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O alvo no Supremo

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Pelo menos duas pesquisas de opinião, uma encomendada por um partido político, outra pela Faria Lima, ouviram o seguinte nas últimas semanas: mais de metade dos eleitores escolherão seus candidatos ao Senado com um único critério. O compromisso com o impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Como não são pesquisas registradas no TSE, os detalhes não podem ser divulgados. Mas, hoje, com março já na antessala, Carnaval passado, a tendência é essa.
Para o mundo bolsonarista, existe um problema aí. Eles querem amarrar este impeachment à soltura de Bolsonaro, por uma anistia ou o que for. Ou seja: para o grupo político de Bolsonaro, o impeachment é uma ameaça, uma chantagem e uma barganha. Facilita-se uma anistia, o Supremo finge que não vê e permite rolar, e pronto. É por isso que, faz mais de um ano, eles vêm trabalhando a ideia de impeachment de ministros na cabeça do eleitor. Só que, até o ano passado, a coisa não tinha colado. Por uma razão simples: o eleitor acha, majoritariamente, que houve uma tentativa de golpe. O brasileiro não acha que houve erro no julgamento do golpe.
Ainda assim, a coisa desse impeachment foi muito martelada e foi ficando. Não pegava a maioria da sociedade, mas uma quantidade grande de gente. As ações absurdas do ministro José Antonio Dias Toffoli no caso Master, assim como o contrato de 129 milhões do escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes com o banco, fizeram a percepção popular sobre a corte dar um cavalo de pau. O Supremo, hoje, é percebido como corrupto, como corporativista.
De novo, o clima que está se construindo é para o impeachment de um ministro. Qualquer ministro. Aquele que se colocou no centro do alvo foi Toffoli, por conta de sua conduta. Por conta de se recusar a perceber que, publicamente, sua ação de defesa dum sócio estava evidente. Ou, talvez, para ser preciso, porque não estava nem aí. Não estava nem aí que a suspeição era evidente. Por que não estava nem aí? Ou porque sentiu que precisava esconder de todo jeito o que aconteceu no Banco Master para sobreviver. Ou porque se sente tão acima da lei e da ética que pode tudo. Ou, mais provável, por ambos.
Mas a ação de Toffoli pôs o Supremo neste lugar. Um lugar de profundo discrédito perante a sociedade. Isso não é mais simplesmente campanha do bolsonarismo, tá? Na verdade, no núcleo da campanha de Flávio Bolsonaro, a situação criada virou um problema. Por quê? Porque eles não querem o impeachment de Toffoli. O que desejam é o impeachment de Alexandre. Ou, ao menos, ameaçar Alexandre de impeachment para conseguir um acordo. Toffoli, para os Bolsonaros, é um aliado. E o Master é um problema que eles querem enterrar, olhar pro lado, fingir que não existe. Por quê? Ainda não está claro. Uma certa casa em Brasília, que ganhou financiamento do BRB, talvez ajude a explicar.
Então, ora, vejam só. O que a família Bolsonaro quer é ameaçar o Supremo com um impeachment de Alexandre, conseguir a anistia de Bolsonaro, fazer um acordo e enterrar o Banco Master. Não é isto que comove a sociedade brasileira. A grande ameaça ao Supremo não existia no ano passado. Passou a existir agora e a razão vem, de novo, das ações do ministro Dias Toffoli perante o Banco Master. Toffoli é 70% o responsável por colocar um alvo nas costas do STF. Isto quer dizer, em essência, que os Bolsonaros, sim, ajudaram a criar o monstro. Mas perderam seu controle.
E, aí, entra a direita radical. Ela está com os Bolsonaros, mas não está ao mesmo tempo. Está enquanto isso quer dizer voto. Não está quando isso quer dizer deixar de ter voto. Flávio não quer falar de Toffoli ou de Master. A sociedade, quer. Então lá está Nikolas Ferreira falando de Toffoli e de Master. Lá está o MBL falando de Toffoli e de Master. Aí vem, nas redes, Eduardo Bolsonaro reclamar que deviam estar falando de anistia. Só que anistia não dá tração nas redes. Então quem está atrás de voto fala aquilo que, ora, aquilo que dá voto.
Em que circustância política isso pode se tornar uma crise que leve a um impeachment de verdade, no primeiro semestre do ano que vem? Esse cenário já está traçado. E, sim, pode acontecer mesmo com a reeleição de Lula. Vem comigo.
Na entrevista que concedeu à Flávia Tavares e à Giulia Chechia na edição de Sábado do Meio, o ex-senador Romero Jucá apontou para uma questão que deveria ser óbvia: a gente não sabe o que vai acontecer com o Master ao longo deste ano. A bomba vai estourar no colo de quem? As investigações que forem tornadas públicas são quais?
Vamos olhar para o que estão fazendo os líderes das pesquisas. Flávio foge do assunto o quanto pode. Lula, não. A máquina de assessoria de imprensa do Planalto está vazando o quanto pode, para tudo quanto é colunista que queira ouvir, que Lula mandou a Polícia Federal investigar quem precisar investigar, que Lula avisou Toffoli que ele não devia isso ou aquilo, e tudo o mais. Estas notas publicadas por toda parte são estratégicas. São um aviso. Lula lavou as mãos. Ele não vai interceder por ninguém e vai se afastar de qualquer um envolvido na coisa. A notícia não é boa nem para o secretário da Casa Civil, Ruy Costa, nem para o líder no Senado, Jacques Wagner. Mas, olha, a notícia não é boa tampouco para um bom pedaço do Centrão no Congresso.
Vejam, o que todo mundo já tem convicção, em Brasília, é de que Daniel Vorcaro não é o topo dessa pirâmide. Ele é o rosto na frente do Master, mas ele é o rosto público de outras pessoas. Se é mesmo um laranja, laranja de quem? Independentemente disso, já temos nomes grandes do mundo dos negócios, como Nelson Tanure, do mundo da política, como o presidente do União-Brasil, Antonio Rueda, e o do Progressistas, Ciro Nogueira. A relação deles com o Master é qual exatamente? São personagens secundários? Estão entre os muitos políticos que abriram portas? Entre os empresários com quem Vorcaro fez negócios? É isso? Ou é mais? Rueda e Nogueira, em particular, estão envolvidos até que nível? A Polícia Federal acha que Tanure era não apenas parceiro de negócios eventuais, desconfia que se tratava de um sócio oculto.
Veja, quanto mais gente graúda for aparecendo, mais vai-se criando a necessidade de um bode expiatório. Escolher alguém que seja graúdo o suficiente, por um lado, mas não tanto, por outro, que chegue a fazer falta. Numa situação de crise, em que muita gente muito grande sinta frio na espinha, pode-se configurar uma situação em que Toffoli se torne o caso perfeito. A massa do União Progressista no Congresso vai em cima, o PL não vai se furtar, Lula já disse que não vai defender. Vende-se como pauta moralizante e pronto. Se isto vier num contexto em que uma quantidade muito grande de senadores tiver sido eleita com a promessa de fazer um impeachment assim, o jogo político se organiza.
Agora, vejam, nada está escrito em ferro e fogo. O fato de que Toffoli deixou a relatoria ajuda a esfriar. O fato de que Alexandre decidiu prender presidente de sindicato que lhe fez críticas, ajuda a esquentar. Vai trazendo para ele o alvo. Em política, e, sim, o Supremo virou político, em política nada é inevitável, tudo é construído.
Se o Supremo quer evitar se tornar o ingrediente principal da sopa que está começando a ser fervida, é importante começar a agir de forma escorreita. Isto depende demais de os ministros entenderem o que as pesquisas estão dizendo, compreenderem os anseios da população.
Olha, a gente falava nas redações, uns anos atrás, que a grande transformação do tempo da Ditadura para o da Nova República é que, antes, todos nós jornalistas sabíamos o nome dos generais do alto comando. Agora, sabemos os nomes dos ministros do Supremo. Eles gostam do holofote. Dão entrevistas, fazem intervenções indignadas em plenário, promovem de tempos em tempos julgamentos que param o país. O Supremo, que em toda a história da República foi discreto, veio para o centro da atenção.
Isto tem um custo. O custo é de que mais gente presta atenção. O custo é que mais gente o percebe como parte do jogo político. Até agora, na nossa democracia, presidentes perderam o mandato, assim como deputados, como senadores. Presidentes, governadores, prefeitos e parlamentares de todos os níveis cumpriram tempo na cadeia. Um só uns dias, outro uns meses, Lula quase dois anos. Bolsonaro periga ser mais do que isso. O maior erro que os ministros podem cometer é não ter a humildade de compreender que o giro das histórias contadas que está se formando é um que os põem no papel da próxima vítima. Eles podem sofrer um impeachment, sim. Eles podem ser condenados à prisão, sim. O Brasil é caótico, a Justiça não funciona igual para todos, mas o Brasil não é mais o país em que gente poderosa escapa sempre da cadeia. O país, às vezes, é bem inclemente.
A tempestade está se formando. Ainda está nas mãos dos ministros do Supremo a possibilidade de reverter o processo. Soberba é má-conselheira.

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