Vorcaro comprou todo mundo
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A Lava Jato prometeu acabar com a corrupção. O que ela acabou foi com a capacidade do Brasil de combatê-la. Esta não é uma conclusão óbvia. Mas é importante entender o tamanho do estrago que esse escândalo do Banco Master causou. Se você tentar entendê-lo na base do é um escândalo de esquerda ou é um escândalo de direita, talvez saia feliz, talvez saia triste, porque seu lado se deu bem ou se deu mal. Mas vai sair sem entender o que aconteceu de fato.
Sim, é verdade, tem muito menos gente de esquerda envolvida do que gente de direita. Isso não faz com que fique menos grave a contaminação do governo Lula por Daniel Vorcaro. Na quinta-feira passada, a Polícia Federal foi à casa do líder do governo no Senado, Jaques Wagner. Descobriu lá 49 mil dólares em dinheiro, descobriu que um sócio de Vorcaro pagou um apartamento de 2,4 milhões de reais para o senador, lhe permitiu usar à vontade um jatinho particular, e o levou a Los Angeles para assistir a um show, parece que da cantora Taylor Swift. Importa se era outro?
Wagner ainda não explicou os dólares. Se você acredita que é normal ter tanto dinheiro assim em notas em casa, perdoe. Não é. No Brasil, dólar em quantidade na casa de político é sempre indício de corrupção grosseira. O senador não nega que ele comprou o apartamento. O que argumenta é que só pediu ao sócio de Vorcaro que pagasse, depois ele devolveria o dinheiro. 2,4 milhões de reais. Não. Esta não é uma transação imobiliária normal. Nem entre pessoas ricas, muito menos na classe média. Ninguém sai por aí pagando imóvel para os outros e recebe depois.
Ele segue líder do governo no Senado. Até o momento, o presidente da República parece considerar que a amizade e a lealdade pessoal está acima do bem público. Wagner deveria ter sido imediatamente afastado. O governo acha que tem tempo para resolver isto. O governo acha que não precisa de pressa para se mostrar honesto. Esse cara era líder do governo no Senado. Intercedeu em favor dos interesses de Daniel Vorcaro enquanto representava o governo. E nós não sabemos, ainda, os detalhes sobre o envolvimento de Rui Costa, que comandou a Casa Civil. Ou seja, o cara que era chefe de todos os ministros, o gerente do governo, pode estar tão envolvido quanto. Ou pode estar mais. O que sabemos de concreto é que ele esteve envolvido com o Master quando governador da Bahia. E no Palácio do Planalto? Só saberemos quando a Polícia Federal terminar aquela investigação.
É muito, muito grave. Deixa de ser grave porque Flávio Bolsonaro, o principal candidato à presidência da oposição, recebeu recebeu 60 milhões de reais de Vorcaro? Não. Deixa de ser grave porque Ciro Nogueira, o ministro da Casa Civil de Bolsonaro, recebeu muito do banqueiro e desfilava como seu amigo pessoal? Não. O fato de que a família Bolsonaro é barbaramente corrupta não deveria ser impeditivo de reconhecer o nível de corrupção que está evidente no coração do governo Lula.
Mas é mesmo no governo Lula? Não. Se você enxerga apenas o governo Lula, não entende o que aconteceu. Porque não se trata de Lula versus Bolsonaro. Foi o Estado brasileiro. Dois ministros do Supremo Tribunal Federal receberam milhões de Daniel Vorcaro. Um deles, o ministro José Antonio Dias Toffoli, trabalhou ativamente, de dentro do Supremo, para favorecer Vorcaro. Um ex-ministro do Supremo, que virou ministro da Justiça de Lula, trabalhou para Vorcaro e recebeu dinheiro dele. É Ricardo Lewandowski. Pelo menos um ministro do Tribunal de Contas da União, Jhonatan de Jesus, se movimentou para favorecer Vorcaro e é um dos que deve aparecer na delação. Há também diretores do Banco Central. Está na lista dos receptores de dinheiro de Daniel Vorcaro, empréstimos generosos que “eu pago depois aí”, no estilo Jaques Wagner, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. E está enterrado nessa história até o pescoço o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Falamos já de Antonio Rueda, o presidente do União Brasil?
Se você acredita que uma conta simples, quantos nomes de esquerda estão na lista, quantos nomes de direita aparecem, resolve na aritmética o problema direita contra a esquerda, é porque você não fez outra conta. Na Câmara dos Deputados, 124 parlamentares são de PT, PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede ou PDT. 124. Os outros 389 são dos partidos à direita. No Senado, são 16 senadores de esquerda, 65 de direita. Vamos somar nesta conta aí o presidente da República, seu vice, todos os ministros de Estado afiliados a um partido. A conta final, 24% dos cargos dos poderes Executivo e Legislativo na União pertencem à esquerda. 76%, à direita. Foi a escolha do eleitor brasileiro. Um quarto de esquerda, três quartos de direita.
Se o seu propósito é corromper o poder, não um lado ou o outro, mas o poder, a proporção na qual você deve dispensar seus recursos é essa aí. Um quarto pra um lado, três quartos para o outro. E o que aconteceu foi isso. Brasília está muito frágil à corrupção.
Se a sua preocupação é com a democracia, a minha é, o certo a fazer não é dizer o meu lado é melhor que o seu. O certo é reconhecer que, hoje, a maior ameaça à democracia brasileira é a percepção de que ela não só se corrompeu de vez como não tem jeito que não um líder forte que a tudo resolva. Brasileiros demais estão se convencendo disso. A democracia precisa resolver a corrupção. E isso exige que a gente entenda realmente o que quebrou de vez nosso sistema. Exige mais. Exige que os brasileiros de esquerda sejam mais rigorosos com seus líderes. Exige que os brasileiros de direita sejam mais rigorosos com os seus. Enquanto a gente ficar nesse jogo de proteger meu lado porque o outro é pior, é o regime que estará em risco.
Como quebrou? Vem comigo. Essa história tem início e tem meio. Só não conhecemos seu fim.
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Você acabou de ouvir por que a conta “é de esquerda ou é de direita” não explica o que aconteceu. Entender de verdade exige mapa: quem recebeu o quê, quem deveria fiscalizar e estava na folha, e como, peça por peça, o Brasil perdeu a capacidade de vigiar o próprio poder.
É isso que a gente faz, no Meio. Um dos nossos documentários explica como foi montada a democracia brasileira após a ditadura. Outro mostra como a sociedade se dividiu politicamente. Um terceiro, como os partidos se desmontaram. O Brasil não está simples de entender e gente demais está tentando te explicar pelo lado do este é o mocinho, o outro lado é bandido. Isso não explica engrenagem. O passo a passo de como o sistema de controle foi desmontado, com os nomes, as datas e o dinheiro lado a lado. Os assinantes do Meio recebem esse mapa. Para ver, para ler, como você preferir. Assine o Meio Premium.
Aliás… Este aqui? Este é o Ponto de Partida.
O descrédito do regime democrático vem da profunda corrupção de quem está no poder. Pra entender como o Brasil chegou aqui, a gente precisa voltar uns quinze anos — e reparar numa ironia.
Entre o governo Fernando Henrique e o governo Lula, o Brasil montou cães de guarda. Deu dentes ao Ministério Público, soltou a Polícia Federal, criou o Coaf pra rastrear dinheiro sujo, blindou a Procuradoria Geral da República escolhendo seu líder por uma lista tríplice. Era um país construindo, peça por peça, a capacidade de vigiar o próprio poder.
E funcionou. Funcionou tão bem que mordeu a mão de quem criou. O Mensalão, em 2005, era do governo. O Petrolão nasceu na gestão do Lula.
Por que o PT corrompeu? Aqui tem uma armadilha — e ela não é do PT, é do Brasil. Todo presidente, no nosso sistema, recebe a mesma escolha. Pode governar dividindo poder com quem o povo escolheu colocar no Congresso, que tende a ser conservador. Dividir poder tende a fazer com que agendas progressistas caminhem mais devagar. Foi a escolha do governo Fernando Henrique. A alternativa é não dar ministérios para a direita e comprar os votos no Congresso. Porque nenhum governo escapa de precisar votos no Congresso. O PT escolheu comprar porque queria andar rápido. Não foi só ganância. Mas é claramente uma escolha por corrupção. É a tentação que o sistema bota na frente de qualquer um.
Aí entra a Lava Jato. Os procuradores de Curitiba, com o juiz Sérgio Moro, tinham uma convicção ideológica: a corrupção era um problema do PT. Eles não entendiam a coisa como um problema do sistema, achavam que era da esquerda. E transformaram a operação numa guerra contra um partido só.
Pois é, essa guerra pegou o PT na descida. Não no auge — na descida. Era o fim do primeiro mandato da Dilma, a economia estava desabando, o governo brigado com o Congresso. Dilma foi barbaramente incompetente. Na gestão da economia, na gestão da política. E o país já vinha das ruas de 2013, exausto de ver o mesmo partido governar sem sair. Isso, aliás, é quase uma lei física da democracia: grupo que fica tempo demais no poder se desgasta, sempre. A Lava Jato não criou essa onda. Ela surfou a onda.
E convenceu o Brasil de uma coisa falsa: que a corrupção era da esquerda. Que faltava autoridade. Que faltava um homem forte. Veio o Bolsonaro.
Agora segura a distinção, porque é nela que está tudo. A Lava Jato cometeu abusos — isso é verdade, e corrigir os abusos era legítimo. Mas o que a classe política fez depois foi outra coisa. Ela não corrigiu o abuso. O juiz da Lava Jato se juntou ao deputado radical do Centrão e foram juntos para o governo. No governo, começaram a matar a função. Jogaram fora uma parte da capacidade de vigiar o poder junto com a água suja.
Como? Bolsonaro, no governo, fortaleceu o Centrão — essa, sim, a máquina mais corrupta do Brasil. E não por caráter. Por desenho. O Centrão é herdeiro da Primeira República: ele não disputa ideia, disputa caixa. O Centrão, antes de ser de direita ou de esquerda, é formado por chefetes políticos regionais. O que os mantém no poder não são ideias. Pra mandar no seu reduto, esse tipo de líder precisa de recurso — e vai capturá-lo em Brasília. Olha o tamanho disso. Em 2014, as emendas parlamentares somavam 6 bilhões de reais. Em 2026, são 61 bilhões. Dez vezes. E o salto é exatamente 2020, quando Bolsonaro entrega o caixa. Hoje, 37 bilhões são impositivos — o governo é obrigado a pagar. Não pode dizer não.
E os cães de guarda? E quem vigia? Foram mortos um a um. O Supremo revisou a Lava Jato. A Procuradoria, sob Aras, virou escudo — do presidente e dos próprios ministros do Supremo. O garantismo judicial deu a cobertura moral. A máquina de vigiar parou.
Aí o Lula volta. E faz o que antes não fazia. Nomeia para o Supremo gente que lhe é fiel. Abandona a lista tríplice da Procuradoria. Por quê? Porque concluiu que é assim que se sobrevive ao jogo novo. A regra mudou pra valer. Presidente de esquerda, presidente de direita, ninguém mais joga para coibir corrupção. Joga pra proteger os seus. O Centrão ganhou a guerra.
E agora o Senado quer a parte dele. A derrota do indicado do Lula ao Supremo — a primeira em 132 anos — foi o Senado dizendo, em alto e bom som: eu também quero minha cota de indicados pro STF.
Pois é. O sistema inteiro — Congresso, Supremo, Procuradoria, o caixa do orçamento — foi, peça por peça, esvaziado de quem vigia e entregue a quem manda. É por isso que um Daniel Vorcaro chegou em todo mundo. Não porque é genial. Porque não tem mais ninguém olhando.
Essa história tem início e tem meio. O fim a gente ainda não conhece. Mas ele depende de uma escolha, e a escolha é nossa. Ou o Brasil reconstrói a capacidade de vigiar o próprio poder — ou se entrega de vez à ideia de que só um homem forte resolve. Uma reconstrói a democracia. A outra enterra.


