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O nascimento, e a queda, da Turma do Pudim

No final da tarde de 12 de outubro, em 1992, Ulysses Silveira Guimarães entrou em um helicóptero na cidade de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Chovia — e como inúmeros acidentes tanto antes quanto depois afirmam e confirmam, as chuvas de Angra são traiçoeiras para voos. Dos cinco a bordo, o seu foi o único corpo jamais encontrado. Doutor Ulysses havia completado 76 anos fazia pouco, um deputado federal de onze mandatos consecutivos, a principal liderança do único partido de oposição nos anos de chumbo, o presidente da Assembleia Constituinte que em sua promulgação ergueu a Carta com as duas mãos e gritou em discurso “Temos ódio e nojo à ditadura”. Ele era, também, a reserva moral do PMDB. Havia enfrentado uma campanha presidencial pífia, parecia já muito envelhecido, talvez até velho demais para o ofício. Mas ninguém discutia sua integridade. Ou o imenso talento político. A morte de Ulysses lançou o PMDB no limbo.

Dois dos principais articuladores do renascimento do partido foram presos esta semana. São Michel Temer e Wellington Moreira Franco. O que os dois criaram, junto a Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves, foi uma máquina formidável de habilidade política, tráfico de influência e corrupção. Formam, também, o grupo de poder mais longevo da República iniciada após a ditadura: 33 anos contados, entre 1995, quando Michel Temer assumiu a liderança do PMDB na Câmara, e o 1º de janeiro deste ano, quando ele próprio passou a faixa presidencial a Jair Bolsonaro. Um grupo unido que, desde o início, foi chamado por um apelido. A Turma do Pudim.

O terrível desfecho do governo José Sarney e a morte de Ulysses Guimarães desnortearam o PMDB em princípios dos anos 1990. Era um partido grande. Tinha, em 95, nove governadores — o maior. Era também a maior sigla da Câmara, com 107 deputados, e do Senado, com 22. Mas era uma máquina amorfa e desarticulada.

Diferentemente de outros partidos, o PMDB era na verdade uma federação de grupos políticos regionais. As disputas internas tornavam impossível escolher um único nome para se candidatar a presidente. Em compensação, a capilaridade, sua presença até nos menores municípios, facilitava a eleição de um grande número de parlamentares. O PMDB tinha tamanho — faltava transformar aquilo em poder.

Por décadas, Ulysses reuniu seu grupo mais próximo à mesa do restaurante Piantella, em Brasília, em jantares que sempre terminavam com goles de sua bebida favorita, uma forte e tradicional aguardente de pera original da França. “Não havia chefe político dos locais mais distantes do país que não recebesse Ulysses com uma garrafa de poire”, contou certa vez no Globo, Jorge Bastos Moreno, talvez o jornalista que mais entendeu de Ulysses e de PMDB. Seu grupo era a Turma do Poire.

Nomeado líder do partido em 1995, Temer seria mais humilde nos encontros de seu grupo. “As refeições são até frugais”, escreveu em Época a jornalista Ana Maria Tahan já faz muitos anos. “Na maioria das vezes, feijão com arroz, filé com batatas e salada verde. O epílogo é invariável: pudim de leite condensado com calda de caramelo.” Em Brasília, desde cedo, tornaram-se conhecidos como a Turma do Pudim.

Henrique Eduardo Alves vinha de uma família política potiguar que estava no poder local desde o Estado Novo. Era veterano, já, tendo sido eleito deputado federal pela primeira vez em 1971. Geddel Vieira Lima, por sua vez, também vinha de uma família política importante — mas da Bahia. Estava, naquele 1995, no segundo mandato. Até por terem sido criados na política, fariam o papel de vice-líderes do PMDB. Temer, o líder, estava no segundo mandato, mas já havia sido secretário de Segurança, em São Paulo, no governo Franco Montoro. De volta à Câmara depois de duas décadas, Wellington Moreira Franco tinha uma experiência ímpar — havia sido governador do Rio de Janeiro. Formariam uma quadra de amigos politicamente experientes não fosse um quinto membro. A única experiência do gaúcho Eliseu Padilha, novato na Casa, era ter sido prefeito de Tramandaí. Mas bateu à porta do líder e perguntou como podia ser útil, e Temer lhe deu uma missão: que mapeasse todos os deputados, descobrisse seus interesses e preocupações, para saber com quem contar, e via quais argumentos, a cada votação. O novato foi diligente — tão diligente que se tornou indispensável. Ninguém, na Câmara, tinha um mapa de como cada parlamentar votaria igual ao de Padilha.

Os cinco trabalhavam duro. E, trabalhando, angariaram poder.

O presidente que tomou posse em 1995 foi Fernando Henrique Cardoso. Seu PSDB havia trazido como aliado o antigo PFL, menor, porém mais bem estruturado que o PMDB, e particularmente representativo do Nordeste. Foi uma aliança eleitoral ímpar de tão bem construída e deu, a FH, um vice-presidente raro pela discrição, lealdade e bons conselhos. Marco Maciel. Na ponta da Câmara dos Deputados, o principal nome da sigla era o igualmente talentoso Luís Eduardo Magalhães, que diferentemente de seu velho pai, Antônio Carlos, tinha bons modos sem prescindir da capacidade política que herdara. Luís Eduardo presidiu a Câmara pelo mandato de dois anos. Grande como era o PMDB, azeitada como estava a máquina de transação política que montara seu líder, foi inevitável que Michel Temer assumisse a Casa a partir de 1997.

Assim, ocorreu que lhe caiu no colo o instrumento que abriria para a Turma do Pudim, de vez, largo espaço no Executivo. Fernando Henrique queria ser reeleito. Para isto, o Congresso precisava aprovar uma Emenda Constitucional que autorizasse sua candidatura. Michel Temer não era apenas presidente: ele tinha o mapa de Padilha. De forma documentada, aquela foi a primeira votação na Câmara em que o Planalto efetivamente comprou, com dinheiro, o voto de deputados.

Mas a emenda passou e o grupo teve lucros. Eliseu Padilha foi nomeado por FH ministro dos Transportes. O senador peemedebista Iris Resende, para o da Justiça. A Turma do Pudim se ampliaria para receber senadores, como Jader Barbalho e Romero Jucá. Nunca deixaram de se encontrar: quanto mais poder angariavam, na forma de cargos que resultavam também em propinas, mais importante era que operassem de forma conjunta e falassem numa só voz.

O PMDB não seria capaz de eleger um presidente — suas facções não tinham chance de chegar a um acordo. Mas elegia governadores e prefeitos. Com estes, fazia deputados e senadores em quantidade. Bem organizados, transformavam aquilo em arsenal que trocavam por poder na forma de cargos e, através destes, propinas. Dinheiro.

Na presidência, consciente de que Fernando Henrique se tornara refém da Turma do Pudim em seu segundo mandato, Lula tentou driblar o PMDB. O mestre jornalista Luís Antônio Novaes, que escrevia uma história do PT para a Companhia das Letras antes de morrer, gostava de lembrar que a origem do Mensalão era esta. Para não depender da máquina corrupta do PMDB, Lula outorgou a José Dirceu a missão de corromper ele próprio pequeno partido a pequeno partido, deputado a deputado, até construir uma base. O PT substituiria o PMDB. A explosão do escândalo obrigou o partido governista a voltar ao jogo tradicional, estabelecido durante o governo FH. Ou seja: terceirizar a operação no Congresso para o PMDB. Para a Turma do Pudim.

Assim, quando Lula elegeu a sucessora, Michel Temer era o vice-presidente natural. Quando as dificuldades políticas e administrativas de Dilma Rousseff a puseram perante um processo de impeachment, ela tinha contra si Temer, Geddel, Padilha, Moreira, Eduardo Alves. Dilma nunca teve chance. E a Lava Jato bem tentou derrubar Temer, com a inacreditável gravação feita nos porões do Jaburu. Como só o Congresso pode autorizar um processo contra o presidente da República, também os procuradores nunca tiveram chances.

Geddel Vieira Lima foi preso pela segunda vez em 8 de setembro de 2017, após serem descobertos num apartamento seu, em Salvador, R$ 51 milhões em dinheiro. O ex-deputado e ministro é também dono de 12 fazendas que valem R$ 67 milhões. Michel Temer e Moreira Franco foram presos pela primeira vez esta semana.

E o maior drama que se ensaia no governo Jair Bolsonaro é como negociar com o Congresso.

(Para este artigo foi preciso um apelo à memória de José Roberto de Toledo, editor do naco digital da Piauí. Seus artigos mais recentes podem ser encontrados no site da revista; seus tweets são imperdíveis em política.)

Em vídeo: Fernando Rodrigues, hoje diretor de redação do Poder 360, conta como descobriu o esquema de compra de votos de parlamentares na emenda da reeleição.

Em texto: Editor do Meio, Pedro Doria escreveu faz alguns anos uma história do PMDB.

Em texto: O cientista político Paulo Victor Teixeira Pereira de Melo escreveu uma tese sobre o funcionamento do PMDB (PDF).

Três memórias: Há repórteres, em Brasília, capazes de apurar os fatos sem perceber o jogo. Às vezes são de fato excelentes, desencavam documentos, fisgam testemunhos, responsáveis por grandes furos. Não se faz bom jornalismo sem eles. Há também os que percebem a dinâmica do jogo mas não são capazes de descrevê-la. A percepção que têm, ainda assim, leva a um faro que os dirige às fontes certas, nos momentos exatos, trazendo outros tantos furos. Uns poucos, raros que só, contribuem com conhecimento para que inúmeros brasileiros possam acompanhar os meandros da política nacional. Não apenas saber o que ocorre, mas compreender. Trazem a informação do dia, os fatos, e ao mesmo tempo entregam o contexto. O porquê. O como funciona. Três deles morreram recentemente, e como fazem falta. Luiz Antônio Novaes, o Mineiro, e Jorge Bastos Moreno, ambos do Globo, foram dois dos mais sofisticados jornalistas brasileiros. A eles se junta Raymundo Costa, do Valor Econômico. Não há jornalista vivo que compreendesse melhor este pedaço do PMDB que encerra suas atividades como o compreendiam Moreno e Raymundinho. Como não há editor que compreendesse o PT como o Mineiro. Os links apontam para os obituários que seus respectivos jornais lhes dedicaram.


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