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20 de março de 2020
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Prezadas leitoras, caros leitores —

Na edição deste Sábado, vamos mergulhar na vida passada dentro de casa. A lida com trabalho e com filhos, com o tédio e a falta de amigos. Uma edição de dicas, com o aprendizado de quem já tem experiência, e também de ideias, de reflexões sobre esta nova época na qual entramos nós, humanos.

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Brasil fecha suas fronteiras


O governo brasileiro fechou as fronteiras com Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Paraguai, Peru e Suriname. A entrada no Brasil por vias terrestres fica restrita por quinze dias, mas há exceções. Brasileiros, residentes e estrangeiros em missão de organismos internacionais podem vir. Outra portaria suspendeu por um mês a entrada de estrangeiros vindos de uma lista de países que incluem os membros da União Europeia, Islândia, Noruega, Suíça, Reino Unido, Austrália, Japão, Malásia e Coreia do Sul. E, apesar de já não ter mais casos de contaminação comunitária, também com a China foi cortado o fluxo. A decisão é interpretada por alguns como uma resposta do Planalto à queixa do embaixador chinês, Yang Wanming. (Estadão)

Ontem, o deputado Eduardo Bolsonaro voltou a atacar os chineses via Twitter. “Jamais ofendi o povo chinês”, ele escreveu. “A comparação entre o ocorrido em Chernobyl e o alastramento do coronavírus não é novidade pois ambos os casos ocorreram em países cuja liberdade de expressão e imprensa são limitados pelo governo.” E, novamente, a Embaixada respondeu, subindo o tom. “São absurdas e perconceituosas as suas palavras, além de ser irresponsáveis. Não vale a pena refutá-las. Aconselhamos que busque informações científicas e confiáveis nas fontes sérias como a OMS, úteis para ampliar a sua visão.” (Twitter)

O Itamaraty soltou nota oficial afirmando que o embaixador foi desrespeitoso com o presidente Jair Bolsonaro. Porém, nos bastidores, circula a informação de que o presidente ficou irritado com o filho. Segundo Lauro Jardim, ele cogita ligar para o presidente Xi Jinping para pôr fim à crise. (Globo)

Pois é... Bolsonaro não se conforma com o novo coronavírus. Em sua tradicional live de quintas-feiras, afirmou que quer saber “até que ponto o vírus influenciou” nas mortes. A teoria do presidente é que as pessoas também têm outras doenças e que há exagero em estabelecer só uma causa. Ele se queixou também dos governadores. “Mas eu deixo claro que o remédio quando é em excesso pode não fazer bem ao paciente. Uns fecharam supermercados, outros querendo fechar aeroportos. Outros querendo colocar barreiras nas divisas aí entre os Estados, fechando academias. A economia tem que funcionar. Caso contrário, as pessoas não vão ficar aí se alimentar do nada.” (Poder 360)

Enquanto isso... Na Argentina, o presidente Alberto Fernandez determinou quarentena em todo o país até o dia 31. Todos devem permanecer em casa e os negócios não essenciais devem fechar. (Clarín)

Bolsonaro está sob pressão. Parlamentares ligados ao setor ruralista, que formam parte de sua base, passaram o dia em plena irritação com a crise artificialmente provocada com a China. O país é o maior comprador brasileiro. O vice-presidente Hamilton Mourão, em geral discreto, também se manifestou. “O Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha não era problema nenhum. Só por causa do sobrenome. Ele não representa o governo.” Eduardo Bananinha virou o principal assunto no Twitter. (Folha)

De sua parte, o escritor e guru familiar Olavo de Carvalho partiu para atacar os militares. “Desde o início do seu mandato, aconselhei ao presidente que desarmasse os seus inimigos ANTES de tentar resolver qualquer ‘problema nacional’. Ele fez exatamente o oposto. Deu ouvidos a generais isentistas, dando tempo a que os inimigos se fortalecessem enquanto ele se desgastava em lacrações teatrais.” (Facebook)

Vera Magalhães: “O incidente sinobrasileiro foi mais uma crise desnecessária, provocada por obra e graça da família Bolsonaro, em meio à pandemia do novo coronavírus. Enquanto isso, na vida real, existe uma clara queda de braço entre o governo federal e os governos dos Estados quanto ao tom e a dureza das medidas para enfrentar o surto. Enquanto Bolsonaro, mesmo depois das primeiras mortes e da crescente oposição a seu governo vista nos panelaços e nas redes sociais, insiste que não se pode ‘parar a economia’, os governadores adotam dia a dia medidas mais restritivas à circulação das pessoas e ao comércio. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deu uma coletiva bastante diferente das que vinha concedendo até aqui. Depois de fazer várias referências políticas a um enciumado Bolsonaro, fez uma entrevista em que pareceu afrouxar as recomendações de distanciamento social e isolamento, restringindo-as a quem tem sintomas e convive com pessoas de mais de 60 anos. A reação das redes sociais foi imediata, e assessores do ministro foram vagos quanto ao significado das novas orientações. Ele causou perplexidade ao recomendar que universidades e escolas retomassem atividades, na contramão das deliberações das redes privadas de ensino em todo o país e de administrações estaduas e municipais. Se a determinação de Mandetta parece mais flexível, é de se perguntar por que, então o governo federal fechou as fronteiras com todos os países, menos o Uruguai.” (BR Político)

Meio em Vídeo: Precisamos começar a falar sobre o que significaria um terceiro impeachment em trinta anos.


Estamos no caminho certo

Tony de Marco

 
Bolsonabismo

Viver


Em situação grave, a Itália ultrapassou a China no número de mortes, chegando a 3.405 pessoas. Os países europeus já avisaram que vão ter que estender os seus períodos de quarentenas, antes previstos para até abril.

Pelo mundo, já são mais de 10 mil mortes. No Irã, a doença faz uma vítima a cada 10 minutos.

Políticas de isolamento seguem sendo as mais efetivas. Os EUA e o Reino Unido mudaram radicalmente suas posturas depois de estudo do Imperial College de Londres sobre o tema: se as quarentenas não fossem aplicadas, mais de 250 mil ingleses e 1,2 milhão de americanos morreriam.

Apesar de não estarem nos grupos de riscos, jovens estão entre as vítimas ou casos mais graves da doença. 705 dos quase 2.500 casos de coronavírus nos EUA, tinham entre 20 e 44 anos. Entre 15% e 20% acabaram no hospital, incluindo 4% que precisavam de cuidados intensivos. Na China, entre as duas mil crianças com Covid-19, cerca de 11% ficaram em estados graves ou críticos.

Os cientistas seguem estudando se é possível pegar a doença mais de uma vez. Em casos de pacientes que foram “curados” e depois apresentaram novamente os sintomas, a dúvida é se o paciente foi infectado novamente ou se o vírus continuava no organismo e apenas se recuperou.

E circulou a notícia de que a droga usada no tratamento de malária seria um remédio contra a doença. Mas não é bem assim: ainda não foram feitos testes clínicos. Mesmo assim, Trump chegou a pedir para a FDA, agência reguladora americana, que acelerasse a aprovação do potencial remédio. O seu uso contra a doença, no entanto, ainda está restrito a apenas alguns relatos de médicos na França, China e Coreia do Sul de que a droga aparentemente ajuda no tratamento. Em testes in-vitro feitos por pesquisadores chineses, a hidroxicloroquina inibiu os efeitos do vírus.

Os últimos dados do Ministério apontam que o Brasil tem 621 casos confirmados e sete mortes. Mas o presidente do Hospital Albert Einstein estima 15 casos não rastreados para cada paciente notificado. Para Sidney Klajner, o pico deve vir em duas semanas.

Uma operação de guerra já começou no sistema de saúde brasileiro. A UTIs estão cancelando as cirurgias sem urgência para se preparar para receber pelo menos 5% dos infectados que serão casos graves. Na linha de frente, as UBS fazem uma triagem rápida para selecionar entre os casos graves e os mais leves que só recebem orientação de como ficar isolados em casa. Os problemas ainda, no entanto, são a distribuição regional desigual e a lotação dos leitos.

Um gráfico interativo para comparar a curva de evolução dos casos do Brasil com outros países.

Em meio a pandemia, iniciativas altruístas têm se espalhado pelo Brasil e mundo. Tem de distribuição de álcool em gel a compras para idosos. Nos EUA, as séries de TV sobre médicos estão doando máscaras e outros equipamentos para os hospitais.

O coronavírus também tem inspirado obras artísticas. Veja fotos.

E um bot do jornal Globo que tira dúvidas e checa desinformações sobre o vírus.

Nos últimos meses, Wuhan virou símbolo da epidemia. Mas a cidade chinesa, conhecida como Chicago da China, é mais do que o vírus. Em quadrinhos, a escritora Laura Gao conta a história de sua cidade natal, sua cultura e culinária.

Em tempos de quarentena, o risco de violência baseada em gênero aumenta. Nos EUA, a Linha Direta Nacional de Violência Doméstica relata que cresceu o número de casos de agressores que estão usando o coronavírus como um meio de isolar mulheres ainda mais de seus amigos e familiares. Na China, triplicou o número de violência doméstica em fevereiro comparado com o mesmo período do ano passado. As quarentenas e redes de saúde abarrotadas tornam ainda mais difícil para as vítimas buscarem ajuda. As soluções ainda são desconhecidas. Mas especialistas recomendam políticas específicas para dar mais independência financeira para as vítimas e canais digitais para reportarem abusos.

A vida para quem desenvolveu a Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, não está fácil. Em seu Instagram, o vereador Gabriel Azevedo, de Belo Horizonte, mostrou o diálogo com um eleitor que conta de como vem sofrendo preconceitos dos colegas de trabalho.

Cultura


Na ausência de programação para fazer fora de casa, a Bravo! construiu algumas listas para a quarentena.

Há, por exemplo, discos para ouvir enquanto trabalha: Piazzolla: 4 Seasons of Buenos Aires (Duo Granato), Singularity (Jon Hopkins), Ethiopian Modern Instrumentals Hits (Vários), Magdalene (FKA twigs) e Nymphs (Nicolas Jaar). Todos os links para o Spotify.

Ou, então, filmes para rir enquanto pensa: Melhor é Impossível (HBO); Green Book: O Guia (Prime Video); Frances Ha (Netflix); Birdman (Netflix); O Cidadão Ilustre (Netflix)

A atriz israelense Gal Gadot, de Mulher Maravilha, publicou em seu Instagram um cover de Imagine, música de John Lennon. O clipe improvisado com celulares inclui, cada um em sua casa ou jardim, Natalie Portman, Will Ferrell, Mark Ruffalo, Norah Jones, Sai entre outros.

Cotidiano Digital


Além de terem aumentado o uso, as quarentenas já mudaram o perfil de consumo da internet. Os brasileiros têm ficado online como se fosse domingo: iniciam o uso mais cedo pela manhã, chegando o pico à noite, segundo o IX.br, projeto do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Apesar do leve aumento, o Brasil não deve sofrer com interrupção do serviço.

Mesmo assim, o coletivo Intervozes pediu para a Anatel que proíba durante 90 dias a suspensão de serviços ou a cobrança de excedente caso sejam ultrapassados os limites de franquia.

Aliás. O aumento é mundial. Na Europa, países como Alemanha e Reino Unido aumentaram entre 10% a 20% seu consumo de internet. A Netflix e o YouTube até pararam de transmitir em alta definição nos países para não sobrecarregar o sistema.





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20 de março de 2020
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