Quatro contra um
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Em pouco menos de seis meses o Brasil vai às urnas escolher o próximo presidente da República com um cenário inédito em sua história política, como mostra a mais recente pesquisa Meio/Ideia (íntegra). A esquerda, a despeito da fama de desunida, é representada apenas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta o quarto mandato. A direita, em geral pragmática e coesa, chega com quatro candidatos: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), encostado no presidente, e, mais atrás, os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD-GO) e Romeu Zema (Novo-MG) e o outsider Renan dos Santos (Missão). O centro? Ninguém sabe, ninguém viu.
Nas condições normais, seria uma disputa muito favorável a Lula, que controla a máquina federal, tem bons resultados macroeconômicos e uma oposição fragmentada. Mas, como ressalta o cientista político da UFMG Bruno Wanderley Reis, em tempos de polarização e redes sociais, as condições são tudo, menos normais. Em entrevista exclusiva ao Meio Político, ele mostra como chegamos a esse quadro eleitoral, a pouca margem que ele deixa para Lula e a imprevisibilidade de uma campanha que corre pelo mundo online. Confira os principais trechos da entrevista.
Como o Brasil chegou à situação de ter quatro candidatos de direita, um de esquerda e nenhum de centro?
São diversos fatores. Primeiramente, a direita sempre esteve presente de alguma maneira na Nova República. Havia os mais extremados, como o deputado Amaral Netto (1921-1995). Paulo Maluf se oferecia em toda eleição. O próprio Ronaldo Caiado concorreu a presidente em 1989. Naquele momento, todo mundo estava experimentando a água, marcando posição. Em segundo lugar, é preciso levar em conta o contexto atual. Nos últimos 20 anos nós temos no Ocidente a hegemonia cultural de um discurso mais individualista, de autoafirmação, no qual o Estado e o sistema político são antes uma fonte de corrupção que de serviços.
Mesmo que as pessoas usufruam desses serviços?
A população olha para conquistas importantes, como disponibilidade de atendimento de saúde ou de vagas nas escolas, como algo embutido no DNA da História e que vem vegetativamente, não como realizações políticas. Não importa que o Estado esteja fazendo; é uma espécie de obrigação inscrita na ordem natural das coisas. “Não fossem o Estado e os políticos atrapalhando com esse monte de imposto, ia estar melhor ainda”, diz esse discurso. É difícil enfrentar esse tipo de mentalidade, e não é algo circunscrito ao Brasil, e sim um fenômeno da época.
Como assim?
Eu sempre gosto de lembrar como 40, 50 anos atrás você entrava numa livraria e tinha várias editoras semiacadêmicas, todo mundo mais ou menos de esquerda, milhões de variedades de marxismo — até uma certa vulgarização cultural do marxismo, da ideia da revolução, da crítica ao capitalismo. Hoje não só as livrarias estão praticamente extintas, mas, onde há livros, o que você encontra é uma bibliografia business, de autoajuda, de autoafirmação individual. Há razões mercadológicas, mas há também essa mudança da imagem, da atmosfera. É difícil puxar o fio do ponto de vista causal.
Há uma fadiga com o PT no poder?
Então, por mais que o PT pense em si mesmo como um partido à esquerda, com uma agenda de transformação, inclusive institucional, pela frente, o fato é que ele ganhou cinco das últimas seis eleições presidenciais, o atual presidente está no seu terceiro mandato e vai pleitear o quarto. Ficou grande. Além disso, depois da ascensão de Jair Bolsonaro e do bolsonarismo, o PT está numa postura defensiva em relação ao status quo. É uma posição institucionalmente conservadora, por mais que queira ser reformista do ponto de vista social ou econômico. Esse é o lugar histórico ocupado pelo Lula nesse momento como liderança inconteste do PT. Com isso, as candidaturas à esquerda têm pouco incentivo de experimentar a água e ver o que vai acontecer. Os riscos implicados são grandes, então todo mundo meio que abraça Lula.
Mas e o centro?
Isso inclui por gravitação até esse centro. Nós estamos falando de um “tucanismo” clássico, “fernandohenriquista”, paulistano de classe média, próximo do ambiente acadêmico etc. Um centro muito moderado, que mais ou menos capitaliza a agenda de reformas para o mercado nos anos 1990, mas que perdeu a hegemonia sobre o seu eleitorado, se viu órfão e em parte gravitou para a órbita do Lula nesse momento, encarnado em figuras como Geraldo Alckmin e Simone Tebet. Outros entraram na órbita da direita mesmo.
A polarização é uma novidade?
A tal polarização não é tão excepcional assim. Fora 1989, de um modo geral, o eleitorado nas eleições presidenciais tendeu a se concentrar com força em duas candidaturas bem maiores que as outras. O fato de hoje haver essa aglutinação que singulariza um candidato à esquerda com um monte de gente mais à direita, tem mais a ver com o enorme peso gravitacional que com o tempo foi adquirido pelo Lula pessoalmente. Há ainda uma resistência a uma direita mais predatória, mais iconoclasta, que traz muita gente que nem é necessariamente de esquerda para a órbita dessa coalizão, mais uma vez citando Tebet e Alckmin.
É possível traçar previsões a essa altura?
É difícil dizer. Eu costumo brincar dizendo “no Velho Testamento…”. Então, no passado, essa seria uma eleição tranquila, um presidente candidato à reeleição com indicadores bastante bons na economia. Mas do jeito que as coisas funcionam num momento pós-redes sociais, é mais difícil cravar, tem muita flutuação de última hora. Durante um bom pedaço da minha vida, eu esperava começar o horário eleitoral gratuito, dava duas ou três semanas e já conseguia cravar as tendências todas. Nas eleições municipais havia oscilações mais abruptas; nas presidenciais, não. Eventuais mudanças eram muito lentas.
Mas houve disputas apertadas por uma vaga no segundo turno, como Lula e Leonel Brizola em 1989 e Aécio Neves e Marina Silva em 2014.
Sim, mas veja 1989. Fernando Collor já tinha o lugar garantido no segundo turno, e Brizola aparecia em segundo. Quando chega a campanha eleitoral na televisão, a diferença entre Lula e Brizola começa a diminuir, mas em câmera lenta. A questão era se Lula teria tempo de ultrapassar, como ultrapassou. Já em 2014 as coisas oscilam mais, estávamos na era da internet, das redes. E finalmente 2022 traz reversões de tendências curiosas.
De que tipo?
Ao longo do segundo turno, Bolsonaro vai ficando cada vez mais isolado politicamente, mas as pesquisas eleitorais não respondem a esses sinais de isolamento político de uma maneira previsível. Foi como se a dinâmica eleitoral se desacoplasse da dinâmica do sistema político. Para mim isso tem a ver com as redes. Você teve o episódio do Roberto Jefferson, teve a Carla Zambelli. A gente pensava “acabou, a casa caiu”, mas não. Não há mais a previsibilidade de antes da internet. Aí começam a acontecer o Brexit, a chegada de um outsider como Donald Trump em 2016 etc. Toda a parametrização usual da dinâmica eleitoral foi feita para um ambiente analógico. Ela funciona mal no digital, e eu não acredito que a gente já tenha mapeado suficientemente como isso se dá no novo ambiente.
Muitas pessoas de centro que formaram uma coalizão em torno de Lula no segundo turno de 2022 depois reclamaram que ele montou um governo predominantemente petista. Isso pode influenciar agora?
Eu acho que, do ponto de vista programático, de agenda, Lula não está fazendo um “governo petista”, pelo menos como os petistas sonhavam que seria um governo do partido 20 anos atrás. É uma política econômica de inflexão redistributiva que procura concentrar fluxos de renda na base da pirâmide, acomoda onde é possível acomodar para fazer isso e tenta operar conservadoramente em alguma medida quanto aos números fiscais mais agregados. Apesar das diferenças de ênfase que pudesse haver, Simone Tebet foi para o Ministério do Planejamento. Achavam que se tornaria irrelevante, mas não foi. Mostrou-se muito vocal na defesa da política econômica do presidente e agora se apresenta como candidata ao Senado por São Paulo dentro desse alinhamento com Lula.
Mas o PT ficou com os ministérios cruciais, não?
O PT é um partido grande demais e complexo demais para o presidente virar e dizer: “Olha, é uma coalizão, você vai ficar com dois ou três ministérios”. A casa cai, não que o partido vá fazer oposição. Em todos os governos petistas, de Lula e Dilma, o PT ficou com um arco grande dos ministérios, mesmo que isso não refletisse o tamanho da bancada no Legislativo. Por outro lado, há partidos que entram no governo, mas não entregam os votos das suas bancadas. A capacidade de o governo pilotar o Congresso é bem menor hoje, principalmente com as emendas impositivas. Por mais que a ciência política consiga descrever como funciona esse presidencialismo multipartidário, ele é difícil de gerir, requer muito malabarismo e acomodação de interesses complexos.
Voltando um pouco às candidaturas este ano, Caiado e Zema serem líderes regionais atrapalha ou ajuda suas campanhas?
Eu tenho a impressão de que nenhum dos dois está realmente jogando com a crença realista de que disputam a presidência. Há muito o que se ganhar com uma candidatura ao Planalto, mesmo que não se vença. No caso do PSD, como a Flávia Tavares já comentou, a prioridade do Gilberto Kassab é fazer a maior bancada na Câmara, e isso explica a preferência pelo direitista Caiado e não pelo centrista Eduardo Leite. Caiado consegue disputar a freguesia do PL com sua postura mais conservadora, mais aguerrida. Mais que um candidato a presidente, ele é um puxador de votos para o Legislativo. O plano do PSD é ser o que o PMDB era no período Fernando Henrique e no Lula 1 e 2. Aquele partido sempre no poder, não importa quem ganhe, por exercer a função de fiador.
Menos programático?
Certamente. O PSD vem a existir como uma dissidência do PFL que decide participar do governo da Dilma, embora tenha apoiado o impeachment no final. Durante o governo Bolsonaro, Kassab fez questão de se manter distante, mas aderiu de primeira ao bolsonarista Tarcísio de Freitas em São Paulo. Ele claramente procura manter um pé em cada canoa e ter um partido forte.
E quanto a Zema?
Zema é mais fruto do próprio bolsonarismo. Surfou como o candidato próximo a Bolsonaro em Minas, tanto em 2018, quanto em 22. Estando no Partido Novo, faz o discurso mais agressivamente neoliberal, estado mínimo etc. Ele é um governador em dois mandatos em Minas, o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. Pode botar seu nome com naturalidade e, uma vez posto, fazer qualquer coisa. Pode ficar na disputa e nacionalizar seu nome ou se cacifar para ser vice. Tudo está em aberto, e isso explica também esse monte de nomes à direita.
De que forma?
Por um lado, você tem um momento que é receptivo a esse discurso conservador; por outro tem um presidente que atrai tudo o que esteja na sua órbita. Isso produz hegemonia numa ponta e fragmentação na outra. O que é um grande risco para Lula, já que, em um eventual segundo turno, ele não tem muito o que acrescentar a sua aliança. Isso aconteceu em 2022. Ele quase encerrou a disputa no primeiro turno, mas quase perdeu no segundo. E agora tende a ser parecido. A desvantagem de estar sozinho no seu campo é não ter para onde crescer.
Falando em crescer, a guerra tarifária de Trump no ano passado turbinou momentaneamente a popularidade de Lula. O pedido de Flávio Bolsonaro por “pressão externa” e as críticas de Trump ao Pix podem ter o mesmo efeito?
É difícil cravar. Ulysses Guimarães sempre dizia que política externa não dá voto. Mas o que pode acontecer é uma ressonância econômica relevante do ecossistema externo. Os Estados Unidos estão presentes no imaginário de todos, todo mundo consome a cultura de lá. No entanto, você tem um presidente na Casa Branca que age totalmente fora da caixinha, inclusive ilegalmente no caso das sanções unilaterais ao Brasil. Não foi a primeira vez em que sofremos sanções — houve pressão contra a Lei de Informática, por exemplo. Mas, no caso das tarifas do Trump, houve a possibilidade de perda de mercado para setores importantes da economia, e o [ex-deputado] Eduardo Bolsonaro ficou muito exposto ao defendê-las. No caso do Flávio, sempre parto da premissa de que, se acho que um político está cometendo erro, sou eu que não estou enxergando o quadro inteiro. Ele quer sinalizar um alinhamento tanto para dentro quanto para fora e espera que não tenha muito custo. É necessário aguardar a campanha começar de fato e ver qual dos cenários se desenha. Se alguma medida unilateral americana representar ônus econômico importante para setores influentes na política brasileira, o alinhamento com Washington tende a ser muito prejudicial. Mas há também setores que apostam nesse alinhamento e veem com preocupação a autonomia “BRICSiana” do Lula.
Quais seriam esses setores?
De modo geral, o setor financeiro e talvez telecomunicações operem com uma proximidade meio incontornável com os Estados Unidos. Já o agro, não. A China não é mais apenas a principal compradora, mas principal investidora, inclusive na logística de escoamento da produção. Chega a ser irônico que o agro, um dos maiores redutos do bolsonarismo, tenha uma relação tão forte com a China. Mas é isso. Se algum movimento americano produz dano econômico importante aqui a curto prazo, eventuais manifestações excessivas de Flávio Bolsonaro podem prejudicar. Se não, ele pode se apresentar como o candidato moderado, conversando com os americanos, em contrapartida a um Lula “maluco” andando para cima e para baixo com os chineses e russos. Tudo se presta a uma eventual caricatura.






























