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Como foi o golpe de Bolsonaro

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54% dos brasileiros não consideram que houve uma tentativa de golpe de Estado, em 2022. O número vem da pesquisa Meio/Ideia, que nós publicamos na semana passada. É um índice que vem me assombrando nos últimos dias. O que você acha? Talvez você seja uma daquelas pessoas que tenha dúvidas exatamente sobre o que aconteceu, sobre por que Bolsonaro foi condenado. Se for seu caso, este vídeo talvez possa ajudá-lo.

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Veja, eu não sou uma pessoa de esquerda, acho que o governo Lula foi medíocre, e concordo que o Supremo Tribunal Federal tem tomado decisões autoritárias. Se a sua queixa é esta, eu compreendo perfeitamente. Estamos juntos. Então o primeiro ponto é este. Não gostar do governo Lula não quer dizer que não possamos compreender que houve uma tentativa de golpe. A segunda coisa importante é o seguinte. A tentativa de golpe não foi o 8 de janeiro. Essa é uma confusão que muita gente faz. Não é disso que estamos falando.

Hoje, o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior deu uma excelente entrevista ao Estadão. Olha só o que ele disse, aqui, se referindo ao CEO da Atlas Inteligência, Andrei Roman: “Ele disse que tinha um número que nunca havia divulgado, que naquele período, de novembro e dezembro de 2022, 30% da população adulta do Brasil não encararia qualquer artifício usado pelo ex-presidente Bolsonaro para se manter no poder como um golpe de Estado.”

Baptista Júnior estava no comando da Força Aérea, uma das três armas, naquela época. O mais importante oficial da Aeronáutica brasileira. Ele continua. “Isso é muito sério. Se tivesse decretado Estado de Sítio, Estado de Defesa, Garantia de Lei e Ordem, qualquer coisa para não passar o poder no dia 1.º de janeiro. Veja: 30% da população adulta não encarava isso como algo inconstitucional. Isso para mim foi, de tudo o que eu vivi, o mais perigoso, porque 30% é muita gente.”

É a primeira vez que um oficial militar tão importante fala com tanta clareza. A maior preocupação dele, naquele momento, era que Bolsonaro queria dar um golpe de Estado e um pedaço grande da sociedade não entendia aquilo como fora da Constituição.

Você sabe o que é um golpe de Estado? Pois é, muita gente, inclusive na esquerda, confunde essa expressão. Diz, por exemplo, que Dilma Rousseff levou um golpe. Não levou. É muito diferente do que Bolsonaro tentou fazer.

Um país democrático tem uma lei máxima. É a Constituição. Essa Constituição define algumas coisas. Os direitos de cada cidadão, por exemplo, a maneira como o governo se organiza. E como o governo é escolhido. A nossa Constituição diz que, de quatro em quatro anos, a gente escolhe um presidente novo por uma eleição direta na qual têm direito de votar todo brasileiro com mais de 16 anos. Desde o final do século passado, a gente faz essa eleição rigorosamente do mesmo jeito. Com a urna eletrônica. Nossa Constituição também determina que quem ganha essa eleição, goste-se ou não de quem ganhou, quando acaba o período de quatro anos da pessoa anterior, vira presidente. Tudo certo até aí?

Um golpe de Estado é o seguinte: quando alguém que tem poder porque faz parte do Estado, quer dizer, alguém que faz parte do governo, usa esse poder para mudar quem a Constituição diz que governa. Um golpe pode ser dado pelas Forças Armadas, pode ser dado pelo presidente, pode ser dado pelas polícias. Pode ser dado por qualquer grupo dentro do governo.

Para ser golpe precisa de duas coisas: quebrar a Constituição é uma. A constituição manda que tal pessoa governe. Aí entra um grupo e usa a força para impedir esse governo. A outra coisa, claro, é que o grupo precisa usar de poder. Por isso que golpes militares são os mais comuns. Porque militares têm armas, têm tanques, eles conseguem ter força o suficiente para impor sua vontade.

Por que em 2016 não houve golpe? Porque a Constituição diz que o Senado pode tirar um presidente do cargo num processo de impeachment. Muita gente de esquerda diz o seguinte: “ah, mas a Dilma não cometeu crime.” Pode ser. O problema é o seguinte: quem decide se um crime foi cometido ou não, quem julga se a lei foi quebrada ou não, são os senadores. E a Constituição dá aos senadores este poder. A Constituição foi rompida em 2016? Não, não foi. Claro, todo mundo tem o direito de não gostar da decisão. Opinião cada um pode ter a sua. Mas, se a Constituição foi obedecida, não tem golpe. Está dentro da lei.

Só que, em 2022, ali foi golpe. O brigadeiro Baptista Júnior e o comandante do Exército, o general Freire Gomes, ouviram o pedido de Bolsonaro. Ele queria apoio das Forças Armadas para dar um golpe de Estado. Os dois disseram não. Eles contaram isso para a Polícia Federal. Vamos entender como foi o golpe que Bolsonaro planejou? Vem comigo.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Você não chegou até aqui por acidente. Chegou porque recusa escolher um lado que está sempre certo no cabo de guerra entre a direita e a esquerda. Você sabe que analisar o cenário e pensar fora dos times é o meu trabalho. E é também o trabalho do Meio. Para ter acesso a todo o conteúdo em vídeo, texto e áudio que produzimos diariamente, basta assinar o Meio Premium. Por apenas 15 reais por mês, você financia o jornalismo do Meio e tem um guia sempre atualizado para não se perder nas redes e nos grupos de zap. São duas newsletters especiais por semana, streaming exclusivo, reportagens e entrevistas com os bastidores de Brasília e benefícios como receber a Pesquisa Meio/Ideia todo mês antes de todo mundo. Assine.

E este aqui? Este é o Ponto de Partida.

A primeira coisa importante de entender. Foi planejado desde o início. A família Bolsonaro sabia, como todo mundo que acompanha política de muito perto, que a eleição ia ser muito difícil. Eles sabiam que podiam perder. Então começaram a planejar o bote. Como você faz isso? É preciso, antes de tudo, convencer um pedaço grande da sociedade de que a eleição foi roubada. Desde 2021 a gente começou a ouvir: dá pra roubar com a urna eletrônica. Lembra que a gente usa a mesma urna, o mesmo processo, desde o século passado? Todo mundo sempre aceitou. Nunca foi problema. Aí os caras começaram a envenenar. Inventaram um hacker, inventaram um especialista, fizeram um vídeo aqui, os tuítes ali. Para criar uma história, percebe? Uma história que pudessem usar se perdessem.

Aí, perderam. O que Bolsonaro fez quando perdeu? Se trancou no Palácio do Alvorada e começou a ter uma reunião depois da outra. Várias reuniões. Passo 2? Os acampamentos na frente dos quartéis. Por quê? Porque queriam forçar um levante, um motim. Queriam que os baixos oficiais pressionassem os altos oficiais. Queriam que as pessoas na frente dos quartéis criassem uma impressão, para os militares lá dentro, de que havia apoio popular. E, claro, contavam com o apoio de muitos militares que não desejavam um governo Lula.

Não foi só isso. Teve muita pressão. Tanto influenciadores bolsonaristas quanto o general Braga Netto, que foi vice de Bolsonaro, promoveram uma campanha via WhatsApp contra os parentes do brigadeiro Baptista Júnior e do general Freire Gomes. Por quê? Porque uma reunião após a outra os dois estavam dizendo não para Bolsonaro.

O que Bolsonaro queria era inventar a seguinte história: ele ia usar uma artimanha, que podia ser um Estado de Defesa ou um Estado de Sítio ou uma GLO para chamar os militares dizendo que a eleição estava anulada porque a urna eletrônica havia sido fraudada. Ele sozinho, Jair Bolsonaro, nos últimos dois meses de seu governo, não conseguia fazer isso. Claro, ele podia assinar um papel como presidente dizendo que a eleição estava anulada. Só que esse papel não valeria nada. Quem decide se uma eleição terminou e quem ganhou é o Tribunal Superior Eleitoral. Para chegar lá, prender os ministros do TSE e anular a eleição, que é o que eles precisavam fazer, precisavam de soldados.

O comandante da Marinha topou. Os comandantes do Exército e da Aeronáutica não toparam.

Outro argumento que vocês vão ouvir: tentar um golpe não é o mesmo que dar um golpe. Não é, mesmo. Só que o crime que está na lei é o de Tentativa de Golpe de Estado. Bolsonaro fez tudo pra conseguir. Não conseguiu porque dois comandantes tinham claro, para eles, que seu dever é obedecer a Constituição, não o presidente. Patriotas de verdade.

E sabe por que a gente sabe de tudo isso? Porque a Polícia Federal investigou. Não tem nada a ver com o Supremo, com o Xandão, com nada. Trabalho da Polícia. É por causa da Polícia que sabemos tudo. A mesma Polícia Federal que está trazendo à tona um monte de coisa sobre o Supremo. A Polícia encontrou documentos impressos dentro do Palácio do Planalto com o Plano, encontrou troca de Zaps dos golpistas, ouviu depoimentos de muita gente. Mais de mil páginas de inquérito.

O 8 de Janeiro foi uma arruaça de gente infeliz com o resultado. É crime, é vandalismo, mas no fundo é gente que foi manipulada, que achava que a posse de Lula poderia ser revertida e, quando a lei foi cumprida, não se conformou.

No fim das contas, a coisa é muito simples. A gente pode não gostar de um governo. A gente pode achar que o Supremo tem problemas. A gente pode não gostar de a Lava Jato ter sido revista. Todas são opiniões muito legítimas e discussões que muita gente tenta calar. Tudo isso é verdade.

Mas eleição se ganha na urna. Lula ganhou. Ganhou por muito, muito pouco. Mas soma os votos de um, soma os de outro, Lula ganhou. Ele é o presidente. Quer mudar. Se joga na campanha. Argumenta, debata, escolhe um candidato. Só que tem um jeito certo e um jeito errado de fazer as coisas. Quem ganhou leva. Virada de mesa é uma violência, é uma injustiça com a maioria da população. Vota nas ideias em que você acredita. Se ganhou, celebre. Se perdeu, daqui a quatro anos pode tentar de novo.

Bolsonaro fez aquilo que não pode ser feito nunca. Ele quebrou o juramento de defesa da Constituição. É um golpista.

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