O risco do radicalismo como normalidade

Receba as notícias mais importantes no seu e-mail
Assine agora. É grátis.
Aposta no extremismo como forma legítima de disputa de poder esvazia a democracia por dentro
O Brasil está normalizando o radicalismo. Não o radicalismo de ideias — aquele que move transformações históricas e tem dignidade própria —, mas o radicalismo de postura: performático, calculado, alimentado pela lógica das redes sociais e pela economia da atenção. O problema não é apenas que esse fenômeno existe. É que ele passou a ser tratado por parcelas crescentes do eleitorado e da classe política como uma aposta legítima de poder. Quando o radicalismo deixa de ser exceção e vira método, a democracia não colapsa de uma vez — ela se esvazia por dentro. E o que se perde, antes de qualquer instituição, é a crença dos cidadãos comuns de que o sistema existe para protegê-los.
Esse esvaziamento é visível em indicadores concretos: a queda no engajamento de pais em campanhas de vacinação infantil, a redução no número de boletins de ocorrência em áreas progressivamente tomadas pelo crime organizado etc. São sinais de que o pacto social perdeu eficácia percebida. No campo político, esse mesmo esvaziamento produz um efeito igualmente perigoso: a internalização, tanto por parcelas do eleitorado quanto por representantes eleitos, de que ao político cabe apenas performar diante dos dilemas da vida real — não os resolver.
Para compreender esse estado de coisas, é preciso examinar suas origens com precisão.
A Nova República foi construída sobre um pacto implícito: atores com projetos distintos — e às vezes antagônicos — concordavam em disputar poder dentro de regras compartilhadas. Podiam se detestar nos bastidores, mas nas arenas institucionais reconheciam a legitimidade do adversário. Esse pacto nunca foi perfeito; foi, muitas vezes, marcado por hipocrisia. Mas era o que mantinha o jogo em funcionamento.
Sua ruptura tem uma data aproximada e um mecanismo identificável. A partir da segunda metade dos anos 2000, a judicialização da política foi transferindo para o Judiciário tensões que deveriam ser resolvidas no campo político. O que parecia avanço — um Judiciário independente e ativo — trouxe um efeito colateral grave: a deslegitimação progressiva da negociação política como instrumento de governança.
O paradoxo é que o mesmo pacto que sustentava certa civilidade também alimentava, em parcelas significativas da população, a percepção de que a negociação servia de cobertura para a impunidade e o corporativismo. Essa leitura da realidade — presente na literatura desde Raymundo Faoro até análises mais recentes sobre o capitalismo de laços — tornou-se terreno fértil para uma conclusão específica: se a política não era capaz de punir seus próprios excessos, cabia ao Judiciário fazê-lo.
Foi nesse contexto que a operação Lava Jato aprofundou duas interpretações da vida política nacional. A primeira: o adversário político não tem apenas uma posição divergente — ele é o inimigo. A segunda, diretamente derivada da primeira: sendo inimigo, ele deve ser eliminado do jogo, por meios eleitorais ou judiciais. Toda uma geração de atores políticos compreendeu, nesse período, que emoções negativas — indignação, desconfiança, ódio — funcionam como vetores eficazes de atenção e mobilização.
Quando o adversário deixa de ser retratado como humano, desaparece também a obrigação de o tratar como portador de direitos e dignidade
A gramática daí resultante não foi criada pelo bolsonarismo, mas passou a estar disponível para qualquer movimento que desejasse caricaturar o adversário. E quando o adversário deixa de ser retratado como humano, desaparece também a obrigação de o tratar como portador de direitos e dignidade.
Há uma diferença fundamental entre desconfiar de um político e desconfiar de uma instituição. A primeira é saudável — é o ceticismo que mantém o eleitorado vigilante. A segunda reside no campo das crenças, vistas como movimento de depósito de confiança no jogo ou em um ator, e seu efeito é a corrosão do tecido que sustenta a vida coletiva. O Brasil cruzou essa fronteira de forma acelerada na última década. Os dados do Latinobarómetro registram, de forma consistente, que mais de 60% dos brasileiros desconfiam do sistema político como um todo — não de um partido específico, não de um governante, mas do sistema. Isso não é crise de preferência. É crise de legitimidade.
E crises de legitimidade não geram vácuos neutros. Elas criam espaço fértil para discursos que prometem demolir o que não funciona e recomeçar do zero. Do ponto de vista da análise de risco, a desconfiança generalizada opera como amplificador: qualquer crise confirma que “o sistema é podre”; qualquer escândalo prova que “todos são iguais”; qualquer derrota eleitoral pode ser reinterpretada como fraude. O risco deixa de ser evento e passa a ser ambiente. E ambientes de risco crônico são mais difíceis de administrar do que crises pontuais.
Não existe discurso antissistêmico robusto sem uma base prévia de desconfiança institucional. Os dois fenômenos se alimentam mutuamente, mas a sequência importa: primeiro vem a erosão, depois o discurso que a capitaliza. Entender essa lógica é essencial para não tratar o populismo radical como causa quando ele é, antes de tudo, sintoma.
O caso húngaro é o mais instrutivo a esse respeito. A ascensão de Viktor Orbán foi precedida por anos de escândalos e pela percepção generalizada de falência do sistema partidário tradicional — tanto à esquerda quanto à direita. Quando chegou ao poder, em 2010, Orbán não inventou a desconfiança: ele a organizou, deu a ela um inimigo nomeado e uma narrativa de refundação. O resultado, 15 anos depois, é um regime que preserva a forma eleitoral da democracia enquanto esvazia o seu conteúdo.
O Brasil não é a Hungria. Mas a dinâmica é reconhecível e bem identificada por Yasha Mounk em O Povo Contra a Democracia. Consiste em se utilizar da desconfiança institucional elevada de uma classe política incapaz de se reformar com credibilidade e tornar isto um campo discursivo aberto para quem oferecer certezas simples diante da complexidade. A retórica antissistêmica não tem proprietário ideológico fixo — ela migra para onde há audiência disponível. E audiência disponível é o que não falta quando a desconfiança é estrutural.
A eleição presidencial de 2026 ocorrerá em uma conjuntura que combina, de forma rara, instabilidade interna e turbulência externa em níveis simultaneamente elevados. No plano doméstico, a polarização não arrefeceu. O governo Lula enfrenta os limites estruturais de uma coalizão heterogênea e uma oposição que aposta na erosão contínua de sua base. A oposição antissistêmica, mantém capacidade de mobilização e de pauta. Já o Centrão permanece fragmentado e ameaçado por escândalos de corrupção – vide o Caso Master -, e sem lideranças capazes de oferecer uma alternativa crível.
No plano externo, a reconfiguração da ordem internacional — o avanço da Doutrina Donroe (versão de Donald Trump para a Doutrina Monroe), a guerra na Ucrânia sem solução à vista e a escalada da disputa sino-americana — cria pressões que chegam ao Brasil pela via econômica e afetam diretamente o humor do eleitorado. O mecanismo é direto: incerteza externa eleva a percepção de insegurança interna, e insegurança favorece discursos de proteção e força — exatamente o nicho que o radicalismo ocupa com mais eficiência.
Realizar uma eleição nessas condições exige dos atores políticos, das instituições e da sociedade civil um nível de responsabilidade que, por ora, não está claramente visível no horizonte.
Há saída. Mas ela passa por um caminho contraintuitivo para quem está em modo de sobrevivência eleitoral: a pactuação deliberada. Não como ingenuidade ou rendição, mas como estratégia racional diante de um ambiente que ameaça a todos, inclusive a quem aposta no caos como vantagem competitiva.
Pactuação não exige convergência ideológica e sim que os atores compartilhem a percepção de que o colapso institucional não tem vencedor
O Pacto de Moncloa, firmado na Espanha em 1977, dois anos após o fim do franquismo, reuniu forças radicalmente distintas — da direita herdeira do regime à esquerda marxista — em torno de compromissos mínimos que tornaram a transição democrática viável. Não foi um acordo entre aliados. Foi um acordo entre adversários que compreenderam que a alternativa ao entendimento era pior para todos. A lição é precisa: pactuação não exige convergência ideológica. Exige apenas que os atores compartilhem a percepção de que o colapso institucional não tem vencedor — tem apenas gradações diferentes de perdedor.
A África do Sul de Mandela e De Klerk levou esse princípio ao limite. Em um contexto de feridas muito mais profundas do que as brasileiras, produziu um dos processos de negociação mais extraordinários do século 20. O que tornou possível o improvável foi a presença de mediadores críveis — instituições, lideranças civis e religiosas capazes de construir a confiança mínima para que adversários históricos se sentassem à mesma mesa.
No Brasil, esses elementos existem, mas estão dispersos. O sistema eleitoral demonstrou resiliência notável em 2022. No empresariado, na sociedade civil e em setores da mídia, há vozes que insistem na defesa das regras do jogo. Isso não é pouco. Mas falta o ingrediente decisivo: a vontade política explícita de colocar sobre a mesa não apenas o que cada ator quer conquistar, mas o que está disposto a garantir ao adversário — mesmo ao adversário que detesta.
O radicalismo como normalidade é uma armadilha que se fecha devagar. Quando a percebemos com nitidez, já estamos dentro dela. A eleição de 2026 não é apenas uma disputa por poder. É um teste sobre se o Brasil é capaz de fazer o que ainda não fez com convicção: decidir que as regras do jogo valem mais do que qualquer resultado específico. E o tempo para essa decisão, como sempre nas crises, está se estreitando.
Você já passou pelo streaming do Meio esses dias? O catálogo segue crescendo, com séries e documentários que ajudam a aprofundar o que está no noticiário. Entre as novidades, Ponto de Partida — A Série: Nós, Brasileiros já estreou com o episódio A Sociedade. Se ainda não viu, vale dar o play.






























