Bolsonaro vs Lula, 2026

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E se a eleição presidencial de 2026 for uma reedição de Lula contra Bolsonaro?

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Ora, vocês vão logo dizer, esse cenário é impossível. Bolsonaro já foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral. Isso é verdade. Foi mesmo. Mas há duas entidades na República que podem dispensar para ele uma anistia. A primeira é o presidente. Claro, Lula não vai fazer isso. A outra é o Congresso Nacional. E, aí, a coisa fica um pouco mais complicada.

O problema é o seguinte. Jair Messias Bolsonaro ainda tem muito poder no Brasil. O poder dele se expressa de uma única forma: tem votos. O candidato que pode aparecer com uma foto de Bolsonaro ao lado, que tiver um vídeo com o ex-presidente, tudo isso vale muito. E, ali na frente, há duas eleições muito importantes por ocorrer. Uma é óbvia, a eleição municipal de mais de cinco mil prefeitos e incontáveis vereadores. Mas tem outra igualmente importante para quem é político. A eleição para presidente da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Arthur Lira e Rodrigo Pacheco não podem ser candidatos. Então a briga está aberta.

Neste momento, o PL de Bolsonaro está em plena negociação. Está dizendo para cada candidato a prefeito que, se ele quer o apoio do ex-presidente, seu partido precisa trabalhar pela anistia no Congresso Nacional.

É importante entender que a eleição para prefeito, se parece menos importante, é na verdade decisiva para a eleição presidencial, é decisiva para eleição de governadores, é fundamental para deputados. Os grupos políticos que capturam uma prefeitura ganham poder de articulação. Todo candidato a deputado federal, nas cidades médias e pequenas, precisa do apoio do prefeito para se eleger. Como o prefeito, depois, precisa do deputado para trazer dinheiro para o município. Essa é a lógica da captura do Orçamento federal feita por Arthur Lira. É uma máquina de eleger prefeitos e deputados. E quem tem o grosso desse dinheiro capturado não é a esquerda, muito menos o centro. É o Centrão, ou seja, a direita. Tanto a direita fisiológica quanto a direita bolsonarista, que se parecem mas não são a mesma coisa.

Além disso, quem tem maior penetração no Brasil, ou seja, quem tem mais prefeituras, tem também mais estrutura para ajudar na campanha eleitoral para presidente. O PT corre o sério risco de diminuir em número de prefeituras neste pleito justamente por conta de o quanto ampliou a presença da direita no Congresso.

E é aí que e entra o peso eleitoral de Jair Bolsonaro. Enquanto políticos de esquerda estão discretamente estimulando aqui o bombardeio do governador gaúcho Eduardo Leite, ali o do governador paulista Tarcísio de Freitas, batendo por toda parte de olho na eleição de 2026, o presidente do PL Waldemar da Costa Neto nem pisca. Não pisca, sequer, quando lhe cai nas mãos uma pesquisa sugerindo que Michelle Bolsonaro teria de cara mais votos do que qualquer governador. Porque o plano que ele tem em mente, neste momento, não inclui qualquer outra pessoa.

Desde fevereiro ele tem um único plano em mente. Conseguir no Congresso Nacional a anistia de Jair Bolsonaro, elegê-lo presidente em 2026 e, se a proposta não assusta o suficiente, vamos piorar. Se a eleição fosse hoje, Bolsonaro teria muita chance. Se Donald Trump se eleger nos Estados Unidos, em novembro, Bolsonaro teria mais chance. E ele ainda teria o direito de se reeleger em 2030.

Aí o jogo funciona da seguinte forma. É uma troca. Você é deputado federal? Quer que seu grupo chegue à prefeitura ou se mantenha na prefeitura da cidade, ou das cidades da sua região? Tem jogo, mas tem troca. Seu compromisso de apoiar a anistia de Bolsonaro quando ela for votada na Câmara dos Deputados.

Depois, a barganha é para a eleição da Mesa Diretora de Câmara e Senado. Na Câmara, por ser o maior partido, o PL teria direito a indicar seu presidente. Abre mão do cargo. Mas tem condição: o presidente que não vier do PL e ganhar seu apoio precisa botar em pauta a anistia. Depois, o grupo que se fechar em torno desse novo candidato precisa topar votar pela anistia.

Parece absurdo? Não é. Todo o discurso do bolsonarismo, nas redes sociais, tem sido um só: de perseguição política. O que a Justiça faz é perseguição política. O que a imprensa faz é perseguição política. O que o governo faz? Pois é.

O Tribunal Superior Eleitoral estava para cassar, por abuso de poder econômico, o senador catarinense Jorge Seif Júnior. O julgamento foi suspenso. Este processo estava sendo percebido como antessala de outro, bastante mais momentoso, o do senador Sergio Moro. O TSE segurou as rédeas do processo. E, olha, fez bem.

Sim, em tese, julgamentos por tribunais superiores deveriam ser técnicos, apolíticos, distantes de todo dos outros poderes. Mas a coisa não funciona assim no mundo da polarização afetiva. Por incômodo que possa parecer a muitos, é fundamental mostrar que não existe uma indisposição da Justiça com a direita. Porque, olha, não existe mesmo. O que há é uma indisposição da Justiça com o golpismo. Nessas horas, abuso de poder econômico fica bastante menor. Aliás, no caso do Moro, sugerir que ele usou a pré-campanha presidencial de uma candidatura que não houve para poder se eleger senador no Paraná é forçado. Moro já era bastante conhecido no estado e dificilmente não seria eleito senador.

Mas o que o TSE estava fazendo, o que o Supremo Tribunal Federal está preocupado em fazer, é mostrar boa vontade. Desarticular a ideia de que há perseguição. Porque, nas redes bolsonaristas, só se fala de perseguição o tempo todo.

Pois bem, a Justiça faz parte do trabalho de desarticular o argumento. É um trabalho importante. Outra parte desse trabalho cabe à esquerda, aliás não só à esquerda. A todo mundo que não é bolsonarista. Isto é: mostrar que o problema está no golpismo, está no movimento de Jair Bolsonaro e não na esquerda. É preciso isolar o câncer.

Um voto pela anistia não viria neste ano, em 2024. Viria, se acontecer, em 2025. O que acontece agora são os acordos políticos para possibilitar que este movimento aconteça. Agora, imaginem o cenário: Donald Trump se elege no final deste ano na disputa que, tudo indica, ele terá contra o presidente Joe Biden. Aí Trump, presidente dos Estados Unidos, começa a falar de lá que Bolsonaro precisa ser anistiado. Porque o primeiro movimento que ele promete fazer é, justamente, anistiar todos os envolvidos com a invasão do Capitólio no 6 de janeiro de 2020. Se Trump faz campanha aberta, o que isso vai movimentar as redes sociais é uma loucura. E todo parlamentar que se elege com votos da direita vai sentir muita, muita pressão por esta anistia.

Se acontecer, foi. Acabou. Bolsonaro candidato contra Lula, com Trump na Casa Branca.

Ou não foi? Bem, o Supremo Tribunal Federal, entre o final de 2025 e início de 2026, vai julgar a tentativa do golpe de Estado organizada por quatro generais de Exército, um almirante de Esquadra, sob o comando do próprio Bolsonaro. Tudo indica que tem provas o bastante para condená-los todos à prisão. Aí, bem, aí é uma nova inelegibilidade, desta vez por conta da Lei da Ficha Limpa. Mais Bolsonaro preso.

O Congresso Nacional poderia votar uma nova anistia? Claro que poderia. Mas já é um Legislativo em franco conflito com o Judiciário, jogo arriscadíssimo. Situação pré-golpe de Estado que não interessa a ninguém.

Este é o cenário do pesadelo. Não está escrito que vá acontecer. Se os deputados federais forem espertos, perceberão que num segundo governo Bolsonaro as chances de golpe são maiores, assim como as da lenta conversão do Brasil a uma ditadura nos moldes venezuelanos ou húngaros. E, olha, numa ditadura, ou mesmo numa democracia iliberal como chama o premiê Viktor Órban, parlamentar não tem poder. Parlamentar só obedece. Quem manda é uma pessoa só.

Mesmo os bolsonaristas mais dedicados deveriam se tocar disso. Por uma questão de sobrevivência, mesmo. De qualquer forma, nada está escrito em pedra. No momento, temos o debate público radicalizado, incapaz de ver alternativas, atirando pedra em tudo que não é espelho. A gente só vai conseguir sair dessa quando voltarmos a um ambiente no qual consigamos dar risos com gente de quem discordamos.

Nos tempos em que a conversa sobre política era no bar, acontecia muito. A gente ainda volta para lá.

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