Edição de Sábado: A realidade argentina nos 6 meses de Milei

“Não há dinheiro”, gritou Javier Milei em sua posse, em 10 de dezembro passado, numa quente manhã do verão portenho, diante do Congresso Nacional. Seus eleitores, sem se assustar com o anúncio de grandes ajustes, o aplaudiam e gritavam: “Milei, amigo, o povo está contigo”.

Seis meses depois, o excêntrico presidente argentino coleciona cifras contraditórias. Se por um lado sua alta popularidade se mantém — 58,7% de imagem positiva, segundo a Giacobbe & Associados — a pobreza atinge a cifra de 55%, de acordo com dados oficiais. Se a inflação vem caindo — de 26% ao mês no começo do ano para os 8% atuais —, a classe média e a população mais humilde não têm sentido alívio. Com o fim de vários subsídios, as contas de luz, água, gás e transporte dispararam. Por outro lado, o país teve, pela primeira vez em muitos anos, um superávit fiscal.

“Assim, vou ter de deixar de usar o metrô e me deslocar apenas de ônibus e andando”, diz Martín de Francisco, 52, vendedor em uma loja de artigos para construção, na bilheteria da estação Obelisco, no centro de Buenos Aires. Todos os dias, ele toma dois ônibus para chegar ao centro desde sua casa, na periferia de Buenos Aires. O metrô, que torna mais curto o trecho final de sua jornada diária, passou, em junho, de custar 125 pesos (R$ 0,73) para 574 (R$ 3,37). O alto custo de vida atinge todas as classes. Um café simples e um suco de laranja no café do Teatro Colón, muito frequentado por turistas brasileiros, por exemplo, sai 8.600 pesos (R$ 50,46). “Já não dá para ir a um restaurante mais de uma vez por semana, um cinema ou um teatro, só de vez em quando”, afirma María Paz, 43, publicitária que vive em Palermo, bairro de classe média e alta de Buenos Aires.

Apesar das dificuldades para chegar ao fim do mês, porém, a maioria dos entrevistados que apoiam Milei afirmam que confiam no presidente. “Ele avisou que seriam tempos difíceis. Além disso, voltar ao que tínhamos antes é impensável. O país está como está por conta dos governos peronistas”, diz Matías Durango, 21, recém-formado em administração pela Universidade de Buenos Aires, que ainda está buscando emprego.

O maior ajuste tem sido sentido pelos aposentados, que tiveram uma redução de seus rendimentos em 31%.

“A chave da explicação do superávit do país e da contenção da escalada inflacionária é o aumento de impostos e a redução das aposentadorias, não se trata de um plano estruturado. O governo tem usado essa narrativa para manter sua popularidade e para tentar atrair o investimento estrangeiro. Trata-se de uma cifra artificial, que não tem como se manter no tempo se não houver um crescimento do país e uma revitalização da economia”, diz ao Meio o economista liberal Roberto Cachanosky.

“Na última década, a economia argentina vinha acumulando déficits fiscais enormes, que eram financiados pela emissão monetária, o que gerava uma quantia muito grande de pesos no mercado, e por sua vez acelerava o processo inflacionário. Para evitar que o dólar subisse, os governos anteriores drenaram as reservas internacionais. Milei interrompeu esse processo, mas tem falhado em organizar um plano para o longo prazo”, diz Martín Kalos, economista e consultor, formado pela Universidade de Buenos Aires.

O avanço de suas estratégias chamadas de “motosserra” (corte de gastos públicos) e “liquidificadora” (promovendo ajuste pelo arrocho inflacionário) conseguiram reduzir a inflação e o gasto público. Por outro lado, causaram mais de 275 mil demissões, e reduziram a atividade econômica em oito pontos percentuais. “A Argentina hoje é um país em recessão. As medidas que Milei tem tomado servem para manter seu discurso de rompimento com as políticas anteriores, mas falta uma estratégia clara. Difícil pensar que isso se manterá com o tempo”, diz Cachanosky.

Reformismo barrado

Desde o princípio de sua gestão, Milei tem defendido uma ampla reforma trabalhista, fiscal e tributária, contida na Lei de Bases, mais conhecida como Lei Ônibus, pois, em sua origem, tratava-se de um conjunto de mais de 600 artigos.

O Libertad Avanza, partido do presidente, porém, não tem maioria nem na Câmara de Deputados nem no Senado, o que tem dificultado a aprovação de qualquer legislação. Enquanto seus antecessores, Mauricio Macri (centro-direita), Alberto Fernández (centro-esquerda) e Cristina Kirchner (esquerda) não demoraram mais de um mês em aprovar suas primeiras leis, Milei ainda não conseguiu aprovar nenhuma. A Lei Bases chegou a ser aprovada numa primeira versão pela Câmara de Deputados, no começo do ano, mas foi retirada do Congresso pelo próprio Milei, ao considerar que havia sido demasiado desidratada. Uma nova versão, também desinflada, foi aprovada em abril pela câmara baixa, depois de uma longa negociação com a oposição.

Agora, ela se encontra em debate no Senado. A perspectiva é que seja aprovada também nessa casa, mas com várias modificações e concessões. Com isso, terá de voltar à Câmara para nova votação.

Milei viu frustrado, então, seu projeto de amarrar um “amplo acordo nacional”, que seria celebrado por ele e os governadores de províncias (todos de oposição), no último dia 25 de maio, data do festejo da Revolução de Maio, que marcou o início da independência argentina. O presidente, em vez disso, usou a data para reforçar suas bandeiras, num ato no centro da cidade de Córdoba, onde obteve mais de 70% dos votos nas eleições.

Milei foi eleito em novembro do ano passado com mais de 14,5 milhões de votos. Sua campanha se armou em torno do sentimento anti-peronista que há na sociedade. Este se acentuou no fim da gestão de Cristina Kirchner (2007-2015), quando casos de corrupção do governo foram desvelados num contexto de degradação econômica, e durante a pandemia, quando a rígida quarentena imposta pela gestão Alberto Fernández (2019-2023) se tornou impopular e começou a unir a juventude de classe média e mais pobre em torno do discurso de que o Estado não deveria interferir na vida privada das pessoas.

Milei conseguiu capitalizar esse sentimento ao se eleger deputado, em 2021, abrindo espaço para sua candidatura presidencial. Mais de 20% de seu apoio hoje é composto por uma população masculina, entre 18 e 30 anos, que mora nas periferias das grandes cidades e que começou a cultivar nessa época.

Milei se define como anarcocapitalista e libertário. Segundo essa doutrina, o Estado deve ser mínimo e, mesmo, não existir. Entre os intelectuais que mais admira, cita sempre o teórico norte-americano Murray Rothbard (1925-1995), membro da escola de economia austríaca, defensor que a iniciativa privada poderia substituir o Estado em várias atribuições. Ficou conhecido por suas ácidas críticas ao marxismo e ao keynesianismo.

Há diferenças importantes entre o liberalismo e o libertarismo. O primeiro nasceu no século 17 na Inglaterra e na França como uma reação ao absolutismo monárquico. Defendia a propriedade privada e a ideia do laissez-faire (deixar fazer), segundo a qual a mão livre do mercado deveria regulamentar os distintos aspectos da vida humana.

Já o libertarismo é uma filosofia minoritária que se apoia no liberalismo, mas é mais radical. Nasceu também na Europa, depois da Segunda Guerra mundial, e defende os individualismos e a dissolução quase total da política, vista como corrupta e defensora apenas de seus privilégios. Na versão argentina, Milei chama esse grupo de “casta”.

O único “país” a adotar o libertarismo de modo geral foi a república livre de Liberland, uma autoproclamada pequena nação situada nos Balcãs. Sem ser reconhecido pela comunidade internacional, Liberland tem uma bandeira, de cor negra e amarela, e um super-herói, o capitão Ancap, cujo uniforme Milei já vestiu em campanha e em shows.

Dois sentimentos

Para o consultor político Jorge Giacobbe, os argentinos hoje se movem por dois sentimentos. “Um grupo, majoritário ainda, tem esperança. Sabe que está sofrendo, mas vê uma luz ao fim do túnel. É como se estivessem fazendo um tratamento ou uma dieta, com um final compensatório”, afirma.

O segundo grupo estaria tomado pelo descontentamento, pela tristeza. Seriam pessoas que não gostam de Milei, mas não veem uma outra opção, pois as demais alternativas estariam esgotadas. Assim estaria vivendo 45% da opinião pública. "Os portenhos têm duas praças, a de Maio, onde ocorre a maioria dos protestos contra o governo, é o espaço da bronca, da raiva. A do Obelisco é a da alegria, onde se comemoram vitórias políticas ou do futebol. Mas não há uma praça para a tristeza e o desânimo, que é o estado em que estão os que não gostam de Milei. Por isso ainda não há muitos protestos", afirma.

Nos últimos seis meses, tem havido manifestações, pequenas e setorizadas, de sindicatos e de trabalhadores de áreas que vêm sofrendo ajustes. O único protesto mais transversal, e que levou centenas de milhares de pessoas às ruas em todo o país, foi o que se deu em defesa da educação pública, no último dia 23 de abril. Sob a ameaça de Milei de cortar o orçamento de universidades, professores, alunos e ex-alunos saíram para se manifestar com cartazes que evocavam, entre outras coisas, o fato de a Argentina ter sido uma pioneira em projetos massivos de alfabetização e educação laica e de possuir três prêmios Nobel na área científica. Os mais divertidos eram os que faziam menção ao adorado cachorro de Milei, Conan, morto em 2017, a quem o presidente consulta por meio de uma médium quando tem de fazer escolhas políticas. “Sem ciência, não há Conan”, diziam, em referência ao fato de Milei ter mandado clonar seu mascote favorito. O fruto desse processo foram cinco filhotes, com quem o mandatário vive atualmente.

Conversar com Conan é apenas um dos aspectos que compõem a excentricidade de Milei. Sua personalidade pública começou a ser construída em suas aparições nos principais programas de debate político da Argentina. Estes dominam o horário nobre e são marcados pelo formato de espetáculo, conhecidos no país como o mundo da farándula. Milei começou a ser convidado para fazer análises econômicas, mas seu estilo agressivo, movido por insultos e gritos contra os governantes, passou a dar mais audiência a esses programas. O atual presidente começou a se soltar, fazer covers musicais, dançar, dar conselhos sobre sexo tântrico e contar detalhes de seus ménages.

Nascido em uma família de classe média, teve a infância e a adolescência marcadas pelas surras que recebia do pai. Ficou sem falar com ele e a mãe por décadas, e seu principal suporte emocional é a irmã. Hoje, seis meses depois da posse, Karina Milei é uma das principais figuras da gestão. Enquanto o mandatário se concentra na economia, todo o trabalho de gerenciar ministros e dialogar com a Justiça e o Congresso está nas mãos da irmã, a quem Milei chama de “o chefe”, no masculino mesmo.

O biógrafo de Milei, Juan Luiz González, afirma que isso não é uma surpresa. “Karina sempre cuidou dele, e sempre esteve presente em seus momentos difíceis, quando teve episódios depressivos, quando morreu Conan e durante o isolamento da pandemia. E é também a pessoa que o ajudou a planejar todos os passos de sua chegada à presidência”. Milei teve poucos relacionamentos abertamente conhecidos. O mais recente, com a atriz e comediante Fátima Flores, terminou após a posse. Milei explicou publicamente que apesar de amá-la, queria concentrar-se mais no trabalho.

Karina ocupa a Secretaria Geral da Presidência, cargo criado por Milei depois de derrubar um veto à contratação de familiares de políticos. Como o atual presidente vai pouco à Casa Rosada, que considera como “mais um museu do que um lugar de trabalho”, é Karina quem comanda reuniões e está por dentro de tudo o que se fala em seus corredores. Milei prefere trabalhar da residência de Olivos e tem pouco contato cotidiano com seus funcionários. “Milei e Karina são duas partes de um mesmo cérebro”, diz Giacobbe.

Unidos da ultradireita

Um dos aspectos mais controversos de sua gestão tem sido o campo das relações internacionais. Durante a campanha, Milei afirmou que não teria relação com líderes de países “comunistas” e deu como exemplos a China, o Brasil e a Espanha. Ao ser indagado sobre Lula, Milei afirmou que era "um corrupto", e que deveria continuar preso.

Depois de eleito, passou a viajar muito. Só que de uma maneira muito diferente da maioria dos líderes mundiais. Em geral, com uma agenda particular na qual marca sua sintonia com a ultradireita internacional.

Milei já visitou os EUA quatro vezes, mas jamais pediu para se reunir com Joe Biden. Ao contrário, foi a um congresso conservador onde abraçou Donald Trump e afirmou que desejava sua vitória no próximo pleito. Também se encontrou mais de uma vez com Elon Musk, do X. Deu entrevista aos polêmicos comentaristas políticos Ben Shapiro e Tucker Carlson.

Na Espanha, por outro lado, Milei causou um escândalo diplomático. Foi ao país, culturalmente de enorme influência na Argentina, e não quis se encontrar com o líder socialista do país, Pedro Sánchez. Compareceu a um festival do Vox, partido de extrema direita espanhol e, em seu discurso, chamou a mulher de Sánchez de corrupta. O espanhol, então, retirou sua embaixadora de Buenos Aires e esteve muito próximo de cortar as relações com a Argentina.

O mesmo ocorreu com a Colômbia, governada pelo esquerdista Gustavo Petro. Quando Milei foi eleito, o colombiano usou suas redes sociais para chamá-lo de “fascista”. O argentino retrucou em termos também fortes, afirmando que Petro era um “assassino” — fazendo referência a seus anos como integrante da guerrilha do M-19. Petro mandou, então, expulsar a representação diplomática argentina de Bogotá. As relações só voltaram a se normalizar depois de a chanceler argentina, Diana Mondino, tomar a iniciativa de iniciar um diálogo com o governo colombiano. As relações entre os dois países, então, foram restabelecidas.

Mondino, uma das principais ministras do gabinete, vem atuando como uma espécie de bombeiro que aparece depois das crises armadas pelo mandatário para tentar pacificar o ambiente. Com relação à China, foi ela que viajou a Pequim para pedir que as declarações de Milei contra o país fossem relativizadas.

Foi também Mondino quem veio ao Brasil para conversar com o ministro Mauro Vieira e reafirmar que o atual governo argentino deseja continuar tendo sua relação bilateral com o país como prioridade. O Brasil é o principal parceiro econômico da Argentina na região.

O governo Lula, porém, segue dando sinais de que se sentiu ofendido pelas declarações de Milei e pelo fato de ele ter convidado o ex-presidente Jair Bolsonaro para sua posse.

Em sua tentativa de aproximar os dois líderes, Mondino esteve no Brasil duas vezes. Na segunda, em abril, levou ao chanceler Mauro Vieira uma carta escrita por Milei, convidando Lula para um encontro. O brasileiro ainda não a respondeu e, na única vez em que foi perguntado sobre ela, num almoço com jornalistas em Brasília, afirmou que ainda não a havia lido.

Os dois líderes devem se encontrar na próxima reunião do Mercosul, em julho, no Paraguai. A relação de Milei com o bloco também é uma incógnita. Depois de anos afirmando que preferia que fosse extinto e que a Argentina pudesse relacionar-se comercialmente de modo independente, Milei tem baixado o tom das críticas.

“Ele parece ter se dado conta de que precisa das relações com o resto da região. Se quer novos investimentos para o país, terá de se relacionar com os países da América do Sul, embora não goste de seus principais governantes”, afirma Cachanosky. Em seis meses, a realidade diplomática já se impôs.


*Sylvia Colombo é historiadora, jornalista especializada em América Latina, colunista da ‘Folha’ e vive em Buenos Aires. É autora de ‘O Ano da Cólera’

O paradoxo mexicano

Em 2021, em pleno Dia Internacional da Mulher, o Palácio Nacional do México amanheceu cercado por placas de metal de três metros de altura. O muro em volta da imensa construção asteca que abriga o poder federal isolava-a do El Zócalo, nome com o qual é conhecida a Praça da Constituição, no centro histórico da Cidade do México. O presidente Andrés Manuel Lopez Obrador, do partido Morena, não queria assistir manifestações e temia a aproximação de mulheres que reivindicavam ações mais efetivas do governo no combate ao altíssimo índice de feminicídio no país, que vivia uma onda crescente. Em 2020, o saldo era de 3.723 mortes violentas de mulheres, somando feminicídios e homicídios dolosos, crimes que contavam com alto índice de impunidade.

Obrador se dizia vítima de uma “difamação”. E justificava: “Eu não sou machista”. “É melhor colocar uma cerca do que pôr a tropa de choque diante das mulheres que vão protestar, como faziam antes“, dizia o presidente. O que o governo chamava de “muro da paz” foi batizado pelas feministas de “muro da vergonha”. E virou uma gigantesca lousa, na qual elas escreveram com letras brancas os nomes de vítimas de feminicídio.

Quem vê o feito das eleições do último domingo no país não vislumbra essa difícil convivência. Desde o início da semana, o México tem uma mulher eleita presidente do país. Mais do que isso, a campanha experimentou um fato político inédito na América Latina: duas mulheres disputaram a reta final das eleições. Claudia Sheinbaum (Morena), indicada por Obrador, obteve cerca de 60% dos votos, vencendo a candidata conservadora, Xóchitl Gálvez Ruiz (PAN).

Outro feito do México precisa ser levado em consideração: o país é o quarto do mundo em representação feminina no Congresso, no ranking da União Internacional Parlamentar (IPU) Essa paridade foi conseguida após a reforma promulgada em 2014, que está em vigor desde 2018. A lei reservou metade das cadeiras para mulheres e outra metade para homens. Depois, em 2019, em uma nova reforma, o país estendeu esse princípio para os outros poderes, sob o lema “Paridad en todo”. Com 50,4% de mulheres no parlamento, o México está atrás somente de Ruanda (61,3%), Cuba (55,7%) e Nicarágua (53,9%). Em abril deste ano, o Brasil estava na posição 133 desta lista, com 17,5% de mulheres congressistas.

Mas há um constraste surpreendente entre a realidade legal, que garante igualdade de assentos no parlamento, no Executivo e no Judiciário, e aquela da vida cotidiana. Como um país com esse índice de participação feminina ainda continua tão machista? O que a paridade na lei foi capaz de produzir? Como, em um ambiente permeado pela desigualdade, o princípio da paridade prosperou e chegou à legislação?

Coalizão

Para que a lei da paridade passasse, houve uma forte união entre parlamentares da direita e da esquerda, além da participação de mulheres do Judiciário. “É um caso de uma coalizão entre mulheres de grupos diferentes. As elites conseguiram fazer essa união”, contou ao Meio, a professora Debora Thomé, pesquisadora FGV Cepesp e doutora em Ciência Política.

Mesmo com a lei, o efeito na política não foi imediato, e os partidos dos mais diferentes matizes ideológicos tentaram artimanhas para driblá-la. O escândalo das “Juanitas” mostrou o quanto as legendas não queriam a obrigação imposta pela norma aprovada no Legislativo. Os partidos lançavam listas de candidatos como mandava a legislação, mas com homens de suplentes. Eleitas, as mulheres renunciavam ao cargo, deixando os postos para os homens.

E foi exatamente essa reação dos partidos que provocou a contrarreação do movimento de mulheres, influenciando o parlamento. “Eles aprimoraram a lei de modo que, agora, se tem paridade até ministerial. Se o presidente fizer uma reforma ministerial e tirar duas mulheres do ministério, tem que nomear outras duas”, exemplificou Thomé.

Las Soldaderas

Para a pesquisadora Sonia Corrêa, fundadora do SOS - Corpo Instituto Feminista para a Democracia, vem mais de longe a tradição de participação política das mulheres mexicanas. Mesmo antes da lei da paridade e da ampliação da forte onda feminista contemporânea, a participação feminina já era consistente. “A presença de mulheres no PRI, por exemplo, não deve ser descartada. Tem deputadas famosas dos anos 1980 e 1990. A presença feminina na grande política do México excede a nossa há muito tempo.” Ela observa também que os motivos que levam essas mulheres para a política também são bem diferentes dos que temos aqui. Ao contrário do Brasil, não são as esposas, as filhas, as primas e as irmãs dos políticos que, predominantemente, participam da vida política mexicana. "São mulheres autônomas, independentes, e esse é um aspecto a se considerar.”

Sonia acredita que a origem dessa participação esteja na Revolução Mexicana, o conflito que durou dez anos (1910 a 1920), de caráter popular, liberal e reformista, que colocou fim ao domínio de Porfírio Díaz (1876-1910). As mulheres mexicanas tiveram participação direta nas lutas, como “soldaderas” ou “adelitas”, encarregadas de trabalhos de apoio às tropas e também desempenhando tarefas armadas. “Havia batalhões de mulheres. Elas seguiam o exército, mas eram também bandoleiras. Tem, então, uma tradição profunda que eu acho que, no caso do México, precisa ser explorada com um pouco mais de acuidade”, pontuou.

Paradoxos

Um congresso paritário traz mais pautas que dizem respeito às mulheres? Para Sonia Corrêa, a paridade na política não significa que temas progressistas relacionados à mulher terão mais facilidade de aprovação. Trata-se de um contexto muito mais complexo.

Corrêa vê a política feita por mulheres seguindo a mesma tendência mundial de conservadorismo.“Tenho a impressão de que cada vez há mais mulheres engajadas em política de direita. Veja o que está acontecendo na União Europeia. O que pode favorecer a ultradireita nas eleições do Parlamento Europeu é uma aliança entre duas mulheres: Marine Le Pen e Giorgia Meloni.“

No caso mexicano, observa que “é a primeira vez que duas mulheres competem pela Presidência da República. Se de um lado esse fato reflete essa longa tradição, somada à política da paridade, por outro mostra uma feminização da política, tanto do lado da esquerda, quanto da direita, que seguem defendendo seus princípios”.

Relatando o que ouviu de pesquisadoras mexicanas, Debora Thomé diz que ainda existem muitas lacunas para que essa representatividade ocorra de fato, ressaltando que ”a representação da mulher é sempre muito complicada por que as mulheres são diferentes. Mulher é muita coisa. Mulher é a pessoa evangélica, é católica, é progressista, é conservadora, é lésbica e muito mais. Então, é necessário pensar o que é esse direito da mulher. O que é dela e não pode ser tirado? É sempre algo muito difícil de definir. As prioridades de uma não são as prioridades de outras. Inclusive essas prioridades são paradoxais”.

Clássicos fora do tempo e sobre as telas

Não importa o tema ou a ambientação, grandes obras da literatura mundial tratam de dramas e sentimentos básicos do ser humano, que tendem a ser imutáveis. Por conta disso, nos emocionamos hoje com a Epopeia de Gilgamesh, escrita em tábuas de argila na Mesopotâmia há pelo menos quatro mil anos. Essa atemporalidade também permite que tais histórias sejam transplantadas de seus contextos e períodos originais e ganhem novas abordagens sem que sua essência se perca.

Um bom exemplo estreou nesta semana nos cinemas: Grande Sertão, de Guel Arraes. No livro Grande Sertão: Veredas, publicado por João Guimarães Rosa em 1956, o narrador Riobaldo se envolvia em uma guerra contra e entre bandos de jagunços na região que une Minas Gerais e Bahia no início do século 20. Arraes transportou a trama para a periferia de uma grande cidade moderna tomada por facções criminosas e por um Estado cada vez mais policialesco.

Inspirada por este filme – e no melhor estilo “toró de cuca” – a equipe do Meio buscou mais momentos em que o cinema transplantou clássicos da literatura para outras épocas e ambientes. Às vezes de forma literal, às vezes adaptando ousadamente, mas sempre fiéis ao espírito da obra original. Como qualquer lista, não pretende esgotar o tema, e todo leitor vai sentir falta da sua adaptação preferida. Ah, refilmagens, adaptações de filmes de outros países e séries ficaram de fora. Quem sabe em outra edição?

O Bardo, sempre um favorito

“Ele não era de uma época, mas para todo o tempo.” Assim o poeta britânico Ben Jonson (1572-1637) se referiu a seu contemporâneo William Shakespeare. Tanto é verdade que a obra do Bardo se presta a todo tipo de adaptação, e o que temos a seguir é só uma pequena amostra.

Ricardo III – Coescrito e estrelado por Ian McKellen, este longa de 1995 transporta para a década de 1930 o conflito que sacudiu a Inglaterra 450 anos antes. Ricardo, duque de Gloucester e irmão caçula do rei, usa da intriga, do abuso e do crime (inclusive contra a própria família) para chegar ao trono e instalar um regime opressor. O diretor Richard Loncraine associou visualmente a jornada do vilão à ascensão do nazifascismo, adequando ainda mais a história a seu novo tempo. (Disponível com anúncios no Run:Time)

Ran – No Japão feudal, um poderoso daimio decide dividir seu território entre os três filhos, a despeito da oposição do caçula. Sem poder de fato, mas ainda querendo as prerrogativas que considera suas, o velho assiste impotente o conflito explodir em sua família, levando à tragédia final. Assim é Ran, a exuberante adaptação de Rei Lear filmada pelo grande Akira Kurosawa em 1985. Não foi sua primeira e bem-sucedida experiência shakespeareana. Em 1957 ele lançou Trono Manchado de Sangue, leitura samurai de Macbeth. (Disponível no Telecine)

Hamlet – Listar todas as adaptações de Hamlet é tarefa de enciclopedista. Das versões mais realistas aos desenhos animados (O Rei Leão), a tragédia do príncipe da Dinamarca nunca deixa de encantar. A escolhida é possivelmente a mais ambiciosa, dirigida e estrelada por Kenneth Branagh em 1996. Além de transferir o tempo da trama do fim da Idade Média para o século 19, Branagh usou o texto integral da peça, resultando numa opus com mais de quatro horas de duração. Também impressiona a ostentação artística, usando os dois maiores atores ingleses da época, John Gielgud e Judi Dench, em uma cena muda de alguns instantes enquanto o grande Charlton Heston declama um monólogo. (Disponível para aluguel no Prime Video)

Romeu+Julieta – A tragédias dos amantes de Verona é talvez até mais adaptada do que Hamlet (até a Turma da Mônica já fez a sua). A mais fiel é a de Franco Zeffirelli, de 1968, mas uma das mais criativas foi dirigida em 1996 por Baz Luhrmann, com Leonardo DiCaprio e Claire Danes. Ao transferir a história para Los Angeles, ele transformou os Montague e os Capuleto em empresas/quadrilhas rivais e o príncipe em delegado de polícia. Para não atualizar o texto, Luhrmann achou soluções inteligentes, como “espada” ser a marca de pistola usada pelos grupos rivais. (Disponível no Star+)

Planeta Proibido – Uma das últimas peças escritas por Shakespeare, A Tempestade conta a história do mago Próspero, deposto duque de Nápoles, que vive em uma ilha com a filha Miranda e seu servo, o selvagem Calibã. Com a tormenta do título, ele atrai para lá o barco onde estão o rei de Nápoles e outros nobres. Em 1956, a maior parte dos elementos da Tempestade foi adaptada na ficção científica Planeta Proibido, com Prospero (chamado aqui Dr. Morbius) sendo não um mago, mas um cientista que tenta dominar a tecnologia de um povo extinto. (Disponível na AppleTV)

10 Coisas que Odeio em Você – E Shakespeare também conversa com o público mais jovem. Em 1999, A Megera Domada foi para uma high school dos Estados Unidos, com o saudoso Heath Ledger fazendo um (não tão) bad boy contratado para seduzir a ranzinza Kat (Julia Stiles). Os aspectos mais machistas da peça original (o texto é do século 16, deem um desconto) foram podados. Já não se cobra de Kat obediência, só um pouquinho de simpatia. (Disponível na Disney+)

Esses moços

Mas não foi só o Bardo que ganhou uma roupagem jovem. Outros clássicos tiveram suas versões sub-25.

As Patricinhas de Beverly Hills – Pode não parecer, mas a comédia estrelada pela então diva teen Alicia Silverstone em 1995 é uma adaptação de Emma, da celebrada Jane Austen. Por trás do dinheiro, da futilidade e das toneladas de roupas, Cher (Silverstone) é uma jovem de bom coração e pouco juízo interessada em juntar casais e, quem sabe, arranjar alguém também. O longa marcou a estreia de Paul “Homem-Formiga” Rudd, que, por alguma arte das Trevas, continua praticamente com a mesma cara. (Disponível no Prime Video e na AppleTV)

Segundas Intenções – Em 1782, Choderlos de Laclos chocou a França com o romance epistolar As Ligações Perigosas, um retrato da devassidão e da autoindulgência da aristocracia pré-Revolução. Mais de dois séculos depois, em 1999, a história foi recontada tendo como pano de fundo outro ambiente aristocrático, a alta sociedade novaiorquina. Jovens e amorais, os semi-irmãos (filhos de casamentos anteriores dos pais) Sebastian Valmont e Kathryn Merteuil fazem uma aposta envolvendo a virgindade de uma moça com valores bem diferentes dos deles. Sarah Michelle Gellar, então em alta com a série Buffy, A Caça-Vampiros, encabeçava o elenco, mas foi Reese Witherspoon que se tornou uma estrela. (Não disponível em streaming. Assista ao trailer)

Você Nem Imagina – Imagine ser (ou se imaginar) feio e inadequado a ponto de terceirizar sua inteligência para que outro seduza quem você ama. O tema da peça Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, já inspirou dezenas de adaptações. Entre elas, Você Nem Imagina, escrito e dirigido por Alice Wu em 2020, se destaca por acrescentar a questão da sexualidade. Ellie Chu é uma jovem inteligente que ajuda o simpático, mas burro como uma porta, Paul a se aproximar, por cartas, da bela Aster, pela qual a própria Ellie é apaixonada. O aspecto trágico da peça de Rostand foi limado, afinal, Ellie e Aster mereciam um final feliz. (Disponível na Netflix)

Correndo por fora

E existem as adaptações que não se enquadram em qualquer categoria, fora a de grandes filmes, como as duas a seguir.

Apocalypse Now – Dois séculos, dois horrores. Em 1899, Joseph Conrad publicou em três partes numa revista O Coração das Trevas, lançado como livro três anos depois. Passam-se 80 anos e Francis Ford Coppola transferiu a história do Congo brutalizado pelo colonialismo belga para o Vietnã em guerra. Em vez de resgatar Kurtz, o protagonista, agora um fuzileiro americano, tem a missão de matá-lo. Nos dois casos, uma lição primorosamente realizada de como um ambiente brutal leva à loucura. (Disponível no Telecine)

Dom – Lançado em 2003, o brasileiro Dom, estreia de Moacyr Góes como diretor cinematográfico, é uma meta-adaptação do clássico Dom Casmurro, de Machado de Assis. Bento (Marcos Palmeira) recebe dos pais esse nome por conta do livro e crê ter a vida associada ao destino do personagem. Sua Capitu, cujo nome é Ana, é Maria Fernanda Cândido, que eleva os “olhos de ressaca” a outro patamar. Mas será que ele conseguirá escapar do ciúme que afligia o personagem de Machado? Infelizmente o filme não está no streaming para podermos responder.

De Britney Spears a fotos icônicas, veja os links que fizeram mais sucesso nesta semana:

1. Metro: Joe Biden inadvertidamente recria um meme clássico da Britney Spears.

2. New York Times: As 25 fotografias que definiram a era moderna.

3. G1: A aprovação da "taxa das blusinhas".

4. Panelinha: Uma deliciosa lasanha de berinjela para um só.

5. Der Spiegel: Imigrantes são abandonados sem comida ou água no deserto do Saara.

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Europa Centro-Oriental: Os jovens e a extrema direita

17/07/24 • 11:00

Os partidos de extrema direita da Europa Centro-Oriental estão observando atentamente a mobilização de um segmento inesperado de eleitores: os jovens adultos. Os programas partidários deixam isso evidente. O partido Revival da Bulgária condena o “monstruoso colapso demográfico” do país e propõe “ações direcionadas a fim de criar incentivos para que os jovens búlgaros” lá permaneçam ou retornem ao país em vez de trabalharem no exterior. A Alliance for the Union of Romanians (Aliança para a União dos Romenos) afirma que “a Romênia deve deixar de ser uma grande exportadora de mão de obra barata” e que “seu estatuto garante o acesso de jovens às estruturas de liderança do partido, em todos os níveis, em proporções significativas”. O Homeland Movement da Croácia solicita que o Estado realize uma “revitalização demográfica” oferecendo aos jovens incentivos para que permaneçam na Croácia, tais como subsídios para moradia e programas de benefícios profissionais. A ala jovem do Estonian Conservative People’s Party (Partido Popular Conservador da Estônia — EKRE), conhecida como Blue Awakening (Despertar Azul), é responsável por apresentar aos jovens valores nacionalistas e uma visão de mundo conservadora, oferecendo-lhes a oportunidade de serem socialmente ativos e influenciarem a política do Estado estoniano, expandindo seus horizontes em questões sociais e proporcionando aos membros a possibilidade de criarem laços de amizade com pessoas de opiniões semelhantes. O Our Homeland Movement (MHM) da Hungria detalha um programa de um novo despertar “no qual os jovens não sonham com o trabalho e a vida no exterior”. A preocupação da extrema direita com o iminente colapso demográfico intensificou os esforços para conquistar o coração e a mente dos jovens eleitores.

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