Temer: o Nixon brasileiro?

Opinião: Pedro Doria - 12 de junho de 2017


 

Depois de uma semana atordoante, é hora de começarmos a lidar com uma possibilidade. Michel Temer pode ser, muito bem, o Richard Nixon brasileiro.

Nixon não hesitava em usar seu poder para se livrar de problemas. Durante as eleições de 1972, mandou invadir a sede do Partido Democrata no edifício Watergate para espionagem. Quando começou a ser descoberto, exigiu que assessores se demitissem assumindo a culpa. Não bastou. Ordenou, pois, ao ministro da Justiça que mandasse para casa o homem no comando do inquérito. O ministro se recusou, foi demitido. Deu ordem ao número dois — e demitiu também este até encontrar quem eliminasse o incômodo. Nixon gravava todas as conversas no gabinete presidencial. Nixon usou o poder da presidência para livrar-se de um problema legal.

Pois em 26 de maio, o destacamento da Polícia Federal na Lava Jato perdeu um terço de suas verbas por decisão de Brasília. No dia 28, Osmar Serraglio foi demitido do Ministério da Justiça para ser substituído por um advogado com boa influência no TSE. Aliás, desde pelo menos 13 de março o presidente vem tendo almoços com o chefe daquela corte, ministro Gilmar Mendes. Como a composição do tribunal era ameaçadora, em abril votou o plenário para exigir os depoimentos dos marqueteiros da campanha, atrasando o encerramento do processo. Quem, afinal, poderia questionar o pedido de mais informação para avaliar? Em duas semanas, mandatos expirados, o próprio Temer indicou dois novos ministros que votariam no caso. E, aí, o tribunal decidiu que aqueles depoimentos não deviam ser usados. Temer venceu por 4 a 3 tendo indicado no último mês dois destes juízes que o absolveram. É ele, também, quem nomeará o sucessor do Procurador-Geral da República, que coordena o inquérito.

E, se a reportagem da revista Veja desta semana estiver correta, o presidente mandou a Abin espionar o ministro do Supremo responsável por seu processo.

Tenha sido por incompetência, tenha sido por convicção, nada nem perto disto ocorreu no governo Dilma Rousseff. O uso de poder do governante para se defender da Justiça é uma corrupção grave do processo democrático. É o que custou a Richard Nixon seu mandato. Ainda não sabemos se terá custo para Temer.

Enquanto isto, na sociedade, há um debate legítimo no qual duas ideias disputam espaço.

Uma é a posição conservadora. O argumento segue assim: a prisão de empresários e políticos aos montes e a queda sucessiva de presidentes ocorre como consequência dum avanço da Justiça contra Legislativo e Executivo. Existe corrupção, mas já houve muito ganho. É hora de parar. Feito assim de forma açodada, o processo desestabiliza a economia e, portanto, a democracia.

Do outro lado está o braço que deseja mudança já — a Lava Jato abriu uma frente inédita, agora é pé no acelerador. O que põe em risco a democracia é este tipo de governo no qual a corrupção entranhou. É mais do que levar dinheiro para enriquecer: é uma corrupção da alma. A máquina está podre e o país precisa mudar. Esta é uma oportunidade histórica, não há motivo para frear. Que, enfim, a Justiça funcione.

Pode-se criticar os dois lados neste debate. O conservador flerta muito próximo com a hipocrisia. Afinal, seu argumento propõe que, em nome da estabilidade, todos fechem os olhos para não enxergar quão apodrecido ficou o Estado. Enquanto isso, o lado progressista beira, muitas vezes, ao messiânico, ao maniqueísmo. Só há puros ou ímpios. Mas este não é um debate entre esquerda e direita. Porque há gente de esquerda e de direita de um lado, assim como os há do outro.

Ao absolver Dilma e Temer com seu voto de Minerva, o ministro Gilmar Mendes apresentou uma versão do argumento conservador. A Justiça não pode interferir assim no Executivo. O fato de a corrupção ter sido exposta já é um ganho. O país não pode ficar derrubando presidentes. E a Justiça não existe para resolver crises políticas.

Isto é o que diz Gilmar Mendes, sem ligar para a contradição na qual se mete. Afinal, enquanto diz que a Justiça não resolverá a crise política, se reúne com políticos, intervém na política e vota politicamente.

Pode-se fazer o discurso conservador com honestidade. Mas é preciso um estômago forte. Afinal, o que não se pode fazer, a esta altura do jogo, é fingir não saber como agem todos os homens do presidente.



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