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O Enforcado

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Joaquim José deixou o prédio da cadeia, no Rio de Janeiro, por volta das oito da manhã, em 21 de abril de 1792. Estava barbeado. Restavam a ele apenas três bens: a caixinha com ferros de tirar dentes e duas navalhas. Nu, vestia a alva, camisolão branco dos condenados à morte. Quando entrou na cela aquela manhã, o carrasco lhe pediu perdão. “A Justiça é que lhe moveria os braços”, explicou. Era praxe.

Nos dias anteriores, a capital da colônia portuguesa nas Américas vivera a expectativa de que seriam muitos os enforcados. Aí circulou a notícia de que haviam sido todos perdoados, a pena capital convertida em degredo. E depois a confirmação de que a forca ainda teria uso naquela manhã. Para apenas um. O único que havia confessado o crime de sedição — o mais grave crime. Crime de Lesa-Majestade. As igrejas da cidade realizaram missas de celebração à rainha, pela generosidade de ter poupado a vida dos outros. Celebravam, igualmente, a morte do traidor.

“Condena ao réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha Tiradentes, alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão, seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre”, dizia a sentença. “Que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios de maiores povoações, até que o tempo também os consuma.”

Tiradentes vestia capuz branco, os pés descalços e nas mãos, atadas, levava um crucifixo. “Da esquina da rua da Misericórdia até a nossa casa, a procissão parou mais de trinta vezes”, lembraria muitos anos depois, já velhinha, Clemencia Teixeira Furtado. Naquele 21 de abril, tinha 16 anos e estava escravizada. Foi um longo e lento cortejo. À frente, os soldados da Primeira Companhia do Esquadrão de Guarda do vice-rei. Então o alto clero, seguido pelos membros da Irmandade da Misericórdia e depois os padres confessores que circundavam o condenado. Atrás vinham os juízes e os meirinhos, que circundavam o carrasco. E, por fim, autoridades, seguidas por uma segunda companhia militar e um carretão para trazer de volta o corpo esquartejado. Vestiam, todos, suas melhores roupas: veludos, sedas, linhos. Quem montava trazia os cavalos brilhosos de tão limpos.

“Declaram o réu infame, e seus filhos e netos, tendo-os”, seguia a sentença. “Os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e no mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu.” O sal servia para que a terra fosse inutilizada e nem mato nascesse. Terreno vazio, símbolo para as décadas seguintes.

“De vez em quando”, lembrou-se dona Clemencia, “um sujeito de preto e de bacalhau ao pescoço lia um papel xingando o padecente.” Bacalhau: gravata branca de renda. Segundo a reconstituição do arquiteto Nireu Cavalcanti, desceram a atual rua da Assembleia, pegaram a Carioca e, na altura da Praça Tiradentes, viraram à direita na avenida Passos. A forca fora erguida aproximadamente onde hoje se encontram rua da Alfândega e avenida Passos, em pleno Saara, a região de comércio popular da cidade. “Nem por pensamentos traias o teu rei, porque as mesmas aves do céu levarão a tua voz e manifestarão teus juízos”, leu um religioso citando o Eclesiastes. As fachadas das casas estavam ornadas com tecidos vistosos e bandeirolas. Das janelas gritavam vivas à rainha, as mulheres se amontoavam, esticando o pescoço para ver. “Muita gente viu a procissão duas, três e quatro vezes, dando volta pelas ruas vizinhas,” contou a velha senhora. Havia multidão, que jogava moedas para pagar pelas missas que encomendassem um canto no paraíso ao réu.

Estava quente. Joaquim José não desgrudava os olhos do crucifixo. Passava já das onze quando alcançaram o local da forca, uma estrutura alta em madeira com mais de vinte degraus. Regimentos militares estavam postados de um lado e do outro para facilitar acesso a quem cabia. Tiradentes subiu ligeiro e cedeu lugar ao carrasco. “Seja breve”, disse. Assustado, repetiria o pedido ainda mais duas vezes. Um franciscano ascendeu também ao cadafalso e virou-se para a multidão. “Não se deixem possuir só da curiosidade e do assombro”, gritou. “Implorem a Deus a última graça para quem pagará por seu delito.”

“Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo, seu único Filho Nosso Senhor”, disse um padre. Rezava o Credo. Joaquim José foi abruptamente erguido. “Nasceu de Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatus, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.” Seu corpo, pendente. “Subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.” Em menos de cinco minutos estava feito.

Gritaram todos três vivas à rainha.

Horas depois, dona Clemencia viu a carreta conduzindo os restos e um embrulho que parecia sua cabeça. “À noite”, ela contou ao velho cronista Vieira Fazenda, “pusemos luminárias, mas minha senhora e a gente de casa dizia à boca pequena que o padecente era um inocente.” A cidade toda se iluminou, os sinos tocaram. “Fiquei tão enojada que deixei de comer naquele dia.”

Adaptado de 1789: A história de Tiradentes, contrabandistas, assassinos e poetas que sonharam a Independência do Brasil, de Pedro Doria. Todo o texto é baseado em documentos ou testemunhos.

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