Ainda não é assinante? Assine. Não custa nada.



15 de janeiro de 2021
Consultar edições passadas



Prezadas leitoras, caros leitores —

No momento em que o país registra diariamente óbitos por Covid-19 na faixa dos quatro dígitos e pacientes morrem asfixiados naquele que já foi chamado de o pulmão do mundo, todos nos voltamos aflitos para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No domingo, seus diretores vão se reunir para conceder ou não a autorização de uso emergencial da CoronaVac, representada pelo Instituto Butantan, e da vacina de Oxford/AstraZeneca, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Se aprovadas, sua aplicação deve começar já na próxima semana.

E assim, enfim, começaremos a vacinar brasileiros.

Desde os tempos do próprio Oswaldo Cruz, nunca se falou tanto em vacinas por aqui, nem houve tantas dúvidas. Afinal, quantas vacinas há em produção? Por que só duas estão em análise pela Anvisa? Qual a diferença entre os tipos de imunizantes? O que exatamente é “eficácia global”? Quais países estão mais adiantados na vacinação? Por quê? Mais que dúvidas, as pessoas têm medo.

Mas existe um remédio eficiente contra o medo: a informação. Pensando nisso, a Edição de Sábado o Meio vai reunir, organizar e apresentar o que se sabe sobre as vacinas, prontas e em desenvolvimento, contra a Covid-19. Queremos, como em todos os assuntos, oferecer a quem nos lê uma barreira sanitária contra a desinformação.

A Edição de Sábado é uma exclusividade dos assinantes premium. Mas, neste sábado, nós vamos fazer diferente. O assunto é importante demais, é de utilidade pública, e por isso todos os assinantes do Meio vão recebê-la.

Ainda assim, assine. São dez reais reais por mês — R$ 9,90, na verdade. É pouco — mas é muito para nós. O que aconteceu nos Estados Unidos, na semana passada, é fruto de uma cultura política voltada para propositalmente desinformar a população. Esta é a arma usada para atacar a democracia. Está acontecendo lá, está acontecendo aqui. A assinatura dos leitores é nossa principal fonte de recursos. E é bom que seja. Porque esta briga de resistência democrática é coletiva

Assine o Meio.

Faz diferença.

— Os editores


O horror, o horror


“Orem pelo Amazonas.” O apelo desesperado de uma técnica de enfermagem dá a exata medida da tragédia humanitária que se abateu sobre o estado, em especial em Manaus. Sem oxigênio nos hospitais, profissionais de saúde tentam evitar que pacientes com Covid-19 morram asfixiados fazendo ventilação manual. Diante do caos, 750 doentes começaram a ser transferidos em aviões da FAB para hospitais em outros cinco estados (Goiás, Piauí, Maranhão, Paraíba e Rio Grande do Norte) e no Distrito Federal.

Para tentar reabastecer os hospitais da capital, a White Martins, responsável pelo fornecimento, conseguiu enviar alguns cilindros e prometeu trazer oxigênio da Venezuela, onde também atua. Aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), por sua vez, desembarcaram ontem com oxigênio vindo de São Paulo. Mas a demanda é diária nos centros de saúde de Manaus e hoje supera os 28 mil metros cúbicos que a empresa é capaz de produzir na sua unidade local. O governo federal também pediu ajuda aos Estados Unidos para o envio de aviões com tanques do gás.

Cientistas identificaram que uma nova cepa mais contagiosa do Sars-Cov-2, o vírus que causa a Covid-19, surgiu no Amazonas, o que pode explicar, em parte, o aumento nos casos. A média móvel de mortes nos últimos sete dias subiu 183% em comparação às duas semanas anteriores — o aumento médio em todo o país foi de 41%. Pela primeira vez foram registrados mais de 3.800 casos em um único dia, e somente ontem 51 pessoas morreram no Amazonas. Em todo o Brasil houve ontem 1.151 óbitos, elevando o total a 207.160. É o terceiro dia consecutivo com mais de mil mortes.

Na tentativa de conter as aglomerações e o contágio, o governador Wilson Lima (PSC) decretou toque de recolher na capital amazonense, entre as 19h e às 6h, exceto para trabalhadores de serviços essenciais. Farmácias só poderão atender a entregas, e todo o transporte de passageiros, inclusive fluvial, está suspenso.

Mas é importante lembrar: em dezembro, Lima baixou um decreto apertando a quarentena no estado. Ele recuou após uma onda de protestos de comerciantes, preocupados com as vendas de Natal. Na época, a desistência do governo em implantar o lockdown foi celebrada e incentivada pelas principais estrelas bolsonaristas, incluindo jornalistas, celebridades e políticos que falavam em ‘liberdade’ e acusavam o lockdown de não funcionar.

Pois é... Como sói acontecer, na terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro culpou o governo do estado e a prefeitura de Manaus pelo iminente colapso no sistema de saúde local. “O governo estadual e municipal (sic) deixou acabar o oxigênio”, afirmou. (Globo)

E enquanto Manaus enfrenta o horror, o Brasil espera uma vacina. A três dias da reunião prevista para dar aval à CoronaVac e à vacina de Oxford/AstraZeneca, a Anvisa notificou respectivamente o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para que enviem novos dados. O Ministério da Saúde prometeu entregar 8 milhões de doses de ambos os imunizantes a prefeitos para início da vacinação no dia 20.

E o governo vetou a ideia de empresários que gostariam de comprar vacinas para imunizarem seus funcionários. A informação foi dada pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

Por conta da nova cepa identificada no Amazonas, o governo do Reino Unido proibiu todos os voos oriundos da América do Sul. Sobrou até para Portugal, por conta de seus “fortes laços de viagens com o Brasil”. O governo português classificou a medida como “absurda”.

O Enem vai acontecer mesmo no próximo domingo e no dia 24. O Tribunal Regional Federal da 3ª região negou o recurso da defensoria pública que pedia o adiamento do exame em função da Covid-19. Os desembargadores mantiveram o entendimento da primeira instância de que as medidas de segurança anunciadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) são seguras. O Inep, aliás, disse não garantir a reaplicação das provas onde forem adiadas por autoridades locais. A Justiça do Amazonas, por exemplo, suspendeu o Enem enquanto durar a situação de calamidade no estado. O governo federal está recorrendo da decisão.


Corrida Maluca

Tony de Marco e Spacca

Corrida maluca

Quando duas correntes políticas perdem a capacidade de conversar, a democracia se vê ameaçada. Quando não há mais fontes de informação que não tendam para um lado ou para o outro, a ameaça se agrava. O Meio é crítico — e sempre será, não importa qual governo ou qual a oposição. Investir em jornalismo é uma aposta na democracia. Assine o Premium.

Política


Não são apenas os militares e os especialistas em segurança pública que veem com maus olhos os dois projetos no Congresso retirando poder dos governadores sobre as polícias civil e militar. Para o ex-ministro do STF Celso de Mello, a ideia representa um “retrocesso inaceitável”. Foi a primeira vez que o antigo decano do Supremo se manifestou publicamente desde sua aposentadoria, em outubro. Os atuais membros da Corte também veem com apreensão as propostas, que, segundo eles, deixariam os governadores reféns das polícias. (Estadão)

Nos filmes de espionagem, obter uma lista de agentes de inteligência é o sonho de todo vilão. No Brasil, bastava consultar o site do Sindicato dos Servidores Públicos do Distrito Federal. Uma falha no sistema tornou pública uma lista de filiados, incluindo 198 funcionários da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), cujo sigilo de dados é garantido por lei. A lista já foi retirada do ar.

Meio em vídeo. A disputa pelo comando da Câmara dos Deputados continua. No dia 1º de fevereiro, alguém será escolhido para ocupar a cadeira do atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas quem será seu substituto? Na semana passada, conhecemos o deputado Arthur Lira (PP-AL), candidato do centrão e de Jair Bolsonaro. No #MeioExplica desta semana, você confere detalhes sobre a carreira do deputado Baleia Rossi (MDB-SP), apoiado por Maia e por boa parte da oposição. Assista no Youtube.


Democratas e republicanos estão em negociações, no Senado dos EUA, para definir como cuidarão do julgamento do quase ex-presidente Donald Trump. O problema é tempo. O Senado é também o órgão que aprova os nomes de ministros e as primeiras decisões do novo presidente, no momento em que Joe Biden tomar posse, no dia 20. É quarta-feira que vem. Biden precisa ter a equipe completa, ao menos nos cargos chaves, para encarar as três crises simultâneas — Covid, econômica e, claro, de segurança interna. A Câmara escolhe em que momento apresenta ao Senado o processo que abriu contra Trump. Possivelmente vai segura-lo talvez até segunda-feira, dia 25. (New York Times)

O primeiro projeto de Biden que exigirá atenção do Congresso é um pacote emergencial para injetar US$ 1,9 trilhão na economia. Na conta estão gastos de combate à epidemia, incluindo com ampliação de testagem, mas pelo menos metade será voltada para programas de auxílio dedicados às famílias mais necessitadas. O novo presidente quer também reabrir as escolas do país no mesmo ritmo em que incrementa agressivamente a vacinação. (Washington Post)

Enquanto encara este debate — muitos republicanos consideram a conta alta —, precisam lidar com um partido dividido. Os senadores do partido, veteranos formados nos anos de Ronald Reagan e dos dois Bush, em grande parte querem se livrar de Donald Trump e condená-lo por impeachment para depois garantir sua inelegibilidade é um caminho que estudam tomar. Mas os eleitores mais fiéis e dedicados, na base do partido, romperam não só com os valores tradicionais ligados a conservadorismo religioso e economia de mercado. Romperam também com a realidade, informando-se por uma imprensa sem compromisso factual, e há o sério risco de que se voltem também contra os parlamentares. O trumpismo está morrendo entre políticos, mas segue vivo entre militantes. (New York Times)

Pois é... Dentre as muitas falhas de segurança no dia do ataque ao Capitólio, uma das mais flagrantes foi do FBI. Conforme a lista dos invasores é consolidada, algo salta aos olhos dos analistas. É raro que tantos homens já previamente listados pelo próprio FBI como supremacistas brancos perigosos se reunam num só ambiente e ao mesmo tempo. Em condições normais, este agrupamento de pessoas deveria ter previamente ligado o alerta. Já são considerados de alto risco. Mas nada aconteceu. (Washington Post)

E... O vídeo do policial do Capitólio que sozinho lida com uma turba enquanto sobe escadas é mais do que parece. Naquele momento ele distraia inúmeros invasores e os levava para longe de onde se escondiam os senadores. Vale assistir de novo por sua habilidade. (Washington Post)

Cultura


Quem aprecia a Música Popular Brasileira ganhou um tremendo presente. A obra do cantor, compositor e cineasta Sérgio Ricardo (1932-2020) está sendo inteiramente digitalizada e posta à disposição do público no acervo digital Sérgio Ricardo Memória Viva, dirigido por Mariana Lutfi, uma das filhas do artista. Autor das trilhas sonoras de alguns dos expoentes do Cinema Novo, Sérgio Ricardo era um artista permanentemente engajado, mas com uma presença firme nos temas românticos da Bossa Nova. Durante anos, porém, seu momento mais lembrado foi uma explosão de raiva no Terceiro Festival da Canção, feito pela TV Record em 1967. Impedido de cantar Beto Bom de Bola por uma vaia ensurdecedora, ele quebrou seu violão e foi embora (Youtube). No dia seguinte, o jornal Notícias Populares, cujo nome indicava a linha editorial, noticiou o fato com o histórico título “Violada no palco”. (Estadão)

Donald Trump deixa a Casa Branca no dia 20, se não for despejado antes por um impeachment. Já foi banido das redes sociais e perdeu parceiros de negócios. E agora corre o risco de ser privado do raro registro de uma boa ação. O ator Macaulay Culkin aderiu a um movimento que defende a alteração digital do filme Esqueceram de Mim 2, de 1992, para remover o então bilionário. Na cena (Youtube), Trump é a única pessoa no lobby de um hotel (dele na vida real) em Nova York a ajudar Kevin, o adorável sádico de dez anos vivido por Culkin, que está perdido na cidade. (Folha)

Para ler com calma. Quase 71 anos após sua morte, o escritor britânico George Orwell se tornou inspiração para a ofensa da vez nos Estados Unidos, especialmente entre pessoas ligadas à extrema-direita. Ao perder um contrato literário por ter apoiado a invasão do Capitólio, o senador republicano Josh Hawley classificou a decisão da editora como “Orwellian”, o mesmo adjetivo usado por Donald Trump Jr. para criticar o banimento de seu pai do Twitter. A inspiração, claro, vem da ficção distópica 1984, mais famoso trabalho de Orwell. O livro descreve uma sociedade totalitária e personalista baseada na violência, no controle da linguagem e na criação de verdades oficiais “alternativas”. Será que o Trumpismo, com tantos aspectos “Orwellianos”, pode usar impunemente esse adjetivo? (New York Times)

Cotidiano Digital


A Samsung apresentou a nova linha Galaxy: o Galaxy S21, S21+ e S21 Ultra. Como sua concorrente Apple, os aparelhos não virão acompanhados por carregador e fone de ouvido, por questões de sustentabilidade. No Brasil, porém, a empresa afirma que está estudando o cenário, já que o Procon-SP chegou a exigir que a Apple fornecesse os carregadores. Com ou sem, a Samsung segue apostando em múltiplas câmeras traseiras: os S21 (6,2 polegadas) e S21 Plus (6,7 polegadas) têm três câmeras e resolução máxima de 64MP. Enquanto o Ultra (6,8 polegadas) ganhou suporte à caneta da linha Note e vem com quatro câmeras, com resolução que chega a 108 MP e zoom de até 100 vezes. Os modelos estarão disponíveis no dia 29 de janeiro nos EUA, a partir de US$ 799, mas ainda sem previsão de data e preços no Brasil. (Estadão)

Em seu primeiro depoimento após suspender Trump, numa thread no Twitter, o CEO Jack Dorsey disse que não celebra ou sente orgulho pela decisão. Mas tinha que ser feito. “Enfrentamos uma circunstância extraordinária e insustentável, que nos obrigou a focar todas as nossas ações na segurança pública”, tuitou. No entanto, para Dorsey a decisão abriu “um precedente que acha perigoso”, citando o poder que um indivíduo ou corporação pode ter sobre a conversa pública ao redor do mundo. Ele ainda reiterou seu apelo por um padrão descentralizado para a mídia social que não seja controlado por uma única entidade.

Então… O Snapchat seguiu o Twitter e também baniu definitivamente Trump. Enquanto isso, a lista de empresas que estão paralisando doações políticas nos EUA só cresce, com nomes como Nike, Disney e Amazon.





Bem-vindo ao Meio. A assinatura básica é gratuita, comece agora mesmo.



15 de janeiro de 2021
Consultar edições passadas