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A incógnita Trump

Foto: Mandel Ngan / AFP

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Os desafios para a análise de risco político diante da transformação da governança nos EUA

Os manuais de risco político trazem uma definição e uma premissa. A definição é nomear este tipo de risco como toda e qualquer possibilidade de dano potencial a uma organização empresarial causado pelo ambiente político em uma dada região. Esta, por sua vez, alimenta a premissa: a de que quanto maior for a instabilidade política em uma dada região, maior será o nível de risco político ali vinculado.

Tais elementos, a definição conceitual e a premissa, propositadamente invertidos do ponto de vista metodológico, servem para construir e consolidar o argumento aqui proposto, a dificuldade de acompanhamento e compreensão da velocidade com que a governança pública se altera nos Estados Unidos da América e os impactos desta mudança sobre os ambientes políticos e de negócios globalmente.

Neste sentido, vale recuar algumas décadas no tempo nas origens de compreensão do nível e da dimensão do impacto das mudanças nos Estados Unidos sobre a forma como sociedades e comunidades de negócios observam o mundo. Especificamente, ao se tratar da indústria de análise da conjuntura global, é possível dizer que em algum sentido se acostumou com a construção de um olhar de mundo baseado no centro, aquilo que a diplomacia chamaria de circuito Elizabeth Arden.

E aqui, longe de quaisquer apologias ao sul global, ou algo que o valha, o elemento de discussão é que, à medida que estes olhares se colocavam em posições geográficas de observação para fora, lhes escapavam a capacidade de compreender efetivamente os impactos da mudança dentro de casa. Tal exemplificação permite, por exemplo, a construção de uma explicação no tempo de situações, tais como, o Brexit ou mesmo as duas vitórias eleitorais de Donald Trump.

Isto quer dizer que, em algum sentido, analistas políticos, e outros profissionais vinculados a esta indústria, assumiam, mesmo que inconscientemente, uma postura do polonês Bronislaw Malinowski (1884-1942), pai da antropologia. Acampados em seus escritórios, utilizando suas telas como cadernos e se refugiando, sempre que necessário em um conjunto de definições e premissas que marcavam o risco como algo distante de suas moradas.

O problema para este olhar, é que, ao mesmo passo em que os países em desenvolvimento mudavam suas configurações de poder, em alguns casos assumindo até relativa estabilidade institucional, os países desenvolvidos entravam em uma quadra histórica bastante nova.

E neste aspecto, não por acaso, os Estados Unidos da América se tornaram um exemplo mais agudo de um processo de transformação profundo em curso. Repare, ao mesmo passo que os atributos de poder militar parecem em algum sentido intocados e elementos da estratégia de política externa seguem sendo utilizados, tais como a dinâmica de intervencionismo, algo relativamente novo surge no horizonte da política e de negócios deste país. Uma espécie de transição feita a fórceps pela administração Trump de uma ordem baseada em determinadas regras, estas envelopadas em alguns arcabouços legais, para outra, determinada pela adaptação da realidade para um conjunto novo de interesses, estes vinculados ao grupo político que detém poder.

O movimento de transformação nos EUA encontra respaldo histórico em dinâmicas de poder comuns em lugares como o Brasil

Em uma espécie de ironia da história, o movimento de transformação em curso nos Estados Unidos encontra respaldo histórico em dinâmicas de poder político bastante comuns em lugares como o Brasil. No caso brasileiro, o capitalismo de compadrio, em suas mais diferentes encarnações, criou a seu modo vencedores e perdedores da distribuição de riqueza. Os vencedores, na melhor das situações, tornaram-se mecenas, aristocratas, detentores de uma aura nobiliárquica difícil de encaixar em uma paisagem tropical. Os perdedores, por sua vez, são encontrados pela simples abertura da janela em breve mirada para a rua, estando nas calçadas, nos semáforos ou pontos de ônibus de qualquer cidade brasileira.

E aqui vale uma retomada. O que se identifica no ambiente de negócios americano é algo peculiarmente interessante, a diminuição de regras que se tinham como universais e o aumento de pressão sobre a institucionalidade que garantiu, em alguma medida, sobretudo, ao longo do século 20 e inícios do século 21, um ambiente de competição relativamente livre e capaz de alimentar inovação em um ritmo muito mais acelerado do que qualquer outro de seus concorrentes dentro do sistema internacional.

E quais seriam as razões desta mudança? Em algum sentido, elas perpassam o conceito e a premissa com as quais iniciamos esta reflexão, ou seja, os Estados Unidos da América, ao se tornarem o mais importante ator internacional do sistema, foram gradativamente afetados pelos marcadores daquilo que sustentava a sua liderança. É dizer que, a construção de uma arquitetura de poder internacional e capacidade de projeção de força como uma prioridade exauriram recursos que poderiam ser capazes de resolver dilemas de âmbito interno.

A resultante deste processo, muito bem documentada e analisada pela ciência política e pela sociologia, foi a alimentação de um fosso de contradições internas, as quais Donald Trump e seu grupo político são apenas criaturas e não criadores efetivos. E ao aparentemente ter consciência de sua própria efemeridade, a administração Trump se mostra efetivamente focada na consolidação de um projeto de poder que, ao mesmo tempo em que subverte elementos da regra do jogo conforme postos pelas instituições nos Estados Unidos ao longo tempo, alimenta uma rede de campeões nacionais segundo seus interesses.

O desafio em termos de risco político, neste caso, não se coloca como uma espécie de dilema histórico para os rejeitados.

Afinal, se uma dada companhia é colocada na alça de mira do regime, de maneira efetiva, isso significa dizer que se ativa no entorno dela uma coalizão de apoio ao governante, que pode efetivamente se colocar como um obstáculo à realização de negócios ou da própria sobrevivência. A título de exemplo, as críticas públicas feitas por Trump à Netflix — que possui no seu quadro de conselheiros uma antiga aliada de Barack Obama — e que resultou em alguma medida em uma onda de rejeição entre apoiadores do presidente à tentativa da plataforma de adquirir a Warner/Discovery. Já o entrevero entre o Departamento de Defesa e a Anthropic — proprietária do Claude — envolve a eventual eliminação da companhia dos contratos de defesa, o que pode significar uma ameaça robusta a sua existência.

Colocar-se em posição contrária aos interesses do político mais poderoso do país tende a se apresentar como uma atividade de risco

Os dois casos podem ser interpretados como marcadores claros de que a Casa Branca possui seus preferidos para o enfrentamento de uma realidade política que tende a ser vista como mais hostil interna e externamente. E, diante de um ecossistema de investimentos que costuma analisar companhias pelas suas taxas de retorno e não necessariamente pelos seus marcadores de ordem moral, colocar-se em posição contrária aos interesses do político mais poderoso do país tende a se apresentar como uma atividade de risco.

A resultante deste cenário é que a própria dinâmica de compreensão do risco político exige novos marcadores. A premissa de que a instabilidade política é um atributo singular da linha abaixo do equador não se mostra apenas limitada, mas, em algum sentido pode ser considerada equivocada quando observada dentro de um contexto marcado pela crescente instabilidade política e institucional que afeta países como os Estados Unidos. Afinal, se a economia mais robusta do planeta e suas instituições passam a apresentar sinais acentuados de que a relação público-privado obedece a uma dinâmica de favorecimento, isto significa dizer que os marcadores analíticos de mensuração de risco precisam ser reformulados.

O questionamento que se deriva deste processo, portanto, não é se as regras do jogo se transformaram. Pois, efetivamente, se encontram indícios e intenções políticas, tornadas públicas via discursos e medidas, para que as regras sejam alteradas. A questão que fica é se as instituições americanas serão capazes de absorver a onda de choque representada pelo presente momento e se serão capazes de manter o mundo político dentro de determinados marcadores de ação as quais representam historicamente. Esta incógnita, complementarmente, significa, do ponto de vista de análise de risco a necessidade de alterar marcadores de compreensão da realidade, que permitam compreender os desafios de gestão de riscos e oscilações que tendem a ser tornar frequentes a partir daqui.


*Colunista do Central Meio e do Meio Político, o mestre em Relações Internacionais Creomar de Souza é sócio fundador da Consultoria de Análise de Risco Político Dharma e professor da Fundação Dom Cabral.

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