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Uma guerra mundial contra o calor

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Nem chegou o Verão no Hemisfério Norte neste ano, e a Europa já sente o impacto das altas temperaturas provocadas por ondas de calor em diversos países, afetando empresas, escolas e a saúde da população. Só nos últimos quatro anos, as ondas de calor extremas causaram mais de 200 mil mortes, além de afetarem física e mentalmente milhões de pessoas no continente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Um relatório publicado na revista científica The Lancet aponta que a taxa média de mortes relacionadas ao calor saltou 63% em 25 anos, chegando a 550 mil casos anuais, cerca de um óbito por minuto. Os pesquisadores indicam que o principal responsável segue sendo a queima de combustíveis fósseis.

Em meio às previsões de novos recordes de temperatura que se superam ano a ano, diferentes cidades ao redor do mundo criam suas próprias iniciativas para reduzir as ilhas de calor e oferecer alternativas que refresquem as casas e as pessoas que saem às ruas. Os projetos mostram que os moradores podem fazer a diferença na criação e execução de soluções que beneficiam a cidade como um todo, com ou sem a iniciativa do poder público.

Telhados frios

Um artigo recente publicado na Lancet aponta que os sul-africanos foram expostos a uma média de 13 dias de ondas de calor em 2024, sendo que mais de dez dias não teriam ficado tão quentes se não fossem pelas mudanças climáticas. Para atenuar o calor infernal de uma casa em um bairro periférico da Cidade do Cabo, na província do Cabo Ocidental, uma alternativa encontrada foi pintar o telhado de amianto com tinta refletora. Uma medida simples que faz a diferença. Para mensurar o resultado, a iniciativa Habvia pintou 30 telhados e comparou com outras 30 residências que não receberam o tratamento. Aquelas com telhados pintados mostraram ser, em média, 3°C a 4°C mais frescas durante o período mais quente do dia.

O projeto Habvia também é realizado em outras três comunidades: a vila de Mphego, na zona rural da África do Sul, e nas áreas urbanas de Ga-Mashie e rurais de Nkwantakese, em Gana, utilizando a mesma metodologia. O arrefecimento do calorão impacta diretamente a qualidade do sono dos moradores, que podem dormir melhor com um clima mais ameno.

A ideia também é compartilhada em outras iniciativas pelo mundo, incluindo o outro lado do Atlântico. O programa NYC CoolRoofs oferece aos nova-iorquinos treinamento remunerado e experiência de trabalho para ajudar a cidade a alcançar a neutralidade de carbono até 2050. O projeto começou em 2009 e tem uma meta anual de pintar um milhão de pés quadrados, ou 92.903 metros quadrados de telhado. Esses tetos frios podem reduzir a temperatura interna de um edifício em até 30%, deixando o ambiente bem mais agradável em dias quentes de verão. Em um teste rápido, enquanto se aplicava a tinta em uma mesma construção, uma parte do telhado sem tratamento marcava 167°F (75°C) na parte externa. Já a área que recebeu a aplicação apresentava 116°F (46,6°C) no termômetro.

Bom para a população, excelente para o planeta. Cada 2.500 pés quadrados (cerca de 232,25 metros quadrados) de telhado revestido podem reduzir a pegada de carbono da cidade em uma tonelada de CO2 e ajudar a combater as mudanças climáticas. Além de ajudar a reduzir a poluição do ar, um ambiente mais fresco também retrai o uso de aparelhos de ar-condicionado e, por consequência, a demanda de energia elétrica.

Em Phoenix, no estado americano do Arizona, os telhados frios em edifícios públicos reduziram as emissões de carbono em quase 28 toneladas métricas anualmente e economizaram US$ 106 milhões para a cidade por meio de programas de eficiência energética, como a pintura de 10 milhões de pés quadrados de telhados, cerca de 929.030 metros quadrados. Considerando o cenário nacional, a substituição dos telhados comuns pelos frios poderia reduzir cerca de 3% do consumo de eletricidade usada em refrigeração de edifícios nos Estados Unidos.

Um outro asfalto

Para conter as ilhas de calor que permeiam o ambiente, a cidade de Phoenix também selecionou partes de oito bairros, um em cada distrito do Conselho Municipal, para receber um tratamento de pavimentação fria em áreas que já precisavam de manutenção em 2020. O pavimento frio é um tratamento asfáltico aplicado sobre o já existente, sendo composto por asfalto, água, um agente emulsificante, cargas minerais, polímeros e materiais reciclados. Desde então, mais de 225 quilômetros de pavimento frio foram aplicados em toda a cidade, trazendo benefícios mensuráveis para a população.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual do Arizona (ASU) mostrou que a iniciativa reduz eficazmente as temperaturas da superfície no verão, em até 12°F (7°C), em comparação com o pavimento convencional envelhecido durante o dia. O primeiro ano do estudo indicou que o asfalto frio reflete uma maior porção da luz solar incidente, absorvendo menos calor e tendo potencial de compensar o aumento das temperaturas noturnas na região. Com os dados positivos, o projeto piloto terminou em 2021, fazendo parte permanente do programa de manutenção de ruas do Departamento de Transportes Urbanos.

Corredores verdes

A combinação de desenvolvimento urbano acelerado, desmatamento e políticas que levaram ao aumento de carros particulares no trânsito levou a cidade colombiana de Medellín a enfrentar os graves efeitos provocados pelas ilhas de calor, com o agravamento da poluição do ar. A virada ocorreu entre 2016 e 2019, quando a região desenvolveu uma iniciativa ambiciosa, ao criar mais de 30 Corredores Verdes que interconectam e ampliam os espaços verdes da cidade. O projeto teve reflexo direto na população, que pôde desfrutar de uma redução de 2°C na temperatura média, chegando a registrar uma queda de 10°C em alguns locais.

A solução também teve um impacto social relevante, ao treinar mais de 100 moradores de origens desfavorecidas para se tornarem jardineiros urbanos e técnicos de plantio. Cerca de 2,6 mil pessoas foram empregadas por meio do projeto, responsável por plantar 12.500 árvores e palmeiras nos mais de 30 corredores que cobrem 65 hectares. Algumas das vias mais movimentadas também ganharam 600 palmeiras e árvores, além de mais de 90 mil plantas menores. O resultado: redução nas mortes prematuras associadas à qualidade do ar, queda nas taxas de infecções respiratórias agudas e aumento da biodiversidade local. A ideia deu tão certo, que o Plano Urbano para o período de 2024 a 2027 prevê a expansão das áreas verdes e a restauração de córregos e rios do município.

Soluções parisienses

A Cidade Luz também pode se tornar cidade forno no verão europeu, conforme as temperaturas sobem a níveis fora do comum com ondas de calor que fizeram Paris chegar aos 38°C. Para contrapor esse cenário, a região passou a contar com uma série de soluções para amenizar as ilhas de calor e refrescar a população em mais de 1.400 espaços frescos espalhados pela capital francesa.

No total, são 1.300 pontos de distribuição de água instalados em parques e jardins, além de outras 175 fontes de nebulização para aliviar a sensação de calor extremo. A capital conta com 547 espaços verdes, parques, jardins, praças municipais e alamedas arborizadas. Em locais que não são possíveis as plantações de árvores, foram criadas as estruturas de sombreamento, que proporcionam sombra em determinadas áreas, oferecendo refúgio temporário para os pedestres durante o calorão. Também são oferecidas 42 piscinas públicas para nadadores de todas as idades e qualquer experiência que queiram se refrescar.

Devido à presença e distribuição equitativa em todos os bairros, o programa OASIS — acrônimo em inglês para “Abertura, Adaptação, Sensibilização, Inovação e Laços Sociais” — transforma pátios escolares de Paris em espaços verdes acessíveis a grupos vulneráveis. A iniciativa tem como objetivo fazer desses pátios oásis verdes acessíveis tanto aos alunos quanto às comunidades locais, incluindo idosos, pessoas com saúde debilitada e mães com bebês.

Favelas sustentáveis

Nem sempre o poder público se movimenta para resolver os problemas da população, o que não é diferente quando o assunto é calor escaldante. Por isso, as comunidades acabam se unindo para buscar suas próprias soluções climáticas e melhorar as condições de vida em meio ao aumento das temperaturas. Foi o que fez a Rede Favela Sustentável (RFS), um coletivo de favelas do Rio de Janeiro fundado em 2018 que conecta mais de cem iniciativas criativas.

Um dos projetos de destaque são os telhados verdes, que reutilizam rolos de bidim (uma espécie de manta) com terra para criar uma cobertura vegetal que refresca o ambiente interno da residência e contribui para a sustentabilidade. A técnica foi importada da Alemanha por Bruno Rezende, tecnologista do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, enquanto concluía seu doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A ideia surgiu em 2012, quando o produtor audiovisual Luiz Cassiano buscava uma maneira de reduzir o calor em sua casa no Parque Arará, na zona norte. Cassiano afirma que as casas que aderiram ao teto verde conseguiram reduzir até 15°C em relação aos vizinhos com seus telhados convencionais.

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