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16 de janeiro de 2019
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May sofre a maior derrota de um premiê britânico em um século


A política britânica entrou em caos, ontem, quando a premiê Theresa May sofreu a maior derrota jamais imposta a um primeiro-ministro na Câmara dos Comuns em tempos modernos. Foram 432 votos contra seu plano para condução do Brexit, e 202 a favor. May esperava criar uma alfândega sem tarifas de importação com a União Europeia na Irlanda, facilitando assim a manutenção de uma fronteira aberta com a Irlanda do Norte, e oferecendo uma saída para empresas que precisam da relação com a UE e queiram permanecer no Reino Unido. A última vez em que um governo sofrera uma derrota deste porte — e foi menor — ocorreu em 1924. Dado o descompasso da premiê com o resto dos parlamentares, entra em pauta hoje o voto de desconfiança contra o gabinete pedido pelo líder da oposição, Jeremy Corbyn. Corbyn, que levou o Partido Trabalhista para além da centro-esquerda, afastando-se da tradição liberal inaugurada por Tony Blair, por enquanto não tem apoio o suficiente para conseguir. O voto provavelmente forçaria a convocação de novas eleições. Mas May enfrenta também uma pesada oposição interna, em seu próprio Partido Conservador, onde a direita espera um Brexit mais rígido. Ela pode ir à União Europeia tentar costurar um novo acordo, mas as chances são pequenas. Tampouco é pequeno o número de parlamentares, em ambos os partidos, que gostaria de convocar um novo plebiscito, pedindo que o povo britânico confirme o desejo de deixar a União. Tudo pode acontecer, mas há um prazo: em 29 de março, o Reino Unido deixará a União Europeia. Se não houver acordo, será o fim abrupto e absoluto da relação.

A surpreendente vitória em plebiscito que determinou a saída do Reino Unido do bloco europeu foi também a primeira vitória da nova direita, de corte nacionalista e populista, num país rico. Um antecessor da eleição de Donald Trump. O movimento continua a ganhar força no UK, principalmente na Inglaterra.

Enquanto isso... As ruas da velha cidade polonesa de Gdańsk se encheram, ontem à noite, com a população que celebrava a memória do prefeito Paweł Adamowicz. Filiado a um partido liberal puro-sangue, era um dos principais nomes na resistência à ultradireita que assumiu o comando do país, em 2015. Adamowicz, que tinha 53 anos, foi esfaqueado múltiplas vezes no coração e no estômago, num ataque repentino enquanto falava ao público em um evento beneficente, no domingo.

Para acompanhar com calma: Tucker Carlson, veterano comentarista conservador americano, disparou faz uma semana um monólogo em seu programa da FoxNews que, desde então, mexe com a direita americana. Ela rachou — ou, ao menos, a rachadura que já existia se tornou evidente. É uma divisão ideológica que afeta diretamente o Brasil. “Apoiar uma economia ancorada no mercado financeiro e uma política externa internacionalista tem sido o padrão seguido pelos republicanos”, ele afirma. “Os democratas modernos concordam com esta visão. Mas, agora, há sinais de que o povo se distancia destas ideias. Em todo o mundo — França, Brasil, Suécia, Filipinas e muitos outros — eleitores apoiam cada vez mais políticos cujas ideias eram inimagináveis alguns anos atrás.” O racha se dá entre liberais — no sentido econômico-político da palavra — e conservadores. Quando aposta numa guerra comercial baseada no aumento de tarifas e um discurso que evoca valores tradicionais, é este movimento que Donald Trump abraça, distanciando-se cada vez mais do ideário liberal. “Dizem que o objetivo dos EUA é maior prosperidade. Mas será que isso é verdade?”, se pergunta Carlson, emendando na pegada tradicionalista. “iPhones mais baratos, entregas eficientes da Amazon ou lixo plástico da China vão nos fazer felizes? Não está acontecendo. Americanos estão cheios de coisas compradas e, ainda assim, vício em drogas e suicídio só crescem. Quem pensa que a saúde de uma nação se mede pelo PIB é um idiota. O objetivo da América é mais simples e mais complexo do que prosperidade. É felicidade.” E, na sua definição de felicidade, brotam então os valores conservadores. “Há muitos ingredientes: Dignidade. Conquistas pessoais. Capacidade de autocontrole. Independência. Principalmente, relações profundas com outras pessoas.” De bate-pronto, a National Review, ícone do liberalismo de direita americano, respondeu através de um artigo assinado por David French. “Sim, precisamos que políticos façam o melhor para o crescimento humano, mas a responsabilidade maior para a criação de uma vida virtuosa recai sobre famílias e indivíduos.” O debate está intenso e acusa distinções irreconciliáveis.

Enquanto isso... Robert Mueller, o homem responsável pela investigação de conluio entre Donald Trump e Moscou, virou bonequinho.


O presidente Jair Bolsonaro assinou, ontem, o decreto que facilita a quem quiser a posse de armas. Ao menos por enquanto, deve ficar nisso. Em entrevista ontem à GloboNews, o ministro da Justiça Sérgio Moro negou que o governo trabalhe para facilitar também o porte — o direito de andar armado. “Não existe dentro da minha pasta nenhum movimento neste sentido”, afirmou. “É uma situação diferente, um tema muito delicado.”

Até mesmo na bancada da bala há resistência. “O porte é uma coisa que tem de ser trabalhada com mais cuidado”, argumentou ao Estadão o Delegado Pablo, um dos deputados eleitos pelo PSL. “Não é factível tendo como justificativa apenas a violência urbana. Se não, vamos voltar para o velho oeste.” Ele não é nem de longe o único com reservas.

Pois é... As ações da Taurus despencaram, ontem. Haviam disparado entre os últimos dias de 2018 e os primeiros do novo ano. Mas analistas de mercado avaliam que o decreto ajudará pouco a empresa a melhorar suas vendas. A expectativa é de que a concorrência deve aumentar, principalmente com a entrada de estrangeiros. (Folha)

Cultura


Você liga o seu celular, abre um aplicativo de uma plataforma de streaming e não precisa se preocupar com mais nada. Com seus algoritmos, esses serviços tentam há tempos resolver o desafio da tomada de decisão: eles ordenam músicas e servem a você exatamente o que você gosta, ad infinitum. Mas a ansiedade de muita escolha persiste — até as nossas experiências auditivas agora são planejadas. Isso pode explicar a popularidade renovada da rádio on-line, que oferece um ‘alívio humano’ à tecnologia e ainda não foi totalmente integrada ao status quo das principais plataformas. Estações independentes no mundo todo estão esculpindo um nicho que, em alguns aspectos, parece ser a última oposição do homem contra a máquina.

Isto posto... No Reino Unido, números da indústria fonográfica britânica mostraram que o consumo digital de música clássica aumentou 42% em 2018 — em comparação com um aumento de 33% em todo o mercado musical online. O streaming agora representa um quarto do consumo do gênero.

E já tem gente de olho nisso. Criado em 2015, em Berlim, o Idagio é uma plataforma totalmente voltada ao mercado erudito. (Folha)

Uns vão de Laurence Olivier. Outros, de Kenneth Branagh numa pegada oitocentista. Tem o clássico Richard Burton, o humor de Charlie Chaplin, a sofisticação de John Gielgud. Sempre dá para seguir um caminho contemporâneo, vá, talvez Benedict Cumberbatch. Há até quem tolere um padrão Mel Gibson. Forçando a barra dá pra chegar num Donald Trump. Agora: um stormtrooper?

Viver


Um artigo de Malcolm Gladwell na The New Yorker deu início a uma polêmica sobre a legalização da maconha. Isso porque, enquanto conta sobre o trabalho do ex-jornalista do New York Times Alex Berenson em seu novo livro Tell Your Children: The Truth About Marijuana, Mental Illness, and Violence (Amazon), que questiona se a maconha é tão segura quanto as pessoas pensam, Gladwell sugere uma ligação causal entre a maconha e a saúde mental dos usuários e as altas taxas de criminalidade onde a droga foi legalizada. Nas redes sociais, as reações foram imediatas.

Na The Atlantic, James Hamblin respondeu: “Se há algo em que haja concordância unânime sobre a maconha, é que precisamos estudá-la mais. Isso não aconteceu durante décadas porque era considerado pelas agências reguladoras como um mal irrefutável, um vício perigoso que, se você fosse encontrado possuindo, deveria arruinar sua carreira e roubar sua liberdade. Esta é a narrativa que tais artigos e livros alimentam.”

E a turma do The Upshot, do New York Times, resolveu se debruçar sobre o tema. Para responder se o uso da droga aumenta o crime, os acidentes de carro ou a tendência à esquizofrenia, eles usaram o que chamam de “melhores métodos e evidências”. É o caso de um estudo que utilizou o método de controle sintético e mostrou que era possível prever o aumento de crimes em Colorado ou em Washington apenas com base nas tendências vistas em estados parecidos com eles, mesmo sem a legalização. O mesmo sobre os acidentes de carros: as taxas de fatalidade relacionadas à maconha não aumentaram mais após a legalização do que o que era de se esperar olhando as tendências e dados de outros estados. Já sobre concluir que a cannabis causa esquizofrenia, a culpa é de um frequente erro de interpretação: existe nos estudos uma associação, não a causalidade. Isso não significa, no entanto, que devemos pensar que a maconha é inofensiva — não é. Mas ela é mais segura que o álcool e o tabaco.

 

Enquanto isso... Segundo novos dados do Conselho Nacional de Segurança americano, pela primeira vez na história, os americanos são mais propensos a morrer de overdoses de opioides do que acidentes de carro. Pois é. Nos EUA você tem uma chance em 103 de morrer em um acidente de automóvel durante sua vida, mas uma em 96 de morrer de uma overdose de opiáceos.

A China conseguiu que uma semente de algodão brotasse na Lua pela primeira vez. A conquista faz parte dos experimentos da Sonda Chang'e 4, que pousou com sucesso na face oculta do satélite em 3 de janeiro. Essa seria a primeira ‘miniexperiência’ bem-sucedida em solo lunar.

Cotidiano Digital


A inspiração bem poderia ser o Epcot Center, dentro do complexo Disney World. Mas é na China, mesmo: a Huawei está erguendo seu quartel general na cidade de Dongguan. A planta do campus é formada por doze módulos, cada qual com o nome de uma cidade europeia. Entre elas, Granada, Paris e Verona. E os prédios de cada uma destas regiões remetem à arquitetura daqueles lugares. São cópias — oito das 12, prontas. Dividido em dois e cortado por um lago, o campus é ligado de uma ponta à outra por uma réplica da Ponte da Liberdade, que liga Buda e Peste, na Hungria. Ao final, metade dos 25 mil empregados da companhia trabalharão lá. (Em vídeo a dimensão da coisa fica mais clara.)

Com as contas apertadas, mesmo que neste ano um concorrente de peso com a marca Disney esteja para ser lançado, a Netflix decidiu aumentar os preços no mercado americano em até 18%.

A FAA, agência reguladora americana de aviação, estuda permitir que drones sobrevoem multidões — desde que mantendo uma altitude mínima de 120 metros e que pesem até 250 gramas. Outra regra que pode ser flexibilizada é a do voo noturno, mas para isso o piloto terá de passar por um curso especializado e o drone deve ter sistema anticolisão. Conforme a tecnologia se populariza e é testada, a tendência é de que as regras sejam afrouxadas aos poucos.

O curta Merger, do diretor japonês Keiichi Matsuda, imagina o futuro do trabalho numa sociedade obcecada por produtividade. No Vimeo. Ou, em versão 360°, no Facebook. Talvez só Hiper-reality, do mesmo diretor, mostre uma distopia pior.





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16 de janeiro de 2019
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