O Mundo transformado pelo 5G

O Mundo transformado pelo 5G

A internet interplanetária

Heinar Maracy

Bem-vindo ao mundo transformado pelo 5G e ao final da saga de Valentina. Espero que você tenha curtido. Se quiser ler essa história desde o começo, clique aqui.

“Ei! Quem são vocês? O show já vai começar!” — Perguntou Valentina a seus raptores enquanto eles a enfiavam dentro de um drone negro de vidros foscos.

“Fique tranquila, Valentina. Está tudo sob controle” —  disse um dos grandalhões bem vestidos e sorridentes. “Para onde vocês tão me levando?” — gritou a garota ao sentir o drone levantar vôo. Os dois homens de preto não responderam, apenas apontaram para cima.

“Pro alto? Pro rooftop? Ganhei um convite para a área VIP?” – perguntou esperançosa.

“Bem melhor do que isso”, disse um deles apontando para a janela.

Valentina olhou na direção que o homem misterioso apontou e viu uma torre ao longe. Não, não era uma torre, era um foguete! Um desses foguetes retornáveis que levavam turistas para vôos suborbitais com direito a baladas desajeitadas em gravidade zero e outras atrações.

O drone atracou ao lado do foguete e os três entraram em uma sala estanque com trajes espaciais. Valentina vestiu o seu meio contrariada, mas curiosa para saber onde tudo aquilo iria dar. O foguete partiu.

“Valentina, o que você sabe sobre a tecnologia 5G?” — os dois agora vestiam trajes espaciais pretos, muito distintos.

“Ahhn, bem…é uma rede celular, né?” — respondeu a garota meio incerta e flutuante.

“Hum” — resmungou o elegante astronauta enquanto anotava alguma coisa em um pequeno aparelho. 

“É o que permite a gente ficar conectado o tempo todo, os médicos saberem se estamos bem, os drones não baterem uns nos outros quando voam no horário de pico…” — o que era aquilo? Um teste? Uma pegadinha? 

“Hum hum” — mais anotações e uma troca de olhares enigmáticos entre os dois.

Valentina continuou respondendo, meio no embalo. “É o que faz o emocine funcionar. Para que uma banda consiga dar um show com cada integrante em um lugar do mundo. Um show que eu não vou ver porque vocês…” — BLAM! — Um solavanco brusco interrompeu a reclamação da menina que já estava quase chorando. SHHHWAH! A porta do foguete se abriu e por ela entrou um homem alto vestido com um traje espacial dourado e um ridículo boné com antenas. Duas câmeras flutuavam ao seu lado.

“Certa a resposta, Valentina!” — exclamou o Apresentador. “Bem-vinda ao Grande Hotel Espacial! Palmas para nossa premiada, holoespectadores!”

O Apresentador pegou a mão de Valentina e a levou pelos corredores do Grande Hotel Espacial. “Toda sua aventura até chegar aqui foi transmitida em nossos canais para 4 bilhões de seguidores reais, virtuais e emocionais” — Imagens flutuantes passavam por Valentina mostrando cenas daquele dia: ela na cozinha de casa, fugindo de drone, encontrando os Offbits e sendo abordada na fila do show por uma garota desconhecida querendo tirar uma foto com ela. No final do corredor havia uma arena enorme com um palco ao fundo. Sobre ele pairava um placar com várias fotos, nomes e números. No alto do placar estava seu rosto, seu nome e um número de sete dígitos que não parava de aumentar. Embaixo do placar, no palco, um grupo de pessoas se aglomerava.

“Eles votaram e você ganhou o prêmio máximo, Valentina” — disse o Apresentador esfuziante. “Vai assistir ao show do Koalas Lobitos ao lado de seu vocalista no Grande Hotel Espacial.” Valentina imediatamente reconheceu $KriptX, o vocalista dos Koalas, com seus longos dreads negros e seu chapéu outback. Lutando contra a vertigem que a proximidade do seu ídolo lhe causava, reconheceu vagamente as duas figuras ao seu lado. — “Pai? Mãe?” — Os dois olhavam orgulhosos para a filha. Logo atrás estava Lis, toda montada, Lorde Gentleman e seus amigos, os homens de preto, a geladeira Frigidata… todos felizes e emocionados.

O show começou e Valentina não sabia se dançava, se cantava ou se filmava. Agarrou a cintura de $KriptX atrapalhando sua coreografia. Embalada pela música romântica e sincopada, fechou os olhos por um momento e quando abriu estava em casa, no seu quarto. 

“Gente! Foi tudo um sonho?” Pensou, desapontada, olhando para o ventilador que rodava lentamente no teto. Colocou seus óculos, como fazia todo dia ao acordar. “Feed me”, disse com voz pastosa de sono. Imediatamente surgiram cenas do dia anterior, remixadas, em versão animada, em 2D, 3D e 4D. Vídeos musicais com psytraps falando sobre os perigos de bueiros abertos na cidade e a angústia de ficar em longas fias. Memes. Muitos memes. Valentina quebrando geladeiras e outros eletrodomésticos com o preço de cada um pulando na tela. Fugindo de drone pela cidade perseguida por gatinhos fofos gigantes. Desmaiando no palco e interrompendo o show dos Koalas para desespero de 4 bilhões de fãs. Sendo levada desacordada de volta para a Terra.

Valentina desligou seu óculos e voltou a deitar na cama. “Da hora viver no futuro”, suspirou.

-§-

Bem-vindo ao interplanetário mundo transformado pelo 5G, uma era em que as telecomunicações irão onde nenhum homem foi antes.

Hoje, se tudo der certo, em algum lugar do planeta Marte, um pequeno drone chamado Ingenuity deve estar dando seu voo inaugural. O feito ocorre pouco mais de 100 anos depois que o primeiro veículo mais pesado que o ar voou aqui na Terra (Santos Dumont ou irmãos Wright, quem se importa?).

Alguns minutos depois, chegarão à Terra as primeiras imagens do seu voo, graças ao milagre das telecomunicações espaciais. A comunicação espacial requer algoritmos de compressão sofisticados, programas para detecção e análise de sinais e antenas parabólicas gigantes. Ela é parte fundamental no esforço humano de conquistar outros planetas. Em breve, teremos na Lua uma antena de transmissão de rede celular, passo crucial para o projeto Artemis, da NASA, que pretende criar a primeira colônia humana permanente em solo lunar.

“Os desafios para implementar uma rede celular na Lua são muitos”, diz Enrique Ramirez, CTO da Nokia para a América Latina. “O objetivo desse sistema é criar uma rede na superfície da Lua, idêntica às que temos aqui na Terra. Será uma rede local para facilitar a comunicação entre os astronautas que estão lá,  dispositivos, carros, máquinas etc.”

As comunicações entre a Terra e a Lua continuarão usando sistemas de rádio próprios para distâncias extremamente longas, que precisam lidar com atraso de minutos entre a transmissão e recepção, diferentes modulações, dispersão das ondas eletromagnéticas e ruídos causados pela radiação emitida pelo sol. “Por enquanto, será apenas uma rede local, porém, essa comunicação vai possibilitar uma qualidade muito melhor. Quando transmitirmos a informação captada na Lua por essa rede para a Terra, a qualidade das imagens, vídeo e voz será muito superior ao que estamos acostumados a ver”, diz Ramirez.

Prevista para ser implementada no final de 2022, a rede celular lunar inicialmente terá a tecnologia 4G. “Como o objetivo é criar um ecossistema, precisamos utilizar uma tecnologia que já tenha seus componentes — modems, chips e aparelhos — já desenvolvidos e testados. O 5G é um ecossistema ainda em desenvolvimento”, explica Ramirez. Mas a rede lunar será compatível com 5G. “Assim que for viável, faremos o upgrade da rede para 5G.”

Segundo Ramirez, a NASA precisava de uma rede robusta, de implementação automática e capaz de suportar intempéries e as condições duras do ambiente lunar. “Felizmente, nós tínhamos essa tecnologia já em uso aqui na Terra, em áreas de mineração.”

Eventualmente, a mesma tecnologia utilizada na rede lunar chegará em Marte. “O mesmo padrão deverá ser utilizado: comunicações entre Marte e a Terra utilizando rádio e uma rede local de alto desempenho. A mesma tecnologia que utilizaremos na Lua poderá ser utilizada em Marte ou em estações espaciais onde iremos passar nossas férias.”



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