Flávio Bolsonaro e a máfia do Rio
Receba as notícias mais importantes no seu e-mail
Assine agora. É grátis.
Na última semana, o Rio de Janeiro teve três governadores. A gente, por aqui, está acostumado com o nível de podridão do governo do nosso estado. Se você não é do Rio, também deve estar. Caramba, toda notícia que vem do Rio parece ser essa, né? Mais um governador preso. Olha só: das seis pessoas eleitas para governar o Rio, neste século 21, quatro foram presas. Quatro de seis. Castro deve ser o quinto. Anthony Garotinho, por exemplo, foi preso cinco vezes. Sérgio Cabral passou seis anos preso. Põe na conta quatro presidentes da Assembleia Legislativa, também presos. O que sobra, Wilson Witzel, não foi preso mas foi cassado por corrupção, tá? Não é só corrupção crassa, não. É uma mistura de corrupção da pior possível, saque mesmo dos cofres públicos aos muitos milhões, misturada com milícia e tráfico. Olha, a Polícia Federal tem uma conta de que aproximadamente metade dos 70 deputados estaduais estão ligados ao crime organizado. Não deve ter nenhum estado que apodreceu tanto por dentro quanto o meu.
Flávio Bolsonaro é a Alerj no Palácio do Planalto.
Não quero soltar essa afirmação assim, de forma que pareça gratuita. Porque não é. Flávio passou 16 anos na Alerj, dois terços da carreira política dele foi lá. E, se você acompanhar a carreira de Flávio Bolsonaro como deputado estadual, entenderá que ele, hoje, estaria naquela lista da Polícia Federal.
Então deixa eu explicar por que Cláudio Castro, que é do grupo mesmo político de Flávio, foi cassado. Por que o atual presidente da Alerj, Rodrigo Bacelar, também do mesmo grupo político de Flávio, está preso.
Castro perdeu o cargo e foi tornado inelegível por oito anos por conta do que fez na Ceperj, a fundação estadual que gera estatísticas e informação que o governo precisa para desenvolver suas políticas. Ele montou um esquema que contratou 27 mil pessoas, gente ligada a chefes políticos em todo o estado. Você ouviu bem: 27 mil funcionários fantasmas pra agradar a aliados políticos. Aliás, mais do que agrado, né? Quase tudo esquema de rachadinha. Fulano bota o nome, saca o salário, repassa quase tudo pro padrinho. Ao todo, 250 milhões de reais foram gastos nisso. E sabe de onde veio o dinheiro? Ca privatização da Cedae, a companhia de águas e esgoto. Privatizou a empresa e gastou um bom pedaço do dinheiro pra comprar apoio de uma quantidade imensa de pessoas para se eleger governador, em 2022. Tem mais. Essa turma da Ceperj não era paga de um jeito normal, com contracheque e depósito em conta salário. Não. Os pagamentos eram feitos por ordens bancárias em dinheiro vivo. Você consegue imaginar uma coisa mais mafiosa do que isso?
Aí vem o Rodrigo Bacellar. Era presidente da Alerj e ia suceder o Castro quando ele renunciasse pra ser candidato ao Senado. Por que ia suceder o Castro? Pra manter o governo, a máquina do Estado, nas mãos do mesmo grupo pra ajudar todo mundo a se eleger. Então, tudo pronto pra cuidar da candidatura ao Senado do Castro. Para que vaga? Ora, a vaga de Flávio Bolsonaro no Senado. O sujeito que ia ocupar sua vaga pelo PL do Rio conforme Flávio sai a presidente. E o Bacellar, a terceira peça desse jogo? Gente, ele foi preso porque contou prum deputado responsável popr tráfico internacional de armas e drogas que a polícia ia prendê-lo.
Esta é a podridão do Rio de Janeiro. As milícias se misturaram com o tráfico que se misturaram com o Bicho. Assassinatos são encomendados a toda hora. Pedaços inteiros do estado estão sob o controle de grupos armados paramilitares. Um pedaço imenso da PM e da Polícia Civil comanda e faz parte destes grupos. E esse pessoal, com o tempo, foi se elegendo pra Alerj, se unindo a grupos na Alerj, e por este caminho entrando dentro do governo estadual. Não é que o Rio tenha governadores corruptos, isso todos os estados têm. O Rio tem governadores e deputados estaduais corruptos em cujos grupos assassinatos são encomendados, regiões inteiras são entregues a mafiosos que aterrorizam diariamente gente de bem, na batalha por sobrevivência.
O estado está no fundo do poço. E isso não é de hoje. Já era assim oito anos atrás, quando Flávio ainda estava na Alerj. Como deputado, o filho de Jair Bolsonaro contratou a ex-mulher e a mãe de Adriano da Nóbrega, o maior chefe de milícias do Rio e assassino profissional. As duas receberam, juntas, um milhão de reais em salários e, desse dinheiro, repassaram 200 mil para Flávio. Não foi só que ele contratou mulher e mãe de miliciano, ele deu a Medalha Tiradentes para Adriano. A principal medalha do estado. Deu a mesma medalha para Ronald Paulo Alves Perreira, chefe da milícia da Muzema. Votou por indicar Domingos Brazão, hoje preso por ordenar o assassinato de Marielle Franco, para o Tribunal de Contas do Estado. Caramba, o Flávio fez pessoalmente 6 milhões de reais em rachadinhas, esse mesmo esquema que o Claudio Castro comandava numa escala maior. E tudo certo, Flávio era só um deputadozinho. Só depois virou senador e filho do presidente. Só depois mudou a escala. Mas o mundo dele
O quanto que o Brasil entende isso? Que Flávio é peça integrante, fundamental, ligada umbilicalmente à podridão que destruiu o Rio de Janeiro? Este é o grande desafio da direita brasileira. Conseguir mostrar que tem uma alternativa a esse esquema. Mas tem?
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
A gente está discutindo um assunto complexo aqui. Mas eu sei que em dois minutos esse mesmo assunto vai virar um corte editado, uma opinião gritada no X, um post raivoso no Instagram. E a maioria das pessoas vai achar que se informou. Não se informou. Foi informada. Tem uma diferença enorme. O Meio existe para quem quer essa diferença. No Premium, você pensa o Brasil com profundidade através do nosso streaming e newsletters especiais. Falando nisso, acabou de chegar no catálogo o Ponto de Partida, A Série — Nós, Brasileiros. Eu mergulhei nas nove ideologias que organizam o país e os cinco Brasis que vão decidir 2026. É o tipo de investigação que não existe em nenhum outro lugar. O link para ser Premium está na descrição. Aproveite.
E este? Este é o Ponto de Partida.
O Flávio vinha cuidando até de forma muito competente da sua imagem de mais moderado. O temperamento ajuda, né? Diferentemente do pai e dos dois irmãos, ele não é estourado. Corrupto pra cacete, com loja da Kopenhagen mal explicada, mansão de seis milhões que ninguém entende como pagou, funcionários fantasmas no gabinete e milicianos que não acabam mais. E, ainda assim, bom de papo, sorriso fácil, simpático.
Aí, esse fim de semana, nos Estados Unidos, me sai com essa: “Não queremos interferência nas eleições brasileiras como a administração Biden fez para trazer Lula ao poder.” Qual foi a pressão do governo Biden? Disse que não reconheceria um governo golpista. Só isso que os caras fizeram. Mas isso é o óbvio, tá? Aliás um dos problemas do governo Lula é justamente que reconheceu por anos o governo golpista de Nicolás Maduro. É uma das queixas muito justas que a oposição faz do petismo.
Então, logo depois de dizer que não quer interferência do governo Trump, diz que quer “pressão diplomática” para que a eleição brasileira tenha “valores de origem americana”. Ele acha que pressão diplomática para impor valores americanos é o quê? Em troca, se ele ganhar, prometeu aos Estados Unidos a exploração das terras raras brasileiras.
A falta de espinha dorsal desse sujeito é qualquer coisa de inacreditável. O engraçado é quem acha que é nacionalista ou patriota, né?
Aí o eleitor de direita tem a opção de Ronaldo Caiado. Foi anunciado hoje pelo PSD. Tem, também, claro, o ex-governador mineiro Romeu Zema. Mas ele quer mesmo é ser candidato a vice de Flávio, então é isso. Tem Caiado. Em que Caiado é diferente de Flávio? Porque, veja, para o eleitor de direita, o que ele vê é Flávio muito na frente.
A esquerda vai discordar, mas Caiado é um jogador da democracia brasileira. Sempre foi, desde a Constituinte. Os Bolsonaro não são. Essa é a grande diferença. Caiado se convenceu de que o eleitor conservador deseja a anistia. A turma de esquerda acha horrível, nós liberais também. Mas Caiado considera que este é o caminho para o eleitor de direita. Olha, as pesquisas dizem que ele está certo, tá?
Então tudo bem. Mas se você oferece anistia como Flávio, fala de segurança como Flávio, se defende pautas conservadoras como Flávio, no que você é diferente? Este é o desafio do agora candidato Ronaldo Caiado. No que ele é diferente? Não está claro. Ele dirá que tem experiência de governo, e é verdade. O brasileiro não elege presidentes com base em experiência. Fernando Henrique era senador, Lula nunca havia ocupado um cargo público, Dilma nunca tinha sido eleita. Bolsonaro era um candidato do baixo clero. Experiência nunca foi critério para o eleitor.
Olha, Flávio Bolsonaro é a Alerj na presidência da República. É um pesadelo. Então está posto o desafio a Caiado. Em que ele é diferente? É sua capacidade de responder de forma convincente a esta pergunta que pode mudar esta eleição para a direita. Não é um desafio pequeno.


