Aposta na liberdade radical
Ava Rocha é uma das artistas mais radicais em atividade, principalmente quando pisa no palco. Começo esse texto ainda sob o impacto de ver há algumas horas o show Bodas de Cristal, no Bona, em São Paulo, em que ela divide a cena com Negro Leo, seu companheiro há 16 anos. Juntos, com violão, piano e eletrônica, os dois passam em revista canções compostas por ambos, que estão em versões diferentes das que aparecem em suas discografias, e desafiam os próprios limites da canção numa performance visceral.
O segredo da arte de Ava é justamente a presença, a performance. Seus últimos discos solo, Ava Patrya Yndia Yracema (2015), Trança (2018) e Nektar (2023) são excepcionais em canalizar uma energia poética, mas também política. Mas quando ganham vida ao vivo, como vai acontecer com Nektar no próximo dia 7 de setembro no Teatro Oficina, a experiência extrapola a mera reprodução de canções. E, no caso do Oficina, lugar em que Ava se descobriu cantora, certamente a magia será especial.
Filha de dois grandes cineastas, Glauber Rocha e Paula Gaitán, Ava mistura vida e arte, tendo um passado no teatro, mantendo uma atuação no cinema – no momento ela está montando o mais novo filme de seu irmão, Eryk Rocha –, e deixando acesa a usina de criação de canções. Isso sem falar no seu lado de artista visual. Neste ano, ela levou a performance dentro de fora de dentro à galeria Millan, em São Paulo. Falamos sobre a volta ao Oficina, a influência dos pais, a ligação com a Colômbia, mas sobretudo a respeito de duas coisas que alimentam sua obra: liberdade e radicalidade. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Queria começar pelo show no Oficina, que na verdade é uma volta. Como é levar o Nektar para o teatro?
Eu comecei no Teatro Oficina pelo Os Sertões [parte 2]. Entrei lá em 2006, a convite do Zé Celso [Martinez Corrêa] para ser assistente de direção geral da filmagem. Depois eu também trabalhei em outras peças com ele, mas foi em Os Sertões que comecei a cantar. Ele me perguntou se eu queria cantar e disse que sim. Daí eu saí do Oficina e, desde o meu primeiro disco, faço shows lá. Tive o prazer de ter o Zé Celso lá comigo, vendo os meus shows. E é sempre muito emocionante esse retorno, porque é o palco onde nasci como cantora. Toda vez que canto lá é um renascimento. Esse lado performer, os meus ensinamentos, as minhas ancestralidades, é como se tudo brotasse com muita força. São muitas camadas do meu ser, da minha história e também da minha concepção do que é a política, das minhas conexões espirituais. Obviamente, tudo é ligado à minha história com teatro, à memória do Zé, dos ensinamentos dele, enfim, do meu próprio pai e de outras influências. Espero que no show do Nektar tudo isso venha à tona.
Nektar talvez seja o seu disco mais acessível, tanto do ponto de vista sonoro como das letras. Agora o show é uma performance muito elaborada, totalmente dionisíaca. Isso também é uma conexão clara com esse espírito do Zé Celso e do Oficina, não?
Ao vivo, o Nektar tem esse sentido de ser uma narrativa de libertação, de você se soltar. Essa felicidade ébria, esse líquido que a gente vai bebendo. No disco, tem essa simplicidade proposital, de ir na fonte mesmo, de buscar a fonte e de transbordar para outros sentidos, para outras conexões. Venho de uma trajetória performática, e o caminho é cada vez mais transbordante e radical. O show talvez seja mais difícil, entre aspas, né? O disco é mais fácil. Mas é isso, nada é tão fácil e nada é tão difícil. Eu não acho nada estranho. Para mim o estranho é normal e o normal é estranho.
Em seus discos anteriores, tanto no Ava Patrya Yndia Yracema e depois no Trança, vejo um investigação sua como pessoa no mundo. Trança tem muito das suas raízes e o Ava Patrya leva o seu nome. Com que mulher você se debate quando olha para si mesma?
Pergunta difícil. Procuro me debater com todas as mulheres que sou e que não sou. E também com os bichos que sou e que não sou, com o homem que sou e que não sou. A minha arte, em primeiro lugar, não está tão ligada comigo, com a minha biografia. Não é uma obra que parte de uma crise existencial, mas nasce de uma necessidade de me relacionar com o mundo, através do meu olhar, das minhas questões. A minha música fala muito pouco sobre mim. Eu estou misturada em tudo, mas não há narrativas pessoais verídicas. Eu reflito muito sobre qual é o gesto poético, a palavra no mundo, o gesto no palco, a performance. Para mim, nada é demonstrativo. É como se cada disco ou cada show fosse uma espécie de um ebó, de uma oferenda. Por isso que os meus shows também são diferentes do disco, porque uma vez aquilo feito, jamais deverá ser repetido na minha concepção. É como se a arte fosse o meu alimento diário, a minha oferenda diária. E então não é sobre demonstração, sobre produção, é sobre o acontecimento, experiências, vida. Agora, tem um caráter subliminar em todos os discos que é um olhar político para o mundo.
Imagino que a questão política venha muito do seu pai e da sua mãe, já que ambos sempre trabalharam numa perspectiva da arte com um olhar político e poético para o mundo. Como funciona a influência deles?
Sou muito filha deles. Sou muito pestinha deles. Eles conseguiram me deixar bem parecidinha com eles. Às vezes eu tenho ideias, faço procedimentos artísticos que, para além da racionalidade, são algumas coisas que eles fariam. E com minha mãe, que está viva, que foi realmente quem me criou, isso é muito forte. Ela me inspira e aconselha muito. E meu pai de uma forma mais espiritual, né? Uma vez me perguntaram: “Ava, como é estar à sombra do teu pai?”. Eu falei: “Eu estou debaixo da luz de meu pai”. Não tenho nenhuma expectativa de superá-los no sentido artístico. O grande legado deles, para mim, é a coragem e o rigor artístico. É o que a minha mãe me traz sempre. Com muita força, porque minha mãe é uma das pessoas que podem falar sobre o meu pai para mim, uma vez que ele morreu quando eu tinha dois anos de idade. De certa forma, demorei muito tempo para cantar. Comecei aos 29 anos porque me perguntava o que eu faria com a minha voz, o que eu faria com a minha arte?
Está vindo coisa nova depois do Nektar?
Estou num processo criativo intenso. Cheguei num ponto em que a novidade é viva, não depende do lançamento de nada. Porque é muito chato e muito insignificante viver a sua arte em função de lançamentos protocolares a serviço de uma indústria que nem sequer te remunera. Nem sequer devolve nada à altura do que a sua entrega artística promove. Estou com milhões de músicas, de obras, disso e daquilo, isso já existe. O meu disco novo já está em mim. Então, me acesse. Venham aos shows, venham às performances. As coisas estão vivas para além do plástico, do digital. Estou fazendo show com o Chicão de voz de piano, estou fazendo o Bodas de Cristal com o Leo, o Nektar, as performances. Estou num processo de organizar o cronograma de todos esses lançamentos. Não tenho patrocínios que invistam num planejamento mais burocrático. E me aproveito disso, sabe? Para mim, é uma bendição você realmente poder se aproveitar da sua liberdade e operar no mundo da arte com mais radicalidade. Existe uma insatisfação coletiva dentro desse sistema. Os artistas precisam se aproveitar disso para se movimentar artisticamente, culturalmente, politicamente e se radicalizar, porque esses processos são muito opressores. Não falam ao coração do artista. Eles deprimem, acabam com a força criativa. Então, minha onda é essa. Agora, se os patrocinadores quiserem, a gente pode conversar também. Porque eu não sou boba e a gente está num mundo capitalista.