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De quem é essa inflação aqui?

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É verdade que os preços dos alimentos subiram no mundo todo e impulsionaram a “inflação global”, que tem sido chamada de “fenômeno” pelos economistas, mas isso não explica por si só o que vivemos hoje no Brasil. Uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou que países do G20 têm inflação média esperada de 3,7% para este ano, enquanto a previsão para o Brasil é o dobro: 7,8%. Entre as vinte maiores economias do mundo só estamos em melhor situação que a Turquia (17,8%) e que a vizinha Argentina, onde a previsão de inflação em 42% denota completa falta de controle da economia.

O Brasil tem peculiaridades quando se analisa essa conta. Uma delas foi a má gestão do governo Bolsonaro no enfrentamento da pandemia de covid-19, que provocou, até o momento, 615 mil mortes. Negacionismo desde o primeiro instante, demora na compra de vacinas, aposta em tratamentos comprovadamente ineficazes, suspeitas de corrupção — há de tudo no pacote. A política do Ministério da Economia trouxe de volta imagens que pareciam perdidas no passado, como pessoas formando a “fila do osso” ou buscando no lixo algo para comer. O Brasil havia voltado ao mapa da fome em 2018. Agora parece termos passado a outro patamar. Um pior.

Os levantamentos do IBGE mostram a escalada dos preços. Produtos do cotidiano começam a virar luxo nas despensas e mesas. A insegurança alimentar ganhou espaço ao tirar a certeza de que pessoas poderiam fazer três refeições por dia. O brasileiro vê seu poder de compra sendo diminuído a cada dia, o desemprego segue em alta, num caminho inverso ao da renda média do trabalhador e mesmo assim os preços continuam galopando.

A saída do governo? Um programa emergencial, o Auxílio Brasil, que implica a quebra do teto de gastos e a ameaça ao equilíbrio fiscal do país. Sem tocar, claro, no orçamento secreto, moeda de troca para sustentação política no Congresso.

Para entender esse pandemônio em plena pandemia, o Meio foi ouvir quem entende muito do assunto, o economista Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real, o primeiro plano econômico da Nova República a de fato domar a inflação e trazê-la a até então inéditos níveis civilizados.

Com base na natureza dos produtos com maior índice de inflação, o que podemos dizer a respeito do fenômeno que estamos vivendo? É o “novo normal pós pandemia”?

Há um choque de oferta, causado pelas disrupções nas cadeias produtivas decorrentes da covid-19. Há similaridades com os choques de oferta que ocorreram após a Segunda Guerra Mundial, quando da reconversão da indústria de guerra para a indústria de tempos de paz. Mas há claramente também um choque de demanda. Nos Estados Unidos, a contração fiscal prevista para o ano e o final do programa de compras de ativos financeiros pelo Banco Central devem ajudar a conter o processo inflacionário. No Brasil, as incertezas do processo eleitoral certamente não ajudam, mas a política contracionista do Banco Central deve estabilizar as expectativas. Nada disso configura um “novo normal”. O pós-guerra é ilustrativo: taxas de juros reais negativas, períodos de inflação elevada, mas ao final tudo se estabilizou.

Existe um “Custo Bolsonaro” na inflação? Como explicar à população que o país prefira exportar soja enquanto o óleo tem alta de 75% nas gôndolas do mercado, segundo o IBGE?

Não é o governo quem prefere exportar soja a vender para o mercado interno, até porque tanto quem produz quanto quem comercializa a soja é o setor privado. E a ideia de preço ‘justo’ é equivocada: preços podem ser abusivos quando há poder de monopólio, e normais ou competitivos quando os mercados funcionam bem, mas não justos ou injustos. A equivalência de preços domésticos aos internacionais, quando se trata de bens comercializáveis internacionalmente, como óleo de soja ou petróleo, faz parte do bom funcionamento da economia. Quando a política econômica impede essa equivalência, criam-se distorções e a oportunidade de arbitragem que não deveriam existir. O que se pode dizer sobre ‘custo Bolsonaro’ é que as más políticas do governo Bolsonaro afastaram o investimento estrangeiro e, nessa medida, contribuíram para um câmbio mais desvalorizado que, por sua vez, se traduziu em um preço majorado dos bens comercializáveis.

Para viabilizar o Auxílio Brasil, furar o teto de gastos é uma ideia tão boa quanto o governo alega? Quais alternativas o governo tem para resolver a inflação?

O teto de gastos foi feito para frear a expansão das despesas primárias do governo, que vinha em ritmo muito maior ao crescimento do PIB. Sua sustentação ao longo do tempo dependia, como depende, de uma revisão de gastos obrigatórios para abrir espaço para despesas que refletissem as necessidades do momento em que vivemos. Ocorre que o governo nada fez para abrir esse espaço e, diante da necessidade de auxílio emergencial, se viu na contingência de furar o teto. Se tivesse havido planejamento e determinação para cortar despesas, não precisaríamos furar o teto. A inépcia do governo federal foi também agravada pela aliança com o Centrão e a absurda criação do orçamento secreto. Dificilmente algum centavo do orçamento secreto vai para os pobres.

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