Eduardo Bolsonaro ajuda ou sabota Flávio Bolsonaro?
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Começa hoje o julgamento no Supremo Tribunal Federal do ex-deputado fedefal Eduardo Bolsonaro, por quatro crimes: coação no curso do processo; obstrução de investigação de organização criminosa; tentativa de abolição do Estado democrático de Direito e atentado à soberania nacional.
Trocando em miúdos, Eduardo está sendo julgado por viajar aos Estados Unidos e trabalhar intensamente com o governo trumpista e variados agentes do poder norte-americano para agir contra juízes brasileiros que julgavam seu pai por tentativa de golpe de Estado e contra o país de maneira mais ampla, adotando tarifas desproporcionais e provocando um cenário de “terra arrasada”, na confissão do próprio réu.
Mas não pensem vocês que Eduardo está preocupado com esse julgamento. Longe disso. Sequer constituiu advogado para fazer sua defesa. Ele será representado pela Defensoria Pública da União, que chegou a pedir o adiamento do julgamento já que a Primeira Turma do STF está incompleta desde a migração de Luiz Fux para a Segunda Turma.
Eduardo não está preocupado porque tem uma estratégia muito clara — e talvez a mais inteligente do bolsonarismo, a mais eficaz, a que por muito pouco não deu certo para seu pai. E que na verdade ainda pode dar.
O bolsonarismo copiou da extrema direita pelo mundo a estratégia de cometer crimes contumazes ou forçar a barra no limiar do que é legal para, em seguida, acusar a Justiça de perseguí-los politicamente. É assim que minam a confiança das instituições e angariam apoios políticos, com o falso discurso vitimista.
No caso brasileiro, agem como abutres, se alimentando de uma carne já em estado de decomposição por conta do péssimo comportamento de alguns magistrados. O STF vem dando munição a seus detratores há muuuito tempo. Principalmente, desde o julgamento do mensalão, quando o cidadão médio passou a prestar mais atenção na conduta dos ministros, especialmente quando ela é uma má conduta.
As paixões a favor dos ministros estiveram, por muitos anos, no lado do antipetismo. Elas se inverteram com a ascensão do bolsonarismo. E hoje a desconfiança paira em vários setores da sociedade. Mas quem segue se beneficiando mais intensamente dela é a extrema direita.
Bom, enquanto espera uma condenação que certamente virá, sobretudo porque os crimes que ele cometeu são confessos e facilmente comprováveis, Eduardo não está parado, não. Ao contrário, atua como um dos principais estrategistas da campanha de Flávio Bolsonaro. Só não está claro se com a anuência do irmão ou apesar dele.
Eduardo se autoexilou nos Estados Unidos desde o início de 2025, oficialmente em licença do mandato, mas depois acabou cassado por excesso de faltas. Ele montou ali, ao lado do jornalista Paulo Figueiredo, um QG de operação para fazer pressão internacional e nacional. Ao que tudo indica, mas falta comprovar, recrutou Mário Frias para conseguir verbas para manter sua operação e a engenhoca concebida para isso foi o filme Dark Horse, bancado por Daniel Vorcaro.
Nesse meio tempo, chegou também para ajudar no QG o ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, com tudo que sabe sobre a inteligência golpista brasileira. Por via das dúvidas, Eduardo diz que pretende concorrer ao Senado como suplente de André do Prado, mesmo morando nos Estados Unidos, num acordo costurado com Tarcísio de Freitas e Valdemar Costa Neto.
Mas Eduardo queria mesmo, sempre quis, ser presidente da República. Declarou isso com todas as letras e foi prontamente desqualificado pelo pai, Jair, que o chamou de “imaturo” numa entrevista. Foi essa humilhação imposta pelo pai que rendeu aquele áudio maravilhoso em que Eduardo chama o pai de ingrato, recheada de palavrões e impropérios, lembram?
Jair escolheu Flávio, o primogênito, pra tentar o Planalto. Os filhos de Jair dependem integralmente dos votos do pai. Estão no negócio de defender o sobrenome como empreendimento familiar para se manter na política. Agora, sobre como fazer isso, aí tem muita briga, muita disputa.
O consenso entre os irmãos é que Michelle Bolsonaro, a mais esperta de todos eles, a mais perigosa, a meu ver, não serve pra carregar o legado. A briga é que Eduardo acha que poderia fular a fila, com seu bolsonarismo mais ideológico, menos Centrão, e mais conectado ao movimento reacionário internacional.
Aí, não se sabe se pra garantir a hegemonia do bolsonarismo como força da direita ou pra sabotar a candidatura de Flávio — ou pra conseguir as duas coisas ao mesmo tempo —, Eduardo lançou, por conta própria, o nome de Júlia Zanatta, a deputada da tiara de flores de Santa Catarina, como vice de Flávio na chapa puro-sangue do PL.
Flávio não sabia, os marqueteiros e coordenadores da campanha não sabiam, nem a própria Júlia sabia. É tudo fruto dessa mente brilhante de Eduardo Bolsonaro. Quer entender como isso pode simultaneamente assegurar o bolsonarismo como único vetor viável da direita e atrapalhar Flávio Bolsonaro? Então, fica aqui comigo.
Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. Às vezes a gente precisa dar uma pausa dos assuntos do noticiário pra pensar melhor. E uma coisa que venho prestando atenção é como parar sem ficar imersa no scroll infinito do celular. Assistir algo que valha o tempo é sempre uma boa pedida, né? Minha dica é explorar o catálogo do streaming do Meio. Além do episódio mais recente do Ponto de Partida, A Série, tem outras produções esperando por você. Tem o documentário Democracia — Uma História Sem Fim com um episódio que eu apresento e conta a história do julgamento pela tentativa de golpe de estado de Jair Bolsonaro, por exemplo. E tem mais um monte de coisa bacana. Mas é exclusivo para assinantes premium. O link para assinar e desbloquear seu acesso está aqui na descrição. Assine o Meio!
No dia 8 de junho, Flávio disse, num evento para público feminino em São Paulo, que sua vice seria preferencialmente uma mulher. Essa é uma ideia ventilada há tempos porque Flávio perde em todas as pesquisas de intenção de votos entre as mulheres, assim como seu pai perdia, um tanto pelas falas misóginas, um outro tanto pela política armamentista, e mais um bocado pela condução do Brasil na pandemia.
Antes de Zanatta, os nomes cotados foram Tereza Cristina, senadora pelo PP, que recusou, dizendo que “não cabe em seus projetos”, e Clarissa Tércio e Simone Marchetto, ambas deputadas pelo PP. Dois dias depois, em 10 de junho, Eduardo foi às redes e disse que Zanatta está “à altura do cargo”. Bem ao modo bolsonarista, soltou nas redes sem consultar ninguém e ainda informou primeiro o marido de Júlia, um inexpressivo candidato a deputado estadual, super empoderando a deputada, né?
Eduardo citou como atributos de Júlia sua “lealdade” e as pautas que ela defende no Congresso. Lealdade e agenda ideológica, não capital eleitoral, porque realmente ela não agrega um votozinho sequer à chapa.
E há ainda uma frase de Eduardo, do dia 12 de junho, que é muito reveladora. Não sei se é ato falho, se é coisa de fã ou hater, sério. Eduardo disse o seguinte: “Quero ver Flávio Bolsonaro presidente, alguém querer fazer o impeachment dele para entrar a Júlia Zanatta”. E ele ainda acrescentou, na resposta ao Rodrigo Constantino: “Agora, bota um vice igual ao Zema, que você tanto ama, para ver como será. Onde você enxerga voto eu enxergo caráter”.
Bom, é uma frase ambígua o bastante para ser lida como entusiasmo desajeitado pela vice que ele mesmo escolheu, mas também pode ser lida como um sinal, consciente ou não, de que Eduardo já projeta um cenário de um Flávio tão fraco que, caso eleito, estaria sujeito a um impeachment e cuja sucessão passaria pela mulher que ele, Eduardo, indicou.
Não é à toa que Flávio vem dizendo que um de seus primeiros atos se eleito seria o fim da reeleição, algo difícil de acreditar, mas tudo bem.
Eduardo e Carlos, os dois filhos ideológicos, cada um a seu modo, de Jair, estão preocupados em destruir qualquer nome da direita que ouse questionar sua hegemonia eleitoral. A qualquer preço.
Eduardo Bolsonaro é, por trajetória e por declaração própria, o agitador ideológico do clã. Ele mesmo chamou Olavo de Carvalho de “nossa base filosófica” e tentou se apresentar como sucessor dessa linhagem, montando cursinhos de filosofia numa plataforma própria. O eixo dele é geopolítica de direita internacional e guerra cultural.
Flávio Bolsonaro é o filho que herdou o gene centrão de Jair, o dominante, diga-se, e está mais preocupado em, para manter essa hegemonia, buscar alianças no campo da direita. Tanto que já ensaiou perdoar o arroubo de ruptura de Romeu Zema.
O saldo dessa briga é o seguinte. Se Flávio não se elege, mas vai ao segundo turno forte, o bolsonarismo segue vivíssimo tentando ser reagrupar para 2030, embora outros nomes da direita possam emergir, claro.
Mas o argumento de que Flávio, mesmo contra a máquina de Lula, o Supremo, a mídia, etc, conseguiu chegar tão forte e um Caiado ou Zema ou Renan Santos da vida acabaram com coisa de 5%, alimenta a ilusão de que só os Bolsonaro são capazes de movimentar o campo eleitoralmente. E Eduardo tendo tido voz tão forte na campanha vai fazer diferença em quem será o escolhido para levar adiante o sobrenome — se não estiver todo mundo preso
Se Flávio ganha, Eduardo quer estar habilitado a sucedê-lo. De qualquer maneira. De um jeito muito peculiar, que envolve deixar seu país como terra arrasada. Mas tem gente que gosta, né?


