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Eleições 2026: atores e tendências

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Como instabilidades externas e internas podem influir no pleito de outubro

O longo ano de 2026 parece entrar em sua reta final. Tal assertiva, longe de ser premonitória, se coloca em linha com os movimentos que são cada vez mais visíveis em torno daquele que é o cálice sagrado da política brasileira desde a promulgação da Constituição de 1988: as eleições para o Congresso, governadores e presidente da República.

E se há previsibilidade em termos de calendário eleitoral, de um ponto de vista estritamente analítico, é possível dizer que a democracia brasileira se alinha em algum sentido com umas das máximas da literatura sobre eleições: a incerteza sobre o resultado final do pleito é parte inescapável da lógica democrática. Tal condição, defendida por Adam Przeworski como parte inalienável do processo eleitoral, traz em si um desafio para discursos e ações de atores políticos.

Afinal, em um país como o Brasil, marcado por afeição atávica a discursos populistas, líderes messiânicos e a movimentos de massa que misturam a fé, redes e desejos recônditos por poder, admitir que não se conhece o futuro chega a soar mundano. Neste sentido, um escapismo que parece recorrente a atores políticos dos mais variados grupos parece ser um apego quase que inescapável a ideia de que o futuro nas mãos dos seus inimigos é uma tragédia e esta, sendo vivida no presente para aqueles que odeiam o atual governo ou lembrada pelo passado para os que odeiam o principal grupo de oposição, parece permear as dinâmicas sobre as quais a eleição se constrói.

Neste sentido, é possível dizer que as profecias apocalípticas de momento encontram amparo na própria realidade. Esta, configurada e que cada dia mais parecida com um filme de Buñuel, auxilia na construção de dois movimentos que serão aqui tratados. O primeiro, fruto de uma conjuntura internacional bastante volátil, de desfazimento das regras do jogo internacionais e de algumas das dinâmicas que proviam certeza aos atores em disputa.

Tais mudanças, que ocorrem em ritmo acelerado, permitiram por exemplo, em termos de debate político nacional, ao governo Lula não só renascer, como encarnar em torno de si a narrativa nacionalista, esta perdida desde idos da década anterior. O dilema é que para além desta instabilidade internacional, se soma outra, mais visível e com impactos ainda mais concretos sobre o jogo político e eleitoral, manifesta na degradação dos marcadores institucionais que construíram a República de 1988.

Das celeumas envolvendo o dissenso em torno dos destinos de Lula, e mais recentemente, de Jair Bolsonaro. Passando por escândalos recorrentes de corrupção e se desdobrando na atual conjuntura, em indícios de tomada de decisão enviesadas por parte de atores políticos — casos de desvios de pensões do INSS —, chegando ao escândalo de potencial devastador que envolve o Banco Master. O que se verifica é a construção de um caldo de cultura que efetivamente parece estimular duas forças que paralelamente disputam os destinos do país.

Uma primeira, que se desdobra de cima para baixo, e que basicamente se manifesta na ideia de acomodação de interesses. Afinal, ao mesmo passo que atores políticos, ante a pressão do calendário, discursam e preenchem formulários que requerem investigações, efetivamente, se identificam padrões perigosos de interferência nos devidos processos legais com fins de proteção aos pares. E este movimento, tão antigo quanto a própria ideia de Brasil, possui um efeito devastador sobre o prédio institucional até aqui construído.

A descrença, ou enfado, efetivamente se manifesta como sentimento latente em parcelas crescentes da sociedade

E este se manifesta na dinâmica de uma segunda força — aqui denominada descrença, mas, que poderia ser facilmente chamada de enfado. E que efetivamente se manifesta como sentimento latente em parcelas crescentes da sociedade que ao mesmo passo em que não se identificam com o recorrente maniqueísmo do debate público, se sentem impotentes diante dos impactos deste em suas vidas.

O que permite, em determinado sentido, compreender a eleição de 2026 dentro de um binômio que envolve a ideia de ruptura e continuidade da própria forma como o país se organizou politicamente ao longo das últimas décadas.

Tendo em vista esta compreensão, se torna possível estabelecer em termos ilustrativos; os marcadores que definem alguns dos principais grupos e atores envolvidos no pleito, e como efetivamente estes se posicionam diante daquilo que já compreendem acerca da eleição e daquilo que desejam em termos de futuro.

Diante disto, é possível dizer que Lula, como potencial candidato à reeleição, busca defender um legado mais amplo do que se possa pensar em primeira instância. Afinal, ao mesmo passo em que busca coroar sua própria biografia com a ideia de que “nunca antes na história deste país” um presidente foi eleito para quatro mandatos, Luiz Inácio, representa também a própria dinâmica política e de interpretação de país derivada da Constituição de 1988, ou seja, se coloca como a liderança que busca manter o legado daquilo que ajudou a construir.

Os instrumentos para alcançar tal intento, são os mesmos de sempre, um quê de ufanismo — desta feita turbinado pelos equívocos internacionais de seus opositores —, a ideia de melhoria das percepções sobre economia real e a consolidação de uma dinâmica maniqueísta que se manifesta na ideia de que ou se tem Lula, ou se ganha Bolsonaro. Estes elementos, ao fim do dia, formam um arcabouço cognitivo sob o qual Sidônio Palmeira deve estruturar a campanha.

E se Lula vai para eleição tendo seu legado como peça-chave. É possível compreender seus principais antagonistas também preocupados com sua própria herança. A família Bolsonaro — até aqui liderada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) —, tende a se concentrar em uma tarefa que definirá seu próprio futuro: transformar a eleição em um plebiscito informal sobre Jair Bolsonaro. E como efeito concreto deste movimento, consolidar-se, independentemente do resultado, como um sinônimo do que venha a ser direita política no Brasil.

Se existem apenas duas alternativas para livrar o país do apocalipse tropical, todo o restante do ecossistema político tende a girar em torno destas duas forças

Neste sentido, é possível dizer que tanto para a família Bolsonaro, quanto para o lulopetismo, a transformação de 2026 no terceiro round de uma batalha iniciada em 2018, assume tons de sonho idílico. Afinal, se existem apenas duas alternativas para livrar o país do apocalipse tropical, todo o restante do ecossistema político tende a girar em torno destas duas forças.

Porém, ao retornarmos a Przeworski e a ideia da incerteza como parte fundamental da competição política, é possível observar algumas outras forças que se manifestam no campo de batalha e merecem atenção. Em primeira ordem, vale lançar uma observação sobre aqueles que desejam levar o radicalismo de direita para um novo lugar — estes, ao considerarem o bolsonarismo como parte do mainstream político — observam uma janela de ação que possa alçá-los a um novo lugar.

Neste grupamento, se a carreira eleitoral de Pablo Marçal pode ser vista como um ensaio intuitivamente mal realizado, vale observar com calma o futuro do Missão e de seus militantes. Estes, parecem até aqui bastante afeitos a ideia de usarem uma linguagem de redes bastante direta e, apelos que flertam com o sobrenatural — jogar sal em lugares — como parte de uma dinâmica de captura de atenções. Resultando um nível de atrito e disputa por um eleitorado mais ideológico à direita que até aqui não encontrará comparação na esquerda, graças ao efeito solar de Lula ao longo das décadas sobre este campo.

Para além dos principais antagonistas, vale mencionar dois comportamentos distintos:

O primeiro daqueles que são tradicionalmente chamados de Centrão. Tal grupo — que em termos partidários vai englobar legendas como União Brasil, PP e Republicanos — pode ser compreendido como partidos paroquiais. Para estes, seus objetivos se enquadram no sentido de que suas agendas giram em torno de poder sobre agendas locais que garantam suas sobrevivências. Em suma, para estes partidos, independentemente do que aconteça em termos de ocupação do Planalto, o esforço é a posse de cadeiras no Congresso Nacional e o fluxo de recursos derivados de diversas fontes para suas regiões de origem.

O segundo tem ocupado manchetes neste início de ano e está organizado em torno do ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Este, tal como feito em 2022, busca a promoção de um nome que possa ser visto como um candidato capaz de quebrar a polarização política. Em um partido com uma concentração de potenciais pré-candidatos, até o presente momento, parecem sobrar esperança, e o teste de que algum dos nomes postos seja viável a ponto de no melhor dos cenários tornar o PSD parte indispensável de qualquer costura de governabilidade a partir de janeiro de 2027.

Todos estes elementos, por sua vez, nos permitem trazer para o debate outro autor importante para a literatura de democracia, Robert Dahl. Este, ao identificar elementos estruturais de uma boa prática, definiu que eleições recorrentes, livres e justas, são parte fundamental de uma vivência democrática saudável. O dilema, para o Brasil, é que se do ponto de vista procedural, as eleições parecem funcionar dentro de uma dinâmica positiva, em termos práticos, os desafios que se colocam para as autoridades judiciais — Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal — parecem ser bastante complexos.

Afinal, ao mesmo passo em que determinados grupos políticos parecem dispostos a compreender e aceitar resultados do pleito, vale registrar que para uma parcela não desprezível de eleitores, a dinâmica eleitoral segue sendo alvo de uma relativa desconfiança. E esta, se não se faz presente em termos cotidianos do debate público, segue alimentando de maneira submersa e, em algum sentido, quase subversiva ensaios de contestação da ordem. O fato, ao fim do dia, é que o longo ano de 2026 alimenta o risco quase que inescapável de se manter como apenas mais um capítulo de um processo de entropia institucional que se mantêm imparável ao menos desde 2013.


*Colunista do Central Meio e do Meio Político, o mestre em Relações Internacionais Creomar de Souza é sócio fundador da Consultoria de Análise de Risco Político Dharma e professor da Fundação Dom Cabral.

Já está no ar a segunda rodada da Pesquisa Meio/Ideia de 2026, realizada pelo Meio em parceria com o Instituto Ideia. Além do acesso ao levantamento completo, você também pode ler no site a análise de Maurício Moura e Cila Schulman, que ajuda a interpretar o movimento das peças no tabuleiro político. Vale conferir com calma e compartilhar os dados nos seus grupos. Informação boa circula e qualifica a conversa.

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