Caiado ou Eduardo Leite?
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Eduardo Leite é o melhor candidato que o PSD pode escolher para disputar a presidência da República. E, não, o jogo não está definido. Desde a segunda-feira, o presidente do partido, Gilberto Kassab, está reunido com seu núcleo mais próximo. São cinco pessoas: Andrea Matarazzo, Jorge Bornhausen, Guilherme Afif Domingos e a executiva Regina Esteves, do Comunitas. É sua turma, em quem mais confia. Fora isso, fechou-se em copas. As conversas são constantes, entra e sai gente. Especialistas em pesquisa de opinião, políticos experientes, quadros técnicos que participaram de governos passados. Quem não conversa direto com Kassab manda mensagens.
Leite é o melhor candidato por uma razão sucinta: ele é muito diferente de Lula e é muito diferente de Bolsonaro. Existe um caminho para o Centro político, existe um pedaço de Brasil que está certamente farto da briga. Não quer mais governo do PT, reconhece que um voto em Flávio é apostar numa crise continuada. Flávio só tem um objetivo, tirar o pai da cadeia. Governar é secundário. Vai passar o primeiro ano de governo em guerra com o Supremo.
Então o problema que se apresenta é o seguinte: como ativar esse eleitorado? Como chegar nele? Oferecendo uma mensagem diferente.
Vamos lá. Ronaldo Caiado fez um ótimo governo em Goiás. Um monte de gente de esquerda vai aparecer aqui nos comentários revoltada, mas o fato é o seguinte: os cidadãos de Goiás o aprovam, os moradores de Goiânia elegeram para a Prefeitura quem ele indicou. Caiado tem outras qualidades importantes. A primeira é uma de energia. Ele tem punch, tem presença. O cara é de briga, enquanto o Leite é de conversa. E, nesta eleiçõa, falar alto pode ter muito valor no momento inicial de campanha se você não é nem Lula, nem Bolsonaro. Outra coisa, até hoje a pandemia aparece nas pesquisas de opinião. E todo mundo lembra que Caiado foi pra rua dizer que era pra ficar em casa sob as vaias bolsonaristas. Caiado fala de segurança bem, fala de saúde bem, enquanto Flávio deu medalha para miliciano. Na hora ali da campanha, o governador de Goiás tem qualidades importantes.
E, se isso tudo é verdade, e é: que notável o movimento que Eduardo Leite fez desde a segunda-feira. Gravou vídeo dizendo que não será candidato ao Senado, que só sai para presidente, mobilizou toda a equipe, convenceu um sem número de pessoas a intercederem
A principal diferença entre Caiado e Eduardo é ideológica. Caiado é conservador, Eduardo é liberal. Isso parece bobagem, papo cabeça de quem pensa em política como tese, como livro, não como a coisa viva que política é no mundo real.
Só que ideologia vira discurso e, discurso, as pessoas entendem. O liberal pensa economia e segurança com cabeça de direita e pensa social com cabeça de esquerda. O conservador, não. Tem os dois pés fincados na direita. As pessoas percebem, concretamente, a diferença.
A diferença é a seguinte: tanto Eduardo Leite quanto Ronaldo Caiado vão dizer as contas estão em ordem e isso quer dizer que posso escolher onde investir. Tanto um quanto o outro dirão precisa de polícia, precisa confrontar, e é urgente. Mas, quando chega em como conversar com os brasileiros que precisam muito de ajuda do Estado, Leite estará lá, confortável, e com discurso. Caiado vai engasgar. Tem uma pegada, sabe, de cada um luta pelo seu que o torna desconfortável com esses temas.
E aí tem outra coisa nada irrelevante. Idade. Eduardo Leite tem 41 anos. Caiado tem 76. Telefone celular, gente. Claro, Caiado estará na frente de Lula que sequer usa celular e, se bobear, não sabe abrir uma mensagem de WhatsApp se lhe mandarem. Mas não basta. Tem de usar rede social, tem de ter coleção de figurinhas, precisa saber usar o browser público e o browser privado que não deixa rastros. Parece bobagem, piada, não é. Intimidade com a vida digital é intimidade com linguagem. Com o mundo em que as pessoas realmente vivem. Idade faz diferença. A gente precisa de um presidente do século 21. Não dá pra ser mais um boomer.
Vem cá, por que o bolsonarismo se dá bem nas redes e o mundo ao redor de Lula tropeça a toda hora? Porque todo o comando do PT tem de 50 anos para cima. E os na casa dos 50 são os jovens. O PSOL é jovem, o PT é velho. O PSB é jovem, o PT é velho. O bolsonarismo massivamente não tem sequer idade para ser candidato a presidente. É um bando de Nikolas Ferreira.
O brasileiro virou para a direita e, hoje, a não ser que você se chame Lula, é melhor sair a presidente pela direita do que pela esquerda. Caiado é o nome mais à direita da política brasileira democrática. Sim, democrática. A União Democrática Ruralista, a UDR, que ele comandou, podia ser antipática para muita gente nos centros urbanos. Mas foi lá na Constituinte fazer campanha pelas suas pautas. Democraticamente. Ronaldo Caiado representa o ponto mais à direita da democracia brasileira. O bolsonarismo cruzou a linha e sempre fez questão de elogiar a ditadura. Nunca escondeu que não acredita em democracia. Flávio pode fingir que é light, mas Flávio é o cara que está concorrendo para soltar o pai, não para presidir o Brasil. Sua preocupação de verdade é outra.
Como Leite é o único que tem um discurso muito diferente dos dois polos, ele tem um veio de eleitores iniciais para conquistar mais rápido. Caiado precisa roubar de Flávio do momento inicial para fazer um volume. Os dois precisam alcançar os dez pontos para que se mostrem viáveis e chamem atenção de mais gente. Leite tem potencial de fazer isso mais rápido.
Vamos desenvolver isso? Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Antes de mergulhar nessa disputa do PSD, deixa eu contar uma novidade. Estreou o novo Ponto de Partida, A Série. Se chama Nós, Brasileiros. Esse original nasceu do desejo de entender por que a gente não conversa mais com o vizinho, com o familiar, com aquele amigo que pensa diferente. E pra isso fui investigar quem são as pessoas que formam a nossa sociedade, que formam esse Brasil que desaprendeu a ouvir. Eu descobri cinco grupos, tá? Cinco “Brasis” com lógicas de trabalho, rotinas, medos e ambições muito diferentes uns dos outros. Todos têm impacto eleitoral relevante. Cada um dos cinco. E cada um dos cinco acha que o seu é o Brasil de verdade sem perceber de todo como a realidade é completamente diferente nos outros quatro. O que isso significa pra 2026? O que isso diz sobre o futuro do nosso país? A resposta está lá, no nosso streaming, exclusivo pra assinantes Premium do Meio. O link está aqui na descrição. Assina agora e assista, só 15 reais.
E este aqui? Este é o Ponto de Partida.
A maior parte dos eleitores que votam em Flávio não têm a compreensão fina sobre o que é democracia, qual seu valor. Sem perceber bem o que é mesmo democracia, fica mais difícil ter claro um entendimento de que um sempre jogou na democracia e que eles, os Bolsonaros, sempre trataram o regime democrático com desprezo. Então este é o grande risco de Caiado. Parecer um Bolsonaro do B. Porque aí, se nas ideias Flávio e Caiado são parecidos demais pela direita, por que não votar no mais conhecido? Caiado precisa roubar votos de Flávio para criar seu caminho. Eduardo tem a chance de encontrar um veio no qual estão só os insatisfeitos e buscam alguém que não se pareça, que seja realmente diferente.
Mas aí o PSD vai ter outra dificuldade. Porque esses caras precisam chegar à marca dos dez pontos. Precisam muito. Se em junho, julho, ainda estão na casa dos 4, 5, 6, a coisa fica mortal. Começa a esvaziar e aumentam as chances de a eleição acabar no primeiro turno. Se com vitória de Lula ou Flávio Bolsonaro, não dá pra dizer fácil, não.
Vamos lá: na maioria das pesquisas, Renan Santos e Aldo Rebelo são traço. Na Atlas, que é feita na internet, Renan aparece um pouco mais em cima. Mas é só nela. Candidato precisa estar com mais ou menos o mesmo tamanho em várias pesquisas para ser crível. Então sobram mesmo Romeu Zema e quem for do PSD, ali na casa dos 4 ou 5 pontos percentuais. Os dois somam dez ou quase, tá? Mas um precisa esvaziar. A solução pode ser Zema virar vice do PSD. Aí pode ser que some, dá jogo. Mas Zema pode não desistir, como Zema pode virar vice de Flávio. Tem muita coisa para acontecer ainda.
O risco é Zema e o candidato do PSD não conseguirem tirar o pescoço do um dígito. Aí, meu camarada, passou a Copa, chegando em agosto todo mundo entende que o segundo turno já está decidido e pensa com clareza. Se é para escolher um, vou escolher um dos dois líderes. Antecipa a disputa, cabeça a cabeça como num páreo de cavalos.
É impossível dizer quem ganha nessa briga antecipada. Vai ser muito dura, muito suada, esperem uma eleição violenta como foi a de 2014. E, nesse clima, Lula leva duas vantagens. A primeira é a seguinte. Os outros candidatos todos são de direita. Então mesmo que fiquem ali no um ou dois por cento, é de Flávio e não de Lula que roubam.
A segunda vantagem é outra. Flávio representa Bolsonaro mas Flávio não é Bolsonaro. Não tem a gana de Leite, não tem a força de Caiado. Flávio? Flávio desmaia em debate. E se ele dá um piripaque dos que já deu sob pressão, gente, isso o eleitor não perdoa.
Aliás, numa dessas, é bom pra Leite ou pra Caiado.


