Banco Digimais revela atuação financeira e política de Edir Macedo e expõe Tarcísio de Freitas
Receba as notícias mais importantes no seu e-mail
Assine agora. É grátis.
Tem escândalo novo na praça. Mas nem o escândalo nem seus personagens são tão novos assim. É só uma nova versão, na verdade, do escândalo Master — ou uma nova aplicação do mesmo método.
A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira a Operação Miragem, e eu seguirei declarando meu amor a quem escolhe os nomes das operações da PF. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra o bispo Edir Macedo e alvejando o Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.
Mais de 50 agentes federais cumpriram nove mandados autorizados pela Justiça Federal em São Paulo. A operação determinou ainda o bloqueio e sequestro de bens que podem chegar a R$ 670 milhões, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.
As suspeitas são muito familiares e se baseiam em relatórios do Banco Central. O Digimais teria usado mecanismos para apresentar uma situação financeira bem mais saudável do que a real, alterando informações e apresentando geração artificial de receitas.
O esquema investigado inclui manipulação de resultados contábeis, supervalorização de ativos, operações financeiras supostamente ilegais em benefício do Digimais e possível inserção de informações falsas nos sistemas do Banco Central.
A história do Digimais começa bem antes de Edir. O banco foi fundado em 1981 pela família Renner e operou por décadas como uma instituição sólida. Edir passou a ter participação na instituição em 2013 — e porque o bispo, que mora nos Estados Unidos, era considerado investidor estrangeiro pelo Banco Central, a operação precisou de autorização por decreto da então presidente Dilma Rousseff. Vale lembrar que o PRB, que era o nome do partido político de Edir, integrava o governo na época.
Hoje, seu partido se chama Republicanos e está na oposição a Lula. Está também com a presidência da Câmara dos Deputados. E tem em Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, seu político mais expressivo.
Em 2020, Edir assumiu o controle integral, rebatizou o banco como Digimais e o transformou em banco digital. Depois da mudança de controle, o bispo nomeou lideranças ligadas à Igreja Universal, como o bispo João Urbaneja, para comandar o banco, apesar da falta de experiência técnica desses nomes no mercado financeiro. A instituição saiu de uma situação considerada sólida para registrar prejuízo de R$ 740 milhões em 2022.
O banco passou a acumular problemas que, exatamente como no caso do Master, foram ficando conhecidos no mercado. Relatórios de 2024 e 2025 apontavam alta inadimplência e necessidade de aportes recorrentes para evitar quebra técnica.
O dinheiro veio, até onde se sabe, do próprio Edir: no fim de 2025, ele fez um aporte de R$ 250 milhões para atender exigências do Banco Central relacionadas à solidez da instituição. O balanço de 2025 registrou lucro de R$ 31,3 milhões, mas o resultado só foi possível graças a uma manobra contábil, uma pedalada. Em fevereiro de 2026, o rombo acumulado já se aproximava de R$ 500 milhões.
O modelo investigado guarda muitas semelhanças com o caso do Banco Master, né? Mas a coisa vai além, há uma conexão direta entre os casos. Segundo apuração da revista piauí, o fundo EXP1 adquiriu carteiras de crédito consignado do banco, mas uma auditoria internacional descobriu que 22 mil contratos, no valor de R$ 500 milhões, eram falsos e não tinham lastro.
O Digimais teria admitido a inexistência dos créditos, que eram compostos por ativos originados justamente pelo Banco Master e por empresas ligadas ao caso Daniel Vorcaro. O Estadão havia reportado, um mês antes da operação da PF, que carteiras repassadas pelo banco a outras instituições tinham cerca de 60% de inadimplência.
Só que a comparação com o Master tem duas diferenças importantes. Vorcaro também era um banqueiro com conexões religiosas: ele próprio atuou como apresentador no canal da Igreja Batista da Lagoinha, e seu cunhado, Fabiano Zettel, é pastor da mesma denominação. Mas o vínculo entre fé e negócios para Vorcaro era muito lateral a sua ganância bilionária e aos seus métodos de sedução das figuras políticas que ele queria corromper.
Edir Macedo, não. Além de a sua igreja ser parte fundamental de seus empreendimentos empresariais, são também de seu empreendimento político. As coisas são indissociáveis quando se fala de Universal.
A outra diferença é que Vorcaro escolheu figuras de diferentes Poderes e órgãos da República para corromper para financiar e proteger suas aventuras de banqueiro. Esse foi o diagnóstico que me foi dado pelo cientista político Leonardo Avritzer, professor da Federal de Minas e um dos maiores politólogos do Brasil, na Edição de Sábado do Meio.
Embora se possa ter a sensação de uma corrupção sistêmica, pelo alcance dos tentáculos do Master, em muitos aspectos ela é individualizada. Ciro Nogueira é um dos membros mais poderosos do Centrão e presidente do PP, mas não há, até aqui, indícios de que agia em nome de seu partido quando favorecia o Master. Mesma coisa Jaques Wagner, que não parece ter construído um esquema de caixa 2 para o PT, do que se sabe do caso.
No caso do Edir Macedo, tudo que ele faz desde os anos 2000 tem a ver com um propósito grandioso, inicialmente de expandir a própria Universal, mas que depois acabou abarcando um projeto político ainda mais ambicioso. Que esteve bastante perto de fazer um presidente da República.
Vamos entender um pouco mais da política nesse caso Digimais? Então, fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. Mencionei ali a Edição de Sábado e queria reforçar o tanto que assinante premium do Meio tem de vantagem pagando míseros 15 reais por mês, gente. Além dessa newsletter super especial, com reportagens e entrevistas aprofundadas nos finais de semana, a gente tem o Meio Político às quartas-feiras. Você que é viciado em política como eu vai ter um texto fresquinho por semana dos melhores analistas políticos desse Brasil na sua caixa de entrada. Vai ter também acesso ao nosso streaming, que tem os especiais do Pedro Doria, documentários sobre democracia, e muito material bacana sendo produzido pras eleições. Então, não espera mais, não. Assine o Meio agora mesmo!
O Banco Digimais é apenas uma peça dentro de um conglomerado de Edir Macedo. A espinha dorsal desse conglomerado é política: a TV Record, o Republicanos e uma capilaridade institucional construída ao longo de décadas.
O Republicanos tem hoje 44 deputados federais, quatro senadores, dois governadores e 433 prefeitos. O deputado Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, foi eleito presidente da Câmara dos Deputados em fevereiro de 2025, com 444 votos. Marcos Pereira, bispo licenciado da Universal, está na presidência da legenda. O sobrinho de Edir, Marcelo Crivella, foi prefeito do Rio e hoje é deputado federal pelo mesmo partido. O partido tem ainda Tarcísio de Freitas, que foi o nome mais bem posicionado nas pesquisas para enfrentar Lula em 2026 e chegou a ser o favorito de vários setores, do financeiro ao Centrão.
A operação desta terça expõe as conexões entre o Digimais e o poder público paulista. O governo Tarcísio de Freitas autorizou o Banco Digimais a conceder empréstimos consignados a policiais militares de São Paulo em setembro de 2025, abrindo um mercado potencial de mais de 80 mil agentes ativos. O acordo tem validade até 2030. O credenciamento foi concedido quando a instituição já acumulava prejuízo de R$ 250 milhões e os relatórios internos apontavam deterioração acelerada das contas. Método Master em ação, confere?
A Prefeitura de São Paulo também autorizou o banco a operar consignado com servidores municipais, por termo de adesão publicado em outubro de 2023, com duração de dois anos. Em dezembro do mesmo ano, o Hospital do Servidor Público Municipal credenciou o Digimais para operações com cartão consignado, cartão de benefícios e empréstimo pessoal.
A penetração institucional da Universal no estado de São Paulo vai além do banco. Sob Tarcísio, a Igreja firmou convênios com pelo menos três secretarias estaduais — Segurança, Administração Penitenciária e Educação —, todos sem licitação ou concorrência. Desde 2023, a Secretaria de Administração Penitenciária mantém parceria com a Universal para qualificação profissional de pessoas privadas de liberdade, pelo programa “Universal nos Presídios”.
Mais de 8 mil presos estão sob responsabilidade da Igreja para receberem qualificação que caberia ao Estado oferecer. A Polícia Militar paulista aprofundou a relação com a Universal nos últimos anos: a Igreja está presente fisicamente no dia a dia de todas as guarnições, com capelães em contato diário com os policiais. Em fevereiro de 2025, 2,5 mil novos PMs que haviam atuado na Operação Verão passaram 12 horas sob palestras de pastores, capelães e bispos da Universal na catedral do Brás.
A PM paulista concedeu ao menos 20 medalhas e honrarias à Universal entre 2023 e julho de 2024, incluindo a Medalha Challenge Coin, maior honraria concedida pela corporação a uma entidade civil.
Edir Macedo, Republicanos, Universal e agora Digimais se confundem. Não dá para falar de uma coisa sem mencionar a outra, porque Edir lidera seu partido político com rigor e proximidade. Escolhe quem se candidata. Negocia com outras lideranças políticas nomes viáveis. Reportagem do Intercept do ano passado mostrava como Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e Samuel Ferreira, da Convenção Nacional das Assembleias de Deus Madureira, vinham articulando em torno de Tarcísio, não de um Bolsonaro, os apoios para 2026.
Como Jair enterrou as pretensões de Tarcísio, os apoios estão em disputa. O Republicanos está muito bem posicionado, pela história de Edir Macedo de excelente relacionamento com os governos do PT e depois de uma migração não estridente ao bolsonarismo, para se manter relativamente neutro em outubro. Mas um escândalo nos moldes do Master, ainda que com valores até aqui muito menores, chegou ao Palácio dos Bandeirantes. E ajuda a compreender a operação religiosa, financeira e política de Edir Macedo. A extensão do estrago está para ser medida.


