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6 de março de 2019
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Prezadas leitoras, caros leitores —

Dizem que, no Brasil, o ano só começa depois do Carnaval. Para nós jornalistas, sempre foi verdade. Como era difícil encontrar um político, um artista, um empresário que fosse entre janeiro e fevereiro, esse tempo modorrento, quente e sem notícias. Nada acontecia. Em 2013, mudou para nunca mais. Os anos se emendam uns nos outros entre crises e acontecimentos sem fim. Para quem aguarda o Carnaval, pois é: chegou a hora. Para quem também se enfiou neste nosso moto-contínuo, ora, a interrupção ligeira de dois dias e meio acabou: hoje é Quarta de Cinzas e, ainda que numa edição especial, o Meio está de volta.

— Os editores.


Mangueira é favorita no Rio; Mancha Verde é campeã em São Paulo


O prêmio Estandarte de Ouro, tradicionalmente oferecido pelo diário carioca O Globo na terça-feira de Carnaval à escola de samba preferida por seu time de jurados, foi concedido à Mangueira. Nem sempre este prêmio antecipa a campeã — mas, este ano, representou uma aparente unanimidade entre os críticos. Só que não entre o público. Foi um desfile político, contando uma história brasileira à esquerda vista pelo ponto de vista de índios e negros que, num Brasil polarizado, não tem como agradar a todos. A ala que encerrou fez homenagem à vereadora assassinada Marielle Franco. (Não faltou quem lembrasse que, dominada pelo tráfico e com um ex-presidente preso, a verde-rosa tem lá seu quinhão dado à violência do Rio.)

Mereceram destaque, também, os desfiles de Viradouro, Beija-Flor, Salgueiro, Vila Isabel e União da Ilha. As três primeiras, que saíram no domingo, foram prejudicadas pelo temporal que caiu sobre a cidade. A Viradouro do carnavalesco Paulo Barros, conhecido por seus efeitos especiais, apresentou bruxas, príncipes e poções de histórias infantis. Celebrando seus 70 anos, a Beija-Flor homenageou a passista Pinah Ayoub com uma ala de 35 mulheres negras de cabeça raspada. A Salgueiro mergulhou na mitologia iorubá para recontar a história de Xangô, orixá da imparcialidade, para assim falar de justiça. Já a Villa foi à cidade Imperial, Petrópolis, contar sua história. Também nela desfilaram familiares de Marielle Franco, num carro sobre a abolição da escravatura. A União da Ilha, por sua vez, tratou do Ceará. Acompanhe os melhores momentos de cada desfile do primeiro e segundo dias.

Porém... Se depender do prefeito Marcelo Crivella, as escolas de samba do Rio desfilarão, em 2020, sem qualquer subvenção do poder público. (Globo)

A Mancha Verde, escola de samba ligada à torcida organizada do Palmeiras, foi campeã pela primeira vez do Carnaval paulistano. Seu desfile contou a história de Aqualtune, que teria sido avó de Zumbi dos Palmares, e aproveitou o gancho para falar de escravidão, direitos de negros e mulheres, e intolerância religiosa. Foi uma disputa nota a nota com a Acadêmicos de Tatuapé que só se definiu no último quesito. A Vai-Vai, campeã de títulos, foi rebaixada junto com a Acadêmicos do Tucuruvi. Veja fotos do desfile campeão.

O presidente Jair Bolsonaro publicou um vídeo capturado, segundo ele, de um bloco de rua no Brasil. A cena, escatológica e homoerótica. “Não me sinto confortávem em mostrar”, escreveu, “mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro.”

Noutro tweet, o presidente virou seu canhão de seguidores contra Caetano Veloso e Daniela Mercury. Os artistas haviam publicado uma marchinha no início das festas — “Tá proibido o Carnaval, Nesse país tropical” dizia a letra. Bolsonaro respondeu com outro samba. “Tem gente ficando doida sem a tal da Lei Rouanet”, segue um músico não identificado. “O nosso Carnaval não está proibido, mas com dinheiro do povo não será permitido.”

Daniela Mercury: “Usei muito pouco de verba pública de impostos da lei Rouanet. Cada desfile de trio de graça para os foliões custa cerca de R$ 400 mil. Em 20 anos, tive apoio de cerca de R$ 1 milhão de impostos da lei Rouanet, cerca de R$ 50 mil por ano. Considere, sr. Presidente, que comecei o movimento de trios de graça para o público há 21 anos. Tenho cerca de R$ 50 milhões de retorno de mídia espontânea em cada Carnaval de Salvador. Tudo isso estimula o turismo e turbina a economia. Quando se ataca a arte de um país, quando se ataca os artistas brasileiros, se ataca a alma do povo desse país.”


Para garantir que Roma pudesse concorrer ao Oscar, a Netflix lançou o filme com exclusividade nos cinemas — mas apenas por três semanas, e sem divulgar a bilheteria. Foi, então, imediatamente liberado para seus assinantes. Para impedir atalhos como este, a indústria do cinema se movimenta para revisar as regras de lançamento no circuito que permitem a um filme que concorra ao prêmio. Quem pretende levar a proposta para a próxima reunião do conselho da academia é ninguém menos do que Steven Spielberg. Segundo o diretor, os filmes da Netflix são feitos para TV e deveriam concorrer apenas ao Emmy.

A Netflix, por sua vez, respondeu com um tweet: “Nós amamos cinema. Mas também amamos: Acesso para pessoas que nem sempre podem pagar o ingresso ou que vivem em cidades sem cinemas. Permitir que todos, não importa onde, possam aproveitar os lançamentos ao mesmo tempo. Oferecer mais espaços onde cineastas possam compartilhar sua arte. Nenhuma dessas coisas exclui a outra.”

Não surpreende a indústria estar preocupada com a Netflix. O Axios publicou um gráfico esclarecedor: em 2017, a empresa de streaming já faturava mais do que toda bilheteria dos cinemas americanos.

Política


O chanceler Ernesto Araújo exonerou, na segunda-feira, o embaixador Paulo Roberto Almeida. Autor de uma biografia do economista liberal Roberto Campos (Amazon), ele dirigia o Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais. Almeida republicou, em seu blog pessoal, três artigos a respeito da crise venezuelana. Um de Fernando Henrique Cardoso, outro do ex-chanceler Rubens Ricupero e, o terceiro, do próprio Araújo. Segundo o chanceler bolsonarista, FH e Ricupero “escreviam seus artigos espezinhando aquilo que não conhecem, defendendo suas tradições inúteis de retórica vazia e desídia cúmplice.” Será o segundo exílio do embaixador dentro do Itamaraty. No período petista, ele amargou 14 anos sem função determinada. (Folha)

Paulo Roberto de Almeida: “Os jornalistas todos têm feito comentários sobre as posturas anti-globalista, anti-climatista, essas questões envolvendo a Venezuela. Os militares parecem também terem visto isso e adotaram uma espécie de ‘cordão sanitário’ ao redor do chanceler. Isso porque foram várias coisas anunciadas que eles tiveram de dizer não, como a base militar dos EUA, a postura anti-China, a mudança da nossa embaixada em Israel para Jerusalém. Teve também uma primeira reunião do Grupo de Lima em que ele aceitou a cessação de qualquer relação militar com o governo de Nicolás Maduro. Há muitos elementos aí que criam um certo desconforto tanto no Itamaraty quanto fora. Acredito que o fato de eu repercutir um pouco esse debate público incomodou.”

Em 2017, Almeida viveu um debate sobre a globalização com o mentor do atual Itamaraty, Olavo de Carvalho. Via Twitter, o escritor nega ter-lhe pedido a cabeça.

Enquanto isso... De volta à Venezuela, o presidente autoproclamado Juan Guaidó tenta articular uma greve-geral contra o governo de Nicolás Maduro. Ele havia desrespeitado a ordem de não deixar o país, mas retornou, sem ser impedido, em voo que aterrissou no Aeroporto Internacional de Maiquetía, que atende a Caracas, impondo nova fissura ao governo.

Aliás... Outro bolsonarista, o repórter Alexandre Garcia, estreou canal no YouTube. Foi devidamente recomendado pelo presidente.

Pra variar... O vice-presidente, Hamilton Mourão, lamentou a desnomeação da cientista política Ilona Szabó para uma suplência do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. “Acho que perde o Brasil”, disse o general de reserva. “Perde o Brasil todas as vezes que você não pode sentar numa mesa com gente que diverge de você.” Szabó havia sido convidada por Sergio Moro mas, após pressão da base bolsonarista via Twitter, o presidente suspendeu a carta branca que havia prometido ao ministro e pediu que recuasse da decisão. (Valor)

E por falar... Enquanto se dedica a outros temas, há um assunto incrivelmente ausente no Twitter presidencial. A reforma da Previdência. Segundo levantamento de Sabrina Freire, do Poder360, aquela que é a principal política pública proposta pelo novo governo foi assunto de seis dentre os 326 tweets que lançou desde sua posse.


Ainda na sexta-feira, a força tarefa de PF e MP que apura a tragédia de Brumadinho remeteu ao conselho de administração da Vale um documento solicitando o afastamento do presidente e mais 13 executivos da mineradora. No sábado, três diretores — Peter Poppinga, Lucio Cavalli e Silmar Silva — solicitaram ao conselho seu afastamento. No final da tarde, foi a vez do presidente, Fabio Schvartsman, que também pediu seu afastamento temporário. O conselho nomeou Eduardo Bartolomeo como presidente interino. O executivo está na Vale há 10 anos e exercia o cargo de diretor de Metais Básicos.

Na segunda, o Wall Street Journal publicou que a Vale, em setembro do ano passado, cancelou o contrato com a única empresa de auditoria que se recusava a assinar a certificação da barragem de Brumadinho. A Tüv Süd havia sido contratada para assumir o trabalho e terminou por certificar a barragem.

Miriam Leitão: “A queda de Fabio Schvartsman é condição necessária, mas não suficiente, para começar a trabalhar por uma nova Vale. As duas tragédias foram tão devastadoras para o país e para a companhia que a reconstrução da imagem só será possível com uma mudança radical na mineradora. A licença do presidente, e sua substituição por pessoa da própria empresa, sem qualquer referência à necessária mudança, não reconstrói a reputação, nem encaminha a solução de qualquer dos inúmeros problemas nos quais a empresa continua soterrada. A Vale precisava de um nome forte e significativo que iniciasse uma revolução de valores, atitudes e administração. A mudança tem que mirar um objetivo mais amplo e permanente: transformar sua relação com as comunidades nas quais atua, com o meio ambiente e com os rios. Se ela não mudar de fato, ela morre.”

Carlos Ghosn, o brasileiro que presidia a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, pagou fiança de cerca de R$ 33 milhões e deixou hoje a prisão em Tóquio. O executivo estava preso há três meses e vai responder em liberdade à acusação de fraude fiscal e uso de verbas do grupo para benefício próprio. Analistas suspeitam que o processo tem, entre os motivos, pressão do governo japonês pela manutenção do controle, no país, de Nissan e Mitsubishi.





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6 de março de 2019
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