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7 de fevereiro de 2020
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Prezadas leitoras, caros leitores —

Há um vírus que pode causar uma pandemia na China. As eleições nos EUA, que terão impacto direto no Brasil, complicaram para o lado dos democratas. Houve uma troca de ministro na Esplanada. Notícias de alta relevância, não faltam. Nesta edição do Meio, porém, escolhemos por manchete uma notícia local de Rondônia.

Sérgio Porto, que nos anos 1960 assinava na imprensa carioca com o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou naquela década uma série de três livros que, no conjunto, batizou Febeapá. Festival de Besteira que Assola o País. Era uma forma de, sentado em sua fictícia mansão dos Ponte Preta, apontar os fatos absurdos da Ditadura militar. Não as atrocidades, mas as ignorâncias.

Ontem, a Secretaria de Educação de um dos estados brasileiros mandou confiscar livros de Machado de Assis, Mario de Andrade — sobrou até para Os Sertões, a narrativa que Euclides da Cunha escreveu sobre o massacre de Canudos. A ordem foi suspensa. E ainda assim não há notícia mais absurda. Chocante. Estúpida. Porém sintomática do Brasil de 2020. Abriria, por certo, um quarto Febeapá.

— Os editores


Rondônia manda censurar clássicos, aí desiste


A Secretaria de Educação de Rondônia redigiu ofício com uma lista de 42 livros que as bibliotecas das escolas públicas deveriam retirar das estantes, encaixotar e devolver. Os títulos incluem Memórias Póstumas de Brás Cubas, Os Sertões e Macunaíma — três dos maiores clássicos da literatura brasileira. Além de Machado de Assis, Euclides da Cunha e Mario de Andrade, também foram listados no índex Ferreira Gular, Carlos Heitor Cony, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, Franz Kafka e Edgar Allan Poe. De acordo com o alerta do governo, as obras são impróprias para crianças e adolescentes. (Globo)

A primeira reação do governo, quando o ofício começou a circular nas redes, foi de negar. Um site local chegou a afirmar tratar-se de fake news. Após a confirmação por professores que já haviam feito o recolhimento, a versão mudou. A Secretaria teria recebido uma denúncia, seus técnicos examinaram as obras, e constataram que eram clássicos — portanto o estudo era interno. Mas o ofício foi distribuído pelo sistema computadorizado do governo, está em nome do secretário, embora leve a assinatura eletrônica de sua número três. (Estadão)

Rondônia é governada pelo coronel PM Marcos Rocha, hoje no PSL, que faz campanha usando camiseta com o rosto do presidente Jair Bolsonaro. Foi o primeiro governador do país a anunciar a intenção de se filiar ao partido Aliança. (Tudo Rondônia)

O ato de censura viola o artigo 220 da Constituição.

Bolsonaro vai levar ao Congresso proposta de redução do ICMS. Mesmo reconhecendo que deve sofrer pressão dos governadores, o presidente disse que o texto já está pronto. A ideia do governo é mudar a forma de cobrança do imposto que incide sobre a gasolina e o diesel para acelerar a chegada dos cortes feitos nas refinarias ao consumidor. “Gasolina baixou na refinaria hoje e quanto acham que vai baixar na bomba? Zero. Estou fazendo papel de trouxa aqui”, disse. (Estadão)

Pois é. Durante a semana, Bolsonaro chegou a lançar um desafio que se os governadores reduzissem o ICMS, o governo zeraria os impostos federais sobre os combustíveis. A proposta não foi bem recebida nos estados. O governador de São Paulo, João Doria chegou a chamar a decisão de populista. (Folha)

Miriam Leitão: “O desafio do presidente da República aos governadores é impossível de ser cumprido. O governo federal, que está com déficit há seis anos, abriria mão de até R$ 28 bilhões. Se cumprissem o desafio feito pelo presidente, alguns estados seriam punidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. O país teria que cortar na educação e na saúde, por exemplo, para subsidiar quem usa automóvel a gasolina. A proposta não tem pé nem cabeça. O ministro Paulo Guedes deveria deixar isso claro. Ele sabe e tem repetido que é preciso zerar o déficit fiscal e fazer as reformas, com ajuda dos estados, para equilibrar as contas do país. Por trás do desafio do presidente está uma tentativa de manipular a opinião pública. Bolsonaro quer passar a ideia de que todo o aumento no preço dos combustíveis é culpa dos governadores.” (Globo)

E teve baixa no governo. Saiu Gustavo Canuto e entrou Rogério Marinho no Ministério do Desenvolvimento Regional. Essa é quinta mudança ministerial desde o começo do ano. Ao tirar Marinho da Economia, Bolsonaro pode prejudicar o andamento da agenda de reformas de Paulo Guedes. Marinho foi o responsável pela ponte entre Executivo e Legislativo durante a reforma da Previdência. Seu nome para o cargo, porém, foi indicação do próprio Guedes. (Globo)

Meio em vídeo: Você sabe como a eleição americana pode impactar o Brasil? Assista.

Pela primeira vez, a Primeira e Segunda Turmas do STF são presididas por mulheres simultaneamente. Rosa Weber assumiu na terça-feira o comando da Primeira. E, desde o ano passado, Cármen Lúcia lidera a Segunda. Isso significa mais poder para elas, como escolher a data de julgamento dos processos e a tarefa de chamar cada ministro para proferir o voto. Essa última faz diferença. Em minoria, as vozes das ministras costumam ser menos ouvidas nos julgamentos. E quando falam são, muitas vezes, interrompidas. Cármen Lúcia já reclamou desse comportamento em 2017 e mencionou uma pesquisa americana que concluiu que os ministros homens interrompem as mulheres aproximadamente três vezes mais do que interrompem a si mesmos. (Época)

A delação do ex-governador preso Sérgio Cabral foi homologada pelo ministro Edson Fachin, do Supremo. O acordo, que deve permanecer sobre sigilo, não estabelece previamente benefícios penais. Por isso, ainda não é possível saber quando Cabral sairá da prisão, onde está desde 2016. A delação foi homologada pelo STF porque Cabral, em seus depoimentos, citou ministros do STJ, que têm foro privilegiado. Antes de homologar, Fachin pediu uma manifestação do procurador-geral da República Augusto Aras, que se manifestou contra. Para ele, Cabral ocultou informações e protegeu pessoas durante sua negociação com a Lava Jato do Rio. A PGR entrará com recurso argumentando que Cabral não acrescentou praticamente nada à investigação. (Globo)


Aproveitando que é o fim de semana ideal, o Meio deste Sábado vai contar a história do boom de startups que ocorreu na Califórnia, explorando tecnologia de ponta, e criando assim uma indústria mundial que causou impacto único, mexendo com a imaginação do século 20. É a história de como nasceu Hollywood e, com ela, sua mais estupenda ferramenta de divulgação e marketing: os Oscars, cuja edição 2020 será no domingo. É uma história que se confunde com a ascensão americana na geopolítica mundial mas é, também, uma história da indústria de tecnologia, Hollywood foi o primeiro Vale do Silício. Todos os assinantes premium recebem — e, vocês sabem, a assinatura não custa quase nada. Assine.


Uma Petra no sapato e a mamadeira de Piroscar

Tony de Marco & @raphabaggas

 
Piroscar

Histórias para ouvir

Histórias para ouvir


Como contamos na edição de ontem, audiobooks estão em alta. E a assinatura da Storytel, além de todo o acervo em português, dá acesso também ao catálogo global deles, em língua inglesa. Um leque maior para quem domina o idioma, ou uma oportunidade para aproveitar e treinar o ouvido. E os leitores do Meio têm direito a experimentar o Storytel por 30 dias. Sem custo. Experimente.

E por falar... Entre as opções em inglês está a autobiografia da lenda de Hollywood, Kirk Douglas, que partiu essa semana. Kirk estrelou 83 filmes, nove peças, escreveu sete livros e assumiu um compromisso notável com causas humanitárias em todo o mundo. Em My Stroke of Luck, o ator narra, junto com o filho Michael, sua reflexão pessoal sobre a vida, oferecendo um sincero livro de memórias. Ele também compartilha lembranças calorosas de algumas das figuras mais famosas do nosso tempo - incluindo Burt Lancaster, Michael J. Fox e Gary Cooper.

 

Viver


Li Wenliang, apontado como um dos primeiros a identificar a existência do surto do novo coronavírus e alertar as autoridades, morreu nessa madrugada. O médico de 34 anos foi um dos oito que a polícia chinesa investigou sob acusação de "espalhar boatos" relacionados ao surto. Ele era casado e tinha uma filha de cinco anos. As autoridades da China anunciaram a abertura de uma investigação. (Estadão)

Ainda sobre o coronavírus, o primeiro caso envolvendo um latino-americano foi anunciado. O Ministério da Saúde do Japão informou que um dos 61 contaminados registrados entre os passageiros do navio de cruzeiro Diamond Princess é um argentino. A embarcação, que transportava 3.700 pessoas, está em quarentena na costa do Japão. A identificação do passageiro não foi divulgada. As autoridades divulgaram a nacionalidade de 41 passageiros infectados: são 21 japoneses, oito americanos, cinco canadenses, cinco australianos, um britânico e um argentino. Segundo o diário El Clarín, oito argentinos estão a bordo.

Os números estão dobrando a cada 4 dias. Já são mais de 30 mil infectados e mais de 600 mortos. (NYT)

Cultura


Em São Paulo, o Balé da Cidade estreia hoje A Biblioteca de Babel, nova coreografia de Ismael Ivo inspirada no conto de Jorge Luís Borges. Aos 80 anos, o ator Antonio Pitanga está em cartaz no Sesc Consolação com a peça Embarque Imediato, escrita pelo dramaturgo baiano Aldri Anunciação. Os filhos Rocco (em cena) e Camila (por vídeo) contracenam com o pai Reestreia hoje no CCSP As Mãos Sujas, peça de Jean-Paul Sartre que discute formas de engajamento político. Sob direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, a primeira montagem brasileira do texto estabelece um diálogo com o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha. Hoje o Trio Corrente leva ao JazzB o repertório do disco Tem que Ser Azul, enquanto a cantora francesa Camille Bertault se apresenta no JazzNosFundos acompanhada do pianista Salomão Soares. Veterano do samba, Nelson Sargento celebra 95 anos em show amanhã no Sesc Pinheiros. Ela estará acompanhado da cantora Francineth e do grupo Batuqueiros e sua Gente. A banda Hurtmold toca hoje no Sesc Belenzinho. Já em ritmo de carnaval, a Casa de Cultura Chico Science recebe, ao longo do sábado, apresentações dos blocos Ilú Obá de Min, Jegue Elétrico e Zumbiido.

No Rio, curadores, intelectuais e gestores como Paulo Herkenhoff, Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Gradim participam na quarta do Encontro #MARé, que reflete sobre os 7 anos do Museu de Arte do Rio, sua atual crise de financiamento e as condição necessárias para assegurar seu futuro. Hoje à noite tem dobradinha na Fundição Progresso com shows de Luedji Luna e de Liniker e os Caramelows. Amanhã, Criolo se apresenta no Morro da Urca enquanto, no Circo Voador, Adriana Calcanhotto recebe Mahmundi e Rubel para o show Margem, cuja abertura é de Ana Cañas. A artista Ana Luiza Moraes exibe a série Abissais, com fotografias e cartões-postais modificados para refletir sobre a passagem do tempo, no Centro de Artes UFF. A Casa das Pretas sedia amanhã o debate Mulheres negras na literatura, com a participação de Lubi Prates, Miriam Alves e Mirian Santos; a mediação será de Heleine Fernandes. Após a conversa haverá leitura de poemas. A Casa da Escada Colorida abre amanhã a coletiva Pro Tempo Levar, com obras de 9 artistas que passaram seis meses em residência ali. Para mais dicas culturais, assine a newsletter da Bravo!

Senta que lá vem história. Começava quando a família se reunia em frente à TV e assistia à abertura, uma sequência de armadilhas que terminava com um bolo de aniversário explodindo na tela. A televisão imaginária com a qual pais e filhos interagiam era uma câmera posicionada com uma luz abaixo dela e uma folha de gelatina. “Quando começávamos a gravar, eu tirava os pregadores de madeira que prendiam a gelatina azul e estourava a luz branca, e regravávamos tudo de novo. Era uma molecagem que eu fazia", relembra João Victor D'Alves, o Ivo do Castelo Rá-Tim-Bum. O vídeo.

Para curtir com calma...uma reportagem especial sobre os profissionais que trabalharam no Rá-Tim-Bum, programa que estreou há 30 anos na TV Cultura.

Cotidiano Digital


Uma lei russa apelidada de Lei contra a Apple começa a vigorar em julho. O texto exige que todos os smartphones venham com aplicativos do governo pré-instalados. Os apps vão permitir que as autoridades russas tenham acesso a registros financeiros, localização e conversas privadas sem autorização do usuário. A prática vai contra a política da Apple que proíbe aplicativos de terceiros pré-instalados e faz campanha por privacidade. Mas não é tão simples sair da Rússia — o mercado vale US$ 3 bilhões. Ainda não se sabe qual será a decisão da empresa.





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7 de fevereiro de 2020
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