Edição de Sábado

Edição de Sábado: Espelho do Poder

“Antes tarde do que Cunha”. Era uma comemoração a frase impressa no cartaz de papel alaranjado erguido pelo deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) diante da face impávida de Eduardo Cunha (então MDB-RJ). O palco era o Plenário da Câmara no dia 12 de setembro de 2016. Sem mover um único músculo da face, e com aquele sorriso nervoso de lábios cerrados, o ex-presidente da Casa ouvia sua sentença de cassação de mandato: “Está aprovado o parecer do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar à representação número 1 de 2015”, formalizou Rodrigo Maia (então DEM-RJ), do alto do posto que pertencera a Cunha quatro meses antes.

Edição de Sábado: Transinfância

Antes dos quatro anos de idade, Lucas (o nome foi alterado para preservar a intimidade da criança) já chegava à escola de olho em um cabideiro repleto de fantasias. Como o hábito diário de escovar os dentes, ele tirava sua bermuda e já se dirigia aos cabides enfileirados, onde sempre sacava a mesma saia, vestia e, só depois, partia para a aula e brincadeiras com os coleguinhas de turma. A vestimenta só voltava a ser pendurada no fim do turno, quando se despedia da professora. Saía da escola, de calção, meio desajeitado. Nessa época, Lucas ainda não havia expressado aos pais o que já compreendia sobre si mesmo. Mas sabia que era preciso lavar a saia, surrada pelas brincadeiras. “Está suja. Posso levar para minha mãe lavar?”, perguntou a criança, dirigindo-se à professora. Mas foi entre quatro e cinco anos que Lucas surpreendeu a mãe: “Eu sou uma menina, mamãe!”.

Edição de Sábado: De cabeça feita

Antes mesmo do café da manhã, todos os dias, chega o cardápio no grupo do WhatsApp. Diferente do tradicional, este não oferta quitutes, pães ou bolos. Mas abre outros tipos de apetite e atrai uma vasta clientela. No menu desta quarta-feira, o menu era: prensado, Manga Rosa, Lemon Haze, Banana Kush, Critical, AK 47, Colombian Gold, Ice e Dry. São tipos de maconha. Junto da lista, o fornecedor envia vídeos detalhando cor, textura e densidade para comprovar que os produtos estão frescos. Então, desembolsando entre R$ 4 e R$ 110 por grama, via pix, cartão de crédito ou débito, os clientes retiram a mercadoria em alguma estação de metrô ou pagam frete para recebê-la em casa, num envelope lacrado. Assim funciona um grupo, lotado, de venda de drogas em São Paulo. Embora ilegal, está longe de ser o único. Em outro, circula um convite. “Mulher, se o objetivo é relaxar, vem para o nosso encontrinho. No dia 26/6, vamos bater papo, ouvir música boa e curtir uma massagem deliciosa. Tudo isso, numa tarde free cannabis, com comidinhas cannábicas, becks de presente e piteira de vidro para brilhar muito na redução de danos”, diz a mensagem.

Edição de Sábado: Terra de gigantes

Foram 67.423 os pagantes no estádio Mané Garrincha, no dia 15 de junho de 2013. A capital do país do futebol tinha, ela mesma, um futebol raquítico e aquela construção colossal encerrava em si muitos contrassensos — típicos das nações que recebem copas e olimpíadas. Mas as arquibancadas estavam cheias. Do lado de fora, alguns protestos tímidos eram fortemente reprimidos pela Polícia Militar do Distrito Federal, sangue nos olhos, recém-treinada a lidar com atos terroristas em preparação para receber as copas das Confederações e do Mundo. Lá dentro, camisas verde-amarelas vaiavam com fôlego a presidente Dilma Rousseff. Com um misto de constrangimento e desdém, Dilma declarou o início da competição. Dois dias depois, um grupo de 5 mil manifestantes caminharia pela Esplanada dos Ministérios. Cerca de 300 deles, alguns descamisados, zero mantos da seleção à vista, subiriam a rampa do Congresso aos gritos de “O gigante acordou”. Eram muitos os gigantes que, despertos, tomavam as ruas do Brasil em junho daquele ano. E eles tinham feições, figurinos e demandas bem diferentes.

Edição de Sábado: Mano a mano

Era madrugada em Pequim. No bar do hotel, alguns deputados e senadores brasileiros papeavam para passar as horas até o momento marcado para embarcar para o Brasil. O avião decolaria às 7h. Dormir poderia significar risco de perder o bonde. Era a turma de uns cinco parlamentares do Centrão. Tinham acompanhado a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China em meados de abril. A noite avançava em queixas.

Edição de Sábado: Marina na cova dos leões

Já passava de duas horas e meia de audiência pública, quando o deputado federal Zé Trovão (PL-SC) tomou a palavra. O chapéu preto com abas largas dava mais imponência ao seu porte avantajado diante da esguia ministra Marina Silva, sentada à frente. Na Comissão de Meio Ambiente da Câmara, o bolsonarista — que chegou a ser preso por incitação de atos antidemocráticos contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e, quando eleito e até duas semanas atrás, ainda usava tornozeleira eletrônica — iniciou seu discurso se dizendo muito preocupado com a Amazônia, com os povos ribeirinhos e “com a grande tragédia da miséria”. Dizia-se indignado porque o Ibama barrou o projeto da Petrobras de prospectar petróleo na foz do Rio Amazonas. “A senhora sabe que estão tirando o nosso petróleo de canudinho? A senhora sabe disso, né?”, provocava o deputado, balançando a cabeça com o sorriso no canto do lábio e se referindo a várias prospecções hoje realizadas na região. “São mais de 11 trilhões de reais”, contabilizava o possível lucro da Petrobras com a exploração.

Edição de Sábado: A coalizão de bilhões

Ao romper o mês de maio, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), despencou logo cedo da Residência Oficial da Câmara, no Lago Sul, e foi direto para o Palácio da Alvorada, se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Era uma terça-feira, segundo dia do mês, data marcada para a votação do PL das Fake News no plenário da Câmara. A proposta não era uma prioridade absoluta do Planalto, embora fosse de interesse, já que significaria um teste importante sobre o quanto Lira poderia entregar em votos no universo de 513 deputados.

Edição de Sábado: A vacina contra a mentira

Ouvir o doutor em microbiologia Atila Iamarino discorrer sobre a pandemia de Covid-19 e seus efeitos é de uma familiaridade perturbadora. Por um lado, sua voz serena e seus argumentos sensatos reconfortam. É como escutar um amigo. Ao mesmo tempo, causam uma sensação de reprise de um dos momentos mais desafiadores, sem qualquer medo da hipérbole, deste século. Um tempo em que o vírus do negacionismo adoecia a humanidade e Atila e outros divulgadores científicos tentavam ser anticorpo num organismo descontrolado — o das redes sociais.

Edição de Sábado: Impedimento

“É um tema que aconteceu há 37 anos atrás (sic), 1987 (...) Nessa lembrança que eu tenho, eu tinha 23 anos na época, nós iríamos jogar uma partida e subiu uma menina para o quarto, o quarto que eu estava junto com mais três jogadores, um quarto com duas camas de casal, em L, outras duas camas. Essa foi minha participação nesse caso. Eu sou totalmente inocente, eu não fiz nada. As pessoas falam que houve um estupro. Houve, acho, um ato sexual com uma vulnerável. Isso foi a pena que foi dada. A gente vê e ouve um monte de coisas falando inverdades, chegando a ofender. (...) Eu respeitei e respeito todas as mulheres, nunca encostei um dedo indevidamente em nenhuma mulher, em nenhuma mulher ao longo de todos os anos que eu vivo. Na bola, já trabalhei com vocês na imprensa, já tiveram comigo, tive em diversos clubes. Eu tive duas vezes no São Paulo, duas vezes no Palmeiras, duas vezes no Santos, nunca foi me questionado isso em uma coletiva. (...) Nós ficamos lá para averiguação, por três vezes a moça esteve lá na frente. Não é que te reconheceu, é que eu não tava. A vítima não sou eu, é ela. A vítima é a moça. “O rapaz não tá, o rapaz não tá”, se a vítima fala que não tá, e eu juro por Nossa Senhora, que é o que eu mais adoro e amo na vida, que não tava. (...) Mas é isso, tem repórteres e pessoas que eu já discuti com eles. 'Cuca, você deve uma desculpa para a sociedade'. Por que que eu devo uma desculpa para a sociedade? Do que que eu devo uma desculpa para a sociedade se eu não fiz nada? Por que que eu devo uma desculpa para a sociedade? Dois anos e meio depois desse caso eu fui jogar ali do lado, na Espanha. Nunca teve consequência nenhuma.”

Edição de Sábado: De noite na cama…

“Meu gemido foi ainda mais alto quando ele começou a explorar o meu sexo. Seu dedo médio abriu meus grandes lábios, seguindo até o meu clitóris e rodeando a minha entrada, fazendo com que eu ficasse ainda mais úmida." Essa é Tatiana Fisher. Ela é estagiária no escritório de Deborah Lennox, a promotora que lhe servia de inspiração. Quem a acaricia é Tyler Lennox, irmão de Deborah, um respeitado e cativante juiz. O affair lascivo entre eles resultou numa gravidez. Mas Tyler, poderoso mas ordinário, duvidava que a criança fosse sua. E, assim, enquanto se discute o caráter de Tyler e a carreira de Tatiana, vão se entremeando cenas de sexo tórrido.