoas nem sempre entendem ou valorizam o discurso da democracia puro e simples. O progressismo precisa conseguir provar que a democracia liberal protege a família e a nação melhor do que o caos dos radicais. E que não menospreza o conservador.


