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Ou Lula, ou Bolsonaro

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Estamos entrando na terceira campanha presidencial com o Brasil sequestrado pela dicotomia entre Lula e Bolsonaro. 2018, 2022, e agora 2026. De um lado, Lula. Do outro, Bolsonaro — ou quem o bolsonarismo ungir pra carregar a bandeira. Oito anos preso na mesma gangorra. E a cada eleição aquela sensação de que o país é obrigado a escolher entre dois mundos que mal se falam.

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Pois é. Eu quero te propor um jeito diferente de olhar pra isso. A pergunta que interessa não é qual dos dois é melhor. A pergunta é: o que, afinal, cada um deles oferece ao brasileiro? Porque quando você olha por esse ângulo, descobre uma coisa. Os dois oferecem coisas opostas. E os dois deixam de fora justamente o que mais importa.

Vem comigo. Começa pelo Lula.

O que o lulismo oferece é integração pelo consumo. Olha a lista: Bolsa Família, crédito consignado, Minha Casa Minha Vida, PROUNI, salário mínimo subindo acima da inflação. Tudo converge num ponto só: te botar dentro do mercado. A classe C pôde ter geladeira, TV, celular, a primeira passagem de avião, o diploma do filho. O shopping center virou a arena da igualdade — o lugar onde o filho da empregada e o filho da patroa passeiam lado a lado.

E presta atenção, porque isso é uma conquista de verdade. O Bolsa Família matou o coronel. Pra uma mulher do interior do Maranhão, o cartão no nome dela significou parar de pedir favor ao vereador. O dinheiro cai todo mês, sem genuflexão. Isso é dignidade. Não é pouca coisa.

Mas a integração pelo consumo tem três rachaduras. A primeira: consumir não é pertencer. O sujeito que comprou a TV de 42 polegadas sabe que pode comprar como a classe média. Mas não sabe se ele é classe média. A identidade fica instável, pendurada no extrato bancário. A segunda: o consumo pode ser tirado. A recessão de 2015 e 2016 mostrou isso de forma brutal — quem subiu no crédito, desceu na inadimplência. O que a renda dá, a crise tira. E a terceira rachadura, a mais funda: o consumo não responde à pergunta que mais pesa na vida de uma pessoa. Quem sou eu? O que há de valor em mim?

Esse desejo de ser reconhecido, de ser visto como alguém que tem valor, os gregos já tinham nome pra ele: thymos. É o lugar da alma que registra como os outros nos veem. O olhar do outro que diz: você faz parte, você tem valor. É onde mora o nosso senso de dignidade. Não confunde com vaidade que esse troço vai mais fundo. Thymos é isso: o desejo de ser visto como digno. E não ser reconhecido assim, em sociedade, dói de verdade — vira humilhação, vira exclusão, vira a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Lá nos anos 1950, o JK olhou pro candango que levantava Brasília no meio do cerrado e disse: você está fazendo história. O Lula olhou pro mesmo brasileiro e disse: você agora pode ir ao shopping. Pra um, foi oferecido um lugar num épico. Pro outro, foi oferecido um tênis.

E olha a ironia mais cruel. O Lula, ele mesmo, entende o thymos na pele. A biografia inteira dele é sobre se tornar alguém que é visto. Que é reconhecido. O nordestino que migrou no pau de arara, o torneiro mecânico que virou líder, o homem que foi preso e voltou por cima. O Lula nasceu Severino, o Severino do João Cabral. Mas o partido que ele construiu acreditou que dignidade se compra com aumento de renda. E não se compra. Por isso o lulismo só brilha quando a economia vai bem. “Nunca antes na história deste país” é um slogan de bonança. Quando a bonança acaba, o slogan fica falso — e o lulismo emudece. Porque ele nunca soube falar de quem você é. Só do que você tem.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Essa ideia que eu estou desenvolvendo aqui — o thymos, o desejo de ser visto — eu trabalhei por inteiro num filme. Chama Os Partidos. É o segundo episódio de Nós, Brasileiros, a série de streaming que fiz sobre quem é esse povo de 203 milhões. Ele começa em 1954, com uma Miss Brasil que perdeu o Miss Universo por duas polegadas e fez o país inteiro se sentir rejeitado — e vai até o impasse de hoje, passando por Getúlio, por Brasília, pela Seleção de Pelé e Garrincha. É feito em qualidade de cinema. O que você ouve aqui é o aperitivo. O filme é o prato. É uma história dos partidos políticos brasileiros, por que funcionam quando funcionam, por que fracassam. E nesse feriado, com tempo de sobra, é o tipo de coisa pra sentar e ver com calma. Assine o Meio Premium em nomeio.com.br/sejapremium e comece por Os Partidos.

Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

A gente viu o que o Lula oferece. Agora, o Bolsonaro.

O bolsonarismo oferece o oposto exato. Ele não dá geladeira. Não dá diploma. Não dá renda. O que ele dá é uma resposta pra exatamente aquela pergunta que o PT deixou no ar. Quem é você? Você é um patriota. Um cristão. Um trabalhador honesto. Um pai de família. Um cidadão de bem. Você é o Brasil de verdade.

E repara como isso é assimétrico — é aqui que a coisa fica interessante. O lulismo é pró-cíclico: funciona quando a economia vai bem, quebra quando a economia quebra. O bolsonarismo é o contrário, é anticíclico. Identidade não precisa de PIB. Você pode ser patriota desempregado. Pode ser cidadão de bem no aperto. Aliás, a oferta de identidade funciona melhor ainda na crise — porque é justamente quando o consumo falha, quando o bolso aperta, que a pergunta “quem sou eu” fica mais urgente. Quando o tênis some, sobra a pergunta sobre quem você é. E o bolsonarismo estava lá, com a resposta na mão.

Em uma frase: o PT deu ao pobre o que o psicólogo Abraham Maslow chamou de necessidades básicas — comida, teto, consumo — mas tratou o reconhecimento como se fosse um efeito colateral da renda. Um bônus que viria depois. O bolsonarismo surfou porque não havia resposta para essa pergunta qual o meu valor? Ele entendeu que a equação é ao contrário. O reconhecimento não vem depois. Vem antes. A pessoa precisa saber quem ela é antes de se importar com o que ela tem.

Agora, calma — isso não quer dizer que o Bolsonaro esteja certo. Longe disso. Porque o reconhecimento que ele oferece é envenenado. É reconhecimento pela exclusão do outro. “Nós somos o Brasil verdadeiro — e vocês não são.” É pertencimento que só existe se tiver um inimigo do lado pra apontar o dedo. É thymos que vira ódio. O bolsonarismo achou a ferida certa — o brasileiro quer ser visto — e enfiou nela o remédio errado. E o PT? O PT receitou o remédio errado, mais consumo, pra uma ferida que ele nem chegou a diagnosticar.

É essa a cilada da dicotomia. Não é que os dois sejam iguais. É que os dois são respostas pela metade. Um cuida do corpo e esquece a alma. O outro inflama a alma e a vira contra o vizinho.

E enquanto o país fica preso nessa gangorra, os dois maiores pedaços do Brasil que cresceram nas últimas décadas ficaram sem ninguém que fale por eles de verdade. Um é a periferia urbana, que quer subir pela própria conta — fé, trabalho, ambição, o sonho do próprio negócio. A igreja viu essa gente quando a política não viu: deu rede, deu pertencimento, deu uma narrativa de que o sucesso é mérito seu. O outro é o agro do Centro-Oeste, que deixou de ser coronel e virou indústria, com gente rica nova, classe média nova, cultura própria. Tem dinheiro, tem lobby, mas não tem partido nem uma história que o encaixe no Brasil. O bolsonarismo capturou o voto dos dois. Mas capturar voto não é representar. É só pegar o voto.

Por isso uma eleição entre os dois não resolve nada de fundo. Pode ganhar Lula, pode ganhar o Flávio. A gangorra continua. Porque o que falta não está no cardápio de nenhum dos dois. O que falta é a terceira coisa — a única que cura essa fome de verdade. Reconhecer o brasileiro pelo que ele faz. Não pelo que ele consome, como no lulismo. Não por quem ele odeia, como no bolsonarismo. O JK acertou isso uma vez: você pertence ao Brasil porque você ajuda a construir o Brasil. O candango e o arquiteto, cada um com seu papel, no mesmo épico.

Lá no poema do João Cabral, o retirante Severino nunca consegue dizer quem ele é — o nome dele é tão repetido que some. “Como então dizer quem fala ora a vossas Senhorias?” Esse Severino é cada brasileiro que, até hoje, não consegue ser visto pelo que é, e pelo que faz. Enquanto a política continuar oferecendo só o tênis, ou só o inimigo, ela vai seguir pequena demais pro país que a gente virou.

Afinal, somos todos brasileiros. A gente precisa conseguir lembrar disso.

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