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O que quer e o que pode esta língua

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“A resposta é comprida, você pegou um professor para entrevistar”, diz com bom humor Caetano W. Galindo algumas vezes durante a nossa conversa. Professor universitário, tradutor, escritor de ficção nos mais diferentes formatos, da poesia à dramaturgia, Galindo serve à palavra. Maneja como poucos a língua portuguesa tanto ao pesquisá-la ao longo do tempo quanto ao empregá-la criativamente. Acaba de lançar dois livros. O primeiro, uma paquete — pequeno livro de brochura, de produção mais rápida e econômica — com o poema As Cidades, saiu pela editora Círculo de Poemas. E o segundo, Ana Lívia e Outras Mulheres, com trabalhos feitos para o teatro com Cia. BR166, foi editado pela Cobogó.

A despeito de sua obra publicada, essencialmente Galindo se vê como professor. “Faço isso há quase 30 anos, é o que paga os boletos, o que estrutura a minha vida.” Galindo chegou ao curso de Letras sem muito planejamento. Ele estudava música no conservatório e teve uma lesão. “Decidi fazer Letras quase irresponsavelmente, porque o curso é um negócio muito grande, você estuda teoria linguística do século 18, literatura medieval, literatura portuguesa, eu fiz francês, então você aprende um idioma novo, aprende literatura, teoria literária, teoria linguística, vários tipos de análise linguística. E, durante a graduação, não consegui escolher um lugar.”

A luz de como se posicionar profissionalmente veio no mestrado, feito na área da linguística histórica. “Devo dizer que eu tive uma conversa muito venal com a minha orientadora de iniciação científica e ela me disse basicamente assim: ‘Se você quiser fazer um concurso, faz linguística histórica, porque não tem ninguém estudando esse negócio’. Dois anos depois eu era professor da Federal do Paraná, então devo tudo essa conversa. Mas nunca consegui ser 100% fiel a isso. E sempre mantive esses outros interesses. E à medida que fui migrando para os estudos da tradução na universidade, em que a área foi ganhando corpo, isso foi ficando possível. Daí eu passei a traduzir literatura, passei a voltar a pensar em escrever literatura, que era uma coisa que eu tinha deixado meio para trás, ainda antes de entrar na universidade.”

Traduções de peso

Como tradutor, Galindo encarou textos que tinham traduções anteriores muito emblemáticas, como é o caso de O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, feita para a Todavia, ou dos poemas de T. S. Eliot, feita para a Companhia das Letras. Contudo, é possível argumentar que a tradução mais importante de Galindo seja a do monumental Ulysses, de James Joyce, feita para a Companhia das Letras. Perguntei como ele lidou com a sombra da tradução de Antônio Houaiss, a primeira feita desse texto complicadíssimo de Joyce. “Eu era mais jovem e mais irresponsável. Então, essa parte não chegou a me pegar. Primeiro, porque eu comecei a fazer a tradução sem a perspectiva de publicar, para a minha tese de doutorado. Segundo, porque a tradução do Houaiss estava distante. Eu nunca li a tradução do começo ao fim, por exemplo. Quando eu comecei a traduzir, fiquei numa pira de cotejar, olhar as soluções dele, mas eu percebi que se fosse fazer isso até o final, iria levar uns 30 anos para traduzir o livro. Respeito demais o trabalho dele, especialmente levando em consideração que foi feito num tempo em que era quase como escrever em pergaminho. Não tinha internet, não tinha fontes de consulta, o número de traduções para outras línguas era muito reduzido.”

O monólogo de Molly Bloom, um dos trechos mais emblemáticos do livro de Joyce, é um dos textos que integram o livro Ana Lívia e Outras Mulheres. “A Bete [Coelho] falou comigo quando foi montar Molly Bloom, porque ela queria usar o meu texto. Ela poderia ter só falado com a editora, mas resolveu dar esse passo além, um gesto generoso. Aí eu acompanhei, ajudei, dei palpites durante a montagem e chega esse momento em que a Bete me diz: ‘Eu quero que você escreva uma peça para mim’. Eu aceito e depois paro para ver onde é que eu fui me meter.”

A relação com o teatro, entretanto, vinha de antes, a partir de um contato de Felipe Hirsch, diretor carioca que também construiu boa parte da sua obra em Curitiba. Como brinca Galindo, “como nós dois temos a alma curitibana, isso garantiu que a gente não se encontrasse durante todos os anos em que ele esteve aqui”. Ambos têm a mesma idade e circularam pelos mesmos lugares sem terem se conhecido. “Quando ele começou a fazer a Língua Brasileira, percebeu que precisava falar com alguém da área e tinha visto alguma coisa minha no YouTube. Ele sabia que eu existia por amigos comuns, me procurou e convidou para fazer uma consultoria para a peça. A partir dali, bateu um santo legal e a gente já está no quinto projeto, um atrás do outro.”

Hirsch já virou uma constante na vida de Galindo, que fez muitos dos projetos escrevendo com Guilherme Gontijo, em processos colaborativos. “A gente escreve 200% do que aparece no palco. Ele pede 90 ideias e usa uma, um processo que poderia ser muito irritante para algumas pessoas, mas que acho fascinante, porque são sempre desafios esquisitos. Tipo ‘eu quero 40 cenas de 1 minuto que aconteçam durante uma peça de teatro na plateia ou nos bastidores’. Nesse dia eu estava aplicando prova e fiquei no celular escrevendo 40 cenas no celular. O Felipe não usou nenhuma delas. Aliás, essa ideia toda foi jogada fora. Mas é muito bacana participar dessa coisa meio fervilhante, que vai redundar num negócio completamente distante do que você tinha podido imaginar e que só vai ficar nítido no dia da estreia.”

O outro livro que chega agora às livrarias é As Cidades, um exercício fascinante, livremente inspirado na poesia de Kenneth Goldsmith, que também foi traduzido por Galindo. A história é muito interessante. A partir da lista de todos os municípios brasileiros, Galindo selecionou e ordenou as cidades de maneira poética, usando seus nomes em poemas que são distribuídos por letras em cada página. Ou seja, uma página de cidades que começam com a letra a, seguida por outra com cidades que têm início pela letra b e assim por diante. Um projeto que começa como uma encomenda para o mundo físico.

“Primeiro teve o prompt, que foi a história da exposição no Museu da Língua Portuguesa. A Daniela [Thomas] me faz esse pedido e decido preencher essa parede com essa lista de palavras. E esse prompt depois frutifica de uns jeitos loucos. A gente gravou a lista de palavras com 30 pessoas em lugares diferentes do Brasil e usa essa gravação no elevador doo museu. A gente meio que pirou com esse resultado.” Quando Daniela fez o pedido, Galindo estava diante do computador e de presto abriu a Wikipedia, que já dava uma lista alfabetizada dos municípios brasileiros. “Passei uma hora de insana felicidade de criança na caixa de areia e, quando eu acabei aquilo, aconteceu um negócio que eu não recomendo. Eu achei aquilo muito genial e comecei a mandar no WhatsApp para todas as pessoas que mereciam e não mereciam receber.”

Para Galindo, semelhante à tradução, em que a voz não é sua, embora sempre haja vestígios dela, esse projeto de certa maneira borra a autoria. Daí a similaridade com o projeto poético de Goldsmith. “Com esse poema maluco das cidades, eu acabei chegando meio nesse mesmo lugar. Ficava encantado com aquilo quase como se não fosse eu que tivesse feito. Eu dizia: ‘Olha que troço lindo isso aqui que eu achei’. Tipo uma criança que acha uma pedrinha na praia. Mas é um projeto menos rigoroso conceitualmente. O projeto interessante goldsmithanamente seria publicar a lista inteira dos municípios. O projeto dele é de total apagamento da consciência criadora, o meu vem meio da vida do tradutor, eu quero dar uma sumida, mas ao mesmo tempo quero deixar com a minha cara.” Assim, algumas regras foram criadas para a exclusão de palavras. Foram tiradas da lista todas as que tivessem lândia ou pólis, as que tivessem nomes de santos, nomes de pessoas e nomes compostos, embora para esta última haja exceções como o uso da bela Breu Branco.

Não poderia terminar essa conversa sem perguntar ao autor de Latim em Pó se é válida uma defesa da língua brasileira. Para Galindo essa não é a questão. “Se o livro tinha um projeto de ação era o de tomar posse da nossa relação com a língua, de os brasileiros pararem de aceitar e de reproduzir um discurso de que nós somos maus usuários de uma língua que é superior a nós, de que nós somos usuários imperfeitos, de que a gente estraga a nossa língua, suja o patrimônio que a gente herdou. E aceitar que as coisas inequivocamente racializadas no português, negras, indígenas, não são em nada inferiores às versões europeias da língua e têm paralelos em tudo quanto é língua europeia por aí. Às vezes, elas são o que de mais autêntico e de mais interessante a gente tem.”

Para ele, o que houve foi que durante anos precisamos decorar regras e padrões linguísticos que ninguém mais usa há 200 anos, que não fazem sentido para nós. “O doido é que a gente aceitou de cabeça baixa e se dobra a esses modelos. A essa norma que não vem de lugar nenhum, que é uma coisa abstrata, definida por ninguém. É impressionante o poder desses mecanismos, desse poder difuso que existe na negociação da norma linguística. Só que a gente tem que chegar àquele momento de dizer: ‘Cara, nós somos 200 milhões’.”

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