O Mundo transformado pelo 5G

O Mundo transformado pelo 5G

Carros elétricos, inteligentes e voadores

Heinar Maracy

Valentina caminha pela prancha da varanda de seu apartamento e entra no Supra que flutua zunindo estático no 23º andar.

“Bom dia, passageire!” — diz alegre o drone autônomo. “Para onde devemos ir nesta linda manhã?”

“Qualquer lugar! E rápido!”

“Desculpe, mas não estou autorizado a partir sem um endereço específico. As rotas aéreas são estabelecidas de acordo com um protocolo de…”

“Tá bom, tá bom. Toca para a Rua Rei Roberto 744.”

O drone sobe e parte rumo à Zona Leste. Valentina, apavorada, não sabe o que fazer. Acordar os pais? Melhor se atirar do drone em movimento. Subitamente, o ícone de AMEL-IA pula em sua lente,

“Vale, aonde você está indo?”

“Me deixa, Amélia. Eu sei o que estou fazendo.” — mente a garota enquanto expulsa o ícone da frente com a mão.

“Ligar @Lispalmeirinha” — resmunga. Em poucos segundos, Lis aparece. Maquiagem perfeita. Cabelos perfeitos. Olhar de desprezo perfeito.

“Valentina??!”

“Oi Lis…”

“Você não tinha me bloqueado, traíra?”

“Valentina, compartilhe sua localização, por favor” — exige AMEL-IA que voltou a aparecer na lente.

“Me ajuda, Lis!”

“Ahá. Sabia…”

“Valentina, compartilhe já sua localização ou seu perfil será rebaixado para conexão básica.”

“A Tecnopol tá atrás de mim.”

“De novo? O que você fez dessa vez?”

“Sem querer interromper, passageire, mas o carro ao lado está querendo abrir comunicação conosco. Autoriza o contato? Sim ou Não?”

Valentina olha para o drone que segue emparelhado ao dela e vê os dois homens de preto que bateram em sua porta. Ambos continuam sorrindo.

Bem-vindo ao admirável mundo transformado pelo 5G, onde tudo estará conectado, smartizado e automatizado. Se você perdeu os episódios anteriores da novelinha acima, clique aqui.

Considere o automóvel movido por motor a combustão. Uma tecnologia de quase 200 anos que dominou o século 20 e moldou cidades de acordo com sua necessidade. Nos próximos 10 anos, ele deve evoluir para um animal (ou melhor, animais) totalmente diferente. Eles já estão entre nós. O mais popular é o carro elétrico, cada vez mais utilizado devido ao menor impacto ambiental. O carro autônomo é ainda uma promessa, uma das grandes, porque abre a possibilidade de empresas de tecnologia entrarem no gigantesco mercado automobilístico. Correndo — ou voando — por fora, temos o drone de passageiro, a realização do carro voador com quem a humanidade sonha desde os anos 50.

Esses veículos já existem de uma forma ou de outra, mas ainda necessitam de um componente importante para deslanchar: o 5G. Uma rede que permite a comunicação em tempo real com um custo de acesso mais barato vai transformar cada carro em um computador/celular sobre rodas e fazer com que ele ande mais rápido e com maior segurança.

Trânsito Inteligente

“Quando você analisa o design dos novos veículos autônomos, percebe que a velocidade de informações é uma peça fundamental”, diz Flávio Cardoso, Head de Operações Comerciais de Serviços Conectados da Mopar, divisão de peças, serviços e atendimento ao cliente da fabricante de automóveis Stellantis. “O V2V (vehicle-to-vehicle ou comunicação entre carros) é o que vai fazer esses carros rodarem com segurança, se comunicando o tempo todo com os veículos próximos e com a própria estrutura das cidades e estradas. Para isso acontecer, eles vão precisar da tecnologia 5G.”

“O futuro vai ser dos carros elétricos e carros autônomos integrados sobre uma rede única, que provavelmente vai ser o 5G”, diz Marcio Veronesi, diretor de Segmento Energia, Transporte e Cidades da Nokia. “O 5G contém todo um arcabouço capaz de proporcionar o controle de frotas, a integração dos veículos com o sistema de trânsito e com as cidades inteligentes.”

Será o fim dos engarrafamentos? O fim das greves de caminhoneiros? O fim do papo furado de taxistas sobre o clima, a violência e o Palmeiras? Provavelmente, sim. “O carro conectado vai ser o protagonista de uma revolução na mobilidade urbana”, diz Veronesi. “Com os dados compartilhados pelos veículos será possível criar soluções personalizadas de mobilidade. Conhecendo o tipo de uso dos usuários, que meios de transporte ele usa para poder se deslocar da casa do trabalho ou para o lazer, será possível criar políticas diferenciadas de integração entre esses modais, com uma eficiência muito maior, unindo carros, metrô, bicicleta, patinete e o que mais for preciso.”

Múltiplas Soluções

O cenário previsto pelos especialistas é mais ou menos como se o Waze ganhasse o poder de não apenas mostrar as condições de trânsito, mas pudesse também controlar semáforos, alterar a velocidade máxima das pistas, direcionar a frota de Uber para uma região e aumentar a disponibilidade de bicicletas e patinetes. “O encontro do carro conectado com a cidade inteligente vai elevar o nível de eficiência da cidade e provocar uma melhora da qualidade de vida de todos os habitantes”, diz Veronesi.

Cardoso alerta, entretanto, que não vai existir uma solução única global para os problemas de mobilidade urbana, mas múltiplas soluções. “A solução não é um tipo de veículo ou uma tecnologia”, diz ele. “Ela está no compartilhamento de experiências e na co-criação. Nem todos os modais vão conviver nos mesmos ambientes. A solução para Nova York vai ser diferente da de São Paulo, ou a do Rio de Janeiro. Ela vai envolver drones de passageiros mas também vai ter carros compartilhados, aplicativos de carona e de mobilidade muito mais sofisticados que os que temos hoje. O nosso papel é saber interpretar os dados e entender o que é preciso para dar ao cidadão essa fluidez.”

E o carro voador? Vai rolar mesmo ou continuará existindo apenas em filmes e desenhos animados? “Os drones de passageiros — ou carros voadores — já são uma realidade e acredito que serão um produto comercial nos próximos dez anos. Eles ainda têm algumas barreiras técnicas e questões de segurança e confiabilidade — porque transportar vida não é a mesma coisa que transportar um pacote — e precisam superar algumas barreiras econômicas. Mas não tenho dúvida que daqui a dez anos ou mais o transporte aéreo de pessoas individualmente dentro de uma cidade em trajetos menores será uma realidade”, diz Cardoso.

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