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Edição de Sábado: O anfitrião avesso

Foto: Brendan Smialowski / AFP

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Ele se arvorou a colocar a medalha de honra em seu próprio pescoço. O penduricalho era uma versão portátil do prêmio maior, de mesa, que estava recebendo, para poder exibir por aí. Mas Donald J. Trump, presidente dos Estados Unidos, nem esperou Gianni Infantino, presidente da Fifa, agraciá-lo com o balangandã. Já foi tomando a insígnia da bandeja e se autoadornando. Bem, o efeito teria sido o mesmo se o dirigente mais bajulador da história da entidade futebolística tivesse dado a medalha. Toda aquela encenação patética era, no fim, um ato masturbatório de Trump. Depois de o presidente norte-americano perder o Nobel da Paz com o qual tanto sonha para María Corina Machado, Infantino inventou, quiçá a pedido do próprio Trump, um Prêmio Fifa da Paz para satisfazer a vaidade trumpista.

Era o dia 5 de dezembro de 2025, e a premiação aconteceu na cerimônia de sorteio dos jogos da Copa do Mundo 2026, sediada triplamente por Estados Unidos, Canadá e México. O slogan do Prêmio Fifa da Paz, recém-parido, é “O futebol une o mundo”. E seu primeiro laureado é o homem, potencialmente, mais divisivo do Ocidente das últimas oito décadas. O anfitrião da maior festa da bola está de mal com o mundo que a Fifa jura querer unir. E a Copa que tinha tudo para entrar para a história como a mais global, por ser a primeira com o recorde de 48 países participantes e a primeira com três nações-sede, pode ser lembrada justamente pelo paradoxo da hostilidade do principal host.

Tudo com a constrangedora cumplicidade da Fifa, que não poderia sequer alegar que estava desavisada. Para ficarmos apenas num intervalo curtíssimo, dois dias antes de Trump receber a honraria de pacificador, um encontro na Índia em busca de uma trégua na guerra entre Rússia e Ucrânia, com a presença de uma delegação americana, fracassou. Esse foi apenas um dos conflitos que Trump jurou falsamente ter encerrado para justificar seu desejo pelo Nobel da Paz.

No mesmo dia 3, Trump suspendeu todos os pedidos de imigração, como green cards e naturalizações, para pessoas de 19 países, que já haviam sido proibidas de viajar aos EUA meses antes. Doze dias depois do prêmio, ampliaria o travel ban para 39 países. Entre eles, República do Congo, Haiti, Senegal, Costa do Marfim, Irã e Somália, todos participantes da Copa de alguma maneira. O tratamento dispensado pelos Estados Unidos aos atletas, dirigentes, árbitros e torcedores dessas nacionalidades até aqui já está sendo usado como símbolo de como uma festa global, ecumênica e diversa pode ser transformada em um manifesto bélico, anti-imigração e antiglobalização.

Não que outras copas não tenham sido usadas de forma nefasta por líderes políticos para mascarar (ou celebrar) autoritarismos de variadas espécies. Uma das apropriações mais escandalosas foi na Copa de 1934, quando Benito Mussolini interferiu de todos os jeitos que encontrou para tornar sua Itália fascista vitoriosa. Numa ironia nada alentadora, em vez de rejeitar estrangeiros, naturalizou alguns para fortalecer o time da Azzurra, mudando a legislação para “importar” os chamados oriundi. Foi assim que descendentes de italianos como os argentinos Monti, Orsi e De Maria, o uruguaio Guaita e o brasileiro Guarisi acabaram jogando pela seleção italiana, que ganharia o título pela primeira vez.

Saltando mais de quatro décadas, a Argentina foi a anfitriã de 1978. Os estádios enchiam enquanto a ditadura sangrenta de Rafael Videla torturava nos porões. As Mães da Praça de Maio buscavam denunciar o regime e jogadores de outros países chegaram a boicotar a Copa. João Havelange, então presidente da Fifa, foi pressionado a mudar a sede e se negou. A Holanda, finalista contra o time da casa, ameaçou não aceitar as medalhas das mãos de Videla caso ganhasse. A Argentina ganhou. E Videla condecorou sua seleção.

Quarenta anos mais e chegamos à Rússia de Vladimir Putin. Sob escrutínio internacional por violações de direitos humanos e envenenamento de adversários políticos e pelo conflito na Crimeia, o ditador russo escolheu usar a Copa de 2018 para tentar lavar sua imagem e, na cerimônia de abertura do Mundial, apresentou seu país como “aberto, hospitaleiro e amigável”. No Catar, quatro anos mais tarde, outra ditadura, o inaceitável para os críticos eram, principalmente, a perseguição à comunidade LGBTQIA+ e às mulheres e as denúncias de trabalho escravo na construção dos estádios. Mas tudo foi ficando palatável com o tempo, com o clima festivo dos jogos e com a ajuda da Fifa, que, em nome dos lucros e com cada vez menos influência, foi mais do que complacente com autoritários. Foi amiga deles.

Isso porque, como o próprio ex-secretário-geral da entidade Jérôme Valcke admitiu em 2013, lidar com autocratas é bem mais fácil do que com democratas. “Menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo. Quando você tem um chefe de Estado forte, que pode decidir, assim como Putin em 2018, é mais fácil para nós organizadores do que um país como a Alemanha, onde você precisa negociar em diferentes níveis”, confessou Valcke. “A principal dificuldade que temos é quando entramos em um país onde a estrutura política é dividida, como no Brasil, em três níveis: federal, estadual e municipal. São pessoas diferentes, movimentos diferentes, interesses diferentes, e é difícil organizar uma Copa nessas condições.”

Ou seja, Infantino não inaugura uma tendência covarde da Fifa, mas um novo patamar de intimidade com um governante. E Donald Trump estreia um jeito novo de sediar uma Copa do Mundo.

A jogada de cada um

Os líderes autoritários, completos ou aspirantes, costumam usar o torneio para vender uma ideia de nação feliz e receptiva e de que eles, os líderes, são fortes, mas benevolentes. Usam a oportunidade como um cartão de visitas, ainda que frequentemente falso, de suas conquistas e da alegria simulada de seu povo. Trump explode isso. Internamente, segue com as medidas anti-imigratórias violentas que fazem parte do mundo se arrepiar. Externamente, dá continuidade à sua política de virar as costas para aliados históricos, de destruir canais diplomáticos e de atacar instâncias multilaterais, mirando agora a mais festiva delas, a Copa do Mundo.

De saída, Trump não está interessado na Copa ou em futebol. Seu gosto esportivo se deposita mais no basquete — e ele foi recebido com fortes vaias num jogo da final da NBA em Nova York — e no UFC, a ponto de marcar para um domingo de Copa do Mundo em seu país um inédito dia de lutas na Casa Branca. Some-se a isso que não se importar muito com o que vão pensar sobre sua hospitalidade ou com as consequências de seus atos faz parte de seu show. Mas os julgamentos e as consequências virão de qualquer forma. O episódio da expulsão do árbitro somali Omar Artan de solo norte-americano representa, até aqui, o ponto alto dos efeitos negativos que essa escolha de Trump podem gerar. Considerado um dos principais árbitros da África e eleito o melhor árbitro masculino do continente em 2025, Artan seria o primeiro árbitro da Somália a atuar em uma Copa do Mundo. Foi barrado em Miami sem uma justificativa clara.

Ao retornar a Mogadíscio, foi recebido por um estádio lotado, como se tivesse ele próprio ganhado a Copa. A Uefa escolheu Artan para apitar a Supercopa 2026, em agosto, entre Paris Saint Germain e Aston Villa. Herói e vilão do Mundial, antes de seu início, já estavam estabelecidos. Questionado pela imprensa sobre o caso, Infantino pediu que os jornalistas “chill and relax” sobre o assunto.

Nem todo jornalista esportivo é vergonhosamente sabujo de jogadores e dirigentes, ainda bem. Um repórter da BBC confrontou Infantino diretamente sobre a dificuldade de algumas seleções, torcidas e até jornalistas se locomoverem nos EUA e receberem seus prometidos vistos. “Você está envergonhado pelo que está acontecendo? E você precisa aceitar que perdeu o controle do seu torneio?”. O semblante fechado de Infantino deu lugar a um sorrisinho sem graça. “Você é da BBC. Em 2035, possivelmente o Reino Unido vai receber a Copa Feminina de Futebol. Você acharia normal que a Fifa determinasse ao governo britânico quem deixar ou não entrar no país?”, respondeu perguntando. “Em todo país, há governantes. Não é fácil ter 300 mil pessoas para processar a entrada… Nosso mundo é muito agressivo. Segurança vem acima de tudo. Quando eu peço para vocês relaxarem, não é porque não faremos nada. É para confiar que estamos trabalhando nos bastidores para entender…”

Os bastidores da relação Trump/Infantino foram esmiuçados pelo New York Times e revelam que já há pleno entendimento mútuo. Os dois se conheceram em 2018 no Salão Oval, quando a América do Norte ganhou o direito de sediar a Copa. Infantino presenteou Trump com uma camisa personalizada e um conjunto de cartões de advertência, que os dois brincaram que poderiam ser usados para punir a imprensa. Desde então, Infantino tornou-se presença regular na Casa Branca, esteve na primeira fila da posse de Trump em janeiro de 2025 e o acompanhou em visitas de Estado, numa parceria difícil de justificar.

A proximidade entre ambos, como tudo que Trump empreende na Casa Branca, rende frutos financeiros. A Fifa aluga, desde o ano passado, uma sala no 17º andar da Trump Tower em Nova York, pagando aluguel à família do presidente. O Departamento de Justiça, por sua vez, encerrou investigações criminais de longa data contra a entidade. O auge desse namoro, até aqui, foi mesmo na concepção do Prêmio Fifa da Paz. Segundo o Times, Infantino comunicou aos altos funcionários da entidade o nome do primeiro contemplado no mesmo dia em que anunciou a criação do prêmio. O troféu, como todo o resto, foi improvisado: uma peça miniatura de um escultor que era pai de um funcionário foi retirada da coleção de bugigangas da entidade. A entrega do prêmio foi em Washington, cidade escolhida a pedido de um aliado do presidente, para garantir a presença de Trump.

Acontece que, como se aprende arduamente, Trump não é um aliado confiável. Quando a seleção iraniana precisou de autorização para entrar nos Estados Unidos, Trump respondeu: “Se Gianni disse, estou de acordo”. A Copa começou e a delegação iraniana enfrenta toda sorte de dificuldade tanto com vistos quanto com acomodações — e não só ela. Trump também fez eco às críticas à política absurda de preços de ingressos da Fifa, deixando Infantino na chuva para se explicar.

Sejam mal-vindos

Poderia se justificar o caso iraniano com o fato de que os EUA estão realmente em guerra com o Irã neste momento, apesar das 37 vezes em que ele já anunciou, falsa ou precipitadamente, um acordo de cessar-fogo com o país. Mas Trump e sua administração impuseram obstáculos a diversas delegações e torcidas. Um atleta iraquiano foi submetido a sete horas de entrevista no aeroporto. Torcedores, até de aliados como a Escócia e a Argentina, tiveram vistos negados. Outros desistiram de embarcar com medo das restrições. Ainda mais grave, Trump segue usando sua milícia anti-imigrantes, o ICE, e assustando inclusive aqueles que entraram no país legalmente.

Na Copa do Mundo de Clubes da Fifa, disputada nos EUA entre junho e julho do ano passado, o ICE emitiu um alerta recomendando os não americanos que fossem aos estádios a levar prova de sua situação migratória. Agentes dessa força especial eram vistos circulando estádios e migrantes que já tinham comprado ingressos correram para revendê-los, aterrorizados. Como reflexo, há agora um temor generalizado de batidas do ICE ao redor dos estádios, e organizações chegaram a pedir que empresas patrocinadoras pressionem por uma trégua durante a Copa.

Sua retórica também não está em nada mais suave. No ano em que os EUA foram escolhidos como uma das sedes da Copa, vazou que Trump se referira a países da África e ao Haiti como “shithole countries”. Agora, no mesmo dezembro em que foi escolhido pacificador pela Fifa, Trump classificou a Somália, de Omar Artan, como “podre” e um lugar que “fede”. Pressionado sobre a desproporcional rigidez com vistos, afirmou que está assegurando que somente as “pessoas certas” entrem nos EUA.

Enquanto o México abria a Copa do Mundo, na quinta-feira, com uma cerimônia que festejou dos astecas ao reggaeton, Trump postou, do absoluto nada, contra o “birthright citizenship”, que concede cidadania automática a crianças nascidas em solo norte-americano, mesmo de imigrantes. Poucas horas depois, uma imagem com armas apreendidas, segundo ele, de cartéis mexicanos, usadas para “matar milhares de americanos todos os anos”.

México e África do Sul fizeram o jogo de abertura da Copa a despeito de Donald Trump e seus ataques. Como bem apontou Tanguy Baghdadi, professor de relações internacionais, foi bastante simbólico assistir a dois países que lutam arduamente contra muros — comerciais, raciais e literais — festejando o futebol em contraponto a quem tenta arduamente erguer esses muros. Aliás, o México já tem sido celebrado nas redes sociais como o verdadeiro, legítimo e baladeiro (como sói ser em copas) anfitrião deste 2026, com uma pitadinha de generosidade com o Canadá, o simpático e pacífico co-host ao Norte. A sequela da aspereza do anfitrião yankee tem sido o fortalecimento dos anfitriões latinos e canadenses aos olhos do mundo.

Esse realinhamento, ou a preterição dos EUA como referência, tende a ser também a sequela de todas as escolhas bélicas, anti-imigratórias e antiglobalização e multilateralismo que Trump tem feito, como alerta Ian Bremmer, da Eurasia, em entrevista a Ezra Klein. “Os EUA são hoje o principal propulsor da incerteza geopolítica no mundo. Trump e os americanos estão conduzindo isso, com tarifas e política industrial, com a guerra no Irã. Eles estão conduzindo isso com a falta de previsibilidade com os europeus. Eles estão impulsionando isso com a mudança nas estruturas, nas regras e nas normas dentro do maior mercado do mundo”, diz Bremmer. “É isso que vejo acontecer nos EUA neste momento, os EUA estão se retirando unilateralmente das suas alianças. Estão dizendo: não queremos ser confiáveis. Então, vocês fazem o que quiserem.” A questão é que o mundo talvez aceite. E o futebol pode unir o mundo — sem ou contra os EUA.

O novinho da Fórmula 1

Não bastassem a renovação visual, o uso intenso das redes sociais, as séries de streaming (Drive to Survive e The Seat) e até um filme de Hollywood, a Fórmula 1 encontrou mais uma maneira de seduzir os jovens: uma estrela adolescente. Com apenas 19 anos, Kimi Antonelli é a surpresa desta temporada, que começou em março, na Austrália, e já teve seis corridas. Em Melbourne, Kimi chegou em segundo e nas outras cinco ele venceu. Uma atrás da outra: China, Japão, Miami, Canadá e Mônaco. Nunca na história da F1 alguém tão jovem havia conseguido este feito. Depois da vitória em Suzuka, passou a ser o mais jovem piloto a liderar o campeonato. Em Mônaco, mais um recorde: nunca alguém tão jovem havia feito o Grand Chelem, expressão automobilística que significa fazer a pole, liderar todas as voltas, ganhar a corrida e cravar a volta mais rápida. O moleque é o terror.

Andrea Kimi Antonelli ainda mora com os pais, em Bolonha, e tirou carteira de motorista há menos de um ano. Bom aluno, terminou o ensino médio no Instituto Técnico Salvemini di Casalecchio di Reno, com ênfase em Relações Internacionais e Marketing. Quando não está nas pistas, vai à escola, conversa sobre outros assuntos com amigos e brinca com a irmã mais nova, sua fã número um. Para a família, ele é apenas Andrea, mas a imprensa adotou seu nome do meio, que não é uma homenagem a Raikkonen, campeão em 2007. A coincidência, inclusive, confundiu o experiente locutor oficial da competição, Ben Constanduros, que ao anunciar a primeira vitória de Antonelli, no Grande Prêmio da China deste ano, gritou em alto e bom som: “from Italy, Kimi Raikkonen!!!”. Constanduros está na Fórmula 1 desde 1985 e testemunhou todas as vitórias do piloto finlandês, que não compete desde o final da temporada de 2021. No pódio, Russell, Hamilton e Kimi morreram de rir com a gafe.

Em breve Andrea vai ter que morar sozinho e ainda não sabe fritar um ovo ou lavar uma camisa. Mas Kimi sabe acelerar sua Mercedes, fazer curvas limpas e ultrapassagens perfeitas. Lidera o campeonato com 68 pontos de vantagem sobre George Russell, o experiente companheiro de equipe que tinha tudo para ser o campeão deste ano. Russell deve ter pesadelos com o italiano. O mesmo não acontece com o tetracampeão Max Verstappen e o heptacampeão Lewis Hamilton. Ambos admiram e elogiam o menino com quem já dividiram o pódio. Com o garoto no lugar mais alto, vejam só. Kimi tem surpreendido campeões, jornalistas e torcedores, mas uma pessoa viu seu talento antes que todos: Toto Wolff. O CEO da Mercedes apostou em Kimi para substituir Hamilton, que foi realizar o sonho de infância de todo piloto da F1: correr pela Ferrari.

O início

Toto contratou Kimi com 12 anos, quando ele ainda corria de kart, em 2019. Entre 2020 e 2023 ele ganhou sete títulos. Foram dois Campeonatos Europeus de Kart, a Fórmula 4 italiana, a Fórmula 4 alemã, a Fórmula Regional do Oriente Médio, entre outros. Pulou a Fórmula 3 e foi direto para a Fórmula 2 em 2024, numa das decisões mais comentadas do automobilismo de base. E muito mais comentada foi a decisão de Toto de trazer para uma grande equipe de Fórmula 1 um piloto que terminou apenas em sexto na Fórmula 2. Pra se ter uma ideia, o brasileiro Gabriel Bortoleto, que ficou em primeiro na mesma categoria, hoje dirige uma modesta Audi, que é a 9ª colocada no ranking de construtores. Parecia arriscado trocar um experiente Hamilton de 41 anos por um desconhecido Kimi de apenas 18. Mas o alemão sabia o que estava fazendo e declarou que Kimi era um “diamante a ser lapidado”. A primeira temporada de Antonelli na Mercedes não foi exatamente um mar de rosas. Beliscou o pódio já na primeira corrida, chegando em quarto. Foi sexto na China e no Japão. Foi mal no Bahrein, mas voltou a pontuar na Arábia Saudita e Miami. Na sétima prova, correndo em Ímola, começou seu calvário: nem terminou a corrida. A fraca classificação (largou em 13º), o abandono da prova e a decepção da torcida italiana pesaram.

Depois do vexame “em casa” foram mais nove corridas ruins com a nobre exceção do Canadá, seu primeiro pódio (ufa!). Nesse período o apoio de Toto foi fundamental. Na época o Chefe de Equipe usou humor para comentar as falhas de largada e aspectos técnicos que o jovem piloto ainda precisava aprender. Toto frequentemente fala de Antonelli em termos de desenvolvimento pessoal e maturidade, não apenas desempenho. Não é um “pai coruja”, mas protege o piloto da pressão externa enquanto cobra evolução internamente. Wolff fala de Antonelli de forma muito diferente da que falava de Hamilton, Rosberg ou Bottas. Com o italiano o foco quase sempre está em crescimento, aprendizagem e confiança, o que reforça a percepção de uma relação mentor–discípulo bastante incomum na Fórmula 1 moderna.

A virada

A maré de azar só deu sinais de mudança em setembro, com um quarto lugar no Azerbaijão. A confirmação veio com um empolgante segundo lugar em Interlagos, quando segurou um esfomeado Max Verstappen, que largou dos boxes, ultrapassou 17 carros e chegou colado em Kimi. Um terceiro lugar em Las Vegas e um quinto no Catar confirmaram a recuperação. Quem o ajudou a sair da crise foram Toto Wolff e seu pai, “Cada um deles me deu um belo puxão de orelhas depois de Monza”, declarou. Foram as primeiras críticas públicas do chefão da Mercedes, que na época classificou como “decepcionante” a atuação de Kimi.

Nas 24 corridas de sua primeira temporada na Fórmula 1 Kimi marcou 150 pontos. Para se ter uma ideia de sua evolução, neste ano, com apenas seis corridas ele já acumula 156 pontos. Enquanto os fãs vão à loucura, seu companheiro de equipe vai ao desespero. George Russell tem apenas 88 pontos e vê suas chances de ser campeão escorrerem pelas luvas. A imprensa está apaixonada pelo rosto infantil de Kimi e a rara combinação de agressividade, precisão e controle. Sua última vitória, em Mônaco, foi uma aula. Na prova mais perigosa da F1, uma pista sem retas, onde os carros passam a centímetros do muro o tempo todo, Kimi não cometeu um erro, nem mesmo uma leve derrapada. Largou bem contra Verstappen e contra Hamilton na relargada parada, no fim da prova. O Grand Chelem foi conquistado com sucessivas melhores voltas apesar de liderar com folga, chegando a ficar espantosos 30 segundos na frente do segundo colocado. E para humilhar, deu uma volta sobre Russell (que fase!).

Mônaco, como os outros circuitos, teve os ingressos esgotados. A audiência está aumentando e os fãs da Fórmula 1 estão mudando. Hoje, 43% do público tem menos de 35 anos, mostrando que o esporte está atraindo cada vez mais jovens. E o sucesso de Kimi turbina essa renovação.

Outro dado que chama atenção é o crescimento da participação feminina: as mulheres já representam 42% dos fãs da categoria, com 43 milhões de novas torcedoras em comparação com a temporada anterior. Isso reforça a ideia de que a F1 está conquistando um público cada vez mais diverso e abrangente.

Será que em Barcelona o italiano ganha sua sexta corrida seguida? Acompanhe neste domingo, às 10h na TV Globo, Sport TV, Globoplay ou F1 TV. Colecionador de recordes, Kimi Antonelli já é o mais jovem piloto a liderar uma corrida, o mais jovem a fazer a volta mais rápida, o mais jovem a conquistar uma pole, o mais jovem a liderar o campeonato e o mais jovem a conquistar o Grand Chelem. Só falta bater o recorde que ainda pertence a Sebastian Vettel: o de mais jovem campeão da história da Fórmula 1.

A palavra se insinua

André Curti e Artur Luanda Ribeiro se encontraram em Paris em 1997, dois jovens tentando achar caminhos dentro de uma cultura que não era a deles. Os dois vinham do Brasil, mas Artur nasceu em Luanda, Angola, e se mudou ainda criança para o Rio de Janeiro.

O encontro dos dois formou a companhia Dos à Deux, que leva o nome da primeira peça que fizeram juntos em 1998, uma adaptação de Esperando Godot, de Samuel Beckett, sem os diálogos. A companhia virou método: 28 anos de teatro gestual, sem uma palavra falada em cena. São 12 espetáculos, mais de 1500 apresentações em 50 países. Uma linguagem construída no corpo, no objeto, na luz.

ConfuZo (Está Escurecendo Dentro de Mim), em cartaz no CCBB Rio, rompe esse ciclo. Pela primeira vez, os dois escreveram um texto e o colocaram em cena. Não como diálogo, não como narrativa condutora, mas como Artur descreve: “o personagem não fala, ele pensa. A palavra entra como segunda camada, como a música entra, e vai surgindo como poesia até acabar como um grito.”

No centro do espetáculo estão dois arquétipos. O Homem-Árvore, que carrega no corpo uma árvore de 3 metros sobre a qual ninguém achava problema nenhum, até o dia que alguém achou. E o Homem-Luz, que pedala sem parar uma bicicleta geradora de energia elétrica real, iluminando o que acontece em cena enquanto vai, ele mesmo, escurecendo por dentro.

A peça foi criada no casarão de 1846, que a dupla restaurou na Glória ao longo de dez anos. Conversei com Artur sobre a nova peça, a gênese do Dos à Deux e sobre o processo de criação da dupla. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Vocês começaram com uma adaptação do Esperando Godot, uma peça tão icônica pela palavra, e a decisão de vocês foi silenciar esse texto. Como foi isso?

Quando a gente se encontra, eu e o André, eu estava no mundo do clown contemporâneo, o clown sem nariz, e o André no mundo do teatro-dança. Aí tem essa fusão de universos e surge a pergunta: o que a gente poderia fazer juntos? O André tem essa ideia: “Eu sonho em fazer Esperando Godot sem texto.” Eu notei que a maioria das montagens que eu assisti era muito hermética. O humor passava pelo absurdo, mas não era o humor que o Beckett descrevia nos escritos dele. A gente então foi justamente nas entrelinhas: enquanto a gente tá esperando, o que é que a gente faz para preencher os vazios, para fazer essa existência ficar suspensa? A gente abriu os espaços entre as falas e criou uma obra paralela ao Esperando Godot, uma linha do tempo do Vladimir e do Estragon. Acabou se tornando o nosso marco, o que fez a gente ficar conhecido na França.

ConfuZo marca o desdobramento mais radical de vocês, porque interrompe um ciclo não verbal de 28 anos introduzindo um texto falado e escrito por vocês. Como a palavra se insere no espetáculo?

Quando a gente começa um espetáculo, começa sempre com uma ideia, um tema que nos atravessa e um objeto muito simbólico. Se você já acompanha a gente, você vê: tem sempre uma cama elástica, uma mesa, duas cadeiras, três pranchas. E a gente chegou nesse palco vazio com uma bicicleta e um galho de árvore. Eu estava paralelamente trabalhando num documentário que estou realizando sobre Angola, sobre raízes, sobre pertencimento. Todas essas questões foram colocadas em cima da mesa, e esse galho surgiu como uma grande metáfora: a metáfora desse homem híbrido que de um dia para a noite tem uma árvore brotando da cabeça, e diz no texto “de um silêncio mal resolvido.” E para ele isso nunca foi um problema, até o dia que alguém diz que é. Até que ponto o olhar do outro te muda? E aí a gente começa a sentar e escrever, pela primeira vez colocando palavras dentro de um pensamento. E se dá conta de que não quer fazer teatro de texto, quer fazer teatro de poesia, teatro sensorial.

Qual é a diferença?

Não é necessariamente o personagem falando, é ele pensando. A palavra entra como uma segunda camada, como a música entra também. O Federico Puppi [que compôs a trilha sonora] embarcou nesse trabalho de costura de dramaturgias. A palavra vai surgindo como poesia, como filosofia, até que acaba como um grito. Foram meses de negociação com ela, a gente tira, põe, entra em crise. Mas o resultado e os retornos da plateia mostram que vem somando. Continua na poesia, na estilização, no metafísico. É um homem com uma árvore na cabeça de 3 metros de altura e um personagem que pedala e gera energia ao vivo, falando sobre o esforço humano de iluminar o que está sendo revelado. Tem um paralelo entre o Homem-Árvore e o Homem-Luz, que é o homem em movimento permanente que não consegue parar. A gente virou máquina de trabalho, máquina de pensar, máquina de problemas.

Como você pensa a luz nesse espetáculo em que um personagem é a própria luz?

Sou eu sempre que crio as luzes dos trabalhos. Acho que expresso ali todo o meu lado abstrato e emocional. Nesse trabalho estou acompanhando em tempo real, não tenho nada pré-gravado. Tenho 42 refletores somente, e cada um é uma história de amor com ele, com o personagem e comigo. Tem uma pulsação de luz que vai nascendo junto comigo porque eu estou pedalando. Eu aciono a luz através do pedal, é um dispositivo que criei com um engenheiro. É um batimento cardíaco: é o meu movimento que gera, que apaga, que reacende a luz. Tem algo que é mais do que criar a luz, eu estou vibrando e sentindo ela dentro do meu próprio corpo. E fui me inspirando em quadros, em obras, para fazer luz com pouca coisa. Me inspiro no processo do Orson Welles para fazer um quadro X, ou numa pintura do Bosch e fazer isso com quatro refletores. Tô pintando ao vivo os quadros.

Há dez anos vocês ocuparam aquele casarão na Glória e virou a casa de vocês, o lugar de trabalho. Como ele funciona no processo criativo?

Ele mudou totalmente o nosso ponto de vista criativo. Na Europa a gente tinha residências de três semanas e voltava para casa, mas essas idas e vindas faziam com que a gente tivesse um preparo muito particular, ia para um lugar e tudo era muito preparado. O fato de ter uma linha do tempo onde você inicia e continua no mesmo lugar cria brechas de direções que você não esperava. O casarão permitiu uma rotina que eu chamo de operária, que eu gosto: trabalhar todo dia de oito às oito, acordar, ir pro trabalho, e tudo tá ali no mesmo lugar. Como se as ideias ficassem ali em banho-maria e eu voltasse para recuperá-las. Temos um ateliê de construção, quartos com objetos, qualquer ideia que você tem, você vai procurar e vai achar. É uma caverna de Ali Babá que alimenta o imaginário. É um presente poder não mesurar o tempo de trabalho.

Vocês vivem juntos há quase 30 anos. Como é isso?

É muito simples, sabe? Eu acho que por isso dura há tanto tempo, porque a gente conseguiu achar um equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho em que nada contamina nada. É como se antes, quando você estava numa sala de ensaio, você batesse a porta. Os problemas ficam ali, você vai para casa e não leva. Aqui, a gente desce e vai pro seu canto dentro da casa, pode até continuar trabalhando, mas não traz os atritos, os problemas, as picuinhas, os egos que foram exacerbados em momentos. A gente sobreviveu a mais uma criação, porque é sempre uma sobrevivência. Criar não é jogo fácil: é se colocar na zona de desconforto, no perigo, na fogueira. A gente conseguiu mais uma vez passar essa onda e continuar.

Já foi assistir ao segundo episódio do Ponto de Partida, A Série — Nós, Brasileiros?, Os Partidos, está no streaming do Meio e quem viu já compartilhou: “Qualidade e timing perfeitos. Eu buscava há muito esse tipo de conteúdo.” Para chegar em outubro votando com intenção, não no menos pior. Aproveite o fim de semana e assista.

Na semana de abertura da Copa do Mundo, era natural que o futebol — ou os memes sobre ele — ocupasse o topo da lista de interesses dos assinantes do Meio, o que não significa que tenham esquecido a política. Confira os links mais clicados:

1. g1: Abertura da Copa do Mundo tem memes sobre Shakira, Labubu, RBD e mais.

2. Meio: No Ponto de Partida, Pedro Doria mostra como o envolvimento com Daniel Vorcaro vem tirando de Flávio Bolsonaro o eleitor independente, justamente o que vai decidir o pleito em outubro.

3. OMPE: A apuração oficial do disputadíssimo segundo turno das eleições presidenciais peruanas.

4. Meio: Autoexilado no Texas, Eduardo Bolsonaro sugere negociar o Pix com Trump e atinge a campanha do irmão. Pedro Doria conta como foi no Ponto de Partida.

5. UOL: A tabela da primeira fase da Copa do Mundo de 2026.

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