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16 de junho de 2022
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Prezadas leitoras, caros leitores —

A praxe, cá no Meio, é de liberarmos a equipe nos feriados nacionais. Mas sempre abrimos exceção quando a notícia é importante — não porque vocês, nossos leitores, deixarão de saber. Notícia grande chega, nesses nossos tempos digitais, a todo mundo e muito rápido. Mas acreditamos que este nosso trabalho de organizar a informação, fazer a leitura da imprensa e trazer diariamente o essencial faz diferença.

Hoje, infelizmente, a notícia é ruim, confirma o pior.

— Os editores


EXTRA: Polícia anuncia descoberta dos corpos de Bruno e Dom


A Polícia Federal encontrou, ontem, “remanescentes humanos” que, acredita-se, são os corpos do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista Dom Phillips. Os policiais chegaram ao local indicado pelo pescador Amarildo da Costa Oliveira, o ‘Pelado’, com a ajuda de guias indígenas — é uma região remota e de difícil acesso no Vale do Javari (AM), distante três quilômetros das margens do rio Itaguaí, no interior da floresta. Oliveira confessou ter matado os dois com arma de fogo. Durante o dia, foi feita uma reconstituição do crime. Como os corpos estavam enterrados e carbonizados, a PF aguarda seu translado para Brasília onde haverá confirmação da identidade por DNA e médicos legistas atestarão a causa da morte. (G1)

Também são investigados pelo crime Oseney da Costa Oliveira, ‘Dos Santos’, irmão de Amarildo, e o líder comunitário Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como ‘Churrasco’, tio de ambos.

Uma testemunha havia dito à polícia ter visto Pelado carregar uma espingarda e fazer um cinto de munições pouco depois que Pereira e Phillips deixarem a comunidade de São Rafael com destino à Atalaia do Norte, na manhã de domingo, 5 de junho, quando desapareceram. A principal linha de investigação apura um esquema de lavagem de dinheiro para o narcotráfico por meio da venda de peixes e animais, que pode ter motivado o duplo assassinato. Bruno conhecia o esquema e, por isso, contrariou um líder de tráfico local chamado Rubens Villar Coelho, o ‘Colômbia’, que tem dupla nacionalidade brasileira e peruana. (Globo)

Sentaram-se à mesa para a entrevista coletiva em que a investigação foi explicada representantes da Polícia Federal, polícias Civil e Militar do Amazonas, Corpo de Bombeiros, Marinha e Exército. Os homens, todos, agradeceram uns aos outros numa discreta autocongratulação. E não citaram, em momento algum, os indígenas do Javari. Eles que primeiro lançaram o alerta sobre o desaparecimento de Bruno e Dom, antes de todos puseram-se em busca, e sem os quais a polícia não teria chegado ao local em que estavam os corpos. (UOL)

André Trigueiro: “O desprezo histórico do Brasil com os indígenas se materializou nesta coletiva. É impressionante que não houvesse nenhum indígena sentado à mesa. Esse desprezo histórico que o Brasil oficial reproduz desde a chegada dos portugueses era contra o que Bruno Pereira lutava.” (GloboNews)

O presidente Jair Bolsonaro, já informado do crime mas sem dizê-lo, escolheu se manifestar através de uma entrevista à jornalista Leda Nagle. “Esse inglês, ele era malvisto na região porque fazia muita matéria contra garimpeiro, a questão ambiental”, afirmou. “É muito temerário você andar naquela região sem estar devidamente preparado fisicamente e também com armamento devidamente autorizado pela Funai.” (YouTube)

Em tempo: Diferentemente do que sugeriu o presidente, poucos estavam tão preparados para trafegar pela região quanto Bruno, que falava quatro das línguas dos povos locais. Em sua carreira, participou de dez longas expedições de localização de indígenas isolados — e, em três delas, chegou a fazer contato, um trabalho particularmente delicado e especializado. (Globo)

Bruno Araújo Pereira, que tinha 41 anos de idade, deixa três filhos de 2, 3 e 16 anos, além da mulher, a antropóloga Beatriz Matos. (Folha)

Em sessão mais cedo no Parlamento Inglês, a ex-premiê Theresa May pediu que Boris Johnson, seu sucessor, desse mais atenção ao caso. Uma sobrinha de Phillips vive no distrito de May e, na tradição política britânica, os parlamentares levam a sério a representação dos moradores das áreas em que são eleitos. “Gostaria de lhe pedir que trate do caso como prioridade diplomática”, ela disse. “É preciso que as autoridades brasileiras ponham todos os recursos necessários para descobrir a verdade.” Johnson concordou. “Estamos profundamente preocupados”, ele retrucou. “O ministro responsável levantou a questão repetidamente com o ministro da Justiça do Brasil. Já dizemos aos brasileiros que estamos prontos a dar todo o apoio do qual precisem.” (Guardian)

A mulher de Dom Phillips, Alessandra Sampaio, publicou uma nota após a coletiva da polícia. “Este desfecho trágico põe um fim à angústia de não saber o paradeiro de Dom e Bruno. Agora podemos levá-los para casa e nos despedir com amor”, ela escreveu. “Hoje, se inicia também nossa jornada em busca por justiça. Só teremos paz quando as medidas necessárias forem tomadas para que tragédias como esta não se repitam jamais. Presto minha absoluta solidariedade com a Beatriz e toda a família do Bruno.” (Metrópoles)

Dom Phillips tinha 57 anos, vivia no Brasil há 15, e estava investigando para publicar um livro que teria por título Como Salvar a Amazônia. No início da carreira, havia editado a revista Mixmag, de música eletrônica, até se reinventar como correspondente estrangeiro. Depois de uma longa temporada vivendo no Rio, havia se mudado recentemente para Salvador, terra de sua mulher. Em 2019, questionou pessoalmente Bolsonaro a respeito do desmatamento na Amazônia. “Primeiro vocês têm que entender que a Amazônia é do Brasil”, respondeu o presidente. “Não é de vocês.” Pois Dom seguiu frequentando a floresta. Ele e Alessandra planejavam adotar filhos aqui. O repórter veterano não era brasileiro de nascença, mas por escolha. (Folha)

Bruno Boghossian “Nesta quarta, o presidente praticamente responsabilizou o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips por terem desaparecido na Amazônia. Bolsonaro disse que a dupla fazia ‘uma excursão’ pelo Vale do Javari e apontou que os dois ficaram em perigo porque ‘resolveram entrar numa área completamente inóspita sozinhos, sem segurança’. O monitoramento da Amazônia é um desafio para qualquer governo, mas Bolsonaro abriu mão de qualquer empenho. Ele reconheceu que grupos criminosos circulam livremente na região e afirmou que Pereira e Phillips podem ter sido mortos porque incomodavam quem pratica atividades ilegais. ‘Lá tem tudo o que se possa imaginar’, disse. Um governo que diz defender a todo custo a soberania e a proteção do território parece mais do que conformado em ver a Amazônia como uma terra sem lei.” (Folha)

Leonencio Nossa: “É muito difícil um país produzir profissionais como Bruno, capazes de atuar no universo complexo e único dos grupos isolados da Amazônia, comunidades de línguas, tradições e costumes desconhecidos e uma história de embate secular com não indígenas. Ele ilustrou como nenhum outro uma geração de indigenistas que seguia a linhagem dos nomes lendários do setor de defesa sem concessões de povos tradicionais, mas sem o personalismo e paternalismo dos velhos sertanistas. Era um agente do Estado contemporâneo e combativo na mata. Com o governo Bolsonaro e a nomeação do delegado Marcelo Xavier para comandar a fundação, o indigenista passou a sofrer pressão de ruralistas e lideranças evangélicas. O presidente adotou uma política abertamente antiambiental e anti-indígena. Após comandar uma operação contra dragas no Amazonas, foi demitido ainda naquele ano pelo presidente da Funai, na época, subordinado a Sérgio Moro, então ministro da Justiça e Segurança Pública.” (Estadão)

Míriam Leitão: “Praticamente ignorados na coletiva de imprensa da Polícia Federal e das Forças Armadas, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) exaltou o trabalho dos indígenas nas buscas por Bruno e Dom na floresta. Além disso, eles classificam o assassinato de Bruno e Dom como um crime político, porque ambos eram defensores dos direitos humanos e morreram desempenhando atividades em benefício dos povos isolados. A Univaja também lembra que desde 2021 vem informando as autoridades sobre o aumento da criminalidade na região e as ameaças que os povos indígenas vêm sofrendo. No entanto, ressaltam, providências não foram tomadas.” (Globo)

Ricardo Rangel: “O indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips foram assassinados. Antes mesmo de saber do assassinato, Jair Bolsonaro ensaiou a explicação: ‘Esse inglês era malvisto na região’, afirmou. Malvisto por quem? Pelos garimpeiros ilegais, que Bolsonaro tanto elogia? Pelos pescadores ilegais que o Ibama, aparelhado por Salles e Bolsonaro, deixou de combater? Pelos grileiros, cuja ação é estimulada pelo governo de Bolsonaro? Pelos desmatadores, que o governo Bolsonaro anistiou? Pelos monstros que sequestraram, assassinaram e esquartejaram não só Dom, como Bruno? Ou pelo presidente da República, que não gosta de ninguém que defenda o meio ambiente?” (Veja)

Andrew Downie e Tom Phillips: “Deveria ser uma das últimas viagens de Dom Phillips à Amazônia, o início de um livro que revelaria a complexidade exuberante da maior floresta tropical do mundo. Em vez disso, aparentemente foi o capítulo final para ele e seu amigo Bruno Pereira. Por quase dois anos eles viajaram juntos. Phillips estava escrevendo um livro sobre desenvolvimento sustentável. Pereira acreditava no projeto e abriu-lhe as portas para a floresta e seu povo.” (Guardian)

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