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A língua absorvida

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Na noite da última quinta-feira, Lucas Santtana estava na charmosa Sala B da Casa de Francisca, no centro de São Paulo, para a audição de seu mais novo álbum, Brasiliano. Amigos, músicos e jornalistas formavam a pequena plateia. Logo após a escuta, o compositor baiano seguiu para o salão principal para fazer um show intimista, com voz e violão, passando em revista seus 25 anos de carreira, tocando duas músicas de cada um dos discos que lançou, menos do segundo. Parada de Lucas ficou de fora, filho enjeitado por não sobreviver esteticamente ao crivo do autor.

No bis, cedeu aos pedidos da plateia e tocou sucessos que havia apenas citado brevemente durante o show. Ele havia negado ao público essas músicas porque, rigoroso, não queria tocar canções do repertório do show que havia feito com sua banda uma semana antes. A pedido da plateia, tocou uma única música de Brasiliano. Agradecendo o pedido por uma música nova, terminou o bis com Que Seja Um Reggae, que, no álbum, conta com a participação dos Paralamas do Sucesso.

Décimo disco de estúdio do compositor baiano, Brasiliano tem uma proposta bastante conceitual, sem perder a veia pop. O trabalho é cantado em oito idiomas – brasiliano, tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego e crioulo da Guiné-Bissau. A obra funciona como um “road movie linguístico” que traça a jornada da nossa língua desde o latim vulgar até as influências indígenas e africanas. No entanto, esse corpo de canções, com um tema que poderia estar numa tese sobre a língua brasileira, nasceu de forma curiosa, a partir de diálogos cotidianos com seus filhos na França, onde moram desde a pandemia.

“A história do disco começa com uma conversa com meu filho mais velho, ele me explicando o que eram as línguas românicas, essa família linguística que vem do latim”, conta Santtana. Mas a fagulha que mudaria o rumo da obra veio de uma situação vivida por seu filho caçula na França. “Vou muito aos parques lá, e toda hora vinha um francês falar: ‘Ah, vous parlez brésilien, vocês falam brasileiro’, aí eu começava a falar: ‘Não, a gente fala português’, e pensar: ‘porra, esse francês burro para caralho nem sabe o que no Brasil se fala português’”, relembra rindo. “E aí calhou de cair o Latim em Pó na minha mão, o livro do [Caetano] Galindo”, explica Lucas, referindo-se ao livro que inspirou fortemente o disco.

Distância para a criação

Essa reflexão sobre a identidade nacional foi catalisada pelo distanciamento geográfico. Há quase quatro anos Lucas Santtana vive na região da Occitânia, no sul da França, mudança impulsionada pelo cenário desolador da pandemia e da política brasileira da época. “Na pandemia, com aquele negócio de Bolsonaro, sem perspectiva, acabou que a França abriu mais cedo e dava para fazer shows”, justifica. A estabilidade também pesou na balança. “E minha gravadora é de lá há mais de 10 anos. E é uma gravadora que até hoje bota a maior grana, investe em mim. Eu toco mais na rádio na França do que no Brasil”, diz. Essa mudança para a Europa permitiu a ele um olhar mais panorâmico sobre estas terras. “É legal sair do nosso país, porque a gente vê com muita clareza tudo lá de fora. Tudo que é bom e tudo que é ruim”, reflete.

Após ler Galindo, Santtana mergulhou em estudos de linguistas como Eni Orlandi, Lélia Gonzalez, Yeda de Castro e Carlos Alberto Faraco. “E aí realmente eu me deparei com essa questão de a gente já ter uma língua brasileira, né?” Para o baiano, a evidência fonética e histórica é inegável. “Um dos dados que corroboram para gente já ter uma língua brasileira é que, de todos os países colonizados por Portugal, o único que não fala com um acento português é o Brasil”, argumenta. Ele credita essa singularidade ao fato de que, nos primeiros dois séculos e meio de colonização, o idioma majoritário era a língua geral, de base tupi-guarani, e a posterior chegada maciça das línguas africanas.

Para Lucas, continuar chamando nosso idioma de português é quase um apagamento de nossa própria essência. “A gente apagou a nossa herança indígena. Todo mundo concorda que a formação do povo brasileiro é entre portugueses, indígenas e africanos. Todo mundo se reconhece dentro de uma cultura brasileira, ou seja, de um cinema brasileiro, de uma música brasileira, de uma gastronomia de uma arquitetura brasileiras. Aí, a língua que é a base de qualquer cultura, é a portuguesa? Isso é muito dissonante no meu ouvido, saca?”

Coincidindo com os 25 anos de carreira, a ideia original do disco era fazer uma celebração rodeada de amigos, e a temática das línguas românicas deu um norte claro ao projeto. “Quando meu filho me deu essa chave das línguas românicas, eu falei: ‘Pô, perfeito, tem tudo a ver, porque eu não vou cantar uma música em italiano sem chamar um cantor, uma cantora italiana para cantar na sua língua materna’”, explica.

O resultado é um desfile de participações, começando com a voz de Gilberto Gil na faixa de abertura, A História da Nossa Língua. A parceria vai além da música e toca num sentimento de gratidão e reverência. “O primeiro trabalho importante que eu fiz na vida foi a gravação do Acústico MTV, e Gil deu um espaço muito generoso para quem estava começando, ali no meio de músicos como Arthur Maia, Jorginho Gomes, Marcos Suzano”, recorda. Ele define o tempo em que tocou flauta na banda de Gil como sua “universidade de música”, sublinhando a ética profissional do mestre. “Eu fiquei quatro anos tocando com Gil e ele nunca faltou a uma passagem de som, sabe?”. Ao reencontrá-lo recentemente na França, Santtana viu o ídolo de 83 anos repetindo o mesmo ritual. “Eu dei um abraço nele, falei: ‘Professor, você ainda passa o som?’ Ele falou: ‘Claro, tenho que reconhecer o gramado’”, diverte-se. Para Lucas, ter Gil na faixa de abertura “foi mais que um fechamento de ciclo, foi tipo um ornamento de tudo, um presente”.

Outro encontro que simboliza o fechamento de um ciclo é a presença dos Paralamas. Em seu primeiro disco, Santtana regravou Mensagem de Amor, versão que entrou em trilha de novela e ainda toca nas rádios. Mais do que ídolos de adolescência, os Paralamas moldaram a visão musical de Lucas. “Eles eram a minha banda predileta nos anos 1980, justamente porque eu conseguia entender que eles não estavam a fim de ser gringos, sabe? Porque nos anos 1980 era mais legal ser gringo do que ser brasileiro”. A postura do trio de se distanciar da influência do The Police para se embrenhar na cultura brasileira ensinou a ele o verdadeiro significado da atitude roqueira.

Planos e conexões

A discussão sobre a língua brasileira levantada no álbum inevitavelmente remete a outro disco recente, Língua Brasileira, de Tom Zé, lançado em 2022, a partir da peça de Felipe Hirsch. Apesar de reconhecer as pontes, Santtana vê propósitos distintos entre os trabalhos. “Eu conhecia o disco do Tom Zé. Eu até fui rever quando eu comecei a fazer o Brasiliano, mas realmente vi que era bem diferente do que estava propondo.” Para ele, a obra de Tom Zé tem muito uma relação com o português, enquanto seu novo disco vai além. “Em nenhum momento ali eu sinto que há um chamamento para essa questão de uma língua brasileira, e minha história com esse álbum é realmente trazer à tona essa discussão”, pontua.

E o mais interessante é que essa discussão é feita em dois planos distintos. De um lado, há essa afirmação nacional e temática, mas de outro há uma troca musical rica com outros artistas de origem latina, uma fusão que se dá tanto nas vozes como no som. Participam do disco artistas como o duo Cocanha, que canta em occitano, com o cantor siciliano Dimartino, com a poeta galega Maria Lado, a cantora Karyna Gomes, de Guiné-Bissau, e o rapper francês Oxmo Puccino.

Agora Santtana retorna à França e os shows do novo disco devem acontecer só em junho. “A gente tá com planos de voltar para cá para fazer o show de lançamento do disco em São Paulo e em algumas outras capitais, Brasília, Belo Horizonte, talvez Salvador e Rio.” Enquanto não podemos ver ao vivo, ficamos com o disco, e o recado que Lucas Santtana entoa na faixa Liga: “escuta a tua língua, reconhece o seu povo para que não se apague nossa história de novo”.

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