A eleição que excluiu as mulheres
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Você gostaria de votar numa mulher para presidente da República? Pois pela primeira vez desde 2002, você talvez não tenha essa opção.
Fica todo mundo ensandecido, debatendo se uma mulher trans pode ou não presidir a comissão de mulheres da Câmara dos Deputados e, enquanto isso, a gente está caminhando pra uma eleição presidencial sem candidatas. Possivelmente até sem mulheres na vice das principais chapas. Sobre isso, ninguém esperneia, né?
Com o fim da janela partidária, o período em que políticos trocam de legenda de olho na eleição de outubro, o campo das pré-candidaturas ao Planalto tem oito nomes. São todos homens. Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Aldo Rebelo, Renan Santos, Cabo Daciolo e Augusto Cury. Oito homens disputando o cargo máximo do país.
Também já temos pelo menos um homem confirmado na vice: Geraldo Alckmin, do PSB, vai ser novamente vice de Lula.
Isso num país onde as mulheres são maioria, tanto da população quanto do eleitorado. E, desde o ano passado, maioria das pessoas que sustentam financeiramente seus lares.
O cenário ainda pode mudar, porque as candidaturas ainda não estão todas oficializadas. O prazo para registro de candidatos é 15 de agosto. Mas as articulações das principais chapas já está acontecendo e, até aqui, as mulheres só aparecem figurativamente nos discursos políticos, quase como uma abstração de um público a ser conquistado.
E daí derivam os clamores dos caciques para que os candidatos construam plataformas voltadas para elas. Ou ainda, se tudo der m uito certo, para que consigam uma vice mulher, como um aceno simbólico para as eleitoras. Ou seja, a mulher política vira um token eleitoral, um adorno. Nossa, brigada, hein, valeu.
Antes de continuarmos: eu não estou dizendo que você é obrigada ou obrigado a querer votar numa mulher. Nem que mulheres necessariamente são mais virtuosas que homens na política ou em qualquer outra área.
O ponto é que essa ausência de mulheres na disputa presidencial é um sintoma bastante sério de como a política funciona e de como isso afeta a sua vida, diretamente. E é disso que eu quero conversar com você hoje.
Vamos começar pelos dados. As mulheres são 52,47% do eleitorado brasileiro. São 81 milhões e 800 mil eleitoras contra 74 milhões de eleitores homens. Quase 8 milhões a mais de eleitoras. É uma massa nada desprezível de brasileiras que ficam absurdamente subrepresentadas numa corrida eleitoral.
Em quase 62% dos municípios do país, as mulheres são maioria absoluta nas urnas. Quem decide eleição no Brasil, na prática, somos nós, mulheres.
Agora olha o resultado dessa supreresentação em tudo que é nível. Na Câmara dos Deputados, as mulheres ocupam 17,2% das cadeiras. No Senado, 18,5%. No conjunto do Congresso, são menos de 18% dos 594 parlamentares. E nas eleições municipais de 2024, apenas 15% dos prefeitos eleitos foram mulheres.
Mais da metade do eleitorado, menos de um quinto da representação.
No plano internacional, a gente passa ainda mais vergonha. O Brasil ocupa a posição 139 no ranking mundial de representação feminina em parlamentos, elaborado pela ONU Mulheres e pela União Interparlamentar. Ficamos atrás da Arábia Saudita.
Somos o país mais mal colocado da América Latina — atrás da Bolívia, do Equador, da Argentina, de Cuba, da Nicarágua. A média das Américas é de 35,4% de mulheres nos parlamentos. O Brasil tem 17%.
E o pior é que a linha do tempo não está mostrando evolução nesse aspecto. A gente está andando pra trás. Em 2022, quatro mulheres disputaram a Presidência da República — o maior número do século. Simone Tebet, Soraya Thronicke, Sofia Manzano e Vera Lúcia.
Tebet fez uma campanha surpreendente para uma estreante na disputa presidencial. Ficou em terceiro lugar no primeiro turno, com quase cinco milhões de votos, e virou peça-chave na eleição de Lula. Depois, assumiu o Ministério do Planejamento.
Marina Silva foi candidata a deputada federal em 2022, mas foi 3 vezes candidata a presidente antes disso. Tinha sido ministra, é uma das políticas mais reconhecidas do país.
Onde estão as duas hoje? Fora da disputa para a Presidência. Tebet vai tentar o Senado por São Paulo na chapa de Haddad. Marina provavelmente também. Nenhuma das duas foi sequer cotada para o Executivo, porque no lado progressista Lula varreu as candidaturas e concentrou todo o esforço em si mesmo.
E porque as estruturas partidárias de cada uma delas não se fortaleceu ou não as fortaleceu para que seus nomes seguissem viáveis na corrida presidencial. Simone já não teve o apoio integral de seu ex-partido, o MDB, em 2022. Também deixou de ser vista como alternativa liberal com o tempo, por ter feito uma gestão mais próxima do petismo do que do liberalismo econômico. E o PSB, atual partido da ministra, tem Alckmin para oferecer na vice.
Marina também não trabalhou para ser uma alternativa a Lula em sua sucessão e a Rede luta para sobreviver como legenda. Assim, o campo progressista caminha para ter, como potenciais sucessores no pós-Lula, Guilherme Boulos e Fernando Haddad.
Lula ainda tem o mérito de ter feito de Dilma Rousseff sua aposta em 2010 e 2014. E aqui vale a pausa para lembrarmos como Dilma foi tratada no quesito gênero. Basta lembrar a nojeira que era o adesivo que a direita usava, de Dilma com pernas abertas no tanque de combustível dos veículos, quando o preço aumentava nas bombas. Engraçado como isso não se repete com presidentes homens, não é mesmo? Eu até tenho uma sugestão de design. Mas não é legal fazer isso com outro ser humano, né, gente?
Eu não acho que Dilma caiu por ser mulher. Eu tenho clareza de que ela caiu porque desagradou de variadas maneiras variados setores da sociedade — sua gestão na economia tinha pouquíssimo apoio nos mercados e teve resultados problemáticos; sua gestão política incomodou caciques e aliados; e mesmo movimentos sociais se ressentiam de seu governo. Agora, ignorar o caráter machista da forma como sua queda foi promovida e conduzida é muita inocência. Ou má-fé.
Bom, desenhada a ausência feminina pelo lado esquerdo, vamos olhar para a direita. Soraya Thronicke abandonou o curto flerte que teve com o bolsonarismo antes mesmo de 2022. Dali em diante, se manteve no União Brasil, depois foi para o Podemos, mas com um alinhamento cada vez mais centrista. Acabou migrando, na janela partidária, também para o PSB, o partido de centro-esquerda do espectro.
O PL, por sua vez, transformou Michelle Bolsonaro num baita ativo político. Ela é presidente do PL Mulher e, nessa posição, filiou dezenas de milhares de mulheres ao partido. Mas ela não conseguiu se viabilizar nem para vice diante da resistência do próprio marido e dos enteados.
Valdemar Costa Neto foi perguntado sobre isso semana passada. Estava claro que ela queria ser vice numa chapa com Tarcísio de Freitas. Mas por que não ser vice de Flávio? Ele foi de uma franqueza admirável: “com o mesmo sobrenome? Pra quê? O que ela agregaria?”
O cálculo é bem esse mesmo, não sejamos ingênuos. A posição de vice é pensada nesses termos, em como agregar votos. Nesse caso, a senadora Tereza Cristina traria votos do agronegócio. Ué, mas Flávio já não traz esses mesmos votos? Ah, mas Teresa é mulher. Hmmm, Michelle também — e ainda é evangélica. O que Valdemar não podia confessar ali é que dois Bolsonaros na mesma chapa afastam aquele voto da direita envergonhada, porque radicalizam demais o tíquete.
É curioso como os dois nomes femininos com maior visibilidade política no Brasil hoje são de primeiras-damas. Janja, mulher de Lula, é evocada constantemente pelo presidente e tem presença marcante na política do governo. Michelle tornou-se a porta-voz do bolsonarismo junto ao eleitorado feminino.
Ao mesmo tempo, ministras, senadoras e deputadas com trajetória política própria têm caminhado para a sombra. O espaço que o sistema reserva para as mulheres é cada vez menos o da candidatura. E cada vez mais é o espaço do apoio, da mobilização — sempre em torno de um homem.
Vamos conversar mais sobre isso? Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. Essa ausência de mulheres diz um bocado sobre como o jogo do poder é jogado no Brasil. Se você quer entender cada vez mais esse jogo, indo além aqui do Cá Entre Nós, quem é assinante premium do Meio recebe à meia-noite desta quarta-feira, antes de todo mundo, a edição de abril da Pesquisa Meio/Ideia. **São dados exclusivos mostrando o que o eleitor brasileiro está pensando de verdade. O assinante Premium recebe o relatório completo em PDF pra distribuir em seus grupos, e tem ainda vantagens como acesso ao catálogo completo do nosso streaming e mais duas newsletters especiais por semana, com matérias e entrevistas exclusivas. Tudo isso por 15 reais por mês. Assine agora o Meio Premium e mude o seu jeito de ler a política e ver o mundo.
Por que as candidaturas femininas na corrida presidencial estão em extinção? Manter mulheres fora do centro da disputa, mesmo quando elas têm capacidade de articulação e capital eleitoral, é resultado da persistência das barreiras criadas pelas organizações partidárias. O resultado é o enfraquecimento do próprio debate político.
Tem uma razão estrutural para tudo isso. Os partidos brasileiros são majoritariamente masculinos nas suas instâncias de decisão. São os homens que decidem quais candidaturas recebem recursos, quais nomes ganham palanque, quais figuras são construídas como viáveis ao longo do tempo.
Desde 1998, há um sistema de cotas que obriga os partidos a lançar ao menos 30% de candidaturas femininas — mas isso vale apenas para eleições proporcionais, como para deputado e vereador. Para presidente, governador e prefeito, não há cota nenhuma.
E mesmo onde a cota existe, pesquisas mostram que ela é cumprida muitas vezes no papel: o partido lança mulheres nas listas, mas não destina recursos para as campanhas delas. Isso acontece por dois motivos distintos. Ou porque elas são candidatas laranja, usadas apenas para cumprir a cota ou até para desviar recursos de suas candidaturas; ou porque os partidos não acham que elas são competitivas.
Aí, olha o círculo vicioso: o sistema de cotas foi construído ao longo de 30 anos, reforçado pelo STF e pelo TSE com punições crescentes — e mesmo assim produz candidaturas fictícias em escala industrial, numa profecia que se autorealiza. O partido não investe. A candidatura não decola. O partido conclui que mulher não ganha e não é competitiva. E não investe de novo.
Isso se reproduz na estrutura partidária, claro. As mulheres são, em média, apenas 3 de cada 10 integrantes dos órgãos nacionais dos partidos com as maiores bancadas na Câmara dos Deputados, segundo dados do TSE. Traduzindo, elas têm muito menor poder de decisão lá dentro.
Bom, mas pra que a gente tem que desejar mais mulheres na política, afinal? Pela bandeira em si? Pela militância em si mesma?
A resposta tem pelo menos duas dimensões. A primeira é prática. É a diferença que as mulheres imprimem em como construir e eleger políticas públicas. Pesquisas mostram que mulheres em cargos de liderança política tendem a alocar mais recursos para saúde e educação. Um estudo do Insper aponta que essa diferença pode chegar a 7% a mais em bens públicos — com impacto mensurável em mortalidade infantil e acesso à educação.
Mulheres, historicamente, vivem de perto os problemas que esses serviços resolvem ou não resolvem. Vão dar outro tipo de atenção a eles.
A segunda dimensão é mais profunda. Uma democracia que sistematicamente exclui metade da população dos seus espaços de decisão simplesmente não é uma democracia plena. É uma democracia pela metade. A metade excluída fica condenada a ver homens decidindo eternamente sobre seus futuros, suas escolhas, seus corpos. Ficamos condenadas à permanente piada de mau gosto daquele Partido da Mulher Brasileira que só tinha homens entre seus membros.
Antes de discutir se uma mulher trans é a melhor representante de uma comissão de políticas para mulheres, discussão capitaneada por muitos homens, inclusive, que tal sermos realmente honestos sobre o péssimo estado da representatividade feminina na política brasileira, hein?


