Toffoli tem de sair
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A melhor coisa que pode acontecer para o país, este ano, é o conjunto de ministros do Supremo convencerem José Antonio Dias Toffoli a se aposentar precocemente. Ainda no primeiro semestre. É isso mesmo. O equivalente a uma renúncia. Talvez a única forma de evitar um ataque pesado ao Supremo, no caso de uma vitória bastante possível de Flávio Bolsonaro, seja essa. E não é só Flávio, né? Hoje, Pablo Marçal já botou o pezinho pra sentir a temperatura da água. Renan Santos está doido pra entrar nesse jogo. O cheiro de que a eleição tem espaço prum candidato anti-sistema está aí. Não é só. De acordo com o jornalista Merval Pereira, os comandantes militares procuraram o presidente Lula. O Supremo condenou, no julgamento do golpe, quem quis. E agora, com o Supremo agindo como está, como é que fica a República?
A melhor maneira de desarticular esta bomba é diminuir a pressão. Neste momento, as ações de Toffoli e Alexandre de Moraes estão contribuindo para confirmar a impressão de que, no Supremo, o jogo tem cartas marcadas. Com exceção dum pedacinho da esquerda nas redes, todo mundo está entendendo muito bem a relação dos ministros com o Banco Master. A sociedade merece uma satisfação. A renúncia rápida de Toffoli é o caminho mais fácil e óbvio.
Mas vamos começar por Alexandre de Moraes. Na sexta-feira da semana passada, a jornalista Malu Gaspar publicou que o ministro e o banqueiro Daniel Vorcaro trocaram mensagens pelo WhatsApp, quando de sua primeira prisão. Não sabemos o que Moraes disse a Vorcaro, essas mensagens foram apagadas. Sabemos que um dos pedidos do banqueiro ao ministro era “conseguiu bloquear”? Bloquear o quê fica pra imaginação, o fato de ter sido no dia de sua prisão pega mal.
O Supremo publicou uma nota num português para lá de hermético em nome de Moraes. Sempre que alguém escreve muito, muito complicado, o objetivo é confundir. A nota parece negar que a conversa aconteceu. Mas o texto não nega em momento algum que a conversa ocorreu. Nem poderia. O objetivo é tirar o foco de Alexandre, mas todos os ministros sabem que mentir em nome do Supremo não podem fazer de jeito algum. Então o que eles dizem é outra coisa. Estas mensagens, no banco de dados que a Polícia Federal mandou para a CPI, não estão numa pasta com o nome de Alexandre. Portanto não dá para afirmar que foram mensagens trocadas pelos dois.
Problema número um: a fonte de Malu Gaspar não é a CPI. O que a CPI recebeu foi um pacote de dados extraídos da nuvem, do iCloud da Apple, que é onde são armazenados os becapes feitos de iPhones. A fonte da Malu vem da própria Polícia Federal. Os dados na mão dela não são do becape, são do próprio WhatsApp de Vorcaro. Para um telefone que um terço dos jornalistas em Brasília conhecem. O celular que Alexandre usava.
A nota do Supremo está sendo interpretada por muita gente como uma negativa. Não é. É um despiste. Na sequência, oficialmente, a Polícia Federal afirmou que não vê razão para focar a investigação nas relações entre Vorcaro e Alexandre. Muita gente está interpretando isso como algo do tipo “não tem sinal de problema nesta relação”. Não é isso que a Polícia está falando. A mesmíssima polícia está vazando essas informações para a imprensa. Mas um confronto direto com o Supremo é profundamente delicado. O vazamento para a imprensa, goste-se ou não da tática, é a ferramenta que a PF está utilizando para navegar esse oceano difícil. Vazar para a imprensa, quando o corporativismo das instituições de Estado tenta impedir que certas coisas sejam tornadas públicas, é um método tradicionalíssimo das democracias. De todas as democracias. Para não bater de frente com o Supremo, a PF investiga e vaza o que descobre.
Tem uma máquina de desinformação, vinda da esquerda, para confundir, para atrapalhar, para desnortear. No caso do Diário do Centro do Mundo, descobrimos pelos vazamentos, o veículo era pago para fazer isso em nome do Banco Master. Não sabemos quantos outros dos sites de esquerda estão na folha de pagamento de Vorcaro. Eu, se fosse consumidor destes sites, estaria com dois pés atrás. Agora, é importante reafirmar que existem exceções muito honrosas vindas do jornalismo da esquerda. É o caso do ICL e do Foro de Teresina, que estão mostrando para seu público os fatos exatamente como eles são. Apesar da revolta do público militante.
Isto não quer dizer que todo mundo na esquerda negando a relação de dois ministros do Supremo com o Master esteja agindo de má fé. Existem dois outros grupos. Um, ingênuo, simplesmente entra em negação quando há qualquer crítica a quem entende estar do seu lado.
O outro grupo não tem nada de ingênuo. É a turma pragmática e que faz análise mais profissional. Esses fazem conta. E suas conclusões são duas. A primeira, a maioria dos políticos envolvidos com o escândalo do Master são de direita. O foco deveria estar neles. Pensamento tático, justo. O problema é que político envolvido em corrupção a gente vê todo ano. Dois ministros do Supremo agindo para proteger o responsável pelo maior escândalo financeiro jamais visto no Brasil é outra coisa. A novidade ganha. Estes analistas e políticos de esquerda não estão conseguindo desviar o foco por causa disso. É um trabalho hercúleo, acho que impossível. Mas o que pega mais é a segunda conclusão. É a convicção de que existe um ataque bolsonarista ao Supremo e o escândalo do Master ajuda demais o bolsonarismo nisso. Pode, assim, fortalecer um ataque à democracia brasileira num possível governo Flávio.
O argumento é relevante. Só que esse barco já zarpou. É preciso, então, resolver o problema antes de ele poder virar arma nas mãos de golpistas. A saída é a renúncia de Toffoli. Ele vai querer? Não. O que não quer dizer que não possa ser convencido de que a alternativa é pior. Deixa eu explicar, vem comigo.
Primeiro: por que Toffoli e não Alexandre? Sabemos concretamente que Toffoli trabalhou em prol do Master. Viajou com um dos advogados dos banqueiros, virou sócio em resort, aí como relator do caso fez abertamente de tudo para evitar que a investigação avançasse. Não há sinais de ações concretas de Alexandre pelo Master. Tem contato, tem visita, tem contrato milionário do escritório de sua mulher. Mas a gente sabe o que Toffoli deu em troca, por enquanto não sabemos se Moraes fez algo. O que ele fez. A segunda razão é puro suco de pragmatismo brasiliense. Alexandre tem um arco importante de alianças políticas, do MDB de Michel Temer ao grupo que está no Palácio do Planalto. Toffoli não tem nada disso. Se é preciso entregar alguém, Toffoli é mais fácil. Seus colegas no Supremo terão de saber convencê-lo que é melhor para todo mundo se ele pedir o chapéu.
Agora, qual é o problema de ordem prática, aqui? Uma das razões para a máquina de comunicação da extrema-direita ser melhor do que qualquer outra é simples: o brasileiro sabe que o Estado é corrupto e muito ineficiente. A extrema-direita se aproxima das pessoas admitindo o problema. A esquerda não admite, para ela o Estado é ótimo e quem delata corrupção é moralista. Na academia, com vários doutores, dá um bom debate. Afinal, o problema é complexo. Dentro do ônibus lotado, às nove da noite, sem ainda ter chegado em casa, com o celular roubado e ainda pagando cinco parcelas, é duro, gente boa. Claro, a partir dessa proximidade, a extrema-direita vende a ilusão de que, para resolver, precisa demolir o sistema todo. Bolsonaro, Marçal, Renan. Que se destrua o sistema.
O que este escândalo do Supremo está fazendo é confirmar que o Supremo não presta como a extrema-direita diz há muito tempo. Que o Supremo faz parte do sistema, igualzinho aos políticos. O problema real da extrema-direita com o Supremo é que ele foi um obstáculo no avanço bolsonarista contra a democracia. Okay. Nós, aqui, entendemos isso. Mas a história que está circulando nos Zaps é outra, e é muito mais simples. É uma coisa “a gente não te disse?” Ao proteger os ministros, o Supremo está confirmando a narrativa.
É uma ilusão atraente a ideia de que dá para a imprensa escolher que foco dar numa notícia. Que é possível esconder. O Nikolas Ferreira não vai esconder. O Flávio Bolsonaro não vai esconder. O Marçal não vai. E eles atingem muito mais gente do que a GloboNews. Esconder a notícia seria uma violação ética para qualquer veículo jornalístico. E só confirmaria que a imprensa profissional faz parte do sistema. Notícia não é escondível.
Há dois caminhos pela frente. Os vazamentos vão continuar. A PF abriu um celular de Vorcaro, tem vários outros. Vai ficar cada vez mais insustentável a situação. Ninguém decidiu atacar o Supremo por causa do Master. Isso é uma inversão completa do que está acontecendo. O Supremo está causando, por escolha própria, por corporativismo, este dano talvez irreparável à sua imagem. A cobrança vai aumentar e muito. Essa história não vai diminuir. E periga decidir a eleição. Então essa história precisa ser resolvida. Rápido.
Só tem uma de duas saídas. Uma é o próprio Supremo resolver o desgaste. Precisa ter algum tipo de punição. José Antônio Dias Toffoli não tem estatura para permanecer no STF. Ele trabalhou para defender um chefe mafioso que ameaçava fisicamente de empregadas a jornalistas e construiu o pior esquema de pirâmide do sistema financeiro do país. Fez isso na frente de todo mundo. Não bastasse isso, Toffoli tem a cara de pau de dizer que pode votar no caso. Toffoli renuncia, a crise dissipa, com a pressão baixa os olhares se voltam pros políticos envolvidos. Mas precisa ser o mais cedo possível. A presença do ministro ficou insustentável.
A alternativa é deixar a panela de pressão no fogo. A tampa estoura na eleição, em favor de quem disser que o problema do Brasil está no Supremo.


