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Aos impérios cabe exibir os seus troféus

Foto: Ernesto Benavides/AFP

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Prisão de Maduro mostra que fundamentos políticos liberais do século 20, como direito internacional e multilateralismo, saíram de cena

No ano de 46 A.C., Vercingetórix, líder militar gaulês que se opôs à ocupação romana, foi exibido como um troféu de guerra por um triunfante Júlio César pelas ruas de Roma. A procissão, um marco do processo de transformação da República Romana em Império, serve como um marcador importante de uma premissa que encontra recorrência no tempo: Impérios se perpetuam pelos seus triunfos, que são exibidos como troféus em praça pública.

Dado o devido salto temporal, e tendo em mente que o poderio dos Estados Unidos de 2025 faz da república nascida de treze colônias um império com capacidade de projeção de poder nos quatro cantos do globo, é possível compreender o impacto e o recado simbolizado pela captura de Nicolas Maduro no primeiro fim de semana de 2026. Em primeira instância, vale compreender a ação por aquilo que ela não é:  Trump não está revivendo a Doutrina Monroe, que é um fenômeno circunscrito a um momento específico da história, e não se repete.

A abordagem da Casa Branca é uma demonstração de realismo ofensivo, termo calcado na Teoria das Relações Internacionais e cujo um dos principais expoentes é John Mearsheimer. O teórico compreende que a política e o sistema internacional são efetivamente dominados pelas grandes potências, que devem reagir sem hesitação quando seus interesses e segurança estiverem sendo ameaçados.

Ato contínuo deste movimento, ao recalibrar as prioridades internacionais dos EUA para o Hemisfério Ocidental, a Doutrina Trump se torna mais efetiva ao ser reducionista. O elemento central de seu reducionismo é a adoção de um nível de pragmatismo — retórico e estratégico — que não deixa espaço para considerações ideológico-simbólicas, tais como defesa da democracia ou expansão de liberdades.

Esta premissa é importante, sobretudo, por encetar uma necessidade do nosso tempo: a compreensão de que, a menos que a conjuntura internacional se altere profundamente, fundamentos históricos que marcaram o século 20 saem de cena, tais como a diplomacia, o multilateralismo e o conceito de igualdade entre as nações. Em seu lugar, adentram-se outros, marcadamente o uso da força, a capacidade de ameaça e o constrangimento daí derivados.

O movimento da administração Trump em direção ao chavismo resguarda em si todos os componentes do uso da força sem hipocrisia. Isto significa que a assunção pelo próprio presidente dos EUA e seu secretário de Estado, Marco Rubio, de que a ação envolveu petróleo, o controle das cadeias produtivas e, em última instância, o retorno de investimentos que haviam sido feitos por empresas americanas e perdidos graças aos processos de expropriação e gestão negligentes de Maduro, dão o tom daquilo que se almeja.

O que se almeja é segurança, em termos energéticos, comerciais e econômicos e, caso necessário, ideológicos. Trump, Rubio e a sua Estratégia Nacional de Segurança abandonam a ideia de alianças no Hemisfério Ocidental e assumem nitidamente a preocupação com alinhamento. E qual a diferença? A ideia de que enquanto aos aliados cabe a discordância, aos alinhados cabe a submissão.

No novo momento, o que se produz em termos explícitos é a caracterização de que o uso da força é algo a ser feito, consubstanciado repetidamente na fala de Trump de que os Estados não possuem um governo fraco. O efeito prático desta postura é um abandono da noção de que a soberania é um valor absoluto por pura obediência a uma norma jurídica. Assim, os Estados Unidos atuam na Venezuela e atuarão em outros lugares, dando um recado claro para dois grupos distintos de atores: aqueles que se julgam no mesmo patamar — tais como, China e Rússia — e aqueles que estão em condição de inferioridade, caso explícito do restante do continente americano.

Isto permite avançar para a segunda instância desta reflexão, utilizando como elemento explicativo os dois grupamentos de países acima expostos. Aos primeiros, Rússia e China, grandes beneficiários da gestão chavista do petróleo venezuelano até aqui, o impacto da vitória de Trump é colocá-los em uma posição de Tigres de Papel. Seus apoios e capacidades de fornecimento de garantias significam muito pouco ante o poderio dos Estados Unidos, e eles devem ter cautela com o nível de interação que constroem em uma zona de poder centrada em Washington.

O espectro de uma Venezuela controlada por Washington gera calafrios nos formuladores da política externa brasileira

Este recado, por sua vez, impacta também outros atores regionais, que passam a observar com bastante cautela seus próprios espaços de ação e manobra. O Brasil, em específico, se insere nesta categoria em um duplo recorte: o primeiro derivado do fato de que o lulopetismo foi ao longo do tempo um entusiasta de primeira hora do chavismo. Se o apoio entusiasmado dos primeiros mandatos de Lula foi forçosamente transformado em condescendência ao longo do atual exercício do governo, o espectro de uma Venezuela controlada por Washington gera calafrios nos formuladores da política externa brasileira.

Esse cenário permite alcançar o segundo recorte, a erosão da liderança brasileira na América do Sul. É fato que, com exceção da administração Bolsonaro, todas as presidências brasileiras da Nova República buscaram consolidar algum tipo de projeto de coesão sul-americana. É fato também que este movimento sempre esbarrou na ausência de condições materiais para sua efetivação. Seja a falta de recursos financeiros do Estado Nacional ou a falta de um ecossistema de negócios capaz de cooptar pares na vizinhança, a integração sul-americana sempre foi um sonho acalentado pela dinâmica de um eixo de integração Caracas-Brasília-Buenos Aires.

Vale pontuar: se Lula é o mesmo, a região mudou. Ao mesmo passo em que o presidente brasileiro segue tendo o interesse e a capacidade de flanar pelos salões de negociação multilaterais, estes estão cada vez mais vazios. Das dificuldades de acometimento nos encontros do G20 e da COP30, passando pela inamovível incapacidade da União Europeia em se colocar com um parceiro comercial confiável, o que se percebe é o estreitamento das janelas de oportunidades para uma potência média.

O ano de 2025, neste sentido, foi bastante pródigo em lições para o Brasil e seus decisores. Afinal, ao mesmo passo que mostrou a possibilidade de construir alternativas que mantenham a cabeça erguida por alguns rounds — caso das sanções tarifárias e derivadas da Lei Magnitsky contra um membro da Suprema Corte —, mostrou também que a falta de consenso em torno de uma agenda de país tende a ser muito bem explorada por aqueles que vivem do dissenso.

Se no caso venezuelano foi a erosão do consenso provocada pela guinada autoritária que transformou Nicolas Maduro em uma versão moderna de Vercingetórix, no caso americano é a pressão interna — de âmbito econômico e moral — sobre Trump que o encaminha para uma posição de emulação Júlio César. Ambos os movimentos são um recado que afeta diretamente a crença de que ao menos no Hemisfério Ocidental há espaço para alternativas de sobrevivência que escapem dos desejos da Casa Branca. Tais ensaios, mostrados em movimentos e falas — como as que resultaram no condicionamento de um empréstimo à Argentina a um bom desempenho do Governo alinhado nas urnas — podem ser desdobrados em ações de força, sejam elas contra Caracas, Bogotá ou a Groelândia.

O risco de atrito entre os grandes atores será intercambiado pela capacidade de impor sua vontade em zonas específicas de influência

A partir de uma perspectiva analítica de que uma ação de força dos Estados Unidos contra o Brasil ou a Dinamarca (detentora da soberania sobre a Groelândia) seria efetivamente mais onerosa do que o movimento feito sobre a Venezuela, é preciso ter em mente que em ambos os casos, o prognóstico mais provável seria de vitória americana. Tendo em vista que a atual configuração do sistema internacional deixa clara a possibilidade que o mundo esteja transicionando para uma versão atualizada do tratado de Tordesilhas em que Estados Unidos, China e, com alguma sorte, Rússia sejam detentoras de áreas de influência geograficamente relevantes. Parece claro que a resultante deste processo, caso se consolide, é que o risco de atrito entre os grandes atores será intercambiado pela capacidade de impor sua vontade em zonas específicas de influência.

Tal desejo é uma notícia de difícil digestão para sociedades como a brasileira, acostumada ao longo das últimas décadas com uma condição de relativo isolamento internacional e, consequente espaço de manobra político derivada de uma condição periférica. Esta mudança, por sua vez, significa a necessidade de compreensão por aqueles que fazem política, dinheiro e negócios de que aquilo que se entendia sobre a realidade possui pouca validade e que, no novo status quo que se apresenta, tão importante quanto não ser exibido em praça pública é identificar aqueles que o serão.


*Colunista do Central Meio e do Meio Político, o mestre em Relações Internacionais Creomar de Souza é sócio fundador da Consultoria de Análise de Risco Político Dharma e professor da Fundação Dom Cabral.

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