Edição de Sábado: O corruptor-geral da República

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O cientista político Leonardo Avritzer, professor titular aposentado da UFMG e professor visitante do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Uerj, descreve o fenômeno Master como a “aventura de um banqueiro” que precisou de agentes públicos para acobertá-lo. Ao mirar no Fundo Garantidor de Crédito, o FGC, como fonte primária de seu esquema de pirâmide, tinha como alvo um consórcio de entes majoritariamente privados. Mas jamais atuou em nome do sistema financeiro. Os políticos que corrompeu, embora tenham lhe abastecido de dinheiro público, via fundos de pensão de servidores e crédito consignado, também tinham projetos individuais de poder e ganância. Por isso, o caso Master é um escândalo de corrupção que rompe a tradição sistêmica dos anteriores.
Essa é apenas uma das diferenças que Avritzer, um dos maiores politólogos do Brasil, organizador de dois livros sobre corrupção e autor de dezenas de outros sobre democracia e política, enxerga no Master em comparação à Lava Jato. Uma outra fundamental que ele aponta é que esta investigação já começa no Supremo Tribunal Federal (STF) e, mesmo com as disputas e na atual composição da Corte e as suspeitas que pairam sobre alguns ministros, há um consenso de que os erros da Lava Jato não devem se repetir. “O ministro André Mendonça já ganhou coisas importantes, também já perdeu. Existe uma supervisão dentro de um STF que é plural e que entende as responsabilidades e a amplitude do caso”, acredita. Sobre os efeitos eleitorais do escândalo, no entanto, ele diz que é difícil medir a esta altura, embora entenda que, se o pedaço envolvido do PT se restringir à Bahia, o escândalo tende a seguir beneficiando Lula. Confira os principais trechos da entrevista.
Em 2014, a campanha presidencial se deu com a Lava Jato na rua e afetou parte da disputa eleitoral, mesmo sem se saber a dimensão que o caso teria. Este é um dos pontos de similaridade com o caso Master. Que outros o senhor enxerga?
Existe uma certa similaridade com o que eu chamo de primeiro período da Lava Jato, que vai do início da operação, em março de 2014, até o segundo turno daquela eleição. A partir desse momento, começa um processo de politização que só se acentua — com a conduta do [ex-juiz] Sergio Moro e os vazamentos para a revista Veja —, depois com a concentração em torno do presidente Lula, em um processo que nada tinha a ver com a Lava Jato: era um caso de São Paulo, ligado ao tal triplex do Guarujá. Mas ali Moro alega “conectividade”, e então ele realmente politiza completamente a operação em torno do PT e de alguns setores do PMDB. No caso Master, o escândalo envolve muito mais fortemente o Centrão e a direita no Brasil. Basta olharmos para os governadores e prefeitos que ele pegou até agora a partir da aplicação dos fundos de pensão dos servidores estaduais e municipais ou do consignado. São 18, sendo 17 de partidos de direita, do Centrão. E agora ele chega muito especificamente a um campo ligado ao governo Lula e ao Partido dos Trabalhadores. A ligação com o PT tem a ver com articulações no próprio estado da Bahia que antecedem a nacionalização do escândalo do Banco Master, com Augusto Ferreira Lima e o Credcesta. Então, estamos falando de uma coisa muito mais restrita no chamado campo da esquerda do que era a Lava Jato, onde o foco era na Petrobras e com ações que partiam todas do governo federal.
Algo assustador sobre Daniel Vorcaro é seu alcance nos Três Poderes. Essa horizontalidade é um dos pontos de diferença entre os casos?
Acho que sim. Na verdade, a primeira grande diferença é que a Lava Jato teve uma dinâmica de primeira instância que a tornou muito sensível à politização. Moro e o Ministério Público do Paraná tinham uma concepção política bastante clara de quem queriam atingir, de como queriam atingir e dos dividendos políticos que queriam tirar da Lava Jato. Conversando com muitas pessoas no Brasil e no exterior ao longo do período pós-Lava Jato, elas diziam que dificilmente uma operação desse tipo ficaria na primeira instância, ou não seria supervisionada por uma segunda instância, nas principais democracias constitucionais do mundo. No caso Master, não. Ainda que a gente tenha tido dois ministros relatores no Supremo Tribunal Federal, o fato de que a operação está concentrada no STF traz mais garantias — porque, se alguém discordar de alguma coisa, vai diretamente para a Segunda Turma, que também tem esse papel supervisor. A Lava Jato ficava na 13ª vara, e era preciso passar pelo TRF-4 e pelo STJ para chegar ao STF. Para mim, a primeira grande diferença é que o caso atual está mais concentrado num núcleo com muito mais responsabilidade dentro do Supremo Tribunal Federal, ainda que com discordâncias. O ministro André Mendonça já ganhou coisas importantes, também já perdeu. Existe uma supervisão dentro de um STF que é plural e que entende as responsabilidades e a amplitude do caso.
Mas o próprio STF está neste momento, por conta de suspeitas sobre Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques, tragado para o caso. E também está politizado. No julgamento desta semana, ficou claro que Gilmar Mendes representa uma ala do Supremo que diz querer evitar que o Master se torne uma nova Lava Jato, e enfrentando Mendonça.
O Supremo hoje concorda que a Lava Jato foi um erro na maneira como foi conduzida. No debate entre Gilmar e Mendonça, ninguém defende a Lava Jato. Gilmar volta a uma posição que sempre foi a dele, com exceção talvez de um ano, o de 2016, que é a de garantista, uma tendência dentro do STF no Brasil. E Mendonça diz: “Eu vou supervisionar isso para não ser explorado politicamente”, o que até ontem me parecia que ele estava fazendo muito bem, embora hoje eu tenha algumas dúvidas. Mas ele conteve uma série de vazamentos, chamou atenção, abriu processos. Mendonça parece querer uma operação mais focada, com mais responsabilidade, porque não se trata de sensacionalismo barato, mas de uma investigação muito profunda sobre um banco que causou prejuízos gravíssimos ao país. Está custando provavelmente mais de R$ 50 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A corrupção atingiu não só governo ou políticos, mas diretorias do Banco Central, e praticamente quebrou um banco importante no Distrito Federal que nada tinha a ver com o caso inicialmente. De fato, os malfeitos são extremamente graves e têm de ser investigados.
Como o senhor avalia o momento político do STF e como ele chega a esse caso? Fragilizado pelos ataques sofridos recentemente e pelas vulnerabilidades que ele próprio se permite sofrer, pela conduta de alguns magistrados —, ou capaz de conduzir o caso da maneira que o senhor espera?
O Supremo foi chegando paulatinamente a essa posição anti-Lava Jato. O exemplo do Gilmar Mendes é o mais radical, porque pouco mais de um ano depois ele já tinha revisado completamente a posição dele. Juridicamente, Gilmar Mendes é um garantista, e ninguém pode criticá-lo por isso, é aceitável dentro da tradição jurídica brasileira. Agora, outros ministros, como Carmen Lúcia e o próprio Edson Fachin, chegam muito posteriormente a isso, quando de fato a Vaza Jato mostra o nível de abuso que houve anteriormente. Tudo isso mostrou ao Supremo que Moro tinha poder demais. Não é bom que um juiz, ainda mais de primeira instância, tenha esse tipo de poder. Aquilo foi um momento obscuro do Judiciário brasileiro. Agora, quando vemos hoje esses ministros individualmente, eles continuam tendo posições diferentes. Eles viram também — e essa é uma discussão diferente, mas relacionada — que, ao longo do começo do governo Bolsonaro, o Supremo estava na mira. Houve uma união, como Felipe Recondo narra no livro O Tribunal. Aquele foi um momento-chave, a partir do qual o Supremo passa a compor em algumas coisas importantes que ele não compunha antes. Era um Supremo completamente desorganizado e descoordenado em relação ao seu papel de instância revisora. Essa é a mudança fundamental que a gente vê hoje — e André Mendonça sabe disso. Dependendo do que ele fizer, pode ter ou não ter o apoio dos pares. É por isso que eu acho que a operação está sendo conduzida sob a supervisão dele com maior responsabilidade.
Doze anos depois da deflagração da Lava Jato, aqui estamos debatendo outro caso gigantesco de corrupção no país. Esse é um problema sistêmico, a ponto de talvez não ter solução, ou é parte do jogo democrático e algo com o qual temos de lidar?
Escândalo de corrupção existe em todos os países, com gravidades as mais distintas. O presidente dos Estados Unidos cria um fundo no qual ele é a principal pessoa a ser indenizada em relação ao processo judicial — que nem parece que teve tantos abusos assim. Até membros do próprio Partido Republicano contestaram esse fundo, que provavelmente não chegará a existir, mas existe isso e uma série de outros episódios ainda mais importantes. O ex-presidente Nicolas Sarkozy, na França, foi condenado, entre muitos outros políticos em democracias importantes. Nós temos aqui uma questão que é a relação democracia e dinheiro. Nós vivemos um período de enorme enriquecimento e afluência no mundo — tem a ver com neoliberalismo, com a revolução tecnológica, com as novas grandes empresas. Claro que isso chega muito perto do sistema político, e há pessoas que se aproveitam. O que a democracia precisa é que existam apuração, transparência na apuração e condenação, para que a opinião pública saiba que essa não pode ser a regra do jogo. Desde que existam esses três elementos — apuração, visibilidade da apuração e condenação —, é um episódio lamentável, mas eu não acho que afeta estruturalmente a democracia.
Mesmo envolvendo tantos membros da estrutura democrática?
O escândalo do Banco Master é muito privado. As grandes características dos escândalos anteriores no Brasil é que eles partiam de empresas públicas — a Petrobras — ou de grandes concessões, obras e recursos públicos. O Master tem uma característica diferente: é sempre um evento privado. Só que em certo momento ele precisa principalmente do Banco Central e do FGC — duas instituições sob o controle do governo ou do sistema político. O fundo garantidor foi feito para quê? Para garantir o pequeno investidor, para que ele possa ousar um pouco mais nos seus investimentos. Nunca foi feito para garantir um banqueiro nas suas aventuras, que foi na verdade o que aconteceu. Mas o desenho do escândalo é o de um banqueiro privado corrompendo uma instituição que nem muito pública ou estatal é. Os contribuintes do fundo garantidor são principalmente os grandes bancos, a partir de uma porcentagem dos recursos que captam. Tanto que as primeiras pessoas que protestaram contra as ações do Daniel Vorcaro foram os grandes banqueiros brasileiros. Então, tem essa diferença em relação também a escândalos clássicos: é um banqueiro, uma instituição privada se apropriando, mas corrompendo a regulação, essa sim era ou deveria ser pública — feita pelo Banco Central e com algumas legislações relacionadas feitas no Congresso. Então, é um escândalo muito mais na interseção público-privado do que qualquer outro escândalo anterior na história do Brasil.
E também envolve um ator individual, e não um setor, como foi na Lava Jato, que era o setor das empreiteiras. Daniel Vorcaro não representa o setor financeiro ou o setor bancário, representa seus próprios interesses. É algo muito individualizado.
Exatamente. Logo depois do segundo turno das eleições de 2014, Moro autorizou uma operação que foi contra praticamente todos os presidentes das grandes empreiteiras no Brasil — com exceção, na época, do Marcelo Odebrecht. A percepção era: “Olha, ninguém se salva, todos estão envolvidos”. E era exatamente isso: uma questão setorial, que inclusive explica a situação lamentável das estradas brasileiras, independentemente de quanto recurso se coloca ali, porque aquilo servia para construir estradas e financiar o sistema político ao mesmo tempo. No caso de Vorcaro, não é claro que seja um escândalo do sistema financeiro como um todo. Você olha para o Itaú, o Bradesco e não supõe que estejam envolvidos.
Agora, para fazer a ponte com a variedade de políticos — de direita, do Centrão e agora também do PT da Bahia — que Daniel Vorcaro corrompeu, o caminho foi o do crédito consignado e dos fundos de pensão estaduais. A aventura desse banqueiro precisava de dinheiro, e para isso ele se valeu de recursos públicos. Mas há também uma característica que me chama atenção: a Lava Jato, o mensalão e outros escândalos envolviam normalmente financiamento de campanha, caixa dois ou uma atuação partidária de alguma maneira. Neste caso, também do lado dos políticos, há algo mais individualizado?
Muitas pessoas falam isso, e eu não concordo 100%, mas dizem que uma parte fundamental do petrolão era financiamento de campanha. O Brasil funcionava de outra maneira, não existia o financiamento público, que vem um pouco na esteira desse processo. Hoje o financiamento é fundamentalmente público, mas não era até a eleição presidencial de 2014. Então, os partidos buscavam nas empresas estatais — a Petrobras era uma delas — essa forma de viabilizar acordos com empreiteiras que depois financiavam o sistema político, como era principalmente o caso da Odebrecht. Não parece que tem nada disso no Master. O que o Master pega são alguns políticos, e esses políticos vão servir para dar cobertura política às aventuras do Daniel Vorcaro. Mas há também uma outra questão — e são duas coisas que pessoalmente não vejo nenhuma relação entre si: em algum momento ele começou a precisar de dinheiro, e esse dinheiro veio dos fundos de pensão dos servidores públicos. Mas mais uma vez: o benefício dos investimentos desses fundos não foi para nenhum partido, até onde se sabe. Foi para políticos específicos. São benefícios financeiros individuais, muito diferentes da Lava Jato.
Por outro lado, essas figuras, pelas suas posições-chave, também representam projetos maiores. Ciro Nogueira, por exemplo, é o presidente do PP, negocia uma federação com outro partido muito relevante do Centrão. Davi Alcolumbre e Hugo Motta são presidentes do Senado e da Câmara. Jaques Wagner é conselheiro de Lula e líder do governo no Senado.
Sim, mas eles não atuavam num sentido politicamente amplo, e sim numa questão muito específica. Claro que há questões gravíssimas envolvidas. O FGC provavelmente teria quebrado se tivesse sido autorizado a garantir até R$ 1 milhão e nós poderíamos estar nesse momento numa crise do sistema financeiro brasileiro. Foi um ato extremamente irresponsável. Mas esse não era um programa do PP, ou para financiar o PP como um todo, ou para financiar o governo do Rio e o grupo do Cláudio Castro como um todo. Isso eu acho que você não vai encontrar.
Talvez até por isso a gente tenha visto esses casos em que o benefício é uma viagem à Suíça, um jantar de luxo, ingressos para shows — e não um depósito numa offshore para resolver problemas genéricos.
Problemas do sistema político. Então, esse não é um esquema sistêmico — nem no sistema político e nem no sistema financeiro. E essa é uma característica específica dele.
Ao vermos tantos nomes, tantos atores diferentes envolvidos, gente do STJ, TCU, Banco Central, governos estaduais, prefeituras, deputados, senadores, a impressão é exatamente a oposta, de algo sistêmico.
Isso lembra muito, ainda que com uma configuração diferente, o escândalo de Jeffrey Epstein, nos Estados Unidos, que também é de pessoas. Não é a família real britânica que está envolvida, mas é o ex-príncipe Andrew. Não é toda a área de tecnologia, mas é o Bill Gates. Na verdade, existe uma questão que é essa capacidade que algumas pessoas têm de corromper outras. Daniel Vorcaro criava uma proteção para se tornar um grande player do sistema financeiro, independentemente do fato de que captou recursos que não investiu e não tinham lastro, ou um investimento capaz de gerar o retorno que estava prometendo aos seus investidores. Ele quis jogar isso no fundo garantidor. Mas ele procurou pessoas específicas. E você não acha o STF, você não acha o governo Lula, você não acha o Congresso Nacional — você acha pessoas específicas.
Ainda assim, dado que algumas dessas pessoas são tão poderosas, podemos estar diante de uma composição do próprio sistema para se reorganizar e se defender, como aconteceu com a Lava Jato pouco tempo depois?
Nesse momento, não está claro. O fato de que os benefícios foram muito mais individuais do que na Lava Jato aponta na direção de que não. As pessoas não têm tido a cobertura dos seus partidos, na maior parte dos casos. Por outro lado, o fato de ser tão amplo pode levar a algum tipo de articulação. Mas esse escândalo se distingue da Lava Jato também pelo seguinte fato: o sistema financeiro brasileiro precisa de um fundo garantidor, e os banqueiros sabem disso — mais do que os banqueiros, aliás. O sistema tem que ter alguém que garanta, em última instância. E foi isso que levou à intervenção no Banco Master, e a tudo mais que a gente vê. As pessoas mais responsáveis dentro do sistema financeiro perceberam que isso não podia continuar assim e levar a uma crise sistêmica. Nesse sentido, penso que vão vir aprimoramentos, sim, especialmente na fiscalização do Banco Central. Tem uma outra questão muito relevante e sobre a qual o ex-ministro Fernando Haddad falou: a falta de fiscalização dos fundos, a maneira como Daniel Vorcaro operou numa interseção entre inúmeros fundos que ninguém sabe exatamente o que são, o próprio banco e os investimentos dele. O Brasil vai ter de conseguir regulamentar melhor esses fundos. Os aprimoramentos vão vir por aí.
E com relação aos efeitos eleitorais? O quanto o eleitor ainda é suscetível a esses escândalos na hora de votar, ou o quanto essa cristalização em torno do sobrenome Bolsonaro e do presidente Lula tende a se manter — talvez só invertendo um pouco a queda a depender da fase do escândalo a cada semana?
Isso é muito difícil de saber. O que se sabe basicamente é que, como esse escândalo envolve muito mais a direita do que a esquerda, muito mais o bolsonarismo e o Centrão do que o Partido dos Trabalhadores, o grande beneficiado nesse momento é a candidatura do presidente Lula. Até onde vai esse novo momento que começou na última quinta-feira com o envolvimento do Jaques Wagner, que parece um envolvimento pontual de alguns setores do PT na Bahia, não se tem uma resposta nesse momento. Pessoalmente, sou da opinião de que dificilmente o Jaques Wagner continuará líder do governo no Senado — o prejuízo pro governo é alto demais. Então, se de fato o escândalo na Bahia for mais pontual, continua beneficiando a candidatura do presidente. Caso se amplie, estamos num território desconhecido que não é possível prever.
Mas o eleitor ainda tem em alta conta o assunto corrupção, ou está anestesiado?
O eleitor tem uma visão moral sobre corrupção, e tem que ter mesmo. Mas como o escândalo se distribui no espectro político é o que vai influenciar a intenção de voto. Isso está completamente indeterminado — ainda que as últimas semanas, até ontem, fossem de um envolvimento muito mais forte, até pessoal, com um pedido de recursos por parte do Flávio Bolsonaro, com áudios e tudo.
Uma guerra mundial contra o calor
Nem chegou o Verão no Hemisfério Norte neste ano, e a Europa já sente o impacto das altas temperaturas provocadas por ondas de calor em diversos países, afetando empresas, escolas e a saúde da população. Só nos últimos quatro anos, as ondas de calor extremas causaram mais de 200 mil mortes, além de afetarem física e mentalmente milhões de pessoas no continente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Um relatório publicado na revista científica The Lancet aponta que a taxa média de mortes relacionadas ao calor saltou 63% em 25 anos, chegando a 550 mil casos anuais, cerca de um óbito por minuto. Os pesquisadores indicam que o principal responsável segue sendo a queima de combustíveis fósseis.
Em meio às previsões de novos recordes de temperatura que se superam ano a ano, diferentes cidades ao redor do mundo criam suas próprias iniciativas para reduzir as ilhas de calor e oferecer alternativas que refresquem as casas e as pessoas que saem às ruas. Os projetos mostram que os moradores podem fazer a diferença na criação e execução de soluções que beneficiam a cidade como um todo, com ou sem a iniciativa do poder público.
Telhados frios
Um artigo recente publicado na Lancet aponta que os sul-africanos foram expostos a uma média de 13 dias de ondas de calor em 2024, sendo que mais de dez dias não teriam ficado tão quentes se não fossem pelas mudanças climáticas. Para atenuar o calor infernal de uma casa em um bairro periférico da Cidade do Cabo, na província do Cabo Ocidental, uma alternativa encontrada foi pintar o telhado de amianto com tinta refletora. Uma medida simples que faz a diferença. Para mensurar o resultado, a iniciativa Habvia pintou 30 telhados e comparou com outras 30 residências que não receberam o tratamento. Aquelas com telhados pintados mostraram ser, em média, 3°C a 4°C mais frescas durante o período mais quente do dia.
O projeto Habvia também é realizado em outras três comunidades: a vila de Mphego, na zona rural da África do Sul, e nas áreas urbanas de Ga-Mashie e rurais de Nkwantakese, em Gana, utilizando a mesma metodologia. O arrefecimento do calorão impacta diretamente a qualidade do sono dos moradores, que podem dormir melhor com um clima mais ameno.
A ideia também é compartilhada em outras iniciativas pelo mundo, incluindo o outro lado do Atlântico. O programa NYC CoolRoofs oferece aos nova-iorquinos treinamento remunerado e experiência de trabalho para ajudar a cidade a alcançar a neutralidade de carbono até 2050. O projeto começou em 2009 e tem uma meta anual de pintar um milhão de pés quadrados, ou 92.903 metros quadrados de telhado. Esses tetos frios podem reduzir a temperatura interna de um edifício em até 30%, deixando o ambiente bem mais agradável em dias quentes de verão. Em um teste rápido, enquanto se aplicava a tinta em uma mesma construção, uma parte do telhado sem tratamento marcava 167°F (75°C) na parte externa. Já a área que recebeu a aplicação apresentava 116°F (46,6°C) no termômetro.
Bom para a população, excelente para o planeta. Cada 2.500 pés quadrados (cerca de 232,25 metros quadrados) de telhado revestido podem reduzir a pegada de carbono da cidade em uma tonelada de CO2 e ajudar a combater as mudanças climáticas. Além de ajudar a reduzir a poluição do ar, um ambiente mais fresco também retrai o uso de aparelhos de ar-condicionado e, por consequência, a demanda de energia elétrica.
Em Phoenix, no estado americano do Arizona, os telhados frios em edifícios públicos reduziram as emissões de carbono em quase 28 toneladas métricas anualmente e economizaram US$ 106 milhões para a cidade por meio de programas de eficiência energética, como a pintura de 10 milhões de pés quadrados de telhados, cerca de 929.030 metros quadrados. Considerando o cenário nacional, a substituição dos telhados comuns pelos frios poderia reduzir cerca de 3% do consumo de eletricidade usada em refrigeração de edifícios nos Estados Unidos.
Um outro asfalto
Para conter as ilhas de calor que permeiam o ambiente, a cidade de Phoenix também selecionou partes de oito bairros, um em cada distrito do Conselho Municipal, para receber um tratamento de pavimentação fria em áreas que já precisavam de manutenção em 2020. O pavimento frio é um tratamento asfáltico aplicado sobre o já existente, sendo composto por asfalto, água, um agente emulsificante, cargas minerais, polímeros e materiais reciclados. Desde então, mais de 225 quilômetros de pavimento frio foram aplicados em toda a cidade, trazendo benefícios mensuráveis para a população.
Uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual do Arizona (ASU) mostrou que a iniciativa reduz eficazmente as temperaturas da superfície no verão, em até 12°F (7°C), em comparação com o pavimento convencional envelhecido durante o dia. O primeiro ano do estudo indicou que o asfalto frio reflete uma maior porção da luz solar incidente, absorvendo menos calor e tendo potencial de compensar o aumento das temperaturas noturnas na região. Com os dados positivos, o projeto piloto terminou em 2021, fazendo parte permanente do programa de manutenção de ruas do Departamento de Transportes Urbanos.
Corredores verdes
A combinação de desenvolvimento urbano acelerado, desmatamento e políticas que levaram ao aumento de carros particulares no trânsito levou a cidade colombiana de Medellín a enfrentar os graves efeitos provocados pelas ilhas de calor, com o agravamento da poluição do ar. A virada ocorreu entre 2016 e 2019, quando a região desenvolveu uma iniciativa ambiciosa, ao criar mais de 30 Corredores Verdes que interconectam e ampliam os espaços verdes da cidade. O projeto teve reflexo direto na população, que pôde desfrutar de uma redução de 2°C na temperatura média, chegando a registrar uma queda de 10°C em alguns locais.
A solução também teve um impacto social relevante, ao treinar mais de 100 moradores de origens desfavorecidas para se tornarem jardineiros urbanos e técnicos de plantio. Cerca de 2,6 mil pessoas foram empregadas por meio do projeto, responsável por plantar 12.500 árvores e palmeiras nos mais de 30 corredores que cobrem 65 hectares. Algumas das vias mais movimentadas também ganharam 600 palmeiras e árvores, além de mais de 90 mil plantas menores. O resultado: redução nas mortes prematuras associadas à qualidade do ar, queda nas taxas de infecções respiratórias agudas e aumento da biodiversidade local. A ideia deu tão certo, que o Plano Urbano para o período de 2024 a 2027 prevê a expansão das áreas verdes e a restauração de córregos e rios do município.
Soluções parisienses
A Cidade Luz também pode se tornar cidade forno no verão europeu, conforme as temperaturas sobem a níveis fora do comum com ondas de calor que fizeram Paris chegar aos 38°C. Para contrapor esse cenário, a região passou a contar com uma série de soluções para amenizar as ilhas de calor e refrescar a população em mais de 1.400 espaços frescos espalhados pela capital francesa.
No total, são 1.300 pontos de distribuição de água instalados em parques e jardins, além de outras 175 fontes de nebulização para aliviar a sensação de calor extremo. A capital conta com 547 espaços verdes, parques, jardins, praças municipais e alamedas arborizadas. Em locais que não são possíveis as plantações de árvores, foram criadas as estruturas de sombreamento, que proporcionam sombra em determinadas áreas, oferecendo refúgio temporário para os pedestres durante o calorão. Também são oferecidas 42 piscinas públicas para nadadores de todas as idades e qualquer experiência que queiram se refrescar.
Devido à presença e distribuição equitativa em todos os bairros, o programa OASIS — acrônimo em inglês para “Abertura, Adaptação, Sensibilização, Inovação e Laços Sociais” — transforma pátios escolares de Paris em espaços verdes acessíveis a grupos vulneráveis. A iniciativa tem como objetivo fazer desses pátios oásis verdes acessíveis tanto aos alunos quanto às comunidades locais, incluindo idosos, pessoas com saúde debilitada e mães com bebês.
Favelas sustentáveis
Nem sempre o poder público se movimenta para resolver os problemas da população, o que não é diferente quando o assunto é calor escaldante. Por isso, as comunidades acabam se unindo para buscar suas próprias soluções climáticas e melhorar as condições de vida em meio ao aumento das temperaturas. Foi o que fez a Rede Favela Sustentável (RFS), um coletivo de favelas do Rio de Janeiro fundado em 2018 que conecta mais de cem iniciativas criativas.
Um dos projetos de destaque são os telhados verdes, que reutilizam rolos de bidim (uma espécie de manta) com terra para criar uma cobertura vegetal que refresca o ambiente interno da residência e contribui para a sustentabilidade. A técnica foi importada da Alemanha por Bruno Rezende, tecnologista do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, enquanto concluía seu doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A ideia surgiu em 2012, quando o produtor audiovisual Luiz Cassiano buscava uma maneira de reduzir o calor em sua casa no Parque Arará, na zona norte. Cassiano afirma que as casas que aderiram ao teto verde conseguiram reduzir até 15°C em relação aos vizinhos com seus telhados convencionais.
A faca dentro
Um ruído eletrônico sujo intermitente é cortado por uma batida também eletrônica antes de entrar a percussão orgânica, que remete às claves do boi maranhense. Já nesta abertura da música Parasita, o Deafkids mostra a que veio em seu novo álbum, Cicatrizes do Futuro. Uma investigação que parte das raízes brasileiras e afrolatinas, sem perder a veia roqueira. Canções desconstruídas para o corpo e para a mente, com um pulso quase dançável açoitado por guitarras e ruídos eletrônicos, com uma abstração que permite diferentes leituras.
O Deafkids carrega 15 anos de barulho, percussão pesada e um pé fundado no punk mais cru. Não é, à primeira vista, o tipo de banda que se recomenda a quem não está acostumado aos extremos da música. Só que esse diagnóstico é rechaçado de cara por Douglas Leal e Marian Sarine, a dupla que hoje forma a banda. Falam do novo álbum como o disco mais aberto, mais dançante e mais de pulso que já fizeram. “Pega um desavisado assim, o bagulho é meio cabuloso”, admite Douglas. Mas Marian completa dizendo que o que de fato define o disco é outra coisa, “é o menos hermético, o mais acessível, do jeito do Deafkids, obviamente.”
Cicatrizes do Futuro acaba de sair pela gravadora americana Neurot Recordings, e é o primeiro álbum não colaborativo do Deafkids desde Metaprogramação, de 2019. Tem nove faixas, foi gravado no Estúdio Jukebox, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, cidade onde a banda nasceu e mantém laços, apesar de os integrantes morarem em São Paulo há mais de uma década. A gestação durou dois anos, de 2023 a 2025, e a masterização ficou a cargo de Wayne Adams, no estúdio Bear Bites Horse, em Londres, nome cobiçado por quem acompanha a cena internacional de noise e grind.
O título já entrega a ambição do disco: não é um trabalho sobre o futuro como promessa, mas sobre o futuro como ferida. “É uma coisa meio polêmica também, porque são tanto cicatrizes que estão por vir, quanto as cicatrizes que o próprio conceito de futuro já nos causa”, explica Marian. Ele cita a destruição do debate público pelas redes sociais, o colapso de consensos coletivos e uma espécie de erosão do nosso senso de identidade diante da própria representação virtual: “Existe uma erosão até do nosso self, do senso do eu versus a representatividade nas redes sociais. Isso está explícito até em pautas de minorias, de direitos, e nas grandes confusões que vêm daí.” A imagem que ele usa para resumir tudo isso é cirúrgica. “Parece que a cicatriz está se formando com a faca ainda dentro. Parece que existe uma nova forma de interagir com o que é virtual, que torna ela carne, e vira um jogo dialético: você vira o reflexo, e o reflexo vira uma parte de você que, se machucada, te machuca.”
No Deafkids, essa ambição conceitual sempre caminhou junto com uma dimensão quase ritualística. Desde o começo, mesmo nas fases mais ligadas ao D-beat, o subgênero do hardcore punk inglês inaugurado por bandas como o Discharge, o Deafkids tratou a batida como um estado em si, não como estrutura de verso e refrão. “Sempre foi uma coisa mais progressiva, não no sentido de rock progressivo, mas de ser mais contínua, mais viajandona”, diz Marian, lembrando que esse impulso sempre buscou “um arrebatamento do corpo para a mente”, mais do que algo inteligível pela letra. Para Douglas, essa relação com o som alto, sujo e pesado sempre foi uma forma de descarga de energia que “leva para um lugar não racional, que dá essa sensação ritualística, quase espiritual.”
Origem como trio
O Deafkids nasceu em Volta Redonda, em 2010, e por anos foi um trio composto por Douglas Leal, Marian Sarine e Marcelo dos Santos, baixista que deixou a banda em 2024. A virada começou em 2014, quando os três se mudaram juntos para São Paulo, recém-voltados da primeira turnê do grupo na Europa. “A gente foi morar junto, e acho que isso somou muito nessa pira que cada um tinha”, lembra Douglas. Foi nesse período que a percussão deixou de ser ornamento e passou a funcionar como ferramenta de composição, e que o repertório de influências da banda se abriu para ritmos do mundo inteiro: música indiana, afrolatina, africana, krautrock, dub, folk americano. “A gente foi incorporando esse desejo estético de se conectar com essas músicas do sul global”, resume Marian.
Cicatrizes do Futuro é o primeiro disco de estúdio inteiramente composto e produzido só por Douglas e Marian, ainda que o processo tenha sido, segundo os dois, o mais trabalhoso da carreira. “Foi o disco que mais o processo de fazer deu trabalho, por ser o mais eletrônico”, diz Douglas. “Os instrumentos vieram depois, então todas as estruturas das músicas já chegaram no estúdio meio prontas. Foi diferente dos nossos processos anteriores, em que a gente usava o próprio estúdio como ferramenta para expandir e processar as coisas.”
Depois de Metaprogramação, ele conta que via dois caminhos possíveis: ou um disco duplo, psicodélico ao extremo — “eu apelidava, na minha cabeça, de o Bitches Brew do Deafkids”, numa referência ao álbum seminal de Miles Davis — ou um disco mais urgente, com a base inteira fincada em ritmo. Boa parte dessa psicodelia acabou descarregada em uma sequência de EPs lançados durante a pandemia, depois reunidos em LP. Já para o novo álbum, a escolha foi pela urgência. “Vamos fazer um troço mais urgente, futurista, com a base toda em ritmo, brasileiro, latino, ou africano”, resume Douglas. Assim nasceu a linguagem das claves no disco. Clave de percussão é o padrão rítmico fundamental que serve como espinha dorsal e bússola temporal para estilos musicais de origem afro-latina e brasileira. “A gente foi se firmando nessa linguagem, que virou uma linguagem básica do disco, explorar claves e criar as músicas a partir disso: batida, riff, pulso.”
Raízes expostas
Marian descreve o resultado como uma espécie de acumulação, mais do que de síntese: “é um disco que culmina em várias forças que a gente sempre explorou, só que agora mais explícitas”. Há, nessa operação, “um certo desrespeito característico, que é um desrespeito respeitoso”. De certo modo, é uma recusa em compor dentro de um gênero do passado tal como ele é, preferindo reivindicar essas heranças rítmicas para si, com a liberdade de subvertê-las. “A capacidade de não se tornar um algoritmo de si mesmo”, resume, usando uma imagem geométrica para a expansão. “Como uma mandala, uma progressão que vai do quatro para o oito, do oito para o dezesseis, do dezesseis para o trinta e dois.”
Parte dessa fluência entre densidade eletrônica e corpo veio de fora do próprio Deafkids, especificamente da banda paulistana Test, parceira de longa data. As duas somam mais de uma década de turnês conjuntas e, desde 2018, mantêm a No Hope Tour, quase anual, que rendeu em 2025 o álbum colaborativo Sem Esperanças. Mas a relação vai além de um projeto pontual. “O Test já tem um monstro de um baterista, então às vezes cabe uma segunda bateria ali, às vezes cabe uma percussão”, explica Marian. “Isso acaba afiando a gente nesse sentido de ocupar espaços, de trabalhar com uma energia que não é exatamente a nossa. A gente não é pesado desse jeito, denso desse jeito. É intenso, violento, mas nunca foi uma banda de metal.” A troca é de mão dupla. “O Test ficou mais doido também, incorporou várias coisas nossas”, e foi justamente essa intensidade de trocas, que tornou ainda mais necessário voltar e focar no aspecto puramente composicional do Deafkids. Cicatrizes do Futuro é, nesse sentido, esse retorno.
O show de lançamento do disco está marcado para 17 de julho no Sesc Pompeia. Na sequência, o Deafkids embarca para uma turnê pela Europa em outubro e novembro, com passagens por festivais, e fecha o ano com a primeira turnê da banda no Japão, um símbolo de como, quinze anos depois de Volta Redonda, o disco mais acessível do Deafkids segue abrindo caminhos para fora.
Copa do Mundo ou política/escândalo? Os assinantes do Meio ficaram divididos esta semana. Confira os links mais clicados:
1. g1: Fotos em relatório da PF mostram a proximidade entre Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira.
2. ge: Atuação de Vozinha domina memes de Espanha x Cabo Verde: “Maior que Neuer”.
3. Meio: A Copa de 2026 e a SuperBowlização do futebol, na visão de Idelber Avelar.
4. Meio: No Ponto de Partida, Pedro Doria explica como 52% dos eleitores, os realmente polarizados, sequestraram a política brasileira.
5. Folha: Mauricio de Sousa lança o Paulistinha, personagem que homenageia São Paulo.






























