Tatuagens ressiginificam dores
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Raquel Gaulthier tem 24 anos, atua como tatuadora há três e faz um que se especializou em cicatrizes. Descobriu que tinha talento para tatuagens ao manejar uma máquina de micropigmentação de sobrancelhas, quando escreveu “respira” em sua própria mão e percebeu a importância que aquela maquininha tinha sobre a autoestima de uma mulher. Ela viu nas micropigmentações um trabalho artístico e, como estava em busca de se especializar, encontrou ali a oportunidade de se conectar consigo mesma. Ao se tatuar, sentiu algo diferente.
Ainda assim, no início, a sensação é de que fazia tatuagens “sem significados”. Foi quando entendeu do que a movia — a busca daquele impacto de um desenho na autoestima. O que ela não tinha ainda era um estilo de tatuagem. Para isso, precisou da confiança de outros para que pudesse montar um portifólio. Hoje, ela é a primeira tatuadora especializada em cobrir cicatrizes de automutilação, cirurgias, acidentes e queimaduras e coleciona histórias intensas e emocionantes, todas cuidadosamente colecionadas em seu Instagram.
Entrei num projeto de tatuagem em automutilação, no Setembro Amarelo. Tatuei três pessoas neste projeto e senti esse algo que tanto procurei. A tatuagem ali não significava apenas um luxo, juntava um significado e um motivo por trás da cicatriz. Comecei a estudar cicatrizes até que apareceu uma moça com uma de queimadura no pé. Queria tatuar comigo. Eu disse que não conhecia ninguém especializado neste nicho. ‘Se você confiar em mim, vou estudar muito para tatuar na sua cicatriz e vamos ver no que vai dar.’ Ela confiou. Ficou linda. E foi aí que decidi.
Pedi permissão para postar o resultado e comecei a receber elogios de todos os lados, até que a página Razões Para Acreditar reportou o meu trabalho e comecei a receber mensagens de muitas mulheres querendo tatuar. Decidi me especializar, não existia ninguém aqui no Brasil. Essas pessoas precisam de alguém que cuide das suas dores, dos seus traumas, que veja seu corpo com carinho e respeito. Foi quando decidi que tatuaria somente cicatrizes. Vi que por um lado perderia alguns clientes, mas por outro ganharia emocionalmente.
Processo de criação
Só tatuo cicatrizes após um ano, pois a pele está preparada para receber tinta. O processo de criação é onde faço esboços no corpo da cliente, para valorizar o corpo e a região onde a tatuagem será feita. É o momento de ver o biotipo, a prolongação do traço e a valorização da área da tatuagem.
Peço para a cliente pensar com carinho na tatuagem, pois não basta cobrir. Não é como uma roupa que ela pode cansar e tirar, é uma tatuagem concentrada na cicatriz.
Faço um esboço para entender a proporção e o tamanho da tatuagem, do jeito que ela imagina. Faço um segundo esboço com as minhas sugestões, porque ela precisa ver na prática que o desenho pode ficar melhor do que ela imagina.
O processo de criação exige um dia livre para pensar nas características da cicatriz e desenho.
Como elas sentem
Os olhares maldosos, comentários sobre as cicatrizes, é isso que mexe com a autoestima. Ficam abaladas. Já ouvi relatos de que as pessoas reparam primeiro na cicatriz e depois na pessoa que passa. Notam mais a marca do que qualquer característica. Outras se queixam de ter de explicar, toda hora, o que aconteceu. É um processo dolorido. A pessoa levou um tiro e tem gente que quer saber, é traumático se sentir na obrigação de contar diversas vezes a mesma história. Algumas pessoas até mentem.
Mulheres relatam vergonha, não têm relações sexuais com as luzes acesas, somente no escuro. Outras aprendem posições e ângulos para esconder a cicatriz com o marido. Algumas dizem que o marido nunca chegou a ver a cicatriz durante o sexo, elas têm vergonha da marca. Do trauma.
A cicatriz
Existem cinco tipos de cicatrizes — queloide, atrófica, hipercromicas, hipocromica e normotrófica. Na hora de aplicar a tatuagem preciso testar o quanto a pele aguenta as batidas da máquina e como ficará a pigmentação. Meus traços são trabalhados com delicadeza, tenho de analisar a cicatriz para que o processo de criação seja adequado. As cicatrizes de queda de moto, queimadura, cirurgias ou automutilação exigem técnicas diferentes, não é tudo a mesma coisa. Os elementos visuais também mudam porque luz e sombra influenciam.
A partir daí, sol não é bom para pele nenhuma, mas principalmente para as com cicatrizes. Não podemos esquecer que a tatuagem também precisa de um tempo para cicatrizar e, neste caso, estamos falando de uma cicatriz por cima de outra. A pele fica sensível, é normal. O processo de cuidado pós-tatuagem é o mesmo para peles sem cicatrizes, o mesmo de um piercing. Nunca tive problema, mas sempre indico que a cliente procure um dermatologista caso precise de medicamento ou pomada.
É necessário assinar um termo de responsabilidade antes de tatuar. Caso ocorra uma alergia ou algo parecido, não me responsabilizo. Mas nunca aconteceu, tomo os cuidados.
A transformação da memória
Até hoje me lembro de uma cliente que sofreu um acidente aos cinco anos. Ela morava em Salvador, estava na calçada brincando em época de Carnaval, e um carro desgovernado a atropelou. Deixou uma cicatriz. Fez com que ela nunca mais usasse roupas que mostrassem a perna. Hoje, aos 45, me contou que a mãe dizia — ‘um dia você vai acordar e não vai mais ver essa cicatriz’. Então ela dormia com esse pensamento. Me encontrou pelo Instagram, veio para São Paulo, onde tenho estúdio, e quis homenagear a mãe. Bolamos um desenho, uma orquídea, a flor preferida de sua mãe. Ela conta que a mãe tinha razão. Hoje ela acorda e não vê mais a cicatriz. Vê um desenho que a lembra do amor pela mãe.
Essa história me toca muito por ter acontecido com uma criança. Mas tem muitas histórias de clientes que já foram atropeladas por caminhão, sofreram acidente de moto, se automutilavam, tomaram um tiro, se queimaram, fizeram uma cirurgia ou até mesmo que sofreram violência doméstica. Fico emocionada. Cada história é uma vivência, não dá para escolher uma. Fico feliz pela confiança que elas têm em mim e no meu trabalho.






























