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Raiva ainda é uma energia

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Em 18 de agosto, mal completados meus 15 anos, cheguei ao pudim, carinhoso apelido do auditório Elis Regina, no Palácio de Convenções do Anhembi, tendo na bagagem dois shows incríveis que haviam ocupado o mesmo palco meses antes: Siouxsie and the Banshees e Echo & the Bunnymen. Agora era vez de assistir ao Public Image Ltd (PiL), a banda liderada por John Lydon, que tinha acabado de lançar seu sexto disco, Happy?, embora as rádios ainda estivessem tocando o hit do álbum anterior, Rise, que abriu o show numa versão mais pesada.

No palco, John Lydon estava distante do ícone punk Johnny Rotten, quase dez anos depois do fim dos Sex Pistols. Talvez parte do público ainda esperasse a virulência de um som mais cru e menos pop, mas a verdade é que, no palco, vestindo um terno amarelo e balançando seus dreadlocks laranja, Lydon entregava uma performance energética e debochada, alimentada por um tipo diferente de provocação.

Uma energia, aliás, que o baixista Allan Dias tentava a todo custo instilar no público, sem tanta repercussão. O PiL passava sua fase mais pop e, ao vivo, era alimentado pelo peso das suas guitarras. De um lado, a timbragem única e os solos angulares de John McGeoch, que vinha do Magazine e tinha tocado com os Banshees, e de outro o peso dos blocos sonoros que vinham de Lu Edmonds, ex-Damned.

O PiL ainda voltaria ao Brasil em 1992, para um show no Palace, pouco antes de seu primeiro término e agora, 34 anos depois, volta para um único show no Cine Joia, em São Paulo, na próxima quarta-feira, dia 8. Ironicamente batizada de This Is Not The Last Tour, traz um Lydon diferente, mas não menos catártico. Cair na estrada é uma forma de lidar com o luto. Ao anunciar os shows do álbum mais recente End of World, de 2023, ele disse à NME que precisava sair de casa. “Já me lamentei o suficiente, o que, claro, não dá para evitar, mesmo que você pense: ‘Não, seja superior’. Você não consegue impedir. Não se pode conter a tristeza quando ela surge, mas já chega.”

Na nova turnê, o PiL segue com o lendário Lu Edmonds na guitarra, além de contar com Scott Firth, na banda desde seu retorno em 2009, no baixo e nos teclados, e de Mark Roberts na bateria, parceiro de Edmonds que entrou na banda no ano passado. E o set list explora diferentes fases do PiL, vai de hits com Annalisa, This Is Not A Love Song e Rise, passa pela crueza minimalista de Death Disco e Poptones e inclui ainda explosivas colaborações eletrônicas, como World Destruction, gravada originalmente com Afrika Bambaataa no projeto Time Zone, e Open Up, parceria como Leftfield.

Identidade reconstruída

Para compreender por que essa figura central da cultura pop do século 20 permanece relevante aos 70 anos é preciso voltar à miséria do norte de Londres, onde Lydon nasceu em 1956, primogênito de uma família de imigrantes irlandeses. Aos sete anos, sua vida foi alterada para sempre ao contrair meningite espinhal, doença que o mergulhou em comas intermitentes e apagou sua memória por quatro anos, forçando-o a reconstruir sua própria identidade do zero.

Essa experiência aterrorizante incutiu nele uma obsessão inegociável pela verdade e uma ojeriza vitalícia a dogmas e mentiras. O tratamento brutal deixou cicatrizes físicas duradouras, incluindo problemas de coluna e o intenso e fixo “olhar de Lydon”.

Em 1975, usando uma camiseta do Pink Floyd modificada por ele mesmo com a frase “Eu Odeio”, chamou a atenção de Malcolm McLaren e de Vivienne Westwood, donos da mítica boutique Sex em Londres. Rebatizado de “Johnny Rotten” pelo colega Steve Jones, em referência à sua péssima higiene bucal, assumiu os vocais dos Sex Pistols.

Com uma performance agressiva, ele canalizou a fúria de uma geração desempregada, virando o inimigo número um do país durante o Jubileu da Rainha em 1977. Mas em janeiro de 1978, deixa a banda criticando McLaren por tratar a banda como um circo e depois de uma turnê caótica pelos Estados Unidos. Em seu último show, deixa no ar a pergunta: “Já tiveram a sensação de que foram enganados?”.

A verdade é que o rock cru dos Sex Pistols, com seus riffs que pareciam adicionar peso à tradição da guitarra de Chuck Berry, era um caminho extremamente convencional para esse criador inquieto. Sendo que, meses depois de deixar a banda, lançava o primeiro disco do PiL, ao lado do excepcional guitarrista Keith Levene e do baixista Jah Wobble, uma das lendas do dub londrino. Como Levene defende em uma entrevista a Simon Reynolds na The Wire em 2002, “Para mim os Sex Pistols foram a última banda de rock’n’roll, enquanto o Pil realmente parecia o começo de algo”.

Uma outra direção

A primeira fase da banda é marcada pela experimentação, não à toa é considerada uma das bandas a definir o som do pós-punk, principalmente com o ambicioso segundo disco, o Metal Box, de 1979, que era de fato feito de metal como uma lata de filme com três discos de 12 polegadas. A base do som era o baixo denso de Wobble, totalmente tributário do som da Jamaica, com as guitarras dissonantes de Levene, que bebiam do pensamento “harmolódico” de Ornette Coleman.

Com a saída de Wobble, o PiL entra numa segunda fase, que vai mais fundo em direção ao Minimalismo com Flowers of Romance, de 1981. Lydon e Levene praticamente abandonaram instrumentos de cordas clássicos, apoiando-se em percussões pesadas, manipulações de fita e sons tribais quase assombrados. Ironicamente, após essa fase mais artística e intransigente, Lydon abraçou uma transição para o pop ácido com This Is What You Want… This Is What You Get, de 1984, emplacando o single satírico This Is Not a Love Song.

Com a saída de Levine, o PiL entra numa fase mais estável com a entrada do baixista Allan Dias e de John McGeoch e Lu Edmonds, encaminhando a PiL para uma sonoridade mais robusta de rock alternativo. É o momento do sucesso global de discos como Album, com refrões épicos como anger is an energy, provando que a fúria de Lydon poderia ser comercialmente viável, mesmo sob acusações de traição ao movimento punk.

Fim, mas nem tanto

Depois de anunciar o fim da banda em 1992, Lydon volta com o PiL após quase duas décadas de silêncio desta vez na independência. Para chocar mais uma vez os guardiões da moral punk, Lydon financiou seu próprio selo fonográfico através do dinheiro arrecadado promovendo uma marca britânica de manteiga na TV.

Se a sua carreira musical é brilhante, a sua trajetória pública é um campo de batalha repleto de polêmicas e litígios. Lydon já foi preso em Dublin em 1980 por desordem num pub, alegando depois ter sido lavado com mangueiras de alta pressão pelos guardas irlandeses. Nos tribunais, cravou uma vitória judicial acirrada contra Malcolm McLaren na década de 1980 para retomar o controle das fitas e do espólio dos Pistols, apenas para entrar em guerra décadas depois com seus ex-colegas de banda. Em 2021, Lydon tentou de toda forma proibir a Disney de usar as músicas de sua antiga banda na série autobiográfica Pistol, afirmando que o legado do grupo estava sendo diluído corporativamente como “a merda mais desrespeitosa que já tive que suportar”.

Sua acidez sobrou até para contemporâneos de gênero; em 2019, num painel sobre o movimento punk, entrou em confronto físico e verbal com Henry Rollins e Marky Ramone, acusando-os ruidosamente de serem falsos e “crianças ricas de subúrbio”. Não faltaram farpas também para o U2, banda que, segundo Lydon, “nunca deveria ter existido” por absoluta ausência de experiência de vida em suas composições. Ideologicamente imprevisível, chocou parte de sua base antiga ao manifestar apoio a movimentos conservadores, como o Brexit e Donald Trump, em total recusa de ser moldado por expectativas políticas da esquerda purista.

Polêmicas à parte, o que faz John Lydon relevante hoje é justamente o que molda a história do PiL, uma recusa a se acomodar em uma fórmula. Em 2026, ele segue sendo a antítese do rebelde engessado na própria nostalgia. Como ele cantou um dia, a raiva é realmente uma energia.

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