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A faca dentro

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Um ruído eletrônico sujo intermitente é cortado por uma batida também eletrônica antes de entrar a percussão orgânica, que remete às claves do boi maranhense. Já nesta abertura da música Parasita, o Deafkids mostra a que veio em seu novo álbum, Cicatrizes do Futuro. Uma investigação que parte das raízes brasileiras e afrolatinas, sem perder a veia roqueira. Canções desconstruídas para o corpo e para a mente, com um pulso quase dançável açoitado por guitarras e ruídos eletrônicos, com uma abstração que permite diferentes leituras.

O Deafkids carrega 15 anos de barulho, percussão pesada e um pé fundado no punk mais cru. Não é, à primeira vista, o tipo de banda que se recomenda a quem não está acostumado aos extremos da música. Só que esse diagnóstico é rechaçado de cara por Douglas Leal e Marian Sarine, a dupla que hoje forma a banda. Falam do novo álbum como o disco mais aberto, mais dançante e mais de pulso que já fizeram. “Pega um desavisado assim, o bagulho é meio cabuloso”, admite Douglas. Mas Marian completa dizendo que o que de fato define o disco é outra coisa, “é o menos hermético, o mais acessível, do jeito do Deafkids, obviamente.”

Cicatrizes do Futuro acaba de sair pela gravadora americana Neurot Recordings, e é o primeiro álbum não colaborativo do Deafkids desde Metaprogramação, de 2019. Tem nove faixas, foi gravado no Estúdio Jukebox, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, cidade onde a banda nasceu e mantém laços, apesar de os integrantes morarem em São Paulo há mais de uma década. A gestação durou dois anos, de 2023 a 2025, e a masterização ficou a cargo de Wayne Adams, no estúdio Bear Bites Horse, em Londres, nome cobiçado por quem acompanha a cena internacional de noise e grind.

O título já entrega a ambição do disco: não é um trabalho sobre o futuro como promessa, mas sobre o futuro como ferida. “É uma coisa meio polêmica também, porque são tanto cicatrizes que estão por vir, quanto as cicatrizes que o próprio conceito de futuro já nos causa”, explica Marian. Ele cita a destruição do debate público pelas redes sociais, o colapso de consensos coletivos e uma espécie de erosão do nosso senso de identidade diante da própria representação virtual: “Existe uma erosão até do nosso self, do senso do eu versus a representatividade nas redes sociais. Isso está explícito até em pautas de minorias, de direitos, e nas grandes confusões que vêm daí.” A imagem que ele usa para resumir tudo isso é cirúrgica. “Parece que a cicatriz está se formando com a faca ainda dentro. Parece que existe uma nova forma de interagir com o que é virtual, que torna ela carne, e vira um jogo dialético: você vira o reflexo, e o reflexo vira uma parte de você que, se machucada, te machuca.”

No Deafkids, essa ambição conceitual sempre caminhou junto com uma dimensão quase ritualística. Desde o começo, mesmo nas fases mais ligadas ao D-beat, o subgênero do hardcore punk inglês inaugurado por bandas como o Discharge, o Deafkids tratou a batida como um estado em si, não como estrutura de verso e refrão. “Sempre foi uma coisa mais progressiva, não no sentido de rock progressivo, mas de ser mais contínua, mais viajandona”, diz Marian, lembrando que esse impulso sempre buscou “um arrebatamento do corpo para a mente”, mais do que algo inteligível pela letra. Para Douglas, essa relação com o som alto, sujo e pesado sempre foi uma forma de descarga de energia que “leva para um lugar não racional, que dá essa sensação ritualística, quase espiritual.”

Origem como trio

O Deafkids nasceu em Volta Redonda, em 2010, e por anos foi um trio composto por Douglas Leal, Marian Sarine e Marcelo dos Santos, baixista que deixou a banda em 2024. A virada começou em 2014, quando os três se mudaram juntos para São Paulo, recém-voltados da primeira turnê do grupo na Europa. “A gente foi morar junto, e acho que isso somou muito nessa pira que cada um tinha”, lembra Douglas. Foi nesse período que a percussão deixou de ser ornamento e passou a funcionar como ferramenta de composição, e que o repertório de influências da banda se abriu para ritmos do mundo inteiro: música indiana, afrolatina, africana, krautrock, dub, folk americano. “A gente foi incorporando esse desejo estético de se conectar com essas músicas do sul global”, resume Marian.

Cicatrizes do Futuro é o primeiro disco de estúdio inteiramente composto e produzido só por Douglas e Marian, ainda que o processo tenha sido, segundo os dois, o mais trabalhoso da carreira. “Foi o disco que mais o processo de fazer deu trabalho, por ser o mais eletrônico”, diz Douglas. “Os instrumentos vieram depois, então todas as estruturas das músicas já chegaram no estúdio meio prontas. Foi diferente dos nossos processos anteriores, em que a gente usava o próprio estúdio como ferramenta para expandir e processar as coisas.”

Depois de Metaprogramação, ele conta que via dois caminhos possíveis: ou um disco duplo, psicodélico ao extremo — “eu apelidava, na minha cabeça, de o Bitches Brew do Deafkids”, numa referência ao álbum seminal de Miles Davis — ou um disco mais urgente, com a base inteira fincada em ritmo. Boa parte dessa psicodelia acabou descarregada em uma sequência de EPs lançados durante a pandemia, depois reunidos em LP. Já para o novo álbum, a escolha foi pela urgência. “Vamos fazer um troço mais urgente, futurista, com a base toda em ritmo, brasileiro, latino, ou africano”, resume Douglas. Assim nasceu a linguagem das claves no disco. Clave de percussão é o padrão rítmico fundamental que serve como espinha dorsal e bússola temporal para estilos musicais de origem afro-latina e brasileira. “A gente foi se firmando nessa linguagem, que virou uma linguagem básica do disco, explorar claves e criar as músicas a partir disso: batida, riff, pulso.”

Raízes expostas

Marian descreve o resultado como uma espécie de acumulação, mais do que de síntese: “é um disco que culmina em várias forças que a gente sempre explorou, só que agora mais explícitas”. Há, nessa operação, “um certo desrespeito característico, que é um desrespeito respeitoso”. De certo modo, é uma recusa em compor dentro de um gênero do passado tal como ele é, preferindo reivindicar essas heranças rítmicas para si, com a liberdade de subvertê-las. “A capacidade de não se tornar um algoritmo de si mesmo”, resume, usando uma imagem geométrica para a expansão. “Como uma mandala, uma progressão que vai do quatro para o oito, do oito para o dezesseis, do dezesseis para o trinta e dois.”

Parte dessa fluência entre densidade eletrônica e corpo veio de fora do próprio Deafkids, especificamente da banda paulistana Test, parceira de longa data. As duas somam mais de uma década de turnês conjuntas e, desde 2018, mantêm a No Hope Tour, quase anual, que rendeu em 2025 o álbum colaborativo Sem Esperanças. Mas a relação vai além de um projeto pontual. “O Test já tem um monstro de um baterista, então às vezes cabe uma segunda bateria ali, às vezes cabe uma percussão”, explica Marian. “Isso acaba afiando a gente nesse sentido de ocupar espaços, de trabalhar com uma energia que não é exatamente a nossa. A gente não é pesado desse jeito, denso desse jeito. É intenso, violento, mas nunca foi uma banda de metal.” A troca é de mão dupla. “O Test ficou mais doido também, incorporou várias coisas nossas”, e foi justamente essa intensidade de trocas, que tornou ainda mais necessário voltar e focar no aspecto puramente composicional do Deafkids. Cicatrizes do Futuro é, nesse sentido, esse retorno.

O show de lançamento do disco está marcado para 17 de julho no Sesc Pompeia. Na sequência, o Deafkids embarca para uma turnê pela Europa em outubro e novembro, com passagens por festivais, e fecha o ano com a primeira turnê da banda no Japão, um símbolo de como, quinze anos depois de Volta Redonda, o disco mais acessível do Deafkids segue abrindo caminhos para fora.

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