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Enquanto o PL se fortalece, o bolsonarismo racha

Os políticos fizeram suas escolhas: a gente mede isso pela movimentação partidária na Câmara dos Deputados. Não tem partido que se deu melhor do que o PL, de Valdemar Costa Neto e Jair Bolsonaro. Ganhou 13 deputados. Havia eleito 99, chegou em seu pior momento desta legislatura a 87, e vai entrar na eleição com 100 deputados federais. Por que esse movimento? É simples de explicar. Durante o governo Lula, uma turma menos dedicada ideologicamente achou que era bom ficar num partido mais próximo do Palácio do Planalto. Agora, um monte de gente voltou atrás. Tem cheiro de vitória estar ao lado do nome Bolsonaro. O União Progressista parece ter perdido uns dez. Ficou exatamente do mesmo tamanho do PL, com 100 deputados no total, só que tinha mais. E, durante este fim de semana, Eduardo Bolsonaro achou por bem passar um pito público em Nikolas Ferreira. Aí a Michelle saiu em defesa do deputado mineiro. O PL surfando e com briga interna. Que passa?

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Primeiro é importante entender que existe uma diferença dentro da direita. Sei que, para muita gente, é confortável acreditar que seja tudo igual. Está longe de ser. Existem projetos distintos e lógicas de ação política distintas. Existe a extrema direita, dentro dela a força principal é o bolsonarismo, e existe o Centrão. E, claro, existe a esquerda. A máquina eleitoral de esquerda também tem uma subdivisão importante. Há o lulismo e há o voto de esquerda. O lulismo é uma força potente, capaz de eleger um presidente da República. A esquerda é uma força muito minoritária no eleitorado brasileiro. Aliás, perdeu contato com boa parte dos brasileiros. Descolou-se mesmo nas suas preocupações. E não tem, hoje, nenhum incentivo para se reconectar com a sociedade. Nessa janela de mudanças, o PDT capotou. Ninguém está vendo vantagem alguma em estar no lado desenvolvimentista da banda esquerda. PSOL e PT, ao menos pelo que saiu até agora, ficaram no elas por elas. Isso também diz muito. A maioria dos outros partidos de esquerda ganhou tipo um deputado. Se tanto. Essa falta de dinamismo tem tudo a ver com perspectiva eleitoral. A esquerda praticamente não tem movimento. Na direita, é um bando de gente fazendo apostas.

Isto é um reflexo de onde a sociedade brasileira está.

Pensa o seguinte: existe uma direita ideológica, que se elege pelas ideias que defende. Hoje, no Brasil, ela está radicalizada. Existe outra direita que é principalmente fisiológica. Quer dizer, ela se elege por uma mecânica que funciona assim: o deputado vai a Brasília, pega um dinheiro com o governo federal, leva para os municípios de onde vem. Aí chega lá e diz “essa praça existe graças a mim, esse posto de saúde, essas ambulâncias”. Ele não elege apenas a si, em geral elege também um prefeito, uns vereadores, se a máquina for potente um deputados estadual, quem sabe dois. As ideias são menos importantes do que uma, por assim dizer, prestação de serviços.

Até alguns anos atrás, não havia uma direita ideológica na Câmara, ou quase não havia, porque não havia demanda no eleitorado. Não tinha quem desejasse votar num parlamentar de direita por suas ideias. Na esquerda tinha isso, na direita, não. Então por que um Nikolas Ferreira e um Eduardo Bolsonaro estão brigando se Flávio Bolsonaro está tão bem nas pesquisas e tanta gente briga para entrar em seu partido? Ora, é muito simples. Tem pelo que brigar. Em 2030, Jair Bolsonaro já estará velho demais. Se Flávio perder, então, vai ter briga por quem comanda esta direita radical. Principalmente se ainda houver eleitores. Ninguém é mais carismático do que Nikolas neste jogo. O cara é puro talento para apresentar ideias. Nenhum deputado federal tem a capacidade de pautar o debate político brasileiro como Nikolas Ferreira. Ele é uma ameaça real para alguém como Eduardo, que deseja suceder ao pai na liderança mas não tem um pingo do carisma.

Agora, a mensagem principal é a seguinte: hoje, existe um eleitorado de direita bastante mobilizado. Muito mais do que na esquerda. Essa briga fratricida pode se mostrar uma ameaça à candidatura Flávio. E isso não é necessariamente reconfortante para Lula. Se Flávio despenca e outro candidato de direita cresce, a eleição pode até ficar mais difícil. Vamos fazer o desenho? Vem comigo.

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Eu acabei de te mostrar que a direita não é uma coisa só. Que a esquerda também não é. Que existem lógicas diferentes, incentivos diferentes, projetos diferentes. Agora imagina aplicar essa mesma lente para a sociedade   inteira. Foi o que a gente fez no episódio mais recente do Ponto de Partida   — A Série. A pergunta é: e se o Brasil não estiver dividido em dois, mas em   cinco? Cinco grupos com visões de país distintas. Quando você entende isso, a   movimentação que eu descrevi aqui em cima ganha outra camada. Você passa a   entender não só o que os políticos estão fazendo, mas por que o eleitor   responde. Está no streaming do Meio — quinze reais por mês, sem fidelidade,   cancela quando quiser. Assine.

E este aqui? Este é o Ponto de Partida.

O voto da esquerda tem dois grandes núcleos. Um, a minoria, são eleitores realmente de esquerda, em geral na classe média urbana brasileira. Tem preocupações de gente com ensino superior e este voto se concentra nas áreas ricas dos grandes centros urbanos. Estes eleitores votam em presidente de esquerda e votam em parlamentares de esquerda. É graças a ele que um quinto da Câmara dos Deputados é de deputados de esquerda. Como esse eleitorado não cresce, não tem muita razão para alguém ficar ali é mais jogo estar no PSD, no União Progressista ou no PL? Quem está no PT meio que fica, no PSOL idem, no PSB. Como o PDT perdeu qualquer perspectiva de poder, dali faz sentidos sair. Mas não tem volume. O problema é que o outro voto de Lula é o brasileiro pobre, concentrado principalmente no Nordeste e Norte. Ele tem uma identificação pessoal muito forte com o presidente. Mas vota no deputado local. O voto é em Lula presidente, União Brasil para deputado. Por isso que a esquerda elege presidente, mas não elege deputado.

Veja, não quer dizer que uma Erika Hilton não tenha eleitores. Ela tem. Na pequena comunidade trans, mas também nos núcleos identitários entre Santa Cecília e Pinheiros. É um conjunto de pessoas que tem muito eco na imprensa, nas universidades, mas que não é um movimento que cresça. É um movimento que ataca aliados o tempo todo, sempre que alguém diz um ai fora da cartilha. Não é construído para ampliar em número, é construído para ser pequeno e muito fiel. O resultado prático é este. A esquerda tem um quinto do Parlamento. A esquerda não pauta as leis do país.

E a direita? O núcleo do voto ideológico de direita são três. Um é o homem da periferia, ensino médio ou ensino superior de uma faculdade sem prestígio, para quem a vida é muito difícil. E esse cara tem uma baita gana de vencer na vida. Só que o jogo da sociedade brasileiro é feito para que ele não tenha espaço. Pra esquerda identitária, ele é machista. Há vinte anos, esse cara votava no PT. Hoje, não tem como, ele é o vilão favorito da esquerda. É um sujeito muito frustrado com o pequeno número de oportunidades que encontra e muito ambicioso. Essa força que vem de seu desejo de crescer, nós, como sociedade, a desperdiçamos. Hoje, é o núcleo do voto em Pablo Marçal, é onde o Missão mais consegue simpatizantes. É onde Jair Bolsonaro começou seu crescimento.

O segundo núcleo são os evangélicos. Aí, o voto é muito ideológico. Muito calcado em valores realmente conservadores. Muitas mulheres, não só homens. Tudo gente batalhadora. Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira, falam a língua dessas pessoas. Para quem não é evangélico, soa carola. Um pedaço importante da esquerda ouve com repulsa, acha inferior. E é um pedaço importante do Brasil.

Aí tem o terceiro núcleo, entre a classe média tradicional e o agro, que não são pessoas pobres, mas são pessoas de direita. Sempre foram. Sozinhas, não construíam massa de eleitores. Hoje, compõem uma massa que é quem controla o voto, no Brasil.

Flávio Bolsonaro tem telhado de vidro e Eduardo Bolsonaro tem uma fome de poder, um ciúme incontrolável de outras lideranças, que fragilizam este potencial do PL. Nessa de ficar bombardeando gente da direita o tempo todo, Eduardo pode criar uma crise. Como um dos muitos esqueletos no armário de Flávio podem sair para fora a qualquer momento. Só que este eleitor de direita, ele não vai para Lula. Claro que não.

Vai para onde? Ronaldo Caiado é o mais cotado. A aposta de Gilberto Kassab é evidentemente esta, ele escolheu o agora ex-governador de Goiás com o objetivo de ficar pronto para o bote, se a oportunidade aparecer. Mas tem Renan Santos, do MBL, que não sabe o que é ideologicamente mas discurso com raiva ele sabe fazer. E tem Aldo Rebelo, o comunista que girou da extrema-esquerda para a extrema-direita. Pro Aldo, é mais difícil.

Os políticos fizeram suas apostas. O que a maioria deles decidiu fazer foi tomar o rumo do bolsonarismo. A corrida começou.

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