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21 de fevereiro de 2020
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Prezadas leitoras, caros leitores —

Amanhã tem Edição de Sábado. Vamos mergulhar no mundo das fantasias de carnaval, no embate entre tradição e apropriação cultural. Há muito nas ciências humanas para defender o hábito de se fantasiar, não importa do quê. Mas também o conceito de apropriação cultural é importante, ainda mais num país de tantas misturas quanto o Brasil. Compreenda os porquês — basta assinar. Não custa quase nada e nos ajuda a manter vivo esta sinopse diária do que é importante saber.

Aí, de segunda a quarta-feira, nós por aqui nos ausentaremos. Uns isolados, longe da folia — outros metidos em blocos e avenidas, talvez fantasiados, talvez não. Quem há de saber? O Meio volta quinta-feira.

Até lá deixamos, por aqui, os versos do maior de nossos poetas, Manuel Bandeira.

Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada.
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!

— Os editores.


Caos no Ceará e medo de que motim da PM se espalhe


O presidente Jair Bolsonaro atendeu ontem a um pedido do governador cearense Camilo Santana e autorizou, além do envio da Força Nacional, também as Forças Armadas para garantir a ordem durante o motim da PM local. O presidente assinou um decreto de Garantia da Lei e da Ordem no período que vai até 28 de fevereiro, garantindo a segurança durante o carnaval. Em Brasília, porém, nos outros poderes a avaliação é de que muito da atual crise com as polícias amotinadas é responsabilidade da família presidencial. Repórteres da Folha ouviram ministros do Supremo e congressistas. As polícias se sentem respaldadas pelo discurso dos Bolsonaros. Em São Paulo, o secretário de Segurança Youssef Abou Chahin é um dos que manifestam abertamente preocupação. “Se acabar em pizza”, afirmou ao Painel se referindo ao levante no Ceará, “a chance de virar moda é grande.” (Folha)

Pois é... Como lembra Vera Magalhães, nem Bolsonaro, nem o ministro Sérgio Moro, condenaram até agora a greve dos policiais no Ceará. Uma greve que é ilegal. (BR Político)

A situação é séria. O Ceará registrou 29 mortes ao longo de 24 horas — a média diária no ano estava em seis. Só nesta madrugada já havia o registro de mais dois assassinatos. Ontem, encapuzados cercaram e tomaram um carro da polícia civil. A desconfiança era de que eram amotinados. (G1)

O senador Cid Gomes tem quadro clínico estável, após ter sido atingido por dois tiros, em Sobral. Ele divulgou um vídeo no qual agradeceu à equipe médica. (O Povo)

São doze os estados onde as polícias pressionam por aumentos salariais. Em sete deles, os embates são públicos. (Estadão)

José Roberto de Toledo: “Muito antes dos evangélicos, foram policiais e militares que transformaram o capitão em deputado. Catapultado à Presidência, Bolsonaro assiste agora a esses mesmos policiais e militares acenderem o pavio para implodir a agenda reformista de Paulo Guedes — e, por consequência, ameaçar a aliança da farda com o capital. Os generais resistem à reforma administrativa do ministro da Economia, atrasaram o envio do projeto ao Congresso e motivaram o mimimi de Guedes. Bolsonaro teve que embalar o ministro com um discurso jurando ser fiel ‘até o último dia’. Promessa de fidelidade de quem demitiu Santos Cruz, Bebianno e Onyx com requintes de crueldade. A maior ameaça às ilusões dos usuários de patinetes da Faria Lima vem de outro quartel, porém. Os policiais amotinados do Ceará não estão sós. Seus colegas da Paraíba também se insubordinaram. A chantagem se repete contra governadores no Espírito Santo e na  Bahia, entre outros. Em Minas Gerais ela já deu certo: o governador ultraliberal do partido Novo correu a dar um aumento de 42% para os PMs ao primeiro bater de coturno. Se derrubarem a resistência de outros governadores, os policiais provocarão mais do que uma fissura no discurso reformista de Paulo Guedes. Será a maior demonstração de que a polícia se tornou um poder autônomo e independente, que não está sujeito aos controles democráticos.” (Piauí)

Flávio Bolsonaro visitou o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega na prisão mais de uma vez. A declaração é do vereador carioca Ítalo Ciba que foi preso com o ex-PM, em 2003, por homicídio, tortura e extorsão. Segundo Ciba, Adriano conheceu o filho Zero Um por meio de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio e investigado por comandar o esquema de rachadinha no gabinete do senador. “Eu sei que o Queiroz chamava o Adriano pra ir lá no gabinete e, quando nós estivemos presos o Flávio foi visitar a gente. Mais de uma vez”, disse Ciba. Zero Um nega. Ele diz que não tem relação com o miliciano e esteve apenas uma vez na cadeia, em 2005, para entregar a Adriano a medalha Tiradentes, maior honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Rio. (Globo)

Pois é. Dias antes de ser preso, o miliciano recebeu homenagens de Flávio e Carlos Bolsonaro. O filho Zero Três apresentou moções em nome dele e de outros oito policiais acusados de uma série de crimes que vão de homicídio doloso à corrupção. Entre eles, também estava Queiroz. (Globo)

Depois de uma semana de divergências, Jair Bolsonaro e Paulo Guedes estão chegando a um acordo. O presidente disse que a proposta da reforma administrativa, que foi um dos pilares das discussões entre os dois, está madura. O texto, no entanto, só deve ser enviado ao Congresso em março. A razão pela demora, segundo Guedes, são os ajustes que têm sido feitos. Mesmo assim, defendeu palpites de Bolsonaro no texto. Guedes ainda disse que a aprovação da PEC do Pacto Federativo é a solução para o embate com o Congresso sobre o orçamento. “Essa disputa, essa ferocidade toda que observamos, é em torno de 3% ou 4% do Orçamento. O resto está carimbado. Façamos as reformas e teremos 100% do Orçamento para discutir”, disse. (Folha)

Segundo assessores presidenciais, Guedes foi cobrado por Bolsonaro. Um crescimento mínimo de 2% para este ano.

Enquanto isso… Davi Alcolumbre, presidente do Senado, deve convocar o general Augusto Heleno para explicar declaração de que o Congresso estaria chantageando o governo sobre o orçamento. Geralmente de posicionamento mais governista, Alcolumbre relatou a pessoas próximas que se sentiu ofendido com a posição do ministro. (Folha)

Meio em vídeo: na constante quebra de decoro, o presidente não entende que educação não é luxo. É ferramenta de trabalho. Assista. Aliás... Já assinou o Meio no YouTube?


Misoginia, racismo e homofobia
Lá vem o presidente do Brasil descendo a ladeira

Tony de Marco

 
Bandeira-liquidificador

Histórias para ouvir

Histórias para ouvir


Uma biografia boa demais para ser apenas lida. Precisa ser escutada também. Seja rumo ao Carnaval, ou enquanto o bloco não vem. E os leitores do Meio têm direito a experimentar o Storytel por 30 dias. Sem custo. Experimente.

Elke foi atriz, modelo, cantora e poeta. Mas também foi presa política por seis dias quando peitou a ditadura, em 1971. Foi a modelo mais requisitada do país ainda que sua personalidade forte atropelasse sua carreira. Foi mulher de oito. Foi madrinha de ao menos oito mil. Foi apátrida. Foi alcoólatra. Foi funcionária de Silvio Santos e foi uma das suas maiores antagonistas. Foi rica e foi pobre. Foi uma pessoa trágica, mais do que dramática.Foi uma das primeiras mulheres a afirmar em rede nacional de televisão que havia feito um aborto. Depois dois. Depois três. Foi uma pessoa que escolheu viver sob o signo da alegria. Foi uma ermitã nos últimos momentos. Elke Maravilha foi uma das pessoas mais famosas do Brasil. Sua história nunca tinha sido escutada por inteiro. Do premiado jornalista Chico Felitti, autor de Ricardo & Vânia, Mulher Maravilha é a biografia de Elke, e o primeiro original da Storytel no Brasil. Agora em áudio e narrada por Fernanda Stefanski. Escute.

Cultura


Rio de Janeiro, carnaval 2020. Separamos dois sambas que são mais atuais do que nunca. A São Clemente vai desfilar na segunda-feira, às 21h30, as histórias de malandragem e falcatruas da nossa história. Com o enredo “O conto do vigário’, do carnavalesco Jorge Silveira, e samba composto pelo humorista Marcelo Adnet, a escola traz a irreverência e a crítica bem-humorada que lhe é peculiar. Trecho:

Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu!
E o país inteiro assim sambou
“Caiu na fake news!”

Já a azul e branco de Madureira vem com o enredo “Guajupiá, terra sem males", dos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage. Última a desfilar no domingo, a Portela vai contar a história dos primeiros habitantes do Rio e lembrar hábitos, cultura, tradição, religião, política e vida social dos tupinambás, que fizeram da Baía de Guanabara o seu paraíso. Um trecho do samba-enredo, um dos mais elogiados:

Ao proteger Karioka
Reúno a maloca na beira da rede
Cauim pra festejar, purificar
Borduna, tacape e ajaré
Índio pede paz, mas é de guerra
Nossa aldeia é sem partido ou facção
Não tem bispo, nem se curva a capitão
Quando a vida nos ensina
Não devemos mais errar
Com a ira de Monã
Aprendi a respeitar a natureza, o bem viver

Para escutar todos os sambas do Rio.

Em Recife, o Galo da Madrugada desfila pelas ruas do Centro, abrindo o Sábado de Zé Pereira. Este ano, a agremiação homenageia a literatura de cordel e os xilogravuristas nordestinos, com o tema "Xilogravuras no Cordel do Frevo". O artista plástico J. Borges foi escolhido para representar os artesãos de todo o país no desfile. Em Olinda, o Homem da Meia-Noite comanda a folia com o tema "Chover", uma reflexão sobre a preservação da água. O calunga homenageia a banda Cordel do Fogo Encantado, o compositor Rogério Rangel e o Maestro Oséas.

No Rio de Janeiro, veja a programação completa dos blocos. De acordo com a Riotur, a concentração dos desfiles com maior público acontecerá no Centro, pois é um local com menos moradores e trânsito reduzido neste período.

Em São Paulo, serão 644 blocos em 678 desfiles, segundo a prefeitura. Lista oficial mostra datas e locais.

Em Salvador, a abertura oficial aconteceu ontem, comandada por Carlinhos Brown, e com cerca de 150 percussionistas do Movimento Percussivo Timbaleira Drummers, no Farol da Barra. Brown puxará também o arrastão da meia-noite, entre terça-feira de carnaval e a quarta de cinzas. Ele volta a se apresentar após ausência na folia em 2019. Até a terça-feira (25), vários trios com apresentações gratuitas vão se apresentar nos circuitos.

Em São Paulo, as mãos femininas que tocam tambor para Xangô, mobilizadas todo o ano pelo bloco Ilú Obá de Min, abre o Carnaval de rua hoje com cortejo em homenageando Lia de Itamaracá. A artista pernambucana estará presente e será coroada pelas mais de 400 mulheres durante o desfile, que sai da Praça da República. No domingo, o Ilú se concentra no entorno do Sesc Bom Retiro para novo cortejo. No sábado e no domingo, Lia apresenta no Sesc Pompeia o repertório do disco Ciranda sem Fim, lançado no ano passado. O Carnaval no Pompeia tem ainda o carimbó paraense de Dona Onete na segunda e na terça. Alguns blocos de rua para curtir: amanhã tem o Zumbiido Afropercussivo no Largo do Paissandu e no domingo o Bloco do Frank Ocean na Praça dos Omaguás. Nos dois dias, a big band Vá de Jazz (arregimentada pelo JazzNosFundos) desfila na Rua João Moura. Na segunda, o Unidos do Swing bebe da mesma fonte para animar o Largo São Francisco, enquanto, na terça, o Agora Vai completa 16 anos de fervo na região da Barra Funda. Hoje, no Sesc Vila Mariana, tem show de homenagem aos 80 anos de Osvaldinho da Cuíca, que estará acompanhado do Samba da Vela, Velha Guarda da Camisa Verde e Branco, Tobias do Vai-Vai e outros convidados.

No Rio, hoje à noite tem edição especial da festa BrZZil com show do BaianaSystem na Sociedade Hípica. No MAM, DJ CIA traz de São Paulo seu Bloco Beatloko, focado em rap. Fundado em 1961, o tradicional bloco Cacique de Ramos desfile na Avenida Chile no domingo, segunda e terça-feira de Carnaval. O enredo de 2020 homenageia a sambista Beth Carvalho. Segunda é dia do Samba do Trabalhador, roda comandada por Moacyr Luz que realiza nesta semana seu 9º Baile de Carnaval no Renascença Clube. Na mesma noite, a festa Batekoo promete 12h de sua edição foliã, o Carnakoo, com entrada gratuita. O Bloco Carnabass reúne equipes como as do Heavy Baile e do Wobble para uma festa no Jardim do MAM, na terça. No mesmo dia, o Aterro do Flamengo é ocupado pelo desfile da Orquestra Voadora. Na quarta-feira de cinzas tem Bloco do Tropkillaz & Major Lazer Soundsystem no HUB RJ. Para mais dicas culturais, assine a newsletter da Bravo!

Viver


Na Coreia do Sul, um grupo religioso foi identificado como um viveiro de coronavírus em meio a um aumento acentuado de casos confirmados no país. A filial da Igreja Shincheonji que atua na cidade de Daegu responde por 30 de 53 novos casos registrados oficialmente no país. O número de casos no país, 28 há uma semana, passou para 204 na sexta-feira.

Cotidiano Digital


Por falar em coronavírus,  aplicativos de jogos foram baixados na China a um nível recorde: mais de 222 milhões de downloads desde o início do mês — um aumento de 40% em relação ao mesmo período em 2019. O motivo: pessoas confinadas em casa. As escolas fechadas também estão influenciando o download de aplicativos educativos, que estão crescendo o dobro da taxa média do ano passado.

O Google fez a sua primeira mudança nos termos de serviço desde 2012. Ela não afeta como a empresa coleta, armazena e trata os dados dos usuários, mas procura aumentar a clareza e a transparência. Uma das principais é atender legislações de privacidade e proteção de dados dos países, como a LGPD no Brasil, que começa a valer em agosto. O Google poderá acatar ou negar, com base na legislação brasileira, pedidos de dados feitos pelo governo. Essa é uma mudança em relação as big techs, que têm adotado o discurso de que não fornecem os dados de usuários, já que contraria a legislação americana.





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21 de fevereiro de 2020
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