É a agenda que escolhe o candidato
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A eleição de 2026 já tem dois problemas definidos antes mesmo de ter candidatos: a oposição ainda não tem projeto, e o governo já tem fragilidades claras em segurança pública e ainda patina na economia. Para o campo oposicionista, o problema é duplo: a dificuldade de definir nomes competitivos e, sobretudo, a ausência de um projeto de país que vá além do antipetismo e que não fique atolado somente nas demandas do bolsonarismo. Para o governo, o desafio é mais objetivo: a pesquisa Meio/Ideia de fevereiro indica que suas maiores fragilidades estão nas avaliações negativas em segurança pública e na economia, dois temas que caminham para se tornarem a agenda da sociedade neste ciclo eleitoral. E, segurança pública, por exemplo, é um tema que puxa para baixo a aprovação e avaliação geral do atual governo.
Tanto em economia quanto em segurança pública, é maior o percentual de avaliação ruim/péssima quando comparado ao ótimo/bom. No caso da segurança, o percentual de avaliação ótimo/bom é aproximadamente 13 pontos percentuais inferior ao da avaliação geral do governo e ruim/péssimo é quase 9 pontos percentuais superior ao geral.
Esse padrão da agenda da sociedade definir o pleito não é novo. Antes da oficialização das candidaturas, os problemas que organizam o voto costumam aparecer antes dos personagens que os representarão.
Em 1989, antes das convenções, o quadro era fluido, mas a agenda era clara: inflação, crise econômica e rejeição às elites políticas (os famosos “marajás”). Fernando Collor venceu por encarnar a ruptura. Em 1994, os nomes se estabilizaram cedo porque a agenda era inequívoca: controlar a inflação. O Plano Real definiu a eleição. Em 1998, a prioridade era a continuidade da estabilidade monetária, o que estruturou a reeleição.
Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra já estavam colocados, mas o eixo foi a combinação entre continuidade econômica e ampliação social. Lula venceu quando se alinhou a esse pacto. Em 2006, Lula era o incumbente sob desgaste do mensalão, mas a agenda ainda era de crescimento e expansão dos programas sociais, e a oposição demorou a se organizar. Em 2010, os nomes ainda estavam em construção, e Dilma Rousseff só se firmou quando passou a representar a agenda de crescimento com inclusão como continuidade de Lula. Em 2014, Dilma era candidata natural, mas a oposição buscava um nome. A agenda era o esgotamento do modelo. Eduardo Campos tentou capturar esse cansaço, e sua morte reconfigurou a disputa e levou Marina Silva ao centro do cenário. Aécio Neves no segundo turno foi derrotado por não conseguiu ir além do antipetismo.
Em 2018, o quadro estava longe de ser definido. Lula era tratado como candidato, Jair Bolsonaro era outsider viável e Fernando Haddad não figurava como presidenciável. A agenda era Lava Jato, corrupção e antipolítica. Bolsonaro venceu por personificar esse sentimento. Em 2022, Lula e Bolsonaro dominavam o debate, tendo na agenda a má gestão da pandemia, a inflação e a reconstrução institucional.
Há uma regularidade importante: quando há reeleição, o primeiro peão do tabuleiro é o incumbente. É ele quem concentra avaliações e obriga os adversários a se definirem por oposição. Nesse aspecto, a pergunta da pesquisa Meio/Ideia sobre se o presidente Lula merece ou não continuar é crítica (talvez a mais importante a ser acompanhada nas pesquisas). Em fevereiro, 47% dos entrevistados acham que o presidente merece continuar e 51% são contrários. Ou seja, o país segue fortemente dividido e os indicadores apontam para uma disputa muito apertada. Diante disso, quanto mais clara é a agenda, mais cedo o incumbente é enquadrado; quanto mais difusa, mais tempo o cenário permanece aberto.
Hoje, a agenda já se organiza em torno da má avaliação da segurança e da economia, enquanto o campo oposicionista ainda busca algo que vá além da negação do governo e do passado recente. Antes das convenções, a disputa central não é quem será candidato, mas quem conseguirá transformar esses desafios em projeto político crível. Para a oposição, isso passa por superar o antipetismo como único eixo. Para o governo, por responder às suas fragilidades mais visíveis. A história eleitoral brasileira sugere uma regra simples: a agenda vem antes dos nomes, e é ela que acaba escolhendo quem sobrevive na corrida.


