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Donald Trump age na Venezuela inspirado na autocracia da Rússia

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Vamos falar de Venezuela. Mas vamos tentar escapar dos clichês e das ideias anacrônicas que envolvem o episódio todo. Ou melhor, vamos buscar entender como algumas dessas ideias anacrônicas estão sendo atualizadas em 2026. O que está acontecendo agora nesse episódio da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela expõe algo profundamente incômodo e com o qual a gente vai precisar lidar sem hipocrisia: está acontecendo um avanço das autocracias no mundo.

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Uma das chaves fundamentais para entender por que Donald Trump tem agido com tamanha desfaçatez, admitindo que quer se apropriar do petróleo venezuelano e usando mal e porcamente o pretexto do narcoterrorismo para sequestrar e prender Maduro, é a compreensão de que o mundo se tornou tolerante demais com autocracias e, agora, as três maiores potências globais têm esse modelo ou agem para ter. E vai ficar difícil argumentar que fulano não pode fazer isso ou aquilo quando, no passado, se apoiou algum autocrata ou proto-autocrata de estimação.

Vou tomar emprestada uma definição do querido Cláudio Couto, cientista político que tanto admiro, pra basear aqui minha análise. Aos autocratas interessa minar tudo que for percebido como capaz de limitar seu poder. Esse processo se dá primeiro internamente, para estabelecer a autocracia. Mas, quando se trata de uma potência, ele se dá também externamente.

Donald Trump está minando todos os controles internos, atropelando Congresso, subjugando Judiciário, Ministério Público, universidades, mídia. Conforme avança nesse processo, e por ser o chefe de uma das maiores potências globais, parte para minar também os órgãos de controle externos, multilaterais. Outras potências já fizeram o mesmo. Sempre sob o olhar leniente do mundo.As regras institucionais e os acordos internacionais deixaram de ser o chão comum — e, pela primeira vez em muito tempo, quase ninguém faz questão de fingir que está defendendo a democracia. E quando fingem, fingem muito mal.

A gente precisa lembrar de onde esse sistema de regras e acordos veio. Foi no contexto da afirmação dos valores democráticos, da ideia de igualdade entre os povos e do trauma das guerras mundiais que nasceu a Organização das Nações Unidas.

A ONU surgiu para tentar conter a força bruta, proteger a soberania dos Estados e criar um mínimo de previsibilidade. O problema é que, ao longo das décadas, essa arquitetura foi sendo esvaziada. A ONU muitas vezes falhou, foi instrumentalizada pelas grandes potências, todas elas, fechou os olhos para abusos quando isso interessava aos seus membros mais fortes. O resultado é um organismo que existe, mas raramente constrange.

Durante a Guerra Fria, apesar de tudo isso, havia ao menos uma encenação. Os Estados Unidos exerciam seu imperialismo em nome da democracia liberal. Derrubaram governos, financiaram golpes, intervieram militarmente em vários cantos do mundo dizendo que estavam protegendo a liberdade. A direita global fingia acreditar.Do outro lado, a União Soviética exerceu o seu imperialismo em nome do socialismo, esmagou dissidências, invadiu países, sustentou ditaduras amigas dizendo que defendia o povo e a revolução. A esquerda global fingia acreditar também.

Era um teatro cínico, mas havia um roteiro: cada bloco precisava se apresentar como portador de um valor universal, mesmo quando agia exatamente contra ele.

O cinismo não é exatamente estrangeiro às relações internacionais, né? Brasil, Estados Unidos e praticamente todas as grandes nações sempre conviveram, apoiaram e se relacionaram com ditaduras quando isso foi conveniente. Os Estados Unidos sustentaram regimes autoritários ao longo de décadas por razões estratégicas e, até hoje, mantêm alianças sólidas com monarquias absolutistas e violentas como a Arábia Saudita, sem qualquer constrangimento democrático.

O Brasil também não escapa dessa tradição nos dois espectros: Jair Bolsonaro cultivou relações cordiais com regimes autoritários do Oriente Médio, como os Emirados Árabes Unidos, elogiou ditaduras do passado e jamais demonstrou preocupação consistente com direitos humanos quando eles atrapalhavam sua agenda política. Além de tentar um golpe ele mesmo, claro.Lula também recorreu ao mesmíssimo expediente no plano internacional. Além de manter relação com ditaduras de natureza militar pelo mundo, se negou a admitir por anos a fio o processo de autocratização da Venezuela e defendeu veementemente Hugo Chávez e Nicolás Maduro, inclusive quando suas ações já eram para lá de indefensáveis. Dilma Rousseff foi muitíssimo mais honesta e criticou o chavismo. Lula só cedeu, a contragosto, depois da escandalosa fraude eleitoral de Maduro em 2024.

Tem uma parte desse teatro todo que é puro pragmatismo nas relações internacionais, guiado pela noção de que os países são o que são e nós precisamos fazer negócios e manter canais abertos com todos eles. Tem outra parte que é teimosia ideológica mesmo. E normalmente a ideologia servia para travestir o pragmatismo de algum significado.A diferença, agora, é que esse pragmatismo deixou de ser disfarçado por grandes narrativas ideológicas. O teatro acabou. As máscaras caíram. E o mundo está ficando mais perigoso por causa disso.

Donald Trump deseja ser um autocrata. Inveja os autocratas das nações rivais. E autocratas tendem a trabalhar em consonância.

Vladimir Putin já completou o serviço. Neutralizou o Judiciário, eliminou a oposição real, controlou o Estado, transformou eleições em ritual vazio e fez do Parlamento um apêndice do Executivo. Maduro fez algo parecido, mas de forma mais precária e caótica, com a ajuda de forças armadas politizadas e apoio de autocracias externas. Empobreceu enormemente o país enquanto isso.Aliás, cá entre nós, gente, não dá mais para fingir que a Venezuela é um projeto socialista mal compreendido. É uma ditadura violenta e corrupta. Negar isso corrói qualquer discurso sério em defesa da democracia, dos direitos humanos e do socialismo democrático.

Agora, da mesma forma que não é possível defender o regime e o ditador Nicolás Maduro, é impossível defender o que Trump fez ao intervir na Venezuela. Entrar num outro país, sequestrar seu líder, seja ele um ditador ou não, e chantagear a liderança remanescente em troca de seus recursos naturais é, além de um completo desrespeito pelo direito internacional e pela soberania das nações, um ato de prepotência imperialista inaceitável.

Esse é o paradoxo que precisaremos confrontar. Não há autocracias saudáveis. Elas pioram a qualidade das democracias pelo mundo. Mas não há como enfrentá-las se não democraticamente. Fica aqui comigo pra gente debater isso mais um pouco.

Donald Trump ainda não é um autocrata, mas o cenário não é menos preocupante. Ele governa — e se comunica — como alguém que vê o Estado não como uma instituição impessoal, mas como uma extensão da própria vontade.

A diferença é que, nos Estados Unidos, as instituições ainda existem. Por pouco, mas estão lá. Trump perdeu a eleição em 2020, foi contido pelos tribunais, não conseguiu capturar as Forças Armadas. Em 2024, ele se elegeu legitimamente. O Congresso está lá, funcional. A oposição existe e atua, por piores que sejam seus resultados.

Ainda assim, o método autocrático está em voga. E quando Trump leva esse método para a política externa, o estrago se amplia. Ao agir contra a Venezuela, ele combina três coisas perigosas: o desprezo autocrático pelas regras, inspirado na prática russa, que fez exatamente isso com relação à Ucrânia; a indiferença estratégica às normas universais, que a China cultiva com paciência; e o velho imperialismo americano, agora despido de qualquer verniz moral.

Um parênteses sobre a China. Trata-se igualmente de uma autocracia, com ímpetos imperialistas mais controlados, especialmente no uso de armas e força militar. A China não age como a Rússia, pela força escancarada, nem como Trump, pelo desprezo barulhento às regras. Ela faz algo mais silencioso e, quiçá, mais eficaz: trata normas universais, como direitos humanos e liberdade de expressão, como escolhas, não como limites. Quando é cobrada, responde que são assuntos internos. Quando tribunais internacionais decidem contra seus interesses, simplesmente ignora. Exerce um imperialismo econômico, sem precisar disparar tiros ou fazer muitas ameaças. E é o ator novo na disputa global desde a Guerra Fria.

Nesse cenário, a hipocrisia ficou escancarada de todos os lados. Fica ridículo ver candidatos da direita brasileira falando em defesa da democracia na Venezuela enquanto celebram ou justificam o líder americano que despreza abertamente as instituições. E quando nem o próprio Trump se deu a esse trabalho. Não cola mais.

Seria igualmente ridículo — e politicamente desastroso — ver Lula ou qualquer liderança progressista defender Maduro, como se ainda fosse possível separar autoritarismo de esquerda e autoritarismo de direita. Como foi ridículo ver boa parte da esquerda e o governo brasileiro fazerem vista grossa para a ação imperialista de Putin na Ucrânia.

Autocratas se sentem à vontade para agir como querem conforme vai se abrindo mais espaço para eles. Cada vez que o mundo aceita uma dessas ações fica mais difícil de condenar a próxima. Fica mais hipócrita condenar a ação igual do outro lado.

Mas o único jeito de combater isso é com o discurso democrático. Abrir mão do cinismo e fazer uma defesa real e incondicional da democracia liberal. É voltar a se convencer de que ela é a única resposta para conter ímpetos autocráticos e imperialistas.

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