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16 de maio de 2019
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Multidões vão às ruas contra governo


Não há números oficiais. Nas contas da UNE, foram 1,5 milhão de pessoas nas ruas de todo o Brasil. Encheram mesmo as ruas. Segundo a Folha, manifestantes chegaram a ocupar dois quilômetros da larga avenida Paulista. No Rio de Janeiro, observa O Globo, foram preenchidos pela massa também largos trechos das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, além da rua Primeiro de Março. Em Salvador, conta o G1, o grupo se espalhou pela avenida Sete de Setembro. Todas as capitais, um total de pelo menos 200 cidades. A convocação de ontem partiu já faz mais de mês de partidos de esquerda e centrais sindicais — seria um protesto contra a reforma da Previdência. Nas fotos aéreas (veja), em que o tamanho da multidão fica muito claro, os grandes balões sugerem um retorno dos tradicionais protestos de esquerda. Mas há uma sutil diferença: não há predomínio de camisas vermelhas, porém um salpicado de todos os tons possíveis. Diferença que, nas fotografias feitas do chão, logo fica clara. Gente com todo tipo de roupa, inúmeros cartazes feitos a mão, e uma mensagem predominante: repulsa ao ataque que, no discurso, o governo faz contra as instituições de ensino e pesquisa. São cinco meses de mandato. Na história da República brasileira, desde 1889, nunca um presidente atraiu tanta gente às ruas em protesto com tão pouco tempo no cargo.

Galerias: registros do G1 pelo Brasil, com destaque para os cartazes, assim como do Poder 360, em Brasília.

Jair Bolsonaro, antes de saber do vulto das manifestações: “A maioria ali é militante. Não tem nada na cabeça. Se perguntar 7 vezes 8, não sabe. Se perguntar a fórmula da água, não sabe. Não sabe nada. São uns idiotas úteis, uns imbecis que estão sendo utilizados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais do Brasil.” (G1)

Ele não estava no Brasil. Estava em Dallas, no Texas, para receber o prêmio de Personalidade do Ano que a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos não conseguiu entregar em Nova York, por falta de espaço que o acolhesse. O prefeito de Dallas — democrata — recusou-se a recebê-lo. Foi recebido, porém, pelo ex-presidente George W. Bush. A convite, informou o porta-voz do Planalto. Ele se convidou e foi recebido por cortesia, apesar de a visita ser inesperada, disse a assessoria do republicano. (Veja)

O vulto que tomou preocupa o Planalto. A portas fechadas, auxiliares do presidente reconhecem que foi grande e que o próprio Bolsonaro, pela manhã, inflamou com seus comentários o movimento. (Estadão)

José Roberto de Toledo: “Todo governo escolhe sua oposição. Ao definir qual rubrica orçamentária recebe mais ou menos, o mandatário beneficia uns em detrimento de outros e acaba por eleger quem vai se opor a ele. O governo Bolsonaro escolheu estudantes, professores e todos os que prezam a educação pública. Se foi de caso pensado não foi bem estudado. Bolsonaro levou centenas de milhares às ruas e tomou uma sova sem precedentes no seu ringue predileto, as mídias sociais. Gente jovem foi às ruas em quantidades industriais não só no Rio, Belo Horizonte e Fortaleza, mas no agreste pernambucano e interior paulista. O movimento é espalhado e descentralizado. Quase toda grande cidade tem um campus universitário, quase todo município tem pelo menos uma escola. Mais capilaridade e conectividade, impossível. Universitários são os mais engajados nas mídias sociais e muitos possuem smartphones. Fica fácil para se organizar, escolher pontos de encontro, agendar manifestações. Faltava um motivo, que o governo entregou de bandeja. Ao copiar o molde de governos europeus de extrema-direita que atacam instituições universitárias, a parelha governamental fez um estrago digno de uma manada de javaporcos. Ignorou a extensão, onipresença e capilaridade das universidades e dos cursos técnicos federais. O movimento de protesto pode acabar amanhã sem dar em nada de concreto. Mas a imagem de um presidente popular e dono das ruas ficou no passado. Bolsonaro e companhia conseguiram materializar nas praças as taxas crescentes de avaliação negativa do governo, para felicidade do Centrão — o consórcio dos partidos amorfos que tem a maior bancada do Congresso. Rodrigo Maia agradece: Bolsonaro deu mais um passo para o parlamentarismo de fato.” (Piauí)

Então... O presidente não estava, mas o ministro da Educação, Abraham Weintraub, sim. E ao vivo, na televisão, prestando depoimento no plenário da Câmara, enquanto as TVs oscilavam entre mostrá-lo e às multidões. O discurso de que puniria cursos de Humanas, universidades que tinham ‘balbúrdia’ ou excesso de gente nua sumiu, substituído por um técnico. Não há cortes, como falara o próprio governo. É contingenciamento — o dinheiro volta quando o caixa do Estado encher. “Vim da iniciativa privada”, afirmou. “Quando você bate a meta, desvia recursos para as metas em que está aquém.” Sua lógica é de que é preciso escolher e as universidades não precisam de dinheiro como precisa o ensino básico. (Poder 360)

O ministro não ficou sob pressão contínua. O Centrão, que trabalhou para sua convocação, optou por não forçar o desgaste. Morde, assopra. O líder do DEM, no entanto, alfinetou: não dá aval para as ‘pautas ideológicas’ do governo. (Estadão)

Paulo Celso Pereira: “Desde sua eleição, Bolsonaro escolheu três ministérios para travar sua batalha ideológica: Relações Exteriores, Direitos Humanos e Educação. Enquanto os dois primeiros têm relação apenas indireta com a vida dos brasileiros, o terceiro faz parte do dia a dia da população. De acordo com o Censo escolar do ano passado, 39,5 milhões de brasileiros estavam matriculados nas escolas públicas do país. Além deles, boa parte dos 9 milhões que estão no ensino básico privado sonham em um dia ingressar nas universidades públicas, que abrigam hoje quatro milhões de estudantes. Bolsonaro escolheu para a pasta o professor Ricardo Vélez, um ilustre desconhecido. Sua curta gestão foi marcada por polêmicas. O economista Abraham Weintraub o sucedeu com o mesmo espírito. Até que vieram os cortes. A discussão da medida poderia ter sido técnica, ante a gravidade da crise econômica. Mas foi o próprio governo que a tratou como uma decisão política quando o ministro disse, inicialmente, que ela se daria sobre instituições onde houvesse ‘balbúrdia’. A reação veio ontem. Jair Bolsonaro, na esteira do antipetismo, obteve notáveis 55% dos votos. Desde então, sua popularidade vem sendo minada a passos largos. O Congresso vem mostrando que já não teme as bordoadas ou tuítes do clã presidencial. Quem encheu as ruas ontem também não.” (Globo)

Por fim: saiba o que é verdade, e o que não é, a respeito do que o governo chamou de cortes e agora chama de contingenciamento. (BBC)

Segundo os números levantados pelo Ministério Público do Rio, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro lucrou mais comprando e vendendo imóveis do que com o salário de parlamentar, entre 2010 e 2017. Fez R$ 3,89 milhões em negócios que, os procuradores desconfiam, foram subavaliados na compra e superavaliados na venda — indícios de lavagem de dinheiro. Em um caso por exemplo, mostram os documentos obtidos pelo repórter Fernando Molica, adquiriu em 2012 um apartamento em Copacabana por R$ 140 mil e, pouco mais de um ano depois, o vendeu por R$ 550 mil — quase 300% de ganho. O índice do mercado indica uma valorização de 11% dos imóveis da região no mesmo período. Em nota oficial, o atual senador afirma que os números citados pelo MP são falsos. (Veja)

Viver


Para ler com calma. Angela Alonso, presidente do centro de pesquisa Cebrap, mostra-se preocupada com um governo que toma ‘atitudes de polícia do pensamento’ e aflita com a ‘linguagem esotérica’ dos acadêmicos. Em entrevista à Folha, a professora da USP também critica a dificuldade da esquerda em se reciclar, como fez a direita. Ela passa o bastão neste mês ao professor de filosofia Marcos Nobre. “Tem algo que, de certo modo, é mais virulento que na ditadura: uma tentativa de direcionar as linhas de pesquisa, definir o que deve ou não ser pesquisado numa universidade. Isso não existe em nenhum lugar do mundo. O grau de pressão é inédito para minha geração.”

O Senado correu e aprovou ontem um projeto de 2010 que fortalece as comunidades terapêuticas e facilita as internações involuntárias de usuários de drogas. O projeto prevê a possibilidade de se destinar até 30% do imposto de renda para as entidades de recuperação de dependentes e por isso está sendo chamada de ‘Lei Rouanet das clínicas’. A PLC 37 aguarda agora apenas a sanção do presidente Jair Bolsonaro. Em junho último, o MP detectou diversas violações dos direitos humanos em instituições assim — pessoas contidas por força ou por meio de medicamentos e alocadas em condições precárias. Os críticos temem que a lei aprovada fortaleça redes privadas e religiosas e enfraqueça um sistema que não é o público. Já quem apoia, acredita que indicadores de sucesso dos tratamentos aplicados funcionariam como mecanismos de fiscalização. (El País)

Cultura


A Festa Literária Internacional de Paraty anunciou na manhã de ontem a programação de sua 17.ª edição, que terá Euclides da Cunha como autor homenageado. A escolha de Euclides tem a ver com a vontade de Fernanda Diamant, a nova curadora da Flip, de investir mais em não ficção na programação do evento em 2019. “Os Sertões é o primeiro clássico de não ficção brasileira, uma obra exemplar. Uma não ficção que é uma grande literatura”, disse a curadora. Walnice Nogueira Galvão, uma das maiores especialistas sobre o autor, faz a conferência de abertura que ganhou o título de Canudos. A Flip 2019 será realizada entre os dias 10 e 14 de julho com a presença de 33 escritores de 10 nacionalidades.

Destaque para a venezuelana Karina Sainz Borgo, autora de Noite em Caracas, romance sobre a destruição causada pelo chavismo em seu país. Ela participa de mesa no dia 12 de julho e foi um dos nomes mais badalados na Feira de Frankfurt do ano passado. Karina já teve seu livro vendido para 22 países. No mesmo dia, acontece uma mesa com a nigeriana Ayobami Adebayo, que escreveu Fique Comigo, livro sobre a tradição poligâmica de seu país. A Flip também receberá uma das estrelas em ascensão da literatura internacional, a israelense Ayelet Gundar-Goshen, autora de Uma Noite, Markovitch.

O filme pernambucano Bacurau foi exibido ontem em Cannes e disputa a competição oficial pela Palma de Ouro. A crítica recebeu bem o novo trabalho do diretor Kleber Mendonça Filho, que voltou determinado, depois de seu aclamado Aquarius, oxigenar o cinema brasileiro. “Temos dois sentimentos em paralelo: por um lado de satisfação pessoal e artística, e por outro um sentimento de pena, porque o cinema brasileiro vinha em uma curva ascendente e agora enfrenta uma crise”, disse o cineasta. (Diário de Pernambuco)

Cotidiano Digital


Mudaram as posições no ranking de melhor banda larga brasileira. Estabelecido pela Netflix, que avalia a velocidade média dos clientes de cada operadora, a TIM Live, que vinha em primeiro, caiu para terceiro. Oi Fibra está em primeiro e Algar Fibra, em segundo. A Net Vírtua é a quarta colocada.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, anunciou que publicará no segundo semestre um cronograma para que o Brasil adote o sistema de open banking. Por ele, com um único app, clientes podem ver todas suas contas bancárias e investimentos, fazer tranferências e pagamentos, não importa em que ou em quantos bancos.





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