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Um acordão de sobrevivência eleitoral e política em 2026 parece estar em curso em Brasília

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Pode estar vindo aí um acordão pra salvar o ano eleitoral, gente. Pra surpresa de ninguém, né?
Não se deixem enganar pelos discursos de abertura do ano legislativo e do ano judiciário, que falou sobre democracia, diálogo entre os Poderes e compromisso com o interesse público. Tudo muito bonito, solene e institucional, como tem que ser mesmo. E essa parte sequer é necessariamente mentira de cabo a rabo. Mas esses discursos vieram também temperados com indiretas sobre o papel constitucional de cada um, independência, coragem e não submissão.
2026 foi inagurado em Brasília sob dois signos claros. O primeiro é o de “não me provoca que sobra pra você também”. E o segundo de “se organizar direitinho, todo mundo sobrevive”.
Quase nunca o que mais importa é aquilo que está sendo dito no microfone, embora ali também estejam recados claros de um chefe de Poder para outro e para os cidadãos. O que costuma ser mais revelador é o que está sendo dito fora dos microfones. Seja nas entrelinhas ou nos corredores.
E, num ano com eleições, CPIs em andamento, investigações sobre emendas parlamentares e um escândalo financeiro do tamanho do Banco Master, o contraste entre palco e bastidor fica ainda mais evidente.
Publicamente, Lula foi ao Supremo Tribunal Federal para agradecer. Ele agradeceu ao STF por ter sido guardião da democracia, por ter garantido as eleições, por ter enfrentado os golpistas, por não ter se omitido. O subtexto é simples: o governo precisa de um Judiciário forte, atuante e disposto a seguir sendo linha de contenção contra qualquer tentativa de desestabilização em 2026.
Quando Lula fala que a Justiça Eleitoral precisa agir com rigor, velocidade e precisão contra abuso econômico, fake news, uso de algoritmos e inteligência artificial, ele está falando para as plataformas digitais, mas está falando principalmente para o Tribunal Superior Eleitoral e para o STF: não vacilem nesta eleição, que o perigo segue por aí.
No mesmo discurso, Lula, candidato à reeleição, tenta puxar para si a bandeira da segurança pública por duas vias. Primeiro, fala de crime organizado no “andar de cima”, de operações que atingem magnatas, e amarra isso à defesa da PEC da Segurança Pública e do PL Antifacção, que o governo quer ver aprovados em seus termos.
São projetos que ajudam a montar o discurso eleitoral de que o Planalto não é conivente com crime, não deixou a pauta ser sequestrada pela direita e o de que seu governo defende os pobres dos ricos.
Como a vitória nesses dois projetos está longe de ser garantida, a segunda via é a do combate ao feminicídio, pauta adotada mais recentemente pelo governo federal para voltar a conversar com as eleitoras e um dos pontos mais fracos do discurso linha dura sobre segurança da direita.
Mas essa foi a parte vistosa do papo de Lula. Em seu quarto ano de mandato, o presidente decidiu entrar em campo para fazer a articulação política. Terá, nesta semana, um jantar com Hugo Motta e líderes partidários na Câmara para tratar das pautas de interesse do governo — e do que lhe for pedido em troca. Alcolumbre e outros senadores devem ser recebidos semana que vem.
Enquanto isso, no Congresso, Hugo Motta e Davi Alcolumbre fizeram discursos quase gêmeos em alguns pontos e bem distintos em outros. Ambos defenderam diálogo, mas fizeram questão de sublinhar, mais de uma vez, a palavra independência. Alcolumbre chegou a falar em paz institucional, sem medo de partir para a luta se necessário. Motta foi mais explícito: o Congresso não aceita ser tutelado pelo STF, sobretudo no tema das emendas parlamentares.
Quando Motta diz que cabe ao plenário da Câmara fazer valer a prerrogativa constitucional de destinar emendas pelos “rincões Brasil afora”, ele não está falando de teoria constitucional ou de descentralização de poder. É o contrário.
Ele está falando de concentração de poder. Emenda se traduz em base eleitoral, obra em reduto, capital político. Em reeleição de parlamentares e aliados regionais. Em manutenção dos mesmos grupos políticos de sempre em seus cargos.
Neste momento, as emendas também são um dos maiores focos de investigação no país.
O ministro Flávio Dino, do Supremo, vem apertando o cerco por mais transparência, rastreabilidade e controle. Parte do Congresso vê isso como interferência. O discurso público é sobre descentralização de recursos. O bastidor é sobre preservar um instrumento central de sobrevivência eleitoral e tentar barrar uma nova Lava Jato no sentido de prisão de deputados e senadores.
O mesmo vale para Alcolumbre. Quando ele diz que defender prerrogativas nunca será sinônimo de submissão, a tradução é direta: o Senado não pretende abrir mão de seus espaços, mesmo sob pressão do Judiciário e mesmo com investigações avançando.
Mais que isso, no caso Master, tem investigação avançando pra todo lado, inclusive para o Supremo. E Alcolumbre, chefe da Casa que pode impichar ministro do STF, deu o recado de que não tem qualquer intenção de deixar essa água escorrer só pro Congresso.
Ah, Motta e Alcolumbre também tentaram chamar para si pautas populares como a do fim da jornada 6×1 e a da isenção do Imposto de Renda, pro Planalto ficar bem esperto que não vai poder capitalizar essas vitórias sozinho.
Teve mais recado e mais bastidor nesse réveillon do poder. Quer saber mais? Fica aqui mais um pouco.
Do lado do STF, o discurso de Edson Fachin é talvez o que mais revela contraste entre o que é possível ou desejável falar em público e o que se combina nos bastidores.
Em público, Fachin reconhece que o Supremo foi empurrado para o centro da arena política nos últimos anos. E que isso tem custos. Convocou seus pares a aceitar as consequências de suas escolhas. E pediu uma espécie de recalibragem dos magistrados, com menos voluntarismo, mais autocorreção, e uma reconstrução institucional de longo prazo.
Ao anunciar formalmente como sua prioridade um código de ética para a Corte, nomeou Cármen Lúcia como relatora. A ministra funciona como um tipo de escudo, ou de reforço de peso pra essa batalha. Ficou muito claro que, nos gabinetes do STF, Fachin precisava desse movimento para se fortalecer e ter alguma chance, ainda que pequena, de fazer esse código avançar.
Na dobradinha com Fachin, Cármen Lúcia, que é presidente do Tribunal Superior Eleitoral até junho, reforçou em seu discurso exatamente esse mantra: magistrados precisam ser comedidos, transparentes, não podem frequentar eventos com candidatos, não podem se manifestar politicamente, não podem gerar dúvida sobre imparcialidade. Em ano eleitoral, isso é um aviso interno, mas também um recado externo. O Judiciário sabe que será alvo, e está tentando se blindar antes que a pancadaria comece.
Antes mesmo de os discursos começarem, conta o colunista Lauro Jardim, Lula, Geraldo Alckmin, Motta, Alcolumbre, Gleisi Hoffmann, Sidônio Palmeira, Jorge Messias e ministros do STF estavam juntos na chamada sala das togas, conversando longe das câmeras. Lula fez questão de circular, falar com todos, mas deu atenção especial a Fachin e a Cármen Lúcia. Já Alexandre de Moraes chamou Alcolumbre para uma conversa reservada, num canto. Nada disso é aleatório.
E a jornalista Andreia Sadi acrescenta um elemento a tudo isso. Segundo suas apurações de bastidor, está em curso uma tentativa de grande acomodação entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Ao melhor estilo “Com o Supremo, com tudo”.
Porque diversos desses atores políticos já entenderam que as investigações em andamento — lembrando que tem investigação sobre o Banco Master, desvios de emendas, fraudes no INSS, crime organizado no mercado financeiro — têm potencial de atingir políticos em cheio em ano eleitoral e afundar de vez a credibilidade do STF. Há poucos vencedores.
O Congresso manda um recado ao governo: vocês precisam de nós para aprovar fim da escala 6×1, PEC da Segurança Pública, PL Antifacção e outras pautas que rendem voto. Nós dependemos das emendas e queremos o Centrão, correntista-mór do Master, preservado. O governo, por sua vez, não gostaria de ver mais uma CPI instalada, para não contaminar a eleição nem atingir seu entorno político, notadamente a ala baiana do PT.
O STF sabe que precisa dar respostas sobre autocontenção, mas também não está disposto a fazer a reforma de consciência mais profunda que deveria nem queimar um de seus ministros, Dias Toffoli liderando a fila.
O problema é que existe um ator que não entra, até onde se sabe, em acordão: os investigadores. Polícia Federal, técnicos, auditores, gente que está atrás de rastro de dinheiro. E quando a engrenagem da investigação anda, ela não pede licença para calendário eleitoral.
Então, o retrato de Brasília hoje é esse: no palco, discursos sobre harmonia, ética, democracia e diálogo. Nos corredores, conversas sobre como sobreviver a 2026 com o menor número possível de feridos.
No fundo, todo mundo sabe que o que está em disputa não é apenas quem ganha a eleição. É quem chega vivo, politicamente, até ela.

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