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Depois do lançamento do álbum Uhuuu! em 2009, a sonoridade do Cidadão Instigado tomou de assalto a música brasileira. Muito por conta da maneira bastante particular com que Fernando Catatau transmite uma emoção com sua guitarra, capaz de agradar desde os fãs de música romântica a devotos do Pink Floyd.
Como produtor e guitarrista, Catatau foi responsável por levar essa assinatura estética para uma série de trabalhos distintos de outros artistas, como Longe de Onde, de Karina Buhr, Iê-Iê-Iê, de Arnaldo Antunes, Caravana Sereia Bloom, de Céu, e Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3, de Don L. Perdi a conta das vezes que o vi no palco com outros artistas, fora as que comandava o seu grupo, que tem alguns dos melhores discos brasileiros produzidos neste milênio.
De 2002, quando lança O Ciclo da Dê.Cadência, até Fortaleza, de 2015, o Cidadão Instigado operou como uma banda que trazia uma proposta nova a cada lançamento. Mais de dez anos depois, volta agora com o álbum Cidadão Instigado pelo selo RISCO. Nesses anos, Catatau voltou a morar em sua Fortaleza natal “para se reenergizar” e, de volta a São Paulo, foi pego pela pandemia.
Os anos pandêmicos já haviam rendido seu primeiro disco solo, de 2022, batizado simplesmente como Fernando Catatau. Agora, uma nova leva de canções integra o quinto álbum do Cidadão Instigado. Mas há uma pegadinha aí. A banda deixa de ser um quinteto estável e passa a ter uma formação flutuante. Só na faixa Tudo Vai Ser Diferente temos os cinco integrantes originais. Nas outras, Catatau está ao centro, colaborando com uma série de artistas de diversas gerações, como Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Ava Rocha, Jadsa, Anna Vis, Mateus Fazeno Rock, YMA e Edson Van Gogh.
Algumas dessas experimentações que chegaram ao disco foram gestadas a partir dos encontros da temporada Frita, que aconteceu no Centro da Terra em São Paulo em 2022. Com curadoria de Alexandre Matias, nessas temporadas um artista ocupa as segundas-feiras do mês com a proposta de correr riscos, sempre se apresentando com formações diferentes.
Nesses shows de 2022, além da guitarra, Catatau comandava uma music station da Roland, uma bateria eletrônica com sintetizador que também funciona como sampler. Foram esses sons que ele incorporou ao novo álbum. “Só que eu toquei tudo, não usei nenhum sample.” Ao ser perguntado se cansou um pouco da guitarra, a resposta é certeira: “De jeito nenhum. Acho que eu voltei totalmente pra guitarra. E também tenho estudado canto, tem alguns anos que eu tenho me dedicado muito a melhorar meu rolê de música.”
Falamos sobre a feitura do novo disco, sobre esse novo momento do Cidadão Instigado e sobre abrir o leque para participar como ator do filme Centro Ilusão, de Pedro Diogenes. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Como foi o processo do disco? Ele nasce dessas experimentações da temporada Frita no Centro da Terra?
É, o disco surgiu bem no começo da pandemia. Eu fiquei em casa, solitário, e eu tinha uma music station da Roland. Eu tenho falado que é um sampler, mas ela é mais do que isso. Saiu até em umas matérias que eu troquei o rock pelo sample, e não foi isso. Eu não sampleei nada, eu toquei tudo. Eu usei os timbres que vinham nela. Foquei em aprender a usar o instrumento e fui criando coisas aleatórias, até para preencher o tempo e não enlouquecer.
Você voltou de Fortaleza um mês antes da pandemia, né?
Foi bem louco. Em Fortaleza eu praticamente me ausentei dos meus trabalhos, de tudo. Eu cansei, queria me renovar, queria voltar a me enraizar. Fiquei quatro anos morando em Fortal. Aí, quando voltei, teve esse lance que pegou todo mundo desprevenido.
No disco você usa elementos da música pra dançar, batidas quebradas, às vezes parece até drum and bass. Como foi essa pesquisa?
Isso já é uma coisa que eu venho mudando naturalmente nos últimos anos. Quando fui para Fortal, eu entrei numa de querer realmente voltar a dançar. Comecei a experimentar no palco, no show dos 20 anos do Cidadão. Porque quando eu era novo, era bem na época do pós-punk, rock nacional, curtia ir às festas, botar esses sons e dançar, era isso. Até um dia que eu travei e nunca mais dancei. Nem mexer um pé, uma mão, nada. Depois dessa volta a Fortaleza, acho que por essa busca de me reconhecer novamente na minha cidade, no meu eu cearense, veio isso. Comecei a me testar, a ir me jogando. Entendi que não sou dos melhores pés de valsa, mas é uma coisa que me faz muito bem. Já me salvou de várias bads, dançando, botando meu corpo para funcionar. E eu tentei achar esse lugar fazendo música, pensando nesse caminho. É uma coisa muito clara para mim.
Até Fortaleza o Cidadão era uma banda. E agora é mais fluido, com você ao centro. Você é muito controlador?
Sempre fui muito controlador. Mas acho que me liberei mais, hoje em dia sou menos. Porque quando eu comecei a criar a ideia do Cidadão, era muito dentro da minha cabeça. Fiquei dois anos só compondo, sem parar. Cada dia era uma eternidade. Eu já tinha muitas certezas, já tinha desistido de várias coisas e voltado atrás. E aí ao longo do tempo eu fui me desapegando, perdendo a vontade quando as coisas não me interessavam mais. Eu vou me enjoando de mim, sabe? Não é nem das pessoas, é do que eu tô fazendo. Eu lembro quando o Dustan [Gallas] começou a botar os teclados em Fortaleza e ficou muito parecido com o Uhuuu!. Aí eu disse: cara, eu não quero fazer mais um Uhuuu!. Tanto que do Ciclo da Dê.Cadência pro E Método Tufo de Experiências não ia mais existir Cidadão ali. Tem uma hora que eu encho o saco e digo: eu quero virar a página, não quero mais isso.
Esse disco é bem diferente do seu disco solo também. O solo é mais intimista, esse é um disco para fora.
Uma amiga minha, a Juliana R., escutou meu disco solo pronto e o começo dessas experimentações, e disse uma coisa que foi das que eu entendi mais o rolê: esse disco solo é uma ponte do que tu fez para o que tu ainda vai fazer. E eu realmente visualizo assim.
O que desse mundo pandêmico veio para o disco?
Ele é um disco muito mental, fala sobre esse lugar. Os meus conflitos, os meus medos, mas ao mesmo tempo tentando achar caminhos, jogando esse lugar para cima. E quando eu chamei as outras pessoas para compartilhar foi muito legal, porque rolaram vários diálogos com artistas de quem eu era muito fã. Dentro dessa temporada que a gente fez no Centro da Terra foi uma conversa de verdade. Eu mandava umas letras e a pessoa via como uma conversa mesmo. Não era “ah, vou complementar essa letra a partir daqui” não. Eram trocas. Isso para mim foi a coisa mais marcante. Acredito que é uma forma de a pessoa chegar a ela mesma. Cada participação no disco imprime bem ali.
E são trocas geracionais também. Vão desde gente da sua geração como Juçara Marçal e Kiko Dinucci até as jovens Jadsa e Anna Vis. Como você vê essa nova cena?
Cara, eu voltei para morar em Fortaleza em 2016 por causa da nova cena. Quando eu vi a galera, eu disse: cara, eu quero estar perto. Tem desde o Mateus Fazeno Rock, Getúlio Abelha, eu fui tutor de uma banda de rap chamada Sem Saída, acabei de ser tutor de uma banda chamada Os Bardos, tem a Ayla Lemos, que é uma artista incrível, a Mumutante, a Zabeli… Sou muito fã não só da cena musical, mas da cena artística de Fortaleza. Tem muita gente fazendo muita coisa incrível lá.
Como foi a experiência de atuar no cinema?
Quando eu participei do filme do Pedro Diógenes, já tinham me convidado para participar de filme umas três vezes e eu tinha fugido. Nem recusava, sumia. Porque para mim era um pânico ter de me colocar, decorar falas. Eu achava impossível, do mesmo jeito que antes de eu começar a cantar. Fiquei cinco meses sem dar resposta pro Pedrinho. Aí teve um momento que eu disse: não, cara, as coisas estão chegando para mim e eu tô recusando. E foi assim que eu aceitei. Uma coisa que me fez acreditar que era possível foi minha mãe. Um amigo a chamou para atuar num filme, e ela foi. Já fez sete filmes, virou atriz depois da vida toda. Ela não é atriz formada, foi no flow da vida mesmo, chegava lá e acreditava e fazia. Aí eu disse: vou acreditar e vou fazer aqui.
E como vai ser esse disco no palco?
A gente tá ensaiando já. Tem eu, o Dustan e o Clayton [Martin]. Entrou o Samuel Fraga na bateria, parceiro de muitos anos. A Anna Vis tocando samples e cantando, e a Rubi Assumpção cantando. Como é um disco bem do rolê dos eletrônicos, a gente tá levando pro palco tocando, não tem VS [música pré-gravada], nada assim. A gente tá tentando trazer esse disco de uma maneira humana-eletrônica.






























