Moro e Bolsonaro mudaram tudo
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Flávio Bolsonaro e Sérgio Moro, juntos, abateram a candidatura de Ratinho Júnior a presidente da República. Desde o final da semana passada, como adiantei hoje no Central Meio, estava rolando um zunzunzum no entorno do presidente do PSD, Gilberto Kassab. De que a jogada do PL, no Paraná, havia asfixiado as chances de Ratinho ser presidente.
Isso quer dizer muitas coisas. Uma delas quer dizer o seguinte: aumenta as chances de a eleição terminar no primeiro turno. E, vejam bem, isso não quer dizer que esteja claro quem venceria no primeiro turno entre Flávio e Lula.
Mas pausa. Restam três. No PSD, os governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e de Goiás, Ronaldo Caiado. E o agora ex-governador mineiro, Romeu Zema, que renunciou ao Palácio da Liberdade. É do Novo. Isto quer dizer que saem cinco cenários daí. Isso mesmo. Três homens, cinco cenários.
O primeiro: Romeu Zema candidato pelo Novo, e o PSD com outro candidato. Ou seja, à direita de Lula haverá Flávio e mais dois. Que dois? Eduardo Leite, de longe o mais diferente de tanto Lula quanto Bolsonaro. Este é o cenário um. E, o dois, Zema de um lado e Caiado, do outro. Direita clara, porém com um histórico de ter enfrentado Bolsonaro. Dois cenários, faltam mais dois. Quais? Romeu Zema vai para o PSD e ele será o candidato à presidência do partido de Kassab. Sim. A jornalista Ana Flor, por exemplo, ouviu que esta proposta está na mesa. Após ela sugerir isso, ouvi de duas pessoas que está sendo conversado, sim. Aí, fora os nanicos, só tem um candidato além de Flávio à direita de Lula. Mas tem o quarto cenário: Zema continua no Novo é candidato a vice no PSD. Ou de Flávio Bolsonaro.
Vejam, é bem difícil Romeu Zema sair do Novo. Ele trabalhou muito, muitíssimo mesmo, para encher chapas Brasil afora para que o partido consiga escapar da cláusula de barreira. Largar o navio depois de tanto esforço é estranho. Mas política, bem, política. Pois é. O quinto cenário? O PSD pula fora em busca da vice de Flávio. Isso Kassab vem dizendo que não faz de jeito nenhum.
Então vamos lá. Por que Ratinho, que durante quase todo o tempo foi o favorito de Kassab e do comando do PSD, pulou fora? Veja: ele estava muito disposto a entrar nessa briga. Aí, de repente, saiu.
Quem o tirou do jogo foram Sérgio Moro, Flávio Bolsonaro e Valdemar Costa Neto. Vamos lá: Moro é candidato ao governo do Paraná, à sucessão de Ratinho. Ele é favoritíssimo. Não existe estado no Brasil onde Moro seja tão admirado quanto no seu. Ele já era um candidato muito, muito forte.
Em dezembro, segundo o Metrópoles, procurou Ratinho. Queria apoio. Ouviu do governador que não dava. O senador, ex-juiz, vetou o apoio do seu União Brasil ao candidato do PSD à prefeitura de Curitiba. Quem ele escolheu terminou em quarto. Aí, no segundo turno, Moro apoiou a adversária direta de Ratinho. Então, com esse histórico, ele explicou para o senador que, não, não dava para apoiá-lo.
Jogo jogado. Então está lá, Moro, na liderança de todas as pesquisas no Paraná, chegaram Flávio e Bolsonaro com o convite. Vem pro PL. Moro topou. Será o candidato de Flávio no Paraná.
Importa que Moro tenha deixado o governo Bolsonaro porque Jair não queria investigar o filho? Não, não importa. Importa que Moro tenha denunciado a corrupção de Flávio? Não, não importa. Importa que, agora, os dois, Flávio e Moro, estão juntos, reabilitaram-se um ao outro, e serão candidatos com o número 22. Isso é muito poderoso. O eleitor vai à urna votar 22 duas vezes, para presidente, para governador. É um elo mental forte e, no Paraná, fácil de fazer.
Por que Ratinho nas pesquisas está próximo de 10 pontos percentuais mas Zema, Caiado e Leite estão ali entre 4 e 5? Por uma razão simples. Zema tem votos em Minas. Caiado tem votos em Goiás. Leite tem votos no Rio Grande do Sul. Ratinho tem votos no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande. Em todo o Sul. Sua força na região o faz descolar-se do bloco. É o que o tornava forte. Mas, se ele perde os votos no Paraná porque o 22 tira o oxigênio do ambiente, vai ao chão. E isso quer dizer, inclusive, que perigava não se eleger sequer senador. Perante o risco, preferiu sair.
Agora é hora de tomar fôlego, tá? Porque, veja, números de uma pesquisa Ipsos/Ipec. 22% do eleitorado não quer nem Lula, nem alguém com o sobrenome Bolsonaro. Não querem. João Santana, que foi marqueteiro de Dilma quando ela se elegeu, vem dizendo para quem deseja ouvir que tem uma quantidade considerável de votos ali entre as candidaturas Lula e, principalmente, Flávio, que não são sólidos. O que Caiado, Leite e Zema trazem para este jogo? Esta é a questão. Vem comigo?
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Antes de continuar, escuta essa história. Não faz muito tempo que eu descobri Evidências, música do Chitãozinho e Xororó. Uma canção que metade do Brasil sabe de cor desde os anos 90. Pra mim era desconhecida. Isso me fez uma pergunta que não saiu mais da cabeça: o quanto eu, que escrevo sobre o Brasil há 30 anos, de fato conheço o Brasil? Dessa pergunta nasceu o mais novo lançamento do streaming do Meio. Dia 25, quarta-feira, estreia Nós, Brasileiros, novo episódio do Ponto de Partida, A Série. O Brasil não está dividido em dois. Está dividido em cinco. E quando você enxerga esses cinco Brasis, fica impossível continuar vendo a política, os comportamentos alheios e os próprios, do mesmo jeito. Assine o Meio Premium e assista em primeira mão. O link está na descrição.
E este? Este é o Ponto de Partida.
22% do eleitorado rejeita os dois polos igualmente. São 35 milhões de eleitores. Se um candidato os encanta, tem um estrago por ser feito nessa eleição. Muda o jogo. Dois terços destes eleitores são mulheres, 75% desaprovam o governo Lula. O que querem é o seguinte: economia crescendo, como está não basta; gestão eficiente. Querem ouvir sobre qualidade de administração. E o fim da guerra cultural que esquerda e bolsonarismo trava. Gente, estão de saco cheio da briga.
Para João Santana, para irmos além da pesquisa, isso quer dizer o seguinte: o candidato que funciona não é o que bate nos dois lados — é o que ancora conciliação em democracia, mais programas sociais reimaginados, mais desenvolvimento tecnológico. Sim, gente. Candidato pra esse pessoal tem de falar de inteligência artificial, de equipamento sem imposto, tem de falar de Brasil no século 21.
Pois é. Algum desses três consegue fazer esse discurso? Então vamos ver.
O que Leite tem dito é o seguinte: O PT é corrupto, a Lava Jato tinha problemas mas o desvio da Petrobras é oficial, foi enorme, e muito, muito real. Bolsonaro é golpista. A gente precisa botar tudo isso para trás e criar uma nova ideia de Brasil. Com tecnologia, aproveitar a onda da IA enquanto ainda há espaço para isso.
Aí vem Caiado. Caiado é forte, é incisivo, não foge de qualquer confronto. Nunca fugiu. No início da pandemia, foi para a rua em Goiás dizer que, como médico, ele via com muita clareza que era fundamental ir todo mundo para casa. Ele, igualmente, bateu novamente de frente com Bolsonaro na eleição para prefeitura de Goiânia.
O problema de Caiado é o seguinte. Seu jeitão, mais agressivo o torna, na aparência de estilo, mais parecido com Bolsonaro. Leite, por outro lado, é muito liberal. Nada contra, muito pelo contrário, até sou também. Mas o eleitorado está mais conservador.
E aí tem Zema. Zema não tem a agressividade de Caiado, tampouco tem a sofisticação de Leite. É o único candidato dos três, porém, que jamais se afastou realmente de Bolsonaro. É o mais próximo. Então não tem vantagens? Tem. Minas Gerais, o segundo estado mais populoso do Brasil e, veja só, o estado em que todos os candidatos a presidente da Nova República, desde Collor, venceram. Ninguém nunca ganhou perdendo Minas.
Neste momento, o mundo político no Brasil está em suspenso. O jogo que todo mundo esperava há apenas uma semana desapareceu do tabuleiro. Nesta corrida, o fato é que os cenários precisarão todos ser redesenhados.
E agora? O que ouvi nesta tarde de gente bastante próxima de Gilberto Kassab: a corrida interna está 50 a 50. Pode ser tanto Caiado quanto pode ser Eduardo Leite. E que a chance de Zema ir para o PSD tende a zero.
De fontes não tão próximas do PSD, o que ouço é um pouco diferente. Caiado é mais forte, mas Leite não está fora do páreo.
De fontes muito próximas de Romeu Zema: não existe chance de ele não ser candidato à presidência. Seu objetivo é fazer com que o Novo tenha deputados o suficiente para escapar da cláusula de barreira e pronto. Não importa se não se eleger, o objetivo é reforçar o partido.
Então ficamos pelo cenário 1 e 2. Leite ou Caiado, Zema, Flávio, Lula e os nanicos. Se eu ponto minha mão no fogo por algum destes cenários, qualquer um deles? Não, não ponto. Está tudo no ar. Caiado e Zema é um pouco mais provável. As próximas horas e dias vão ser quentes, muito quentes. E tudo pode acontecer.
Respirem fundo. Uma eleição muito difícil, muito tensa e imprevisível acaba de começar.


