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Você não é isentão

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Deixa eu te fazer uma pergunta. Você está cansado de política? Você às vezes vê um vídeo, ou uma postagem qualquer no Zap, em alguma rede, e tem vontade de comentar — aí hesita. Pensa em tudo que vai ouvir. Melhor não. Você já percebeu o jogo, né? Se você critica um lado, decidem que você é do outro. Se critica os dois, é isentão. Sobra calar a boca. E aí você acha que é só você. Não é — e isso é uma coisa que a maior parte das pessoas como você não tem como enxergar.

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Vamos lá, porque tem um número aqui que talvez te surpreenda. Você acha que é exceção. É o contrário: você é a maioria. Tem uma pesquisa recente do laboratório de opinião pública da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, conduzida pelo cientista político Jairo Pimentel, que mediu isso com cuidado. E o que ela diz é o seguinte: os brasileiros de fato polarizados, aqueles que amam um lado e odeiam o outro com a mesma força, são 31%. Trinta e um por cento. Os outros 69% — quase sete em cada dez — não vivem a política como uma guerra de torcida. Você está nesse grupo. E olha, isso cresceu: em 2006, os polarizados de raiz eram 19%. Hoje são 31%. Em vinte anos, a trincheira aumentou. Entrou muito mais gente. Mas continua sendo minoria. A maior parte do país está fora dela, com você.

Aí você pensa: tá, então tá tudo bem, somos muitos. Calma. Porque a coisa não é tão simples assim. Estar fora da trincheira não é estar em cima do muro. Não é ser morno. Você rejeitar os dois lados não é falta de opinião — é uma opinião, e das firmes.

E olha como é sempre a mesma cena. Almoço de domingo, todo mundo bem, e aí alguém solta a frase. Pode ser o tio, pode ser a cunhada, não importa. Você sabe quem é que solta essa frase. Você ouviu um monte de vezes ela. Uma coisa sobre o Lula, sobre o Bolsonaro, sobre o Supremo. E você sente aquele aperto. Porque você tem o que responder — tem, sim. Mas faz a conta na hora: se eu abrir a boca agora, isso vira o quê? Cara feia, clima ruim, mensagem atravessada no grupo da família à noite. Então você sorri, enche o copo, deixa passar. No Zap é a mesma coisa. Você digita, apaga. Digita de novo, apaga de novo. E vai guardando no bolso aquele amuleto que todo mundo aprendeu a carregar.

Essa é dos meus amigos Felipe Nunes e Thomas Traumann, no livro Biografia do Abismo. Eles sacaram uma coisa: virou hábito do brasileiro andar com dois amuletos no bolso. “Eu não sou bolsonarista, viu.” “Eu não sou petista.” Você já se ouviu dizendo isso. É a frase que a gente solta pra não ser fuzilado na mesa do almoço. E não é só por cacoete. Quem está nesse meio realmente rejeita os dois com a mesma intensidade. A Quaest mediu — entre os independentes, a rejeição a Lula e a rejeição ao bolsonarismo batem quase no mesmo número. Não é que você não escolhe. É que você olhou para os dois e recusou os dois.

Só que agora vem a parte que dói. Sair da guerra não é a mesma coisa que estar disponível. Aquela mesma pesquisa do Pimentel mostra de onde veio esse crescimento todo do “não-polarizado”. Não foi de gente que ficou mais serena, mais ponderada. O que mais cresceu foi a indiferença e a rejeição pura. E o que mais encolheu — despencou — foi o brasileiro que ainda gosta de alguém na política sem precisar odiar o outro. As pessoas pararam de gostar. Essa aqui é uma frase do professor, está no paper dele, no estudo: “não estar polarizado não significa estar politicamente disponível. Muitas vezes significa estar distante, frustrado ou desconfiado.” Pois é. Quer dizer que essa maioria fora da trincheira, onde você está, não é um bloco de gente lúcida. É, em boa parte, gente que desistiu. Então, aí, eu volto ao ponto em que a gente começou. Você às vezes vê um vídeo, ou uma postagem qualquer no Zap, em alguma rede, e tem vontade de comentar — aí hesita. Pensa em tudo que vai ouvir. Melhor não. Esse seu silêncio, ele é qual dos dois? É desistência? Ou é outra coisa?

Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.

Olha onde a gente chegou: você rejeitou os dois lados e, mesmo assim, não tem pra onde ir. Não tem um partido, não tem um nome, não tem uma camisa que você vista sem vergonha. E não foi você que escolheu ficar sem casa — foi o Brasil, que nunca construiu um partido em que desse pra confiar. Quando a confiança falta, sobra sobrenome e camisa de time. Por que foi assim? Eu respondi num filme. Chama Os Partidos, o segundo episódio de Nós, Brasileiros, a série do streaming do Meio sobre quem é esse povo de 213 milhões. Começa em 1954 e desemboca exatamente nesse impasse que te deixou órfão. É feito em qualidade de cinema. E depois dele você lê a eleição de outubro de um lugar que quase ninguém lê. Assine o Meio Premium e comece por Os Partidos.

E este aqui? Este é o Ponto de Partida.

E aí? Esse seu silêncio é desistência? Ou é outra coisa? Tem uma diferença enorme entre largar e recusar. Largar é passivo. Um é o “deixa pra lá”, é fechar o aplicativo e não pensar mais no assunto. No fim, é não esperar mais nada de ninguém. É uma postura, assim, não vale a pena, não tem sentido se irritar com política, se comover, participar. Isso é o desencanto — e é pra onde foi boa parte daqueles 69%. Mas recusar é outra coisa. Recusar é você ter olhado para os dois lados, com atenção, e ter dito: não, nenhum dos dois. E a postura de quem recusa é uma de “nenhum dos dois”, mas ainda assim precisa melhorar. Quero que melhore. Se você chegou até aqui, ainda com aquela vontade de comentar que você segurou, e ainda incomodado, e ainda pensando, e ainda querendo falar: você não desistiu. Você está calado, mas não desistiu. Esses dois não são o mesmo grupo.

Então quem é você, afinal? Você é o sujeito que consegue reprovar um governo sem ter que abraçar o outro lado. A Meio/Ideia mediu isso: nesse meio onde você está, três em cada quatro reprovam o governo Lula — e nem por isso viraram bolsonaristas. Pra quem está na trincheira, isso é impossível de entender. Tem de escolher um lado. Não tem alternativa. Mas, pra você, é o óbvio. Você quer uma coisa simples e difícil ao mesmo tempo: que as contas fechem, que o Estado funcione, que ninguém mexa na sua liberdade de viver como quer. Chamam você de incoerente porque você não cabe na cartilha dos outros. Mas você não é incoerente. Você só se recusa a comprar o pacote fechado — aquele em que, pra ser contra uma coisa é obrigado a ser a favor de outras dez. O diabo é o seguinte. Este lugar político em que você está, ele já existiu. Não tem muito tempo. Ele desapareceu, não tem mais candidato que o represente. Mas você não deixou de existir.

Agora junta as duas pontas. Você é dessa maioria que saiu da guerra. Mas, dentro dessa maioria, você está entre os poucos que ainda se importam com o incômodo. No fim das contas, sabe, o fato de que você não comenta, que você hesita, é a mesma coisa que você não ter candidato que realmente se encaixe. Você existe mas está sem voz.

E aqui dói de novo, porque o Felipe Nunes e o Thomas Traumann mostram uma coisa dura: num país travado como o nosso, quem decide a eleição é exatamente o eleitor de fora da bolha. É você. O voto que define o Brasil é o seu. E você o entregou calado. Quando você fecha o aplicativo, quando você sorri no almoço e deixa passar, você não está só se protegendo. Você está deixando o jogo na mão dos dois exércitos barulhentos e da multidão que desistiu. O silêncio de quem ainda pensa é o maior presente que existe pra polarização.

Então deixa eu voltar uma última vez pro lugar onde a gente começou. Você vê um vídeo, uma postagem, e tem vontade de dizer alguma coisa. Aí pensa em tudo que vai ouvir. E fecha. Olha, eu não vou te mandar brigar no grupo da família — isso não leva ninguém a lugar nenhum. Mas tem uma diferença entre brigar e desaparecer. Percebe uma coisa. Aqueles dois exércitos que não representam você, sua maior força é a capacidade de intimidar. Sabe o que vão comentar aqui embaixo deste vídeo? “E o outro lado? Por que você está tratando como se fossem equivalentes?” Mas eu não estou tratando como se fossem equivalentes. Estou apenas constatando que nenhum deles representa o que penso. Se um é menos pior do que o outro, esta talvez seja uma decisão que eu seja obrigado a tomar na boca da urna. Mas isso é lá no final. No jogo da democracia, aqui, agora, é o momento de falar o que se pensa.

Recusar os dois lados só vira força no dia em que deixa de ser silêncio e virar exigência. Em outubro você vai votar. Você, que não tem candidato, não tem partido, não tem camisa — você vai estar lá. E o seu voto vai pesar mais do que o de qualquer fanático, justamente porque você ainda está pensando. Não desista dessa parte. A parte que pensa. É a coisa mais lúcida que sobrou neste país — e ela é sua.

 

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