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Flávio perdeu o argumento

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O escândalo Vorcaro não tirou de Flávio Bolsonaro um eleitor que importasse. E mesmo assim pode ter encerrado a candidatura dele. Parece contradição? Não é. Mas a questão é a seguinte: temos agora seis meses de pesquisas eleitorais acumuladas, uma certa estabilização a respeito dos candidatos. Se você não deseja a eleição do presidente Lula, me permita antecipar uma informação. Os indícios de que alguém possa ultrapassar Flávio Bolsonaro e disputar o segundo turno contra o PT são zero. Não tem qualquer sinal de que algo assim possa acontecer. Enquanto isso, os indícios de que Flávio tenha alguma chance de vencer o presidente Lula num segundo turno são cada vez mais baixos.

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Esta é uma previsão? Não, claro que não. Em eleições, notícias grandes acontecem. Um candidato é esfaqueado aqui, o avião com um candidato cai ali, e notícias muito grandes têm impacto. Já tiveram mais. Em 2002, Roseanna Sarney começou o ano favoritíssima para se eleger. Aí uma batida da Polícia Federal descobriu uma pilha de dinheiro, uma pilha literal de dinheiro vindo de corrupção, para ela. Naquele tempo, quando se descobria provas claras de corrupção de um político, aquilo era motivo para os eleitores largarem de mão. Não é mais verdade. Provas claríssimas de corrupção, hoje em dia, podem aparecer e a maior parte dos eleitores não está nem aí. Não é isso que muda o voto da maioria dos brasileiros. O que não quer dizer, evidentemente, que outras coisas não possam mudar o eleitor. Claro que a possibilidade existe. Só não está claro o quê. Por enquanto, ainda não apareceu. Como não há qualquer sinal de que aparecerá, o que temos é o histórico das eleições passadas.

Ou seja: sim, Renan Santos, Ronaldo Caiado ou Romeu Zema, talvez até Joaquim Barbosa, teriam possivelmente mais chances do que Flávio Bolsonaro de vencerem Lula. Não quer dizer que ganhariam. Mas Lula tem uma rejeição imensa, o sobrenome Bolsonaro tem uma rejeição imensa, qualquer um que chegue com menos rejeição contra Lula já está com uma vantagem sem tamanho. Só que o eleitor não parece interessado em nenhum deles por uma série de razões. A gente vai entrar nisso, em por quê. Mas o fato é de que o eleitor está, como dizem meus queridos amigos Felipe Nunes e Thomas Traumann, calcificado. O voto não tem a maleabilidade do músculo. Tem a rigidez do osso. Não mexe.

Quais as evidências de que não mexe? Todas as boas pesquisas dizem a mesma coisa. Vamos lá: no início de maio, todas diziam que Flávio e Lula estavam empatados no segundo turno. Aí explodiram os áudios carinhosos do filho Zero Um com Daniel Vorcaro, o banqueiro do Master, pedindo 134 milhões de reais. Olha, muita gente pediu quantidades abissais de dinheiro a Vorcaro. Ninguém pediu no mesmo nível que Flávio. Ninguém. Uma semana depois, 19 de maio, veio a AtlasIntel. Diferença entre Lula e Flávio no segundo turno? 7,1 pontos percentuais. Uma pesquisa feita por painel online, via internet.

Deu uns dias e o Datafolha foi para a rua, medir em ponto de fluxo, presencialmente, o que pensam os eleitores. Ficou na rua entre 20 e 22 de maio. Diferença entre Flávio e Lula no segundo turno? 4 pontos percentuais. Aí foi nossa vez, a pesquisa Meio/Ideia. Via telefone. Perguntamos às pessoas o que elas pensam entre 23 e 27 de maio. Medimos 5,1 pontos percentuais de diferença no segundo turno. Hoje saiu a Quaest. Pesquisa feita por domicílio. O que descobriu? Uma diferença de 6 pontos percentuais. Entre a nossa pesquisa sair e a da Quaest, Flávio foi aos Estados Unidos, tirou foto com Donald Trump, os americanos classificaram Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital de terroristas, meteram mais tarifas no Brasil, atacaram o PIX e o que mudou? Não mudou nada.

Nesse período todo, a maior diferença captada entre os dois foi de 7,1 pontos pela Atlas, a menor foi 4 pontos pelo Datafolha, e estatisticamente sabe o que isso quer dizer? Nada. Joga a margem de erro e os quatro institutos de pesquisa acharam a mesma diferença. Estava empatado, agora está uns 5 ou seis pontos distante.

E o mais impressionante é que o encontro de Flávio com Trump pegou muito mal para ele. Fora do bolsonarismo, os brasileiros acham que o que ele fez foi uma aberração porque consideram ele responsável pelo ataque ao PIX. Mas não adianta. O que tinha de voto mole, músculo, maleável, o que tinha para ceder era isso. Cinco, seis pontos. O resto é osso. O resto não parece que cederá. Uma gravação dele pedindo dinheiro para o maior corruptor da história do país? Não mexe o ponteiro. A percepção de que ele e o irmão pediram um ataque ao PIX? Não mexe o ponteiro. O que pode acontecer pra fazer esse ponteiro mexer?

Só que estes cinco pontos fazem diferença. Muita diferença. Porque não é todo eleitorado brasileiro que está calcificado. Tem um pedaço aí, algo entre cinco e dez porcento dos eleitores, que são maleáveis. São com eles que Flávio se queimou muito feio. E isso aconteceu justamente num momento em que presidentes da República que disputam reeleições conseguem crescer um pouquinho com quem? Com esse pessoal. Não é Lula. É qualquer presidente. Entre o final do primeiro semestre e o início do segundo, até Jair Bolsonaro, que perdeu a reeleição, cresceu neste nicho de eleitores nessa época do ano.

Deixa eu explicar isso melhor para vocês.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Sabe, deixei uma pergunta aberta na primeira parte: por que o eleitor não se interessa por nenhuma alternativa — nem Caiado, nem Zema, nem Renan? A resposta curta vem depois do break. A resposta longa, eu dei num filme. Se chama Os Partidos, o segundo episódio de Nós, Brasileiros, a série do streaming do Meio. Ele conta por que o brasileiro nunca construiu partidos em que confiasse — e por que, quando a confiança falta, sobra sobrenome e camisa de time. Começa em 1954 e desemboca exatamente no impasse que você acabou de ouvir: a eleição calcificada entre Lula e um Bolsonaro. É feito em qualidade de cinema. Em outubro, você vai votar. Pra votar bem, é preciso entender o sistema — e esse sistema nunca foi explicado direito pra você. Assine o Meio Premium e comece a assistir nossos filmes por Os Partidos.

Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.

Jair Bolsonaro, 2022. Números do Datafolha. 27% em maio, 29 em julho, 32 em agosto, 34 na véspera, 43 na urna. O incumbente mais impopular da história dos candidatos a reeleição, o único na história que perdeu. Era bastante mais impopular do que Lula é hoje, e Lula está bem longe de seus melhores dias. Mas, vamos lá, os melhores dias. Lula, em 2006: tinha por volta de 50% em junho, foi a 55 em agosto, quase liquidou no primeiro turno. Mesmo com o Mensalão estourando. Aliás, só não liquidou por causa do Mensalão.

Existe uma razão para presidentes da República que estão disputando a reeleição melhorarem nesta fase. É cálculo, gente. Eles têm o cheque na mão. Esperam este momento do pleito para distribuir boa vontade. Aumentos, auxílios, perdões de dívida, empréstimos consignados. Até Dilma, em 2014, que foi a reeleição mais difícil vencida por quem vestia a faixa, terminou acima de onde estava em junho.

Qual era a estratégia de Flávio Bolsonaro? Todo mundo viu os primeiros vídeos que ele fez. Eu sou o Bolsonaro vacinado, eu sou o Bolsonaro moderado. Quer dizer, ele estava acenando para aquele eleitor que não gosta da virulência do Jair e não gosta do PT. Então, opa, imagina ser anti-Lula, não ter virulência, e estar na frente pela direita? Melhor dos mundos para o eleitor nem-nem. O que o áudio para o Vorcaro e o desastre do Trump fizeram foi implodir esse caminho para Flávio. E fez isso justamente no momento em que Lula deve crescer. Aliás, já começou a melhorar os números do presidente. Como previsto neste período.

Noutros tempos, outros candidatos tinham espaço. Ciro Gomes terminou com 12% em 2018, Marina Silva quase foi ao segundo turno em 2014. O eleitorado brasileiro não achava que primeiro turno era a mesma coisa que segundo turno. Mas não é só culpa do eleitor. Os candidatos são responsáveis. Ronaldo Caiado e Romeu Zema estão, agora, faz seis meses fingindo que seu principal adversário não é Flávio Bolsonaro. Zema bateu em Flávio por exatos dois vídeos. São dois mais do que Caiado. Os dois têm certeza de que Flávio vai se derrotar por conta própria. Justo. Eles acham que esse derretimento vai começar quando? Porque, veja, Lula não tem qualquer motivo para querer um adversário que não Flávio. Todo mundo em Brasília sabe que, para Lula, não tem cenário melhor do que enfrentar um filho de Jair.

Aí, bem, sobra Renan Santos. Renan, diferentemente de Zema e Caiado, tem fãs. O problema é que ele não consegue sair de um nicho muito específico: jovem, ensino médio, periferia urbana, principalmente São Paulo. O segundo grupo? Jovem, ensino superior, urbano, principalmente São Paulo. Ele não sai do eleitor MBL. Você certamente já deve ter ouvido que Renan está crescendo. É. Renan está crescendo faz seis meses. Saiu de zero, chegou a três. Uma única pesquisa o vê maior do que isso. A Atlas Intel. Justamente a pesquisa que precisa convencer as pessoas a preencherem um formulário na internet. Adivinha que tipo de gente faz isso com mais facilidade? Vamos ver. Jovem, urbano, adora falar de política na internet. Se não é confirmado por qualquer outra pesquisa, a cara é de ruído por causa da metodologia. Acontece.

Tudo o que aconteceu até aqui faz parecer que o eleitorado está mesmo calcificado. A esta altura do campeonato, melhor para Lula, pior para quem não quer Lula.

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